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Vamos à análise e avaliação, principalmente das intervenções feitas pelo presidente da República e pelo reconduzido primeiro-ministro Luís Montenegro. Aqui em estúdio, o diretor executivo do Observador, Miguel Pinheiro, a diretora adjunta, Sara Antunes de Oliveira, e editora de economia do Observador, Alexandra Machado, e aqui continua conosco, claro, Judite de França.

Miguel, vamos começar por ti, obedecendo à hierarquia.

Como sempre.

Como sempre. Queres começar por Luís Montenegro, à notícia? Neste discurso, temos duas notícias: a questão da antecipação da meta do investimento em defesa já para este ano, que era para ser em 2029, e também baixar impostos. Não sei se queres ir por aí ou mais pela questão do significado político daquilo que foi dito pelo primeiro-ministro.

Em relação à defesa, temos que olhar para isso com o saudável sentido crítico de sempre. Primeiro, ele promete antecipar os 2% do PIB já para este ano, 2025, mas diz: "Se possível, sim. Se não for possível, não". Portanto, ficamos um bocadinho na mesma. Em segundo lugar, era interessante perceber como é que o primeiro-ministro calcula os 2% do PIB, porque nós já sabemos que o Ministério da Defesa tem o hábito de fazer uma contabilidade criativa e colocar dentro dos gastos em defesa coisas que não é suposto estarem lá. E, portanto, vamos ver se há aqui mais uma tentativa de, eu não quero usar a palavra enganar os nossos aliados, não quero também usar a palavra aldrabar os nossos aliados, não quero usar nenhuma dessas palavras. Mas de mostrar a criatividade portuguesa aos nossos aliados. Vamos ver como é que esta contabilidade vai ser feita. Em terceiro lugar, eu acho que ele não recebeu o memorando, porque Mark Rutte acaba de propor à NATO o aumento já para 5%. Por isso, se ele acha que é uma grande coisa fazer já este ano os 2% do PIB, como é que vai ser se tiver que chegar aos 5%? Vamos ver se chega aos 5%, com certeza, mas se chegar, parece-me que estamos um bocadinho atrasados. Redução de IRS, de facto, será para continuar e um grande destaque para a reforma do Estado.

Declarou guerra o primeiro-ministro à burocracia.

Declarou guerra e disse que há um ministério só para a reforma do Estado. Segundo lugar, esse ministro tem o título de ministro adjunto, e agora subimos aqui mais um passo, que é esse ministério girar sob a minha responsabilidade direta, disse Luís Montenegro.

De resto, até dizias ontem aqui que este governo provavelmente vai viver ou morrer à conta deste ministério e aqui agora a responsabilidade-

Mais ainda

...mais ainda de Luís Montenegro.

Acho que vamos ter que perceber um bocadinho melhor o que está em causa aqui e qual é o calendário, porque eu acho que ele também falou um bocadinho disso, da necessidade de rapidez na ação. Temos que perceber um bocadinho melhor o que está na cabeça do Luís Montenegro aqui. Mas enfim, acho que são estes três pontos.

Até porque acho que há, porventura, alguma preocupação entre os funcionários do Estado, já que esta reforma do Estado, e esse objetivo também do governo, é libertar recursos para que quem trabalha no Estado possa ser melhor pago, para que se possa atrair os melhores para o Estado. Ficaste com a ideia que esta reforma do Estado, eventualmente, vai passar por uma redução do número de trabalhadores da administração pública?

Seria muito ambicioso. Não sei. Acho que temos que perceber um bocadinho melhor. Isto é muito pouco. Claro, ele pode dizer: "Em vez de termos o Estado ocupado a regulamentar, podemos ter o Estado ocupado a fiscalizar", por exemplo. Pode ser uma coisa destas. Eu acho que o que sai daqui não é tanto necessariamente uma redução do tamanho do Estado, mas uma reconfiguração de funções. Pareceu-me, mas temos que perceber. Mas seguramente os funcionários públicos estarão preocupados, claro, não sabem o que é que aí vem, é normal.

