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E o vencedor é na Rádio Observador. Hoje, à Judite de França juntam-se a Helena Garrido, Anselmo Crespo e o Gonçalo Sousa. E o grande tema do dia é a apresentação da proposta de orçamento do Estado para 2026. Vamos aqui, se calhar, numa primeira ronda, ouvir a vossa apreciação na generalidade e podemos deixar a avaliação global mais para o fim e final. Helena, a tua apreciação na generalidade sobre esta proposta de orçamento hoje apresentada, com tempos recordes, tudo à hora marcada.
Um dia antes.
Nós estamos habituados a isto.
Não estamos.
Aqueles orçamentos entregues à meia-noite.
Exato.
Exato.
Que eram emocionantes.
Quase que estraga a magia.
Eu cheguei a fazer esperas à porta do Ministério das Finanças para nos entregarem o documento sob embargo, quase às 11 da noite, e depois ficar furiosa porque eles não entregavam. Enfim, grandes romances. Tive um ano em que até tivemos de chamar o INEM, porque houve um colega que desmaiou por causa da direta. Isto agora é maravilhoso.
Acham que a vida de jornalista é fácil, não é?
Exatamente.
É só passeios.
Houve um ano que até passou pro dia seguinte, pro pequeno-almoço.
Exatamente.
Foi às 8h da manhã, foi com o CNTM.
Fomos tomar um pequeno-almoço no dia seguinte.
Nunca é tarde para chegar tarde, é um lema quase.
Agora parece ter estabilizado. Aparentemente, as razões que levavam a que isso acontecesse é a introdução de medidas de última hora e esta simplificação tem essa vantagem. E também o fato de o governo não abrir a porta a leilão de medidas até ao último minuto. Eu começaria por uma apreciação que tem a ver com esta entrega um dia antes, que depois também podemos entrar no debate por que é que foi num dia antes, é campanha, é spinou viva, o que é que é. Mas gostava de entrar também na forma. Já o ano passado, o ministro das Finanças resolveu apresentar-nos, isto é basicamente uma conferência de imprensa, mas resolveu apresentar-nos um vídeo. Este ano lá tivemos de ver o vídeo outra vez, mas a sala do Salão Nobre estava a abarrotar de funcionários, muito mais do que o ano passado, e o ministro falava e batiam-se palmas. Mas batiam-se palmas, tu ouviste, não foi, Judite, batiam-se palmas entusiasmadas.
Uma claque.
Não era uma claque para o Orçamento Estado. Houve o bebrete, que o ano passado também já tinha havido.
Vitor Gaspar não teve direito a isso.
Nada, o Vitor Gaspar.
Vitor Gaspar não teve direito a isso.
Ninguém batia palmas, mesmo. E depois, outra nota é a mudança de cor do orçamento, passou a ser verde. Não sei o que é que era azul, que passa a ser azul, passou a ser verde. Bom, em matéria de avaliação na generalidade, eu dava uma nota positiva ao fato de se terem retirado um conjunto de medidas de alterações aos códigos, sobretudo os dos impostos. Era um apelo que eu já ouvia desde o tempo de Sousa Franco, que era muito importante não fazer do orçamento, em cada orçamento, uma reforma fiscal em várias frentes. Isso parece-me bastante positivo, até porque a tentação dos partidos, numa altura de grande exposição mediática, apresentarem medidas por apresentarem medidas, só porque têm essa exposição mediática, cria aqui um grande incentivo a alterações legislativas muitas vezes mal pensadas, e esta era uma tradição que se deveria manter, embora nós sabemos que tudo convergiu para esta realidade: os políticos não fazem escolhas técnicas, fazem escolhas políticas.
Exato.
E a razão pela qual isto aconteceu foi para ir ao encontro das condições, das linhas vermelhas, o que nós quisermos dizer, de José Luís Carneiro, de não introduzir no Orçamento Estado medidas que nunca seriam introduzidas no Orçamento Estado, como a legislação laboral, mas que o governo também optou por não introduzir medidas bastante mais controversas, digamos assim, outras medidas controversas. Mas deixa-me só acrescentar mais um ponto, que é este: outro fator que contribuiu para isto foi o fato de este orçamento não ser um orçamento fácil. É um dos orçamentos mais difíceis da era recente e de Montenegro, seguramente, e em parte por responsabilidade dele também, carrega uma grande mochila já de medidas que já adotou, mas também por causa do PRR.
