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Este é o Som do Youven Sorê das manhãs 360, que também pode acompanhar com imagem através das nossas redes sociais ou pelo site do Observador. E Carla, esta quarta-feira está conosco o José Manuel Fernandes.

E ele anda por aí, já lá vamos. O José Manuel Fernandes ouviu o ministro, ontem, num enorme ralhete em Coimbra e o nosso José Manuel Fernandes parece que não gostou muito. José Manuel, como é que viste esse episódio entre o ministro da Agricultura e a presidente da Câmara de Coimbra?

É um episódio triste, indiscutivelmente, e não é pelo meu homônimo ter sido, de alguma forma, vítima dele. Porque aquilo que nós percebemos que se passou é que a antiga ministra e atual presidente da Câmara de Coimbra chegou atrasada. Não sei se chegou só ela atrasada, se chegou também o presidente da Câmara de Montemor-o-Velho, se vinham juntos, senão isso não consigo tirar isso a limpo. Mas indiscutivelmente chegou atrasado e aquilo que o ministro fez quando chegou ao horas foi falar primeiro com os agricultores que estavam à espera. No entender que a visita tinha como objeto a reconstrução do dique que protege os campos do Baixo Mondego. Portanto, havia ali uma preocupação óbvia com os agricultores e depois, enfim, não se percebe se ele reparou que a ministra, entretanto, tinha chegado, mas foi abordado por alguns jornalistas que ali estavam pra responder a perguntas e a seguir aconteceu aquilo que ainda há pouco nós passamos. Perdão.

Sim.

Estamos em tempo real.

Estamos. Estás aí com uma aflição. Sim, passámos os sons agora no momento de glória.

Passámos os sons nos momentos de glória. Ontem, pelo menos no nosso site, foi uma das peças mais vistas, senão a mais vista, as pessoas estiveram ali a ouvir aquilo. Eu creio que a Ana Abrunhosa, durante este processo, foi levada um pouquinho aos píncaros, com razão, mas também porque as circunstâncias favoreceram essa prestação. Como eu já referi imensas vezes, aquilo que se passou nas inundações do Baixo Mondego, deu muito tempo às autoridades públicas pra se irem preparando, e elas prepararam-se. E aí houve colaboração entre a ministra e, sobretudo entre a atual ministra do Ambiente, que é responsável pela APA, e a APA é responsável pela gestão das barragens, e Ana Abrunhosa. E vimos beijos e abraços e tudo a correr bem. Depois até vimos episódios com o presidente da República, que são sempre muito folclóricos. Agora, isso não transforma, de repente, a Ana Abrunhosa numa figura nacional com direito de dizer quem entra ou não entra em Coimbra e quando. Os autarcas naturalmente representam a sua população. O que estava ali em causa era a população de Coimbra e a população de Montemor-o-Velho, pelo que eu percebo, quer dizer, os agricultores do Baixo Mondego e porventura até de outras, de Soure também. O Baixo Mondego abrange vários concelhos, não sei se chegará à Figueira da Foz, mas independentemente disso, como ainda há pouco o Bruno dizia, parecia uma zanga conjugal. E como ele também referiu, muitas vezes nas zangas conjugais o melhor é o homem calar-se até que se acalme a mulher. Enfim, não sei se isso é uma visão de um homem, também há o contrário, mas foi o que aconteceu ontem. O meu homônimo preferiu ir dizendo que sim com a cabeça, tentando justificar, senão ficar completamente calado, pra melhor não ser entalado, porque estava a ser filmado, mas no fim, dando razão a quem estava a exagerar o seu protagonismo. Portanto, é pena, porque é uma manifestação pública de má educação que não faz bem às nossas instituições.

Mas depois no final os dois assumiram que estava tudo bem e foi ultrapassado e desvalorizaram.

Sim, mas já tinha acontecido.

Aos olhos de todos.

Já tinha acontecido. Muitas vezes na nossas vidas fazemos coisas que nos arrependemos no minuto seguinte. Mas quando fazemos essas coisas em público e daquela forma, nunca é fácil. Não chegaram a ouvir este facto, como costumo dizer, felizmente.