Sara Antunes de Oliveira, notas que retiraste e consideras essenciais desta intervenção de Luís Montenegro e que o que anunciou?

Pegando nesta questão, eu acho que Luís Montenegro não apontou, nem num sentido, nem noutro, nem de que haveria essa redução ou que era para encolher os quadros do Estado ou que não era. Portanto, eu não consigo ver isso no discurso. Eu acho é que focar o discurso ou parte do discurso nisto foi inteligente da parte dele e focar este mandato nisso também me parece inteligente a vários níveis políticos. Acho difícil que haja grande oposição, a não ser por essas questões, mas que haja uma grande oposição à ideia de tornar o Estado mais eficiente, de reter talento, de melhorar os salários, de pôr as coisas a funcionar e melhorar a eficácia. Agora, Luís Montenegro, há um ano e uns meses, em março, se calhar, a coisa mais equivalente que tínhamos aqui como grande reforma, grande aposta, era a saúde, e agora temos aqui esta reforma do Estado e tem as duas para fazer. Tem a saúde ainda e tem agora esta reforma do Estado. São grandes promessas, são grandes tarefas. Houve um calendário muito Otimista apresentado para a saúde. Eu agora estava a ouvir o Miguel a dizer: "Não conhecemos o calendário." Bom, eu tenho medo desse calendário, porque o calendário que foi apresentado para a saúde, que em tese até é uma coisa não fácil, mas comparado com esta reforma do Estado, será mais fácil de fazer, e nós fomos acompanhando a não execução das medidas nesse calendário e percebemos que pouco daquilo se foi fazendo dentro dos prazos que tinham sido definidos. Já muita gente, outros tentaram, Luís Montenegro pode eventualmente ser o primeiro a conseguir fazer isto, mas é de facto uma tarefa gigante. Eu acho que é inteligente da parte dele enfocar o mandato nisto, mas é uma tarefa gigante quando o histórico, o track record, não é muito bom na execução de tarefas gigantes.

O diálogo será essencial para levar por diante esta reforma do Estado, imagino, tendo em conta aquilo que é o suporte político do governo na Assembleia da República.

Sim, em relação a isso, ele foi sempre dizendo, e disse antes, que agora é tempo de fazer coisas e não é de criar obstáculos e estar agora com intrigas palacianas, é esta coisa do preciso trabalhar. Trabalhar. Portanto, eu acho que ele está a deixar estes avisos, a tentar condicionar a ação e a tentar encostar a oposição a uma ideia de obstáculo.

Mas deixa-me só dizer uma coisa, isto só se faz se for rápido. Se o Luís Montenegro vai estar a conversar com toda a gente, a negociar com toda a gente, a ouvir toda a gente, quando dermos por nós, já estamos em 2030 e não se fez nada. Ou ele tem uma ideia muito clara do que quer fazer e age rapidamente, ou então vai ser comido pela máquina.

Bom, mas na verdade, na saúde, é verdade que depois o governo caiu, mas na saúde, ele não estava a perder tempo a conversar e a negociar com toda a gente. E o calendário que ele definiu também não foi possível de cumprir. Mais uma vez, vamos ter de olhar para esse calendário, mas acho que ele também fez este esforço de mostrar que está acima disso tudo, está à parte disso tudo, ele está aqui para trabalhar, tudo o resto é politiquice.

Mas a linguagem é confrontacional, de facto.

É, claro.

A linguagem é muito confrontacional. Agora, mais uma vez também, se calhar se não for, não vai lá.

Bom, em relação a esta defesa, ouvimos já André Ventura dizer: "Sim, senhor, se fôssemos nós, era igual."

Também fazíamos o mesmo.

Eles têm alguma dificuldade em criticar aquilo que foi anunciado pelo Luís Montenegro e o teor da intervenção de Luís Montenegro.

Até porque depois todo o discurso foi aos temas todos. Acabou na imigração a dizer: é cumprir as regras, mas depois impor consequências para os incumprimentos, queremos as pessoas cá, mas têm não sei o quê. É difícil, de facto, que haja ali, a não ser do PCP e do Bloco, que não foram sequer, e portanto era um bocado indiferente o que o Montenegro ia ou não ia dizer, será um bocadinho difícil conseguir arranjar narrativas para fazer oposição a algumas destas ideias.

