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"E o Vencedor É..." na Rádio Observador, em vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador. Hoje com a Judite de França, o Anselmo Crespo e também o Alexandre Borges. Com tantos temas, nem sei por onde começar. Judite de França, a resposta do primeiro-ministro Luís Montenegro à entrevista de Pedro Passos Coelho ontem à noite.

Antes de mais, acho que fez bem em responder. Fazer de conta que o problema não existia não fazia sentido nenhum. Fez bem em responder, podia ter sido um pouquinho mais elegante na resposta, porque dizer para esperar sentado não é muito cordato. Prova que Montenegro está um pouco aborrecido com essas aparições de Pedro Passos Coelho, o que é normal. Mais esta, que foi mais clara na forma como Passos Coelho pode decidir avançar caso sinta que nada foi feito no governo de Montenegro. E temos que admitir que a avaliação de Pedro Passos Coelho também não foi simpática, nem nada meiga, na comparação até com os governos de António Costa. É certo que Passos Coelho teve a oportunidade de medir forças com Montenegro, que decidiu antecipar as diretas para chamar Pedro Passos Coelho ao ringue, o que Passos Coelho rejeitou, até com bastante indiferença, dizendo que Montenegro deveria preocupar-se com os problemas do país e com a governação. Eu por acaso fui ver o resultado dessas diretas. Montenegro foi sozinho, claro. Foi reeleito com cerca de 95% dos votos e a participação foi inferior a 27%, a mais baixa de sempre numa eleição para líder do PSD. É evidente que isso não tira legitimidade nenhuma a Montenegro, mas é um sintoma de que o partido está adormecido à volta de Montenegro. O que também acontece muito quando os partidos estão no governo, isto acontece com alguma frequência. Sobre o Chega, Luís Montenegro também respondeu e diz que o PSD não precisa de estar acorrentado ao partido à sua direita, o que eu acho que faz algum sentido na resposta a Pedro Passos Coelho, que estará a imaginar um Chega talvez diferente daquele que existe verdadeiramente. Porque lembra que o Chega, por exemplo, chumbou o pacote eleitoral e é evidente que aqui o argumento pode dar para os dois lados, porque o chumbo para Montenegro prova que o Chega não é fiável. Para Passos Coelho prova que sem acordo estável cada reforma fica pelo caminho. Portanto, esta análise dá para duas leituras. Aquilo que queria ressalvar da declaração é esta coisa do tom: "quem espera o insucesso do PSD tem de esperar sentado." Acho que é uma frase-

Está demasiado confortável

Sim, está demasiado confortável e está demasiado arrogante, talvez. A frase mostra aqui alguma soberba. Eu entendo que a resposta de Luís Montenegro não possa ser fofinha. Depois daquilo que ouviu, não podia ser uma resposta fofa, mas acho que precisava de um pouquinho mais de elegância.

Alexandre.

Acho que precisava de muito mais elegância. E é engraçado que inverteram, aparentemente. Durante muito tempo, Passos Coelho foi muito agressivo, até chegar naquela escalada que chegou aos prostitutos sem caráter, que ficou para quem quisesse enfiar o carapuço, mas claramente mudou de tom depois disso, e nesta entrevista isso foi muito evidente. E se Montenegro normalmente revelou grande fair play ao longo do tempo, de um modo geral, era à segunda e à quinta, em cada lançamento de livro vinha mais um ataque de Passos Coelho. E Montenegro teve, durante muito tempo, muito fair play e muita elegância nas respostas. Acho que desta vez inverteu ou sentiu que Passos acusou o seu próprio excesso de agressividade num determinado momento e sentiu-se com autoridade para fazer isto, ou então simplesmente se cansou. Mas este tom nem é uma questão de ficar bem, acho que sobretudo o grande prejudicado aqui é o próprio Montenegro e é o atual PSD, porque Montenegro tem revelado uma extraordinária poker face.

Poker face é uma boa expressão para o Luís Montenegro.