E não quebraram a relação institucional.

E não quebraram a relação institucional. Houve ameaças de virar as costas, mas ninguém virou costas. Portanto, para o episódio tem que ficar numa nota baixa, tem que ficar no sete.

E é um momento infeliz da Ana Abrunhosa, que até há dias, aqui na Vixi Suave, reconhecia que a situação que se viveu em Coimbra não é comparável à que se viveu noutros locais.

Nomeadamente em Leiria.

Em Leiria. Ela mostrou sempre uma grande sensatez.

Até na relação com o governo.

Exatamente.

Dizendo que sempre esteve apoiada, sempre se sentiu apoiada e que teve sempre os meios necessários.

É verdade que eu acho que teve uma ação preventiva correta e muito avisada, mas fez também questão de desvalorizar também isso em comparação com o que sofreram outros autarcas que não tiveram, devido à natureza da intempérie e do fenômeno climatérico que se abateu sobre aquelas zonas, não puderam responder da mesma maneira. E até aqui eu acho que a Ana Abrunhosa tinha tido um comportamento exemplar, depois os comentários e a forma como foi entendido e elogiado.

Estou totalmente de acordo contigo, Bruno.

Isso é outra questão.

É uma pena o que aconteceu ontem.

Ontem esteve muito mal e estamos aqui um pouco na brincadeira a comparar uma discussão conjugal, mas estas questões de gênero têm a sua importância. Imaginemos que a situação era o contrário

O que não se estaria a dizer hoje. Mas entretanto lá se reconciliaram, acabou tudo bem. Momentos infelizes todos têm, e é verdade, são momentos de alguma tensão. Os autarcas afinal precisam de colinho. Ana Abrunhosa tinha dito que não precisavam.

Aliás, o ministro falou com a rádio ontem, depois ao final, desvalorizando mesmo e dizendo que a autarca, estava enganada no nome agora, ou no cargo, que estava cansada, havia muitas horas de sono em atraso e ficou só este registo.

Foram as emoções à flor da pele.

Foi o cavalheiro.

Manuel Fernandes são pessoas muito sensatas.

Mais um autoelogio agora, mas um sete para este episódio.

Tu tem dias, Zé Manuel.

Eu tenho dias, é verdade.

Um outro nome aqui, um outro tema hoje e o vencedor é, e que tem a ver com a intervenção de ontem de Passos Coelho na sede. Foi também um ralhete ao governo?

De alguma forma foi. Em bom tom, de alguma maneira, um bocadinho naquele tom, quem te avisa e teu amigo é. Mas sim, Passos Coelho ontem fez uma intervenção pública como não fazia há oito anos, desde que saiu da liderança do PSD, substituído na altura por Rui Rio, que a intervenção pública dele não era tão extensa, tão estruturada.

Teve aquela durante a campanha eleitoral no Algarve.

Mas isso foi uma participação na campanha, obviamente, em tom de campanha e de comício, a apelar ao voto no seu partido, foi em 2024, portanto, na primeira eleição.

As intervenções que ele tem tido têm sido bastante pontuais, por regra são sobre livros. Portanto, ele vai falar sobre um livro e fala sobre o tema do livro, mesmo que depois haja sempre uma atenção particular a cada vírgula e a cada frase, não teve o caráter tão global.

Esta foi estruturada. Ela passa um bocadinho pelos temas e os dossiês mais quentes, mais polémicos, mais importantes. Vai à questão da saúde, vai à atualidade e à nomeação de Luís Neves para Ministro da Administração Interna, mostrando-se claramente contra. Portanto, ele diz que isto é impensável, de alguma maneira, esta passagem, apesar das intenções terem sido seguramente boas da parte de quem convida, o Primeiro-Ministro, e de quem aceita o convite, o próprio Luís Neves. E depois vai àquilo que é, no fundo, a avaliação da capacidade de mudança deste governo ou não. E ele deixa avisos. Eu acho que ele ontem colocou o relógio a funcionar, como no xadrez, quando um jogador faz a jogada, põe o relógio a funcionar para o adversário. Enfim, não estou aqui a dizer sequer que eles são adversários de alguma maneira, mas eu acho que Passos Coelho ligou o relógio do tempo para Luís Montenegro, dizendo claramente: ou faz mudanças depressa ou este governo, apesar de não ter maioria na Assembleia da República, tem que tentar fazê-las. E aquilo que ele diz sobre o código laboral é muito isso.