Alexandra Machado, enquanto editora de economia, imagino que-

Até me quer expor, se vamos por... Não, eu fico no fundo da cadeia. Eu é que estou no fundo da cadeia alimentar.

És a editora de economia, portanto imagino que tenhas várias perguntas a fazer.

Sabe-se bem que se reforma o Estado.

Perguntas, dúvidas.

Sou eu que vou dizer como é que se reforma o Estado.

Com que dinheiro e com que cortes é que se reforma o Estado?

Tenho muitas perguntas a fazer e era bom que o Luís Montenegro também se predispusesse a responder aos jornalistas do Observador, a entrevistas e essas coisas que os jornalistas gostam de fazer e são chatos. Mas tenho algumas dúvidas, muitas. Não sei se foi descoberto algum poço de petróleo no Palacete de São Bento, mas de facto os números têm que ser bem explicados, porque 2% do PIB para gastos de defesa, já este ano, 2025, obriga a um acréscimo de despesa grande. Em contas grosseiras, pode significar R$ 1000 milhões ou perto disso, mas acresce a isto os R$ 500 milhões que prometeram de descida de IRS e que Luís Montenegro voltou a falar hoje de que quer cumprir essa descida nos impostos sobre o trabalho. Acresce a isto a promessa de, se for possível também, tal como ele disse na defesa, dar novamente o suplemento extraordinário aos pensionistas, que andou a cativar durante a campanha, mais R$ 400 milhões. E isto numa altura em que tivemos um primeiro trimestre com uma queda, uma contração do PIB, enfim, em cadeia, mas uma contração do PIB de meio ponto. Isto numa altura em que não se percebe como é que a economia mundial, e com impactos, obviamente, numa economia aberta como a portuguesa, vai evoluir ao longo do ano. Portanto, a menos que haja ali um poço de petróleo ou alguma conta que nós não estejamos a ver ainda, o governo vai ter que explicar bem como é que chega a estes números, especialmente porque o Ministro das Finanças, o repetente Ministro das Finanças, continua a dizer que o objetivo continua a ser deficit orçamental. Portanto, ele mantém essa posição, ele mantém que há condições para esse deficit orçamental.

E o Luís Montenegro vincou duas vezes, pelo menos, a questão do equilíbrio das contas públicas.

Sabemos que o acréscimo no aumento das despesas de defesa depois não vão contar para as regras europeias, mas vão contar para as contas. Para o saldo, não vão é contar para as regras europeias.

Alexandra, o cumprimento desta meta de 2%, apesar da contabilidade criativa que o Miguel Pinheiro há pouco fazia referência e que julgo que se estivesse a referir à inclusão das pensões de reforma dos militares neste cálculo do investimento em defesa, isto implica obrigatoriamente o corte noutras áreas do Estado

Sim.

A equação tem que ser feita desta forma. Não é possível pegar em excedente orçamental e conseguir cumprir esta meta dos 2%.

Só se consegue investir mais numa área se a economia crescer muito e houver um excedente orçamental naquele ano que permita gastar mais numa área do que a projeção. Se for para gerir um bolo que fica estável, obviamente, tem que ir buscar a outros sítios. Podemos dizer: não, mas a reforma do Estado vai dar algum fôlego, mas a reforma do Estado também se calhar precisa de investimento para se fazer. Portanto, a equação é fácil, é como a nossa carteira, se nós queremos gastar mais num sítio e só temos aquele dinheiro, vamos ter que cortar em alguma área, ou então o dinheiro cresce e é essa a perspectiva que o governo tem tido e tem acreditado que vai fazer crescer a economia para conseguir aumentar esse bolo. Aliás, matematicamente, basta que o PIB cresça mais do que a projeção, que a porcentagem do PIB pode chegar.