Exato. Ao longo do tempo, a verdade é que Montenegro fala sempre com um sorriso nos lábios e uma segurança de quem lidera as sondagens por 20 pontos, coisa que cada vez menos se aproxima, já nem tem nada a ver com a verdade. A verdade já lá foi. A comparação possível já lá foi há muito tempo. Quando está em terceiro nas várias sondagens, compreende que tem de continuar a passar uma imagem de tranquilidade, mas a dita falta de adesão à realidade, de que na peça do Observador, do Miguel Santos Carrapatoso, aparentemente figura as gradas internas do PSD e acusam Passos Coelho, parece-me que começa a tender mais para o outro lado do campo, porque o PSD neste momento não tem, segundo as sondagens, enorme apoio popular. São as que temos. Já aqui falámos da questão da amostra, por exemplo, esta sondagem da Aximage que dá a liderança ao Chega, desta vez tem 500, já nem são 600, são 500, quer dizer, as amostras parecem que são cada vez mais pequenas. Mas como tu, e bem disseste na altura, Judite, quando falámos disto, apontou um caminho e a tendência é muito evidente olhando para todas as sondagens. Portanto, falta-lhe apoio popular. Na Assembleia, é escusado dizer que tem de ir namorando à esquerda e à direita para de vez em quando conseguir fazer passar qualquer coisa. Se se revolta, se trata assim o seu ex-líder e alguém que não sabemos qual é a dimensão de apoio que tem hoje em dia dentro do PSD, mas é evidentemente alguém que continua a ter no mínimo uma boa camada de população e de simpatizantes do PSD que o admira, não sei muito bem o que é que resta a Luís Montenegro de futuro. E acho que deve estar um bocadinho encurralado, porque à esquerda tem o PS, à direita tem o Chega. Olha para a frente, o cenário é mais inflação, fim do PRR, que faz reduzir o investimento público em um terço. Não há fim à vista para a guerra e para a subida dos combustíveis. O cansaço do eleitorado só vai aumentar, não estou a vê-lo a refrescar. Agora olha para cima e nas sondagens, lá está, colocam-no em terceiro. Não sei exatamente para onde é que o governo se tenciona virar. Sendo que desta vez, a entrevista de Passos Coelho me parece bastante leal. Em vez de lá estar aquela coisa: "Estou só aqui a lançar um livro, não estou a dizer nada para ninguém. Estou só aqui a falar, posso falar." Não, desta vez, primeira vez em oito anos, Passos Coelho, sim senhor, decide dar uma entrevista. Assume, ao contrário das outras vezes, que se as coisas correrem mal, ele é candidato. Acho que faz os elogios possíveis, faz as explicações possíveis, mas aponta um aspeto que de facto, quer o PSD queira, quer não, obriga-o a fazer essa reflexão perante as sondagens, que é: era isto que as pessoas queriam ou não? Isto é, independentemente da exequibilidade ou não com o Chega, já não estamos a olhar para trás. Se Passos Coelho estiver a olhar para trás, não faz sentido. Se estiver a dizer: "Era isto que devia ter acontecido em 2024." Parece-me que não, e de qualquer modo é inútil fazer esse julgamento agora. O que estamos a dizer é: o que é que tem que acontecer em 27, 28, 29? E nesse sentido, a estratégia que Passos Coelho aponta e resume muito bem, é o que nós vemos todos os dias, que é uma estratégia muito mais próxima do governo Costa. Passos Coelho diz: "Sinto que no meu partido há imensa gente que entende que isto é que foi premiado e que é assim que se deve agir." Mas na realidade, pode haver um país que realmente não quer isso, cria e quer um caminho muito mais claro. Então Luís Montenegro tem um problema. E depois há um ponto que eu terminaria para dar a palavra ao Anselmo, que é uma questão de credibilidade. Passos Coelho diz, e isso ou se tem ou não se tem ao longo do seu percurso, e portanto com todos os riscos que Passos Coelho correu, tem credibilidade para dizer isto: "O que me interessa é o país, não é o partido." Passos Coelho pode dizer isto e a gente acreditar nele, lá está, porque a gente sabe que ele está disponível para ir ao fundo, o que se lixem as eleições, para defender aquilo em que acredita. Quando Montenegro diz ontem: "Nós não governamos o país com base nas birras, nas cismas e nos complexos. Nós governamos o país na base do interesse dos cidadãos, das instituições e da sociedade portuguesa." Acho que fica depois para as pessoas avaliarem quem é que tem mais credibilidade quando diz este tipo de afirmação. Quem é que está com tantissismos e quem é que de facto está a falar em interesse nacional, esteja certo ou errado na sua estratégia para o defender.