É que aí ele fala em eleições.

Ele aí fala em eleições. De alguma maneira, diz...

Se isto não passar, tem que perguntar aos portugueses.

Tem que estar ao eleitorado e dizer: "Vocês têm que me dar condições, de alguma maneira, para fazer estas coisas." Se os governos ficam amarrados eternamente à espera de consensos.

As pessoas devem se recordar, foi o que fez Cavaco Silva.

Sim.

Cavaco Silva pediu claramente maiorias, porque queria fazer coisas, as pessoas sabiam que coisas eram essas, bem sei que o tempo era outro e não havia um terceiro partido.

E o que havia para fazer era muito mais.

E o que havia para fazer era muito mais. Mas o que é facto, ele foi bastante claro. E disse: "Epá, depois não me querem cá, vou-me embora." Portanto, se não me derem a maioria. Eu acho que hoje em dia não temos políticos assim, não é o único que fez isso. De alguma forma, Sá Carneiro também fez isso, não sabemos no final como é que tudo iria acabar. Estamos a falar de políticos do PSD. Do lado do PS sempre houve um horror a pedir maiorias absolutas, mas houve estratégias para isso. Talvez a mais clara de todas foi uma que correu mal, foi a de António Guterres.

Sim, claramente, que não teve maioria. Ficou empatado.

Ficou empatado. 115.

Exatamente. E eu acho que Pedro Passos Coelho, das duas uma, ou fez esta intervenção pública e agora volta a recuar e a ficar em silêncio, ou quase em silêncio, durante muito tempo. Agora, não me parece que possa ser isso, porque ele sabe o que está a fazer e sabe os efeitos que uma intervenção destas pode provocar. Eu acho é que também é difícil não concordar essencialmente com aquilo que diz Pedro Passos Coelho, independentemente da questão mais concreta de Luís Neves, se é um erro assim tão grande ou não. Esta passagem, é claro que as portas giratórias são um problema, mas o sentido da porta, quando se passa a porta num sentido ou noutro, não é indiferente. Uma coisa é passar de ministro para líder da PJ, outra coisa é líder da PJ.

Eu não creio que seja a mesma coisa.

Não é a mesma coisa.

Passar de um ministério para uma entidade reguladora.

Que por natureza é independente.

Não é exatamente o mesmo.

Os governos não são independentes, politicamente. Tomam partido. Não é a mesma coisa.

Não é regra em boa parte dos países. Nós temos o exemplo de George H. W. Bush, que é o pai Bush, que foi diretor da CIA, mas entre ser diretor da CIA e ser eleito vice-presidente, passou um mandato e foi presidente Carter, quatro anos a trabalhar no setor privado. É evidente que teve um serviço público, a CIA, depois foi vice-presidente, e depois foi presidente

Mas há aqui não diria um período de nojo, mas um período de distanciamento.

Sim. Bruno, esta manhã dizias que Passos Coelho já está na política ativa?