Mas deixa-me só dizer que o Conselho de Finanças Públicas tinha feito uns cálculos, se o país seguisse o compromisso previsto de quatro anos. E aí o saldo orçamental negativo em 2027 já seria de quase 1% do PIB.

Pois.

E aqui a conta era numa subida gradual até aos 2%.

Sendo que atenção, o mais provável é haver apoios europeus.

Pode haver empréstimos. Os juros do empréstimo, já tem que ser pago.

Mas pode haver uma coisa semelhante aos fundos, em que a União Europeia entra com um X e há um X correspondente do Estado-membro, em que o que é necessário gastar é menor. Enfim, acho que Luís Montenegro se calhar pode saber coisas que nós não sabemos e que ajudam a que não seja assim tanto dinheiro. Claro que será sempre dinheiro, mas que não seja assim tanto dinheiro. Vai ter que haver qualquer coisa de radical na União Europeia para isto. Eu não faço ideia que coisa será essa, mas haverá seguramente um formato qualquer para ajudar os diferentes Estados-membros a chegarem lá. E tenho a certeza de que Luís Montenegro está a contar com isso. O mais provável é ele já saber qualquer coisa que nós ainda não sabemos e que daqui a umas semanas ou meses vamos ficar a saber, diria eu.

Judite, que impressões ficam de vocês ficarem todas as anteriores?

Todas as anteriores. E aqui mais uma: a dada altura na reforma do Estado, exatamente pela questão de quem é que vai sofrer com isto, Luís Montenegro diz: "Não fazemos a reforma contra ninguém." Que eu acho que foi uma forma de apaziguar os funcionários públicos. Mas teve também expressões que eu acho que qualquer português percebe, que é acabar com a cultura de quintal de muitos funcionários e dirigentes. Eu acho que qualquer português percebe o que isto quer dizer. E falta de articulação entre organismos pode não custar nada a fazer, pode ficar a custo zero, se for uma questão de gestão e de melhor gestão. E portanto, eu acho que aqui a questão da guerra à burocracia é um tema que cala fundo nos portugueses, que todos os dias têm que pôr carimbos em papéis, em guichês diferentes. Em relação ao resto do discurso, eu acho que esta questão de diminuir impostos sobre o trabalho, que já era prevista no programa, agora dita no discurso de tomada de posse, tem mesmo que se concretizar. Bom, de resto, esta questão de Portugal é um país seguro, mas...

E não há motivo para não se concretizar neste momento, com a geografia parlamentar. Aí não há motivo. Na reforma do Estado, acho que nós estamos a assistir, tanto o PS como o Chega, a dizerem que acham tudo isso muito bem, mas convém que Luís Montenegro não tenha ilusões. Isto vai provocar descontentamentos e esses descontentamentos têm que ser canalizados politicamente para algum lado. O Chega e o PS vão disputar esse descontentamento e vão tornar-se, mais cedo ou mais tarde, em críticos de uma série de medidas do governo na reforma do Estado. Mas no IRS, desculpa interromper, não há dúvida, ele tem todas as condições.

Em relação à reforma do Estado, está a Iniciativa Liberal contente, mas não chega, não é?

A reforma do Estado, nós não sabemos, mais uma vez, não sabemos o alcance, não sabemos o que é que efetivamente este governo se propõe fazer, mas pode ter que haver leis a ir à Assembleia da República para discussão e para a concretização desta reforma do Estado, e vamos ver como é que a matemática parlamentar depois resolve essas leis que podem passar pelo Parlamento.

O primeiro-ministro Luís Montenegro falou na descida do IRS, o imposto aplicado aos rendimentos provenientes do trabalho, sendo que esta é também a conjuntura para levar por diante uma intenção já expressa na legislatura anterior da descida mais pronunciada do IRC. Sim, não sei até onde é que vai. Mas acho que a Judite tem razão. Eu não vejo motivo para ele não conseguir uma descida de IRS. Agora, até onde? De quanto é que estamos a falar?

Quinhentos milhões foi o que eles quantificaram para este ano, ainda.

De IRS, não é?

De IRS.