Anselmo, as pessoas que vão no carro agora, a esta hora, e estou a dizer aos miúdos, os miúdos dizem: "Muda lá de rádio que eu quero ouvir música."
Como é que os convencemos a ficar?
Como é que os convencemos a ficar e a pergunta que as pessoas fazem é: e o que eu ganho com isto?
Os miúdos no banco de trás são capazes de ganhar mais um chupa-chupa ou umas pastilhas no final do mês com a descida do IRS, porque são umas coceguinhas que o governo faz no contribuinte, não é mais do que isso. Obviamente, eu não me norizo, prefiro que os impostos descem do que os impostos subam, mas na verdade, isto não é propriamente um choque fiscal para as famílias. O governo tem feito isto de forma faseada e a argumentação, aliás, é essa, que foi: nós já fizemos uma a meio deste ano. Portanto, isto é a continuação de um processo que começou já a meio deste ano. Objetivamente, as famílias, quando lhes cair o ordenado na conta ao final do mês, praticamente não vão sentir nada deste alívio fiscal, mas mais uma vez, melhor descer do que subir. E quando olhamos para o total da receita, é verdade que ela baixa, mas baixa muito pouco. Nós continuamos a ser um país com uma carga fiscal muito pesada e com uma despesa também muito elevada e portanto isto não bate a bota que é perdigota. Eu diria que a grande boa notícia pro governo sobre este orçamento foste tu deste logo no arranque deste vencedor, é que é a grande notícia do dia, portanto já não é a Spinoviva. Esse é o primeiro grande objetivo, check, está cumprido. Estamos todos a falar do orçamento, já não estamos a falar da Spinoviva. Sobre o orçamento propriamente dito, eu vou recorrer àquele velho clichê, ele é um pouquinho como o Miural, não faz bem nem faz mal, porque as medidas mais impactantes, e como dizia a Helena, não é propriamente a reforma laboral, porque a reforma laboral no orçamento não é propriamente expressivo, mas no IRC, aquelas medidas mais polêmicas, o governo retirou hoje para garantir a aprovação. Aliás, José Luís Carneiro hoje até teve tanta dificuldade em criticar o orçamento que nem o criticou. Basicamente só lhe faltou dizer: "Voto a favor, está feito, ou abstenho e deixo passar." Desse ponto de vista, o governo queria exatamente este efeito. Queria o efeito de, por um lado, não criar novas polêmicas, porque já tem a sua dose, por outro lado, dar uma mensagem positiva ao país. Não é coisa que faça mudar o sentido de voto, mas é coisa que pelo menos não cria rejeição. Eu tenho muitas dúvidas que o orçamento de Estado e as medidas que estão anunciadas no orçamento de Estado influenciem grandemente o resultado eleitoral do próximo domingo. Eu acho que não prejudicam. E isso já não é mau.
Gonçalo, não era expectável por parte de um governo de centro-direita um ataque maior à despesa? No fundo, o nível da despesa vai manter-se sem grande alteração. Nós esperamos sempre um ataque sem quartel às gorduras do Estado e o que é facto é que tanto na despesa como na receita, as coisas ficam mais ou menos na mesma, não é?
E entraríamos aqui num debate ideológico interessante sobre se o Partido Social Democrata é efetivamente centro-direita ou não.
É pra isso que cá estamos, Gonçalo.
No resto da Europa, os sociais-democratas estão no centro e até no centro-esquerda. Mas efetivamente, no meu entender, precisávamos de um choque fiscal, que não é isto que o orçamento de Estado nos vem trazer, até porque também não convinha do ponto de vista comunicacional ao governo, porque há eleições no domingo. Mas falávamos aqui na questão da carga fiscal. Nós hoje em dia, em termos gerais de carga fiscal em Portugal, pagamos mais em porcentagem do PIB do que pagávamos em 2011, 2012, 2013 e 2014, na altura do intervencionismo externo da Troika. Na altura era 31, 32%, não sei ao certo o valor exato, mas era à volta disso. Hoje estamos a aproximar-nos dos 37, 38 pontos percentuais, ou seja, nós pagamos hoje em carga fiscal mais porcentagem do PIB em impostos do que pagávamos na altura do intervencionismo da Troika. Portanto, o país precisava de muito mais do que este orçamento. Contudo, há aqui alguma ambição por parte do governo, mas não desmedida pra não sofrer críticas de outros setores sociais que os possam afetar mediaticamente, porque isto também nos leva à questão midiática. Por que o orçamento é apresentado hoje e não ontem, como até estava estipulado? Amanhã, já tentou antecipar o primeiro-ministro. Amanhã. Até era por causa das eleições de domingo, isso parecia óbvio, não é? Mas ao apresentar hoje, há aqui um pormenor importante, é que sábado é dia de reflexão e os meios de comunicação social não podem falar absolutamente de nada.