Anselmo, desta vez Passos Coelho foi mais clarinho do que nunca naquilo que são as intenções futuras.

Sim, e espero que pelo menos nos próximos três dias não se vá perguntar a Passos Coelho se ele quer voltar ou não. Acho que está claro.

Está respondido.

Eu não precisava da entrevista, mas como a única pergunta que se faz a Passos Coelho é: vai voltar? Coitado do homem, ele vai voltar, ele só não sabe é quando, em que dia e a que horas. Começando por Luís Montenegro, a Judite disse que ele podia ter sido mais elegante, eu diria que ele podia ter sido mais inteligente, e não apenas desta vez, de todas as outras vezes que decidiu entrar num diálogo com Pedro Passos Coelho. E digo mais inteligente porque eu acho que a única forma inteligente de responder a estas críticas é mostrar trabalho, é fazer. Não é entrar neste bate-boca. Eu percebo que pode ser irresistível, percebo que para um político é ainda mais irresistível, é da condição humana responder a quem nos critica, mas eu não acho que isto acrescente nada para o eleitorado, muito menos aquele eleitorado que se está a afastar de Luís Montenegro e do PSD. Pelo contrário, acho que isto só prejudica o PSD e Luís Montenegro. E acho que Luís Montenegro, se não quer ser lobo, não lhe veste a pele. E porque é que eu digo isto? Eu não concordando com tudo aquilo que é a visão de Pedro Passos Coelho, acho que é difícil uma pessoa concordar com tudo, há uma base naquilo que está subjacente ao discurso de Pedro Passos Coelho e às críticas que ele faz, com a qual eu estou inteiramente de acordo. Os últimos 10 anos em Portugal foram 10 anos perdidos, e foram 10 anos perdidos porque nós tivemos condições excepcionais para fazer um conjunto de reformas que não foram feitas. Claro, o grosso da responsabilidade está no governo do Partido Socialista, que governou oito anos e meio desses 10 anos? Sim, mas também há alguma responsabilidade do governo de Luís Montenegro, que a brincar, já vai para o terceiro ano de mandato Ainda que interrompido ali pelo meio. E o que são essas condições excepcionais? Taxas de juro negativas, economia a crescer, contas equilibradas, dívida em queda, superávits orçamentais. Houve um conjunto de condições, que nós não sabemos quando é que vão voltar a existir desta forma, e também houve pandemia pelo meio, também houve guerras, também houve isso tudo, mas do ponto de vista das condições internas do país, nós podíamos ter feito muito mais do que aquilo que fizemos, que foi quase nada, para não dizer nada. E ele dá um exemplo que eu acho que é mortal, que é o exemplo do salário mediano terrivelmente próximo, hoje em dia, do salário mínimo, ou se quiserem ao contrário, do salário mínimo que está próximo do salário mediano, que é, na verdade, o que faz com que, em larga medida, o contribuinte português e o pensionista português esteja em grande desvantagem quando está a enfrentar um choque externo como aquele que estamos a viver. Por quê? Porque a nossa economia paga salários baixos, medíocres, porque aquilo a que nós chamamos ricos, em Portugal, não passa de uma classe média remediada, apesar de nós insistirmos que são ricos, porque as empresas portuguesas não têm nenhum tipo de incentivo para crescerem, para escalarem, para internacionalizar, para ganhar escala. Não é apenas o IRC, é as condições da justiça administrativa, são os chamados custos de contexto, são os bloqueios que o próprio Estado cria ao desenvolvimento das empresas e, portanto, há um conjunto de reformas que são necessárias, e depois podemos discutir de que forma é que as fazemos, mas que não passam por andar a distribuir melhor os pombos. Toma lá 500 milhões no IRS, toma lá mais 600 no IRC ou toma lá um bónus nas pensões e não digas que vais daqui, porque muita sorte tens tu que nos últimos três anos já baixámos quase 2000 milhões. Objetivamente, esta estratégia não está a funcionar e isso reflete-se nas sondagens. Qualquer governo estaria a ser penalizado nas sondagens, fosse o de Luís Montenegro ou outro qualquer. Daí a passar pra terceira força política é uma distância. Uma coisa é estar a ser penalizado, outra coisa é ser a terceira força política. Portanto, parece-me que Pedro Passos Coelho tem um ponto que é muito difícil de rebater. E é por isso que eu acho que a resposta de Luís Montenegro, que é o terreno onde ele se sente mais confortável, aquele Luís Montenegro, primeiro-ministro, na verdade, é o Luís Montenegro, líder da bancada do PSD, que é: "Vou pensar aqui numa frase, num chavão e vou