Mas tudo isso havia constrangimentos na legislatura anterior que nesta não existem. Portanto, eu acho que ele agora pode ir por inteiro.

Pode por o contador a zero.

Em tese, pode ir mais longe, mas enfim Temos que esperar para ver aí também.

Já vamos outra vez até ao Palácio da Ajuda para perceber o que disseram os representantes dos diferentes partidos, mas a menos que ainda tenha algum comentário a fazer relativamente à intervenção do primeiro-ministro, sugeria que passássemos para a intervenção-

Deixe-me só muito rapidamente dizer que a reforma do Estado não se faz só com a digitalização. E é esse o temor destas reformas do Estado, porque sempre se pôs a coisa como modernização administrativa e sempre se pôs a coisa como: "Vamos por aqui uns computadores e isto resolve-se tudo."

E a inteligência artificial agora.

É, ele falou disso, na realidade. Mas não é só isso que está em causa. E não esquecer também que muitas dessas burocracias nós importamos de regulamentos da Comissão Europeia.

Da Comissão Europeia, é verdade.

Portanto, há coisas que não se pode simplesmente riscar sem que Bruxelas olhe de lado ou olhe de frente.

Eu fazia há pouco aquela pergunta ao Miguel Pinheiro, porque a frase dita por Luís Montenegro é: "Queremos libertar recursos financeiros." Como é que no âmbito da reforma do Estado se libertam recursos financeiros?

Bela pergunta para o Luís Montenegro.

É a pergunta que tu irás fazer caso o governo e Luís Montenegro se disponibilizem a conceder essa entrevista.

Eu estou no final da casinha.

Mas, Alexandra, ligas à Júlia Pinheiro, mandas-lhe as perguntas e pedes para fazer na próxima entrevista que o Montenegro der.

Não sei se querem atribuir já a nota a Luís Montenegro antes de passarmos à intervenção da presidenta da República.

Por que não?

Vamos a isso então, Miguel.

Eu diria que talvez um 13. Eu tinha dado um 11 à formação do governo. Acho que ele aqui solidificou um bocadinho mais aquilo que quer, mas acho que ainda falta olhar para muita coisa.

Sara?

Um 14. Acho que foi um bom discurso. Acho que esta questão da reforma do Estado é uma questão inteligente. Aliás, Carlos César já veio dizer que o PS está disponível, claro, para dar prioridade à reforma do Estado e, portanto, pelo menos nas primeiras abordagens, vai ser difícil os partidos demarcarem-se já disto e, portanto, um 14.

Alexandra?

Eu também dou 14, esperando pela prova do algodão deste discurso, porque o discurso nas palavras é um bom discurso.

Sim, eu concordo. Eu também dou um 14. Também fui muito ríspida na formação do governo e, portanto, penitencio-me aqui e dou um 14.

Não faças isso.

É para compensar. Estou a compensar. É o texto escrito e oral. Eu acho que no oral saiu-se bem, o discurso foi um bom discurso e esta questão do desígnio ser agora a reforma do Estado, acho que é catchy, fica bem como soundbite. E fica a faltar o tal teste do algodão de que falava a Alexandra Machado. Miguel Pinheiro, vamos então ao discurso do presidente da República que-

Temos mesmo que ir

Em dois momentos, pelo menos aqui, tendo em conta os meus apontamentos, falou da vitória personalizada em Luís Montenegro, como já tinha feito, de resto, com António Costa.

Sim, mas enfim, eu diria que o discurso do presidente da República foi feito aqui há uns dias na entrevista na TVI, na CNN. É o presidente que importa, o Veem Mel, porque o que interessa, com todo o respeito institucional, o que pensa Marcelo Rebelo de Sousa? Não interessa para nada, ele não pode fazer nada. Sim. Qual seria a consequência lógica da repetição desta ideia da vitória personalizada, que ele já usou com António Costa?

E do cheque em branco.