Vamos entrar no limbo à meia-noite de sexta-feira.
Hoje é colocada a carne na grelha e amanhã ainda se sente o cheiro do fumo e sábado não se pode falar mais nada, portanto, come-se a carne de ontem. A razão é única e exclusivamente essa. Há aqui alguns pontos no orçamento que são importantes, diria eu, também do ponto de vista eleitoralista. Há um aumento do salário mínimo, que é sempre das questões mais midiatizadas, o que em determinado aspecto é mau sinal, porque significa que há muita gente a ganhar o salário mínimo e isso não é propriamente positivo.
Estamos a falar de 920 euros?
Sim, o aumento é 50 euros, se não estou em erro. E até 2029 é um aumento que o governo quer fazer até 1100 euros, mais coisa menos coisa. O aumento feito pra função pública é 2,15% e é curioso porque é um aumento de poder de compra quase mínimo pra função pública, porque segundo a previsão do Banco de Portugal pra 2026, o aumento da inflação é 2%. Ou seja, o incremento de poder de compra acaba por ser só 0,15. Curiosamente, em termos de despesa total que este orçamento vai ter em termos de incremento, é 4,4 milhões. E em termos depois do resultado da finança pública, em termos de déficit orçamental, dá-nos um resultado de 0,1 de superávit. O Banco de Portugal, curiosamente, discorda dos valores do governo e há outras instituições financeiras que também dizem que Portugal vai ter déficit, vamos registrar um valor deficitário.
Já lá vamos.
Certo, só pra concluir aqui, porque é curioso, vamos ver o que acontece. Eu estou expectante, porque ao mesmo tempo que o governo coloca agora a previsão de superávit, valor positivo, no passado, Pedro Reis, o anterior ministro da Economia, apresentou valores que apresentavam valores dentro do déficit e foi imediatamente corrigido pelo primeiro-ministro, foram quase obrigados a voltar atrás. Se bem que, posteriormente, os valores apresentados pelo governo até foram superiores àquilo que era esperado. A previsão de superávit era 0,4 e o governo até conseguiu 0,7 ou 0,8. Portanto, vamos ver o que acontece e a manobra de propaganda, embora seja um boliscão fiscal, pouco mais do que isso, pouco ambicioso, mas não mói nem deixa moer.
Judite França, falta a tua apreciação da generalidade.
Eu gosto do fato do orçamento não ter tanto entulho como costuma ter.
Não é uma sopa da pedra.
Não é uma sopa da pedra. O que é mau, por não ser sopa da pedra em si, mas é bom porque está mais organizado, até pros ministérios está mais organizado, eu acho. E torna o orçamento do Estado mais legível, mais inteligível
E também tira um bocado da política, que não é assim tão interessante, mas é o que acaba por acontecer e a oposição acaba por ter menos com o que se opor. Eu acho que aquilo que o ministro veio dizer é que não há espaço para aventuras parlamentares como houve no passado, e essas que no passado tiveram impacto e aqui não há possibilidade disso acontecer, mas também não existem temas que se possam debater a esse nível. Há aqui uma coisa interessante, eu tomei nota, que de certeza vai deixar o Chega contente, que é a questão do reforço no investimento das forças de segurança e uma aposta na despesa na segurança interna. Ora, isto era uma daquelas coisas que o partido pôs como condição e já está no orçamento do Estado, portanto, com certeza ficarão contentes.
Estás a falar de forças de segurança e não em defesa?
Não, defesa são mais de 23%, aí é outra conversa. Aí é o Estado, é o governo que decide.
E temos compromissos internacionais também.
Temos compromissos internacionais para cumprir, como é evidente. Mas acho interessante a questão das forças de segurança e da segurança interna, porque acho que é direitinho pro Chega.