te responder e amanhã os jornais vão todos estar a falar disto." Pronto, conseguiu, parabéns. Resolveu alguma coisa? Não. E, portanto, esse é o lado em que eu acho que o país devia estar a aproveitar este contributo que Pedro Passos Coelho generosamente nos quer dar e estar a debater verdadeiramente o ponto principal dele. Depois há o outro lado, que é Pedro Passos Coelho, taticamente também, dá esta entrevista. Eu acho que ele primeiro ameaçou e agora começou o cerco. Não consigo encontrar outra explicação, porque ele foi preparando aqui um caminho. Aliás, há uma parte da entrevista que é muito curiosa, que é quando ele explica por que durante Rui Rio ele não falou e por que passou a falar depois da liderança de Rui Rio. E percebe-se claramente que Pedro Passos Coelho tem isso tudo pensado. E agora chegou a altura de dar a entrevista e depois há de chegar a altura de fazer outras coisas, provavelmente. Mas mesmo a parte mais política da entrevista, se quiserem, ele escolhe quem elogia e quem não elogia e que seguramente ele teria mais pessoas pra elogiar. Eu não posso deixar de reparar, é verdade que a pergunta era direcionada para André Ventura e para o Chega. O que Passos achava do Chega e de André Ventura. E ele tem uma atitude altamente elogiosa com André Ventura. E é uma opção. Passos Coelho podia ter optado por criticar a proposta de descida da idade da reforma, podia ter optado por fazer críticas àquilo que são as propostas do Chega, optou por elogiar o espírito de iniciativa do Chega. Que é factual, mas o fato de um partido político ou um líder partidário ter muita iniciativa não faz dele um bom político. Em princípio, porque se a iniciativa forem tudo propostas que levem o país à desgraça, em princípio, o fato de ter muita iniciativa, por si só, não é bom. E também registei, até porque uns dias antes, umas semanas antes, Passos Coelho tinha estado numa conferência onde eu estive e onde esteve também o ministro da Reforma do Estado, Gonçalo Matias, e Passos Coelho nessa conferência elogiou bastante o trabalho que Gonçalo Matias estava a fazer no governo a propósito da reforma do Estado. Portanto, Passos Coelho não tem só coisas más para dizer sobre o desempenho deste governo, também tem coisas boas para dizer. Nesta entrevista, especificamente, ele optou por apontar o que há de negativo ao governo e apontar o que ele vê de positivo em André Ventura e ao Chega. Ainda no meio, elogiou o Leitão Amaro, não é? Por causa da imigração, sem deixar de mandar a bicada de que o governo chegou lá tarde e aí eu acho que ele tem toda a razão. Não sei se isso deixa Leitão Amaro em maus lençóis. Pronto, isto para dizer, do ponto de vista da estratégia, aquilo não foi por acaso, não resultou apenas das perguntas de Maria João Vilas. Passos Coelho quis dizer o que disse, preferiu não dizer outras coisas que podia ter optado por dizer. E, sobretudo, eu acho que ele quis normalizar o Chega e passar a ideia de que o Chega é um partido à direita do PSD, com quem é perfeitamente possível fazer acordos, com quem é perfeitamente possível fazer reformas. E essa foi, eu acho, a mensagem principal que Passos Coelho quis passar naquilo que é a sua grande estratégia pro país. Ele tem uma visão das reformas que são necessárias ser feitas e também tem uma visão política da forma como tem que as fazer e não tem nenhum Pejo em dizer que o Chega é um parceiro perfeitamente confiável. É aqui que eu não apenas tenho dúvidas, porque eu acho que o Chega já mostrou à evidência que não é um partido propriamente confiável e sobretudo, que tem posições que me parecem que podem significar, em larga medida, o deteriorar da vida das pessoas, em vez de melhorar a vida das pessoas, pelo menos no médio e longo prazo. E Passos Coelho gosta de pensar no longo prazo. Claro, no imediato as pessoas preferem não pagar portagens, no imediato as pessoas preferem reformar-se mais cedo, no imediato as pessoas preferem todas receber mais pensões. Mas eu não vejo como é que estas propostas do Chega casam com aquilo que é a visão de Pedro Passos Coelho sobre o país e sobre a economia nacional. O que não significa que eu não ache, e não acho de agora, acho há muito tempo, acho do tempo em que Pedro Passos Coelho foi primeiro-ministro, que em muitas coisas Passos Coelho se identifica, de facto, com o lado mais populista do Chega. Há muitas coisas que Passos Coelho fez enquanto primeiro-ministro, verdade, durante um período difícil do país, mas que era muito a puxar para o populismo.