Mas na questão da personalização, seria repetir: "Senhor primeiro-ministro, se o senhor primeiro-ministro for embora, este governo cai." Por que ele não diz isso? Porque já não pode mandar o governo nenhum para baixo, já é irrelevante. Aliás, Luís Montenegro limpou tudo muito rapidamente. "O senhor presidente da República está aí, prazer em vê-lo. Vamos em frente. Pronto, já lhe disse olá, posso seguir em frente." Sim, Marcelo Rebelo de Sousa, houve aqui um ponto que é típico de quem está prestes a deixar o poder, que é ele quis dizer: "Eu avisei."

Em 2018 avisou que o populismo ia chegar e os otimistas irritantes, talvez, não lhe deram.

Exato. António Costa, na altura, disse que aquilo era difícil de interpretar, era como se fosse pintura abstrata. Marcelo nunca mais se esqueceu disso, está sempre com a história da pintura abstrata de vez em quando, e ele aqui quis dizer: "Eu vi que isto ia acontecer antes de toda a gente, eu avisei antes de toda a gente. Pronto, só é pena não ter feito nada de eficaz para evitar aquilo que queria evitar. Ninguém me ligou." Isto foi mais um testamento político, em certo sentido, e por isso é que ele demorou tanto tempo a dar uma explicação histórica, uma contextualização. O discurso até estava muito sincopado, as várias lições desta lição, e depois subitamente para e entra esta explicação e contextualização histórica muito longa, que no fundo se resume a: "Eu avisei e ninguém me ouviu." Por isso, acho que serve mais para os livros de História e para as pessoas que farão um balanço do mandato dele do que propriamente para Luís Montenegro. Enfim, claro, o que é que sai daqui? A frase não foi um cheque em branco, com certeza, não há uma maioria absoluta. Agora, Vossa Excelência tem que ser mais ambicioso, com certeza.

Já pegando a questão nesta ideia anterior, devia o presidente da República fazer este comentário, dar a entender isto: "Eu avisei", porque ao mesmo tempo transporta em si um juízo pejorativo relativamente à ascensão do Chega e a um partido que faz parte do quadro parlamentar em Portugal.

Sim, mas um presidente da República não é neutro Marcelo Rebelo de Sousa sempre tornou claro que uma das grandes missões dos seus dois mandatos era evitar a ascensão do Chega, era arranjar uma alternativa dentro do sistema, uma alternativa que impedisse a ascensão do Chega. Ele queria, através do chamado populismo do bem, as selfies, esta proximidade com o povo, era uma forma de ser popular sem ser populista e então conseguir esvaziar as razões de queixa, o distanciamento que as pessoas sentiam em relação ao poder, tudo isso. E acaba como acabou. Portanto, não é segredo para ninguém que Marcelo Rebelo de Sousa queria evitar tudo isto, queria evitar a ascensão do Chega, queria evitar Henrique Oliveira e Melo como sucessor, queria evitar tudo isso, não evitou nada e agora está a tentar, pelo menos, preservar o seu lugar na história. Foi para isso que este discurso serveu.

Sara Antunes Oliveira, alguma coisa que Marcelo Rebelo de Sousa devesse ter evitado nesta intervenção? Que apreciação fazes?

Acho que ele não resistiu. Por um lado, de facto, é o discurso de alguém que vai embora e, portanto, quer deixar mais uma aula de história e depois mais uma definição na visão dele do lugar dele nessa história. E ao mesmo tempo, é o discurso de alguém que sabe que vai embora, mas ainda não aceitou, porque não resistiu a dizer estas coisas. Dizer: "Não tenho cheque em branco." Atenção que isto é uma vitória personalizada na sua eleição. Lá está, como dizia o Miguel, como se isso fizesse alguma diferença. Porque o VML é que pode tomar essa decisão. E ainda para mais, nós já sabemos que o VML, a esse nível, já diz que até tomava decisões diferentes. Teria tomado uma decisão diferente quando foi a dissolução da Assembleia da República no governo de António Costa. E portanto, é mesmo uma pessoa que sabe que vai embora, mas ainda não vive bem com essa realidade. Também podemos olhar para isto de uma forma um bocadinho mais bondosa e benigna, que é como aquele pai, o filho já não vive lá em casa, já tem a sua própria família, mas o pai ainda acha que pode dizer coisas sobre o que ele pode e não pode fazer, o que deve ou não deve dizer.