Obviamente, este tema vai transitar pra segunda parte do "E o Vencedor É?". Também já tivemos um aviso do Conselho de Finanças Públicas a recomendar prudência, dizendo que no fundo o governo poderá estar um pouco otimista demais em relação ao próximo ano. Ouvimos esta tarde aqui, já na Rádio Observador, João Leão, ex-ministro das Finanças do PS, dizer que pro ano deverá haver déficit e não superávit. Há excesso de otimismo?
A linha também é muito fininha.
0,1%. Aquilo é um equilíbrio. Aquilo é 300 e tal milhões.
É só pra dizer que não é déficit.
Eu sou muito prudente em relação a isso, porque aprendi por conta própria no início dos governos de António Costa, que os ministros das Finanças têm muitas margens que nós desconhecemos para depois corrigir. E eu sempre previ que aquela política orçamental ia ser: "Que horror, venha o diabo." E não vem.
Por acaso, aqui também mudam as cativações, não é?
Exato.
Vai ser interessante.
Ainda se torna mais difícil de perceber. O Conselho de Finanças Públicas dá um parecer com reservas, sobretudo em relação ao crescimento da economia, mas se nós verificarmos os 2,3% está na margem daquilo que o Banco de Portugal divulgou há um dia e que são previsões feitas em finais de setembro. Portanto, há aqui, obviamente, riscos pela frente: tarifas, guerras, a despesa na defesa, o PRR. Só que em relação ao PRR, que são os 0,8% do PIB, o governo tem margem pra não executar o PRR em empréstimos, tem margem pra não executar os empréstimos. Isso são os 0,8% do PIB, e portanto, tem ali uma margem, uma espécie de almofada, que lhe permite, mais uma vez, é na área do investimento que se vai sacrificar pra fazer o ajustamento das contas, mas tem aí, sem dúvida, uma almofada pra ajustar se for preciso.
Mas tem que usar a totalidade, não é?
Do empréstimo? Não.
Não.
Das subvenções.
Das próprias subvenções.
As subvenções não têm impacto.
Já vamos voltar a discutir aqui a proposta do orçamento do Estado na segunda parte de "E o Vencedor É?". E garanto que ainda vamos ter tempo pra falar de autárquicas. Vai ser apertado, mas vai dar. Segunda parte de "E o Vencedor É?", hoje com Helena Garrido, Anselmo Crespo, Gonçalo Sousa e a Judite França. Judite, no orçamento, a questão do preço dos combustíveis pode ser um problema, porque Bruxelas veio dizer que aquele desconto que era dado no imposto não podia continuar a existir. E aqui o governo promete tentar uma ginástica para que as coisas não disparem.
Diz que sim, diz que está a trabalhar numa solução que permite não encarecer os preços dos combustíveis. É mais uma coisa que fica fora do orçamento do Estado. É algo que Miranda Sarmento diz que será de médio prazo. Ora, como é que isso se faz? Eu imagino que seja aproveitando que a matéria-prima está mais barata, imagino eu, nessa altura, retira-se esta benesse.
Basicamente o que eu disse.
E depois quando a matéria-prima subir...
É culpa da malta do petróleo.
É culpa da malta do petróleo e os combustíveis voltam a ficar mais caros. Não há milagres. Se é preciso tirar esta benesse, e de facto Miranda Sarmento elencou as vezes que já foi admoestado por Bruxelas pra que isto fosse retirado. Ora, vai ter que ser e, portanto, os combustíveis vão subir. Que é outra coisa que, aliás, o Chega diz que não admite, mas não admite. Diz que não admite.
Nós não sabemos as condições.
Anselmo Crespo, o Chega já veio dizer isso sobre o preço dos combustíveis, porque não tem mais nada pra dizer. Tem que se agarrar a qualquer coisa, porque fica a sensação esta tarde, nestas primeiras reações, de que o orçamento vai passar sem grandes problemas.