Mas tipo o quê? Eu por acaso não acho. Acho que ele é um conservador, mas não acho que seja populista.

Então os ministros e os primeiros-ministros têm que passar a viajar em econômica.

Sim, mas naquela altura acho que era mais do que isso. Acho que tinhas duas coisas.

Naquela altura era uma coisa simbólica, populista.

Estavas a contar os tostões. Governo mais pequeno de sempre. Vinha por aí.

Esse era o argumento.

E depois tinhas de contrastar tudo com o Sócrates.

Esse é o argumento, claro. O argumento principal era esse. Mas esse lado de dar um sinal às pessoas que um ministro pode perfeitamente ir a viajar e a ler documentos oficiais ao lado de qualquer pessoa, de qualquer cidadão. Já nem falo da questão de segurança, porque também ninguém quer fazer mal nenhum aos nossos ministros.

Isso é bem melhor que este país está.

Eu acho honestamente que é daquelas coisas, o país não saiu da bancarrota, nem se livrou da troica por causa dos trocos que Passos Coelho poupou à conta daquilo, e acho objetivamente que aquilo é um tiquezinho populista. Eu não estou a chamar populista a Passos Coelho. Acho que ele tem ali uns tiquezinhos de populista. E portanto eu acho que há as duas coisas, e concluo com isto. Acho que Passos Coelho, por um lado, quer normalizar o Chega, porque entende, e eu acho que é uma leitura possível, no quadro político atual, é difícil o PSD ter uma maioria para governar que possa dispensar um partido como o Chega, sobretudo na dimensão que ele já tem. Por outro lado, eu não acho que Passos Coelho esteja politicamente assim tão distante do Chega. E te posso dar outro exemplo. A candidatura de André Ventura a Loures, depois do que ele disse, o único que não se distanciou daquilo foi Passos Coelho. O CDS saltou fora imediatamente. Passos Coelho ficou lá até o fim.

Eu acho que eles concordam em muita coisa, mas concordam nos costumes. Acho que são dois conservadores nos costumes, se quiseres. Não vejo que Passos Coelho seja um populista. Acho quase o descrevia como o oposto de populista no sentido em que ele é a ser acusado de alguma coisa, ele quer ser excessivamente insensível à opinião popular.

Não, isso seguramente. Só para arrematar a coisa dos costumes, se nós acreditarmos que Passos Coelho acha mesmo que o problema do RSI são os ciganos, então estamos tramados. Porque se é Passos Coelho que nos vem salvar, porque ele acha que os ciganos são o problema, que era basicamente esse o lema altura em Loures.

Isto é, acho que não era por aí, na cabeça de Passos Coelho e na sua forma de pensar: "Eu não vou afastar este tipo de candidato só porque ele disse isto". Acho que essa é a lógica de Passos Coelho. Mas do ponto de vista econômico, parece-me que não tem nada a ver um com o outro. Se Passos Coelho ainda não percebeu isso, está mal.

Pois, talvez. Não, e seguramente no PSD há muita gente que pensa assim. Aliás, André Ventura vem de lá.

Eu acho que Passos Coelho consegue dobrar André Ventura.

Acho que essa é a esperança dele. Não sei se essa esperança é real.

Eu acho que Passos Coelho tem sobre si próprio a opinião de que ele será provavelmente o único no PSD que conseguirá esvaziar eleitoralmente André Ventura.

Mas será que isso ainda tem adesão à realidade? Tendo em conta os números que o Chega tem registado e os anos que Passos Coelho está longe de ser testado.

Depende do discurso de Passos Coelho como presidente do PSD. Se ele como presidente do PSD começar a ser mais chegano que o próprio Chega.

Ele não precisa de ser chegano, basta ele fazer o discurso da imigração. Basta ele fazer o discurso da imigração que fez há um ano.