E o filho já não ouve, não é?

E o filho já não ouve.

Faz de conta.

Espero que ainda ouça um bocadinho. Mas seguramente não é deste pai para este filho, porque de facto, depois vimos este filho a chegar ali e dizer: "Obrigado, fique lá no seu sítio, eu vou prosseguir." Mas enfim, agora também não acho que tenha sido um discurso terrível. Fez de facto uma análise acertada da conjuntura, não resistiu a dizer que avisou e deixou os conselhos. Vamos olhar assim desta forma benigna para o discurso de Marcelo.

Já vamos também escutar a opinião de Alexandra Machado e da Judite França, mas antes vamos de novo até às imediações do Palácio Nacional da Ajuda, onde está o José Rafael Lopes, que acompanhou as declarações de alguns responsáveis pelos partidos que assistiram a esta cerimónia. O que disseram, Zé?

Comecemos por Carlos César, do PS, que diz que concorda com a prioridade que deve ser dada à reforma do Estado. Foi o tema parte forte do discurso do socialista, que teve de esperar para falar, uma vez que André Ventura estava a discursar antes dele. André Ventura que se mostrou muito contra as palavras de Luís Montenegro e também de Marcelo Rebelo de Sousa. Seguiu-se depois também Angélique da Teresa, por parte da Iniciativa Liberal, que destacou as várias bandeiras da IL que estavam presentes no discurso de Luís Montenegro. Diz Angélique da Teresa que a IL mostra-se favorável à reforma do Estado, que, nas palavras de Angélique da Teresa, o Luís Montenegro está a prometer, mas deixa um aviso que espera que as palavras do primeiro-ministro não passem precisamente de serem apenas palavras e que se transformem em atos. Pelo Livre, Isabel Mendes Lopes apontou muito na questão do investimento na defesa, anunciado por Luís Montenegro. Quer saber o Livre de que forma será feito o investimento na defesa e de que forma é que vai ajudar a economia portuguesa. Lamenta também, Mendes Lopes, que o Livre fique de fora dessas conversas, isso depois de Luís Montenegro ter dito que pretende ter essa conversa com o PS e deixa também muitas críticas à continuidade de Ana Paula Martins, a ministra da Saúde. A terminar, Paulo Núncio fala num bom governo e afastou a hipótese de assumir um cargo de secretário de Estado. Diz que é e vai continuar a ser o líder parlamentar do CDS e destacou também o número de vezes que o CDS fez parte de governos em Portugal. Não houve reação, Miguel Vieira e Vanessa Cruz, por parte do Bloco de Esquerda, nem por parte do PCP.

Que não marcaram presença nesta cerimónia de posse do novo governo. José Rafael Lopes, que com o Miguel Gato e o Miguel Viterbo Dias acompanharam e deram-nos a ouvir as intervenções desta cerimónia de posse do novo governo.

E neste "E o vencedor é", especial, falávamos aqui do discurso de Marcelo Rebelo de Sousa, Alexandra Machado, entre tudo aquilo que foi dito aqui, há aqui uma outra mensagem que o presidente quis passar, não quis deixar passar em branco, neste caso, o facto de os portugueses terem penalizado a força política que mais governou em Portugal nas últimas eleições.

Há sim, é verdade.

Basta contar os anos para percebermos que isso de fato aconteceu. Este discurso de Marcelo, eu acho que ele próprio deve ter ficado muito triste quando o escreveu, porque já não consegue fazer aquelas suas marotices de lançar umas farpas, porque já está mesmo em fim de ciclo, como falou tantas vezes. E deve ter ficado muito triste por não conseguir enviar umas farpas. Ele acha que sim. Nessa história do PS, mesmo nesta história da personalização, eu acho que ele tentou ali dar um toque Gouveia e Melo, precisamente porque, como a Sara estava a dizer, Gouveia e Melo admitiu que se fosse ele o presidente na altura que António Costa se demitiu, teria se calhar empossado Mário Centeno e, portanto, manda assim um recadinho. Mesmo nas áreas em que quis dar um puxão de orelhas, acabou por dizer quase todas as áreas: educação, saúde, justiça, imigração, já nem me lembro. Acho que disse quase todas mesmo. Fundos europeus, foi quase tudo. Portanto, tudo uma desgraça. E sim, ficou essa mensagem para o PS.