Mesmo esse tema do ISP é fácil de resolver, aprova-se o orçamento e a seguir mexe-se no ISP. Mas do Chega àquela-
Que aliás baixou uma portaria
Pois já está, o Chega não pode voltar atrás na votação. O Chega não pode dizer muito mais porque o próprio Chega admitiu que negociou este orçamento com o Governo, portanto, vai dizer o quê? Nós sabemos que André Ventura pode dizer tudo e o seu contrário, não seria inédito, mas objetivamente este orçamento foi negociado com o Chega previamente naquilo que o Chega considerava fundamental. O tema do ISP é difícil de resolver, pode ser resolvido da forma que a Judite dizia, mas é difícil de resolver porque aquilo é uma teta que dá muito dinheiro ao Estado e nenhum ministro das finanças nunca quis abdicar daquilo. Aliás, aquilo não é uma teta, desculpem a expressão, aquilo é uma vaca, porque são vários impostos no mesmo produto. Porque é o ISP, é o IVA, depois em cima disso ainda leva uma taxa ambiental qualquer, uma taxa de carbono. Portanto, a diferença é de facto brutal, sobretudo quando comparamos com Espanha. E para se baixar IRS, não se pode baixar os impostos todos. O Chega e o PS, neste caso, formam uma aliança muito interessante, porque este orçamento, ao contrário de todos os outros para trás, é um orçamento sem história do ponto de vista político. Claro, agora depois de passarem as autárquicas e durante todo o debate, onde aparecer aqui três ou quatro fogachos só para fingir que estão muito irritados com o governo em alguma coisa. Mas este orçamento está viabilizado, não vai ter história nenhuma, porque o próprio orçamento está descafeinado, como alguém dizia hoje. Retiraram-lhe a cafeína toda só para aquilo não chatear ninguém.
Vai passar sem problemas.
Vai passar sem nenhum problema.
Podemos já fazer essa aposta, Gonçalo?
Sim, o timing político obriga um pouco a que assim o seja, diria eu. Obriga como quem diz, os partidos fazem o que quiserem, mas não era vantajoso propriamente que o Hemiciclo caísse ou que o governo caísse nesta altura, por várias razões.
Até porque não pode agora.
Não sei cair.
Exatamente, porque não pode. Essa é a primeira. Há um novo presidente da República a partir de janeiro e os partidos querem saber com o que é que podem contar. E não é propriamente expectável como era, por exemplo, com Marcelo Rebelo de Sousa, em que se sabia que ele iria ganhar as eleições em 2016 ou em 2021. Agora, apesar de haver um que está mais à frente do que os outros, é um pouco dúbio quem é que irá vencer. Portanto, nesse termo de expectativa do desconhecido no futuro, também não é propriamente proveitoso para os três grandes partidos. E até individualmente nos timings políticos, a AD viu a sua maioria reforçada, apesar de não ser uma maioria absoluta, viu a sua maioria relativa reforçada. O Chega viu o seu dinamismo parlamentar e a sua presença parlamentar reforçada também. E o PS, ao mesmo tempo, precisa, eu diria até de um rebranding interno e até ideológico do partido, porque não só o PS está órfão em Portugal ou o eleitorado de centro-esquerda está órfão, como a própria matriz de centro-esquerda em Portugal está órfã. E portanto, por razões diferentes, não era vantajoso para nenhum destes três partidos, os três maiores, ir a eleições neste exato momento. Portanto, eu diria até nem tanto pela razão orçamental, também, mas nem tanto. Acho que é mais pela questão política e do timing político em si, que este orçamento vai ser tão calmo como está a ser e certamente será.
Eu vou tentar cumprir a promessa que fiz na semana passada de ainda ir às autárquicas e já só temos cinco minutos, e vocês têm que falar todos. Helena, só uma nota rápida para este orçamento.
14.
14.
Por causa de todas as outras coisas que acabaram por se passar.
Anselmo.
Sim, eu para não dar 14, dou 13.
13. Gonçalo.
Eu dou 13 também.
Eu dou 14.
Ainda vamos às autárquicas? Ainda temos quatro minutos, temos muito tempo. Helena, tens algum prognóstico? Estamos aqui a-
Fim do jogo
...a 24 horas do fim da campanha, um bocadinho mais. Algum prognóstico ou isto está tão aberto em Lisboa e Porto?
Eu até já usei a inteligência artificial.
Já? Então, para tentar prever?
Mas depois tenho de estar a corrigir, porque ela faz uns raciocínios, tipo tudo o que são autarquias que vão mudar de presidente, ela cria uma probabilidade elevadíssima de se mudar de partido. Portanto, não vai ser bem assim. Quer dizer, vão ser talvez-
É mais fácil com o polvo, não é? Se calhar se usássemos o polvo, o que decidia era o polvo.
A Helena fez uma citação futebolística, mas já não foi ao polvo.
Já não me lembrava. Nessa parte, olha que eu no futebol é zero.
Portanto, achas mesmo muito arriscado?
Muito arriscado.
Deixa ver se o Anselmo.