Já. Acho que não foi só pelas declarações de ontem. Já outras declarações que foram bastante claras. Penso que ontem foi um pouco mais claro do que tem sido, mas já naquelas críticas à tal reforma do Estado prometida pelo governo, acho que já tinha sido bastante claro acerca do seu posicionamento. Eu também concordo com aquilo que o Paulo diz em relação à reforma laboral. Eu acho que é muito importante, e é importante para se conhecer a natureza deste governo. Só que as declarações de Passos Coelho, no meu entender, não vão no sentido de uma exortação ao governo para levar a cabo, de facto, essa reforma laboral, vão no sentido de uma desconfiança de Passos Coelho em relação à capacidade reformista do governo, mesmo na questão da reforma laboral. Falámos muito aqui durante as presidenciais dos líderes da direita e dos líderes da oposição. Acho claramente que ontem Passos Coelho se pôs nesse contexto da liderança da direita e da liderança da oposição. Não ouvimos da oposição críticas tão fortes à nomeação de Luís Neves como ontem ouvimos Passos Coelho. O Miguel Pinheiro falou há pouco em fantasmas, mas este é um fantasma de carne e osso. Estes avisos não podem ser vistos como comentário de um analista político descomprometido, distanciado da realidade política. Tem um peso e Passos Coelho não é ingênuo, sabe perfeitamente o peso que as suas palavras têm, o papel que tem, a forma como é visto dentro do PSD e pelo eleitorado do PSD. E eu acho que é aqui que Passos Coelho pode correr algum risco. Acho que é necessária uma clarificação, já o tinha dito aqui há duas semanas a propósito de outras declarações de Passos Coelho. Acho que a clarificação do que ele pretende, do papel que ele pretende vir a ter, acho que é necessário, mas de alguma forma também fica óbvia. Mas pode haver aqui também uma reação do eleitorado da AD, que pode sentir que Passos Coelho, de algum modo, está a sabotar o trabalho do governo, a minar a liderança de Luís Montenegro e a pôr em causa um governo que é um governo da sua área política. E nós vimos que, pela votação nas presidenciais, há uma parte do eleitorado da AD, do PSD, que está com o governo, apesar de não ter votado no candidato apoiado pelo governo. Mas não é um eleitorado que defenda uma aliança com o Chega. E eu acho que aqui o que está em plano de fundo nas declarações de Passos Coelho é a questão da capacidade política de entendimentos no Parlamento para levar a cabo estas reformas. É isto que está no subtexto das declarações de Passos Coelho. Passos Coelho diz é que existem, não o diz diretamente, mas existem condições políticas no Parlamento para levar a cabo estas reformas e que por uma falta de liderança e de capacidade do governo e de Luís Montenegro, essas mudanças não estão a ser feitas.

O governo tem que ter força para ir a jogo, para dizer: "Olha, está aqui a nossa proposta." E para obrigar os outros partidos a posicionarem-se perante isso, ou contra ou a favor. E basicamente é esse apelo, porque se ficarmos todos percebendo que não há maioria no Parlamento, mas sem ir a jogo, sem apresentar, de facto, as propostas, isso não conta de alguma maneira. Nem sabemos muitas vezes quais são as intenções dos governos, porque eles próprios se retraem, se autocensuram e autolimitam porque não têm maioria.

Sim, eu acho que Passos Coelho vai mais longe do que isso. Ou seja, ele não está só a desafiar o governo para ir a jogo. O que ele está a dizer é que as condições para fazer estas reformas existem, só que com esta liderança, com este primeiro-ministro, não vai ser possível fazer essas mudanças. Essa é a interpretação que eu faço das palavras de Passos Coelho. E isto põe-nos novamente com a questão do Chega. Eu acho que Passos Coelho corre o risco aqui de alienar uma parte do eleitorado da AD, que pode ver isto como uma sabotagem a um governo da sua cor política.

A tua nota para Passos Coelho, Bruno.

Vou voltar a dar um nove, a mesma nota que eu dei há duas semanas.

Paulo.

Eu dou-lhe um 12, porque eu prefiro que as coisas sejam claras e acho que Passos Coelho tem razão na generalidade dos pontos que aponta. Sobre o silêncio ou não dele, o Miguel Viterbo Dias sempre atento aqui às nossas conversas.

Faz ele muito bem.

Faz ele muito bem. Alguém tem que ser responsável em informar-nos da agenda. Então Passos Coelho na próxima sexta vai a um evento da JSD em Lisboa e no sábado vai ao aniversário do Mais Liberdade. E portanto, são mais duas oportunidades, vamos ver, para falar ou não.

Eu acho que isto pode considerar política ativa.

Uma agenda, pelo menos, muito intensa. E o Vencedor regressa mais logo na Tarde Política.

Numa versão alargada que começa, como sempre, logo a seguir ao Jornal das seis. Esta quinta-feira dão notas a Judite França, a Helena Garrido e o Alexandre Borges.