Que é até um pouquinho irônica, porque parte desse tempo de governação, eles tiveram com o guarda-chuva um ao lado do outro.

É verdade.

E, portanto, se calhar Marcelo tem uma cota de responsabilidade na estabilidade dessa governação que agora diz que os portugueses, naturalmente, personalizaram.

Em tudo, aliás. Ele também não se pode dissociar de todos estes anos que decorreram no seu mandato. Do crescimento do populismo, da queda do PS ou das esquerdas. Marcelo não foi um espetador, foi um protagonista. Portanto, tudo aquilo também é quase uma análise do seu mandato.

Bastante activo até, nas presenças públicas.

É quase um balanço do seu mandato.

Sílvia freitas.

Eu acho válido alguns momentos no discurso, sobretudo nas partes mais fáceis de entender, porque há algumas partes em que eu tenho sempre dificuldade em perceber o Presidente da República, e eu acho que ele faz de propósito para transformar a frase.

Mas não lhe digas isso pessoalmente, senão ele agarra-te.

Mas sobretudo quando disse que as formas e as forças políticas não são eternas, enfim, estava a falar aqui para o Partido Socialista, obviamente. E depois, a questão do juízo coletivo ter reforçado a confiança política em Luís Montenegro. Portanto, deu-lhe aqui um salvo conduto em relação à espinha viva, como quem diz: a campanha, a eleição serviu para limpar uma questão que em nada tem a ver com a questão política.

Mas aí também deixou a marotice ou a marcelice de que a Alexandra falava quando diz: "Enfim, mas depois o Pedro disse e aí continuaram aqui." Nada a ver. Deixou assim por alto.

Deixou só assim. Drop mic.

Deixou por alto só. Mas eu acho que fez o X também, portanto fez a sua preleção e a sua aula como gosta de fazer, mas também fez o X em relação a Montenegro, dizendo que merecia uma nova eleição, que os resultados mostraram que os portugueses confiavam nele. E, portanto, depois disto tudo, diz que não foi um cheque em branco, claro, e também não podia ser um cheque em branco, porque não tem maioria absoluta para isso. Mas eu acho que, sinceramente, os discursos do Presidente da República estão a ficar cada vez piores, na minha opinião. E acho que este discurso não foi um bom discurso.

Isto está na altura das notas, não é?

Queres começar tu, Judite, agora?

Sim, vamos começar por ordem inversa.

Vamos inverter.

Eu vou dar um oito ao Presidente da República.

Alexandra?

Eu tenho dificuldade em dar nota a este discurso, mas eu dou-lhe um 11, porque também não acho que mereça uma negativa. Está ali no nem aquece, nem arrefece.

Estou com a Alexandra.

Falta a Sara.

Estou com a Alexandra, fico com 11 também.

Miguel?

E o Miguel Pinhais.

Estás a refletir.

Estou a refletir. Não, eu vou para o 10, só para ser diferente.

Não era só para ser diferente, é convicto.

É convicto.

Nós dá uma média. Pois, tínhamos que fazer aqui as contas.

Só que uma média é difícil.

Não, isto dá uma média. Sinceramente, eu acho que isto dá uma média, portanto, sobre isso, eu acho que podemos estar seguros.

Sem contemplações. Apesar de ter sido a última presença de Marcelo Rebelo de Sousa numa cerimónia de posse do novo governo, está prestes a terminar o mandato. Vamos ter presidenciais no próximo ano, tema que seguramente haveremos de abordar com insistência ao longo dos próximos meses aqui nas tardes políticas da Rádio Observador. Fica por aqui este "E o Vencedor é..." especial.