Pois, está bem, mas isso agora já é um bocado tarde. Em princípio, o próprio Passos acha que está resolvido. Mas sim, é um bocadinho por aí. Assumindo que Pedro Passos Coelho não vai começar a dizer que é preciso baixar a idade da reforma e acabar com as portagens, ou seja, do ponto de vista econômico, não vai ter o discurso do Chega, vai ter que encontrar, de facto, ou pelo discurso securitário, ou da remigração, ou seja, nessas áreas onde André Ventura se mexe bem, ou então se ele começar a entrar por esse tipo de discurso, então é possível que ele consiga, de facto, ser mais chegano do que o Chega nessas áreas.

Ontem também neste jantar em que Luís Montenegro respondeu a Passos Coelho, Pedro Duarte, que nunca foi propriamente fã de Passos Coelho, disse que o PSD não devia olhar para o passado. O PSD e o montenegrismo agarram-se um bocadinho a esta ideia de que Passos Coelho já não tem a adesão ao país que tinha quando deixou de ser primeiro-ministro.

Pois é isso que nós não sabemos. Vimos a resposta, ouvimos os comentários de ontem de Pedro Duarte e de Luís Montenegro. Mas a minha pergunta é: vamos pôr uma hipótese muito remota.

Académica.

Académica, que é que daqui a um ano, dois, este governo tem números ainda, ou o AD tem números ainda mais baixos nas sondagens e o partido decide reconsiderar o que deve fazer em relação ao seu futuro. Quem é que é O potencial sucessor de Luís Montenegro no PSD. É Pedro Duarte? É o Soares? Isto é, é alguém da linha do Montenegro que ascende ou o PSD vai ter de mudar? Das duas, uma. E é como Passos Coelho disse. Passos Coelho diz que espera que obviamente pelo seu partido e pelo país as coisas corram bem. Ou isto corre bem e não há conversa, ou não corre bem e então o PSD vai virar para onde? Com um partido a crescer à sua direita e uma reação de esquerda que vai ter que acontecer a qualquer momento. E aí acho que Passos Coelho, e aí não é o passado, isto é, acho apenas estratégico olhar para trás e dizer isso. Acho que mais razão teve Miguel Pinto Luz, que disse muito tranquilamente: "É preciso ouvir Passos Coelho, mas o governo é que tem que decidir." É isto.

Pinto Luz há dois anos achava que se ia abrir a porta ao Chega.

Sim, mas dizer agora isto, acho que é o mínimo que se tem que dizer.

Muito mais inteligente do que a reação de Montenegro.

Muito mais inteligente, muito mais económico, muito mais direto e muito mais sensato. Porque se o PSD quiser tratar Passos Coelho como um inimigo, está mal, está muito mal. Se não estiver disponível para ouvir uma crítica interna, mais do que pertinente. Porque não pode ignorar a realidade, não pode ignorar o crescimento do Chega. A dúvida é se a estratégia de Passos Coelho funcionaria, mas acho que já temos a certeza que a estratégia de Montenegro, do ponto de vista de conter o crescimento do Chega, não funciona. Não estou a dizer se é melhor ou pior para o país, mas do ponto de vista de crescimento do Chega, não funciona. O que Passos Coelho disse, olhando para a frente, pela primeira vez, eu pessoalmente compreendi um pouco melhor. Isto é, quando Passos Coelho diz: "Temos que ver o que se passa na Europa e nas costas do que se passa na Europa, perceber que ainda vamos a tempo de agir aqui", quando diz o que se passa em Espanha, o que se passa em França, o que se passa na Alemanha, acho que o que Passos Coelho está a dizer é: vamos lá coligar-nos com a direita radical, porque não há problema nenhum. Acho que o que está a dizer é: vamos responsabilizá-los, acreditando ele que ainda é capaz de ser o elo forte de uma coligação, dar-lhes responsabilidades, colocá-los sob essa alçada, porque é o que os impede de serem só um partido de protesto, ver o que é que eles valem. E então, conversamos.

Mal comparado, só no sentido em que eu acho que o PCP não tem nada a ver com o Chega e, portanto, não quero que façam essa leitura. Mas mal comparado, tentando interpretar a cabeça de Passos Coelho, alguém devia escrever esse livro na cabeça de Passos Coelho. Miguel Santos, Carapatooso, por favor.

Se calhar lá chegará o tempo.