Talvez as autárquicas mais surpreendentes, mas o Anselmo sabe muito mais disto.
Do que nós todos juntos. Anselmo.
Seguramente que eu.
A Helena tem uma grande lata, porque lá fora ela perguntou-me e eu disse que desde há quatro anos disse que à Joana Moedas não ia ganhar Lisboa, que eu jurei que nunca mais fazia prognósticos em autárquicas.
O que diz a tua bola de cristal?
A minha bola de cristal diz que não faço a menor ideia quem é que vai ganhar, sobretudo as duas maiores Câmaras do país, Lisboa e Porto. Não faço mesmo a menor ideia. Intuitivamente, eu diria que o PS não perde a maioria dos municípios, apesar do PS perder muitos autarcas nestas eleições. É o partido com mais autarcas em fim de mandato, mas eu não acho que o PS se prepare para perder a Associação Nacional de Municípios, neste caso.
Mas é o Luís Carneiro hoje disse que quer ganhar Lisboa e Porto.
Pronto, para a semana logo vemos se eu, de facto, tudo o que eu digo é o contrário, portanto, quando quiserem saber qualquer coisa, apostem no contrário do que eu digo. Mas a minha melhor previsão é esta: eu acho que toda a gente, ou quase toda a gente, tirando o LIVRE e o Bloco de Esquerda, que não vão ter grandes motivos para estar a cantar vitória, a não ser por serem sidecars de outras candidaturas, e a Iniciativa Liberal, eu acho que os três grandes partidos, PSD, PS e Chega, vão estar a cantar vitória e suspeito que a CDU também, não por ser a CDU, mas porque eu acho que a CDU não vai cair tanto como provavelmente muitos acham.
E vamos ver como vai correr para João Ferreira em Lisboa. Gonçalo.
Eu, prognósticos também só no fim do jogo, mas queria dizer algo que se calhar não é propriamente tão comum quanto isso, porque normalmente estas eleições são curiosas do ponto de vista da análise do Chega, porque normalmente vemos uma concentração muito mediática e centralizada no André Ventura, obviamente, mas eu creio que estas eleições autárquicas são importantes para começar a criar alguns focos de eleitorado do Chega. Eu vou dar aqui dois ou três casos que me parecem interessantes. O primeiro, Loures Onde eu acho que há uma grande possibilidade do Chega conseguir essa mesma câmara com o Bruno Nunes. É alguém que é próprio da terra, é vereador lá e é conhecido. É deputado, tem visibilidade e isso ajuda. Há outros casos em algumas câmaras do Alentejo onde têm deputados também, e eu até acho que aí é mais plausível vencer, nomeadamente um jovem deputado que é o Rui Cardoso, que é candidato a Viana do Alentejo, e o Chega aí tem uma grande probabilidade de vencer, como outras também. E eu diria que há outro aspecto, outra câmara, Sintra, e há sondagens de dar um empate técnico entre os três grandes partidos, que eu acho que está a ser mal aproveitado até por Rita Matias.
Ela não quer.
Pois, acredito que não queira muito ser presidente da Câmara Municipal, acredito que não lhe seja vantajoso. Mas isso por uma simples razão: a freguesia de Algueirão-Mem Martins, que é em Sintra, é a freguesia com mais eleitores do país, é a freguesia mais populosa do país, e é curiosamente a freguesia onde o André Ventura cresceu. E eu creio que isso tem sido muito pouco aproveitado pelo Chega, pela Rita Matias e até pelo próprio Ventura.
Judite.
Eu fiquei muito espantada hoje com o José Luís Carneiro, porque aparentemente o objetivo político fundamental é ganhar Lisboa e Porto e, portanto, depois disto, nada a dizer.
Que é mesmo correr um grande risco. É viver no limite.
Dizer que é o objetivo político fundamental, ou seja, sem isso é uma derrota para o Partido Socialista. Eu fiquei muito espantada com estas declarações, mas acho que, de facto, neste momento, José Luís Carneiro pôs a sua bitola e pôs também a sua espada de Damocles por cima da cabeça.
Eu sou o Ricardo Conceição e cumpro aquilo que digo. Fizemos ainda autárquicas no tempo. Obrigado, Judite. Obrigado, Gonçalo, Anselmo e Helena.
Boa tarde.
Boa tarde.
O Ivan Sorieira regressa amanhã, às 08h30 da manhã.