Eu acho que a lógica dele é um bocadinho a mesma que António Costa teve com o PCP. Quando António Costa faz a geringonça, toda a gente: "Mas o PCP quer sair da NATO e quer sair do euro e que é contra a União Europeia."

E não há problema nenhum.

E na verdade, cá estamos, sobrevivemos todos ao PCP a dar suporte a um governo do Partido Socialista. Sobrevivemos todos. E eu acho que mal comparado, por isso é que eu fiz o disclaimer de eu não estou a dizer que o PCP é igual ao Chega, porque não é, de todo em todo, desde logo do ponto de vista do regime e daquilo que acha sobre o regime.

Os dois querem implodir o regime.

De maneiras diferentes. Mas eu acho que na cabeça de Passos Coelho, essa normalização do Chega é a mesma que António Costa imaginou sobre o PCP. Só que António Costa nunca disse que o PCP não era um partido confiável. Pelo contrário, António Costa sempre achou que o PCP era um partido confiável quando se comprometia. E no caso do Chega, eu acho que não se pode dizer a mesma coisa.

Pois, estás certo. Mas Passos Coelho trata o Chega com esse tom e com essa inteligência.

Vamos às notas, Judite.

Eu vou dar um 12 a Luís Montenegro, porque apesar daquilo que eu considerei ser falta de elegância, acho que fez bem em ter respondido.

Alexandre.

Eu neste duelo, declaro vencedor Passos Coelho com 14 e Montenegro derrotado com nove.

Anselmo.

Eu subo um ponto para Passos Coelho, dou-lhe 15, porque eu acho que a entrevista a ele lhe correu muito bem.

Eu à entrevista dei nota ontem.

Estás desculpada. Eu acho que a entrevista do ponto de vista dele lhe correu muito bem e a Luís Montenegro eu dou um nove, porque eu acho que Luís Montenegro tem mesmo que começar a ser mais inteligente a lidar com Passos Coelho.

Alexandre, em 30 segundos, esta polêmica do MAI.

30 segundos para a polêmica do MAI.

Vou explicar uma coisa que ninguém percebeu. 300 entrevistas e cinco comunicados.

Eu tenho que ir para o TikTok, se eu conseguisse fazer isso. Trinta segundos. Eu acho que é urgentíssimo, é para lá do urgente, que Luís Neves se explique. Como tenho tão pouco tempo, não vou conseguir articular isto bem, mas isto é absurdo. Esqueçam tudo antes e todas as polémicas com Luís Neves. E se Luís Neves acha que pode estar duas semanas ou três, outra vez, a aguardar um ótimo momento para reunir os papéis e se explicar, alguém amigo, por favor, que lhe diga que isso está completamente fora da realidade. Eu vou só destacar isto: não é possível o ministério achar que demite o secretário-geral da Administração Interna e nomeia um novo e diz: "Isto deve-se à reforma do reenquadramento na nova política do MAI." Peço desculpa, eu vou já ler aqui porque a rapidez deixou-me atrás nas minhas próprias notas. Mas num momento justificar com este enquadramento: "A decisão enquadra-se na reorganização da Secretaria-Geral, com a preparação de uma nova estrutura orgânica e de procedimentos adequados às responsabilidades do ministério, imprimindo uma nova orientação à prestação de serviço." Isto foi à tarde, ontem à tarde. Sai o artigo da opinião de Ricardo Carrilho, ex-secretário-geral, com todas as acusações que eu não tenho memória de ver na administração pública. Alguém sair com estas acusações à tutela tão às claras, com acusações tão graves. E o comunicado do ministério à noite já a dizer que na verdade o demitiu por quebra de confiança, devido a um vasto conjunto de episódios que tenho a apontar a Ricardo Carrilho. Não é possível. Não é possível dizer: "Afastámos este senhor só no quadro do reenquadramento, para imprimir aqui uma nova dinâmica" e três horas depois estar a dizer que houve quebra de confiança. Tem que explicar muitíssimo bem, porque tudo o que resulta deste caso para já é profundamente preocupante e já não estamos lá a falar do tanque, estamos mesmo a falar de assuntos fundamentais à segurança do Estado.

Tenha a certeza que teremos boas oportunidades para voltar a este tema. Alexandre Borges, Anselmo Crespo e Judite França no "Eventos D'Época" de terça-feira.