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Essa agora mais um Youven Sourey das manhãs 360, que também pode acompanhar com imagem através das nossas redes sociais ou pelo nosso site. Carla Ateás, dê as dão notas aos protagonistas das eleições deste domingo, o António Costa e também o Anselmo Crespo.

E depois da primeira batalha das presidenciais, vamos olhar para o futuro da governação, mas vamos também, naturalmente, dar nota aos resultados da última noite. Anselmo, onde é que esteve o eleitorado do centro-direita?

Bom dia. Essa é uma excelente questão. Eu acho que ele existe, ele é grande. Pelas minhas contas, anda à volta de 2,2 milhões de eleitores, mas eu acho que esse eleitorado está perdido, desorientado, à procura de um líder, verdadeiramente. E acho que isso já tinha ficado mais ou menos evidente nas últimas eleições legislativas e ficou ainda mais evidente nestas eleições presidenciais. E acho que o que Luís Montenegro disse ontem não contribui propriamente para agregar esse eleitorado. Claro que quando olhamos para as presidenciais, fazemos sempre aquele disclaimer de: "Não, isto é uma eleição pessoal. Luís Marques Mendes não conseguiu agregar o eleitorado da AD." Claro, Luís Marques Mendes terá responsabilidade, seguramente, no resultado que obteve. E ele foi até bastante digno na forma como assumiu a derrota. Acho, aliás, que fez um discurso, se me permitem a brincadeira, bastante presidenciável. Mas a verdade é que o problema do eleitorado da AD não está apenas na escolha do candidato Luís Marques Mendes e no perfil de Luís Marques Mendes. É um problema que se arrasta e que vem de trás e que eu acho que ontem Luís Montenegro contribuiu para espalhar e pulverizar ainda mais. O que vai estar em causa nesta segunda volta é perceber quem é que vai conseguir agregar mais destes 2,2 milhões de eleitores. Eu estou a dizer 2,2 porque estou a descontar aqui as pessoas que votaram nos partidos à esquerda, no PCP, no Livre, no Bloco. Estou a descontar esses eleitores. Estou a contabilizar basicamente quem votou em Cotrim Figueiredo, quem votou em Marques Mendes e quem votou em Gouveia e Melo. É aí que está uma fatia muito significativa do eleitorado do centro-direita, assumindo até que André Ventura conseguiu fundamentalmente manter o eleitorado que já tinha votado no Chega. Ele não conquistou propriamente muito eleitorado à AD. E esse eleitorado precisa de um líder. E o que Luís Montenegro disse ontem foi: é absolutamente indiferente se votam em André Ventura ou se votam em António José Seguro. E isto parece-me, a todos os títulos, desprovido de qualquer racional e, sobretudo, eu percebo que há um risco. Claro, toda a gente sabe que é um risco, se Luís Montenegro desse indicação de voto num ou noutro sentido, ele correria o risco de irritar uma parte do eleitorado.

E ter um adversário político.

Sim, claro, e teria um impacto na governação. O que eu acho é que Luís Montenegro, ao tomar esta decisão, pensou apenas e só no seu futuro político. Ele não pensou no futuro do país, ele não pensou no futuro do PSD, seguramente. Pensou apenas e só no seu futuro político. É uma tentativa de andar entre os pingos da chuva, que é, aliás, bastante compatível com a forma como Luís Montenegro tem governado. E isso pode ter aqui um custo, uma fatura a pagar para a AD, sobretudo para o eleitorado do PSD, que eu acho que pode ser uma fatura muito cara. No limite, no fim do dia, eu acho que dentro destes 2,2 milhões de eleitores, provavelmente a maior parte deles vai votar em Seguro e não se vai aliar a uma segunda volta. Mas o que vai acontecer ao eleitorado do antissistema que votou em Gouveia e Melo? Porque Gouveia e Melo representava o antissistema. O que vai acontecer aos jovens que votaram em Cotrim Figueiredo, que disputou com André Ventura esse eleitorado jovem? Para onde é que vão esses votos? O que Luís Montenegro disse ontem foi: "É irrelevante, decidam vocês." Mas dando, e termino com isto, apesar de tudo, uma pista a esse eleitorado, que é a parte mais, se quiserem, mais cínica daquela intervenção. Que quando Luís Montenegro diz: "Esta segunda volta vai ser entre a esquerda e a direita do PSD". O que Luís Montenegro está a dizer quando diz isto, e opta por dizer isto e não opta por dizer, ele podia ter dito: "Esta segunda volta é entre a democracia e os que estão a tentar destruí-la. Esta segunda volta é entre a Constituição e os que não querem esta Constituição. Esta segunda volta é entre a moderação e o extremismo". Ele podia ter dito qualquer coisa como pista. A pista que Luís Montenegro deu foi: a segunda volta é entre a esquerda do PSD e a direita do PSD, como quem diz: vejam lá se querem votar na esquerda.

E já houve um é não de Luís Montenegro, que pode ter sido determinante até a ganhar algumas eleições. António Costa, é estranho que não tenha havido delegação de voto ontem à noite por parte dos partidos da direita.

É uma estratégia de resposta de curto prazo. É pensar na tática e não na estratégia, de curtíssimo prazo, mas que eu acho que obviamente abre vários espaços. Vamos lá ver. A derrota é seguramente de Marques Mendes, mas eu creio que é, de facto, maior, mais pesada de Luís Montenegro, por várias razões. Por um lado, porque parece que há, de facto, um erro, uma avaliação estratégica errada da mudança do eleitorado. E isso explica por que Luís Montenegro foi tão longe no apoio a Luís Marques Mendes. Depois, porque, na verdade, se analisarmos de forma mais fina, quem esteve com Marques Mendes não foi o PSD, foi o governo. E o que torna as coisas ainda mais difíceis.

E isso faz uma grande diferença.

Faz uma grande diferença. É porque nós nas duas últimas semanas, o que vimos foi a governamentalização destas eleições. Todos os dias teve um ministro, às vezes mais do que um. Viu-se pouco PSD, puxado Pelos colorinhos, por Hugo Soares, que se fartou de dizer publicamente: "O PSD tem que se mobilizar." Mesmo assim, não foi possível. Um PSD que tinha acabado de ganhar as autárquicas, portanto, mesmo no terreno, isso não se viu, apesar de ter ganho as autárquicas. Já nem regresso às legislativas, tem outro contexto, mas autárquicas, no terreno, onde andou Marques Mendes. A alternativa que Luís Montenegro e Hugo Soares encontraram foi envolver ministros. Foi o ministro das Finanças. Eu tenho que ter muita reserva ao envolvimento do ministro das Finanças em campanhas políticas. Lembro-me sempre que o início do fim de Teixeira dos Santos, uma das explicações, talvez às vezes menorizada, mas que eu creio que não foi disso menos, foi o envolvimento, o compromisso e a cumplicidade política de Teixeira dos Santos naquelas eleições de 2009, quando foi cabeça de lista pelo Porto, que depois lhe retirou muita margem de manobra para se distanciar de José Sócrates, quando obviamente precisava de fazê-lo. O envolvimento do ministro das Finanças, houve o envolvimento do ministro da Reforma do Estado, o envolvimento de Leitão Amaro, obviamente. Houve também a ministra da Cultura e Juventude. Começo-me a recordar, todos os dias havia um ministro, secretário de Estado ou próprio Luís Montenegro. Ao governamentalizar as eleições, como fez, agora não pode simplesmente, quanto também faz mal em fazê-lo, dizer: "Está tudo a mudar, mas nós não queremos ter nada a ver com isto. Vocês mudem lá e nós continuaremos no nosso sítio a governar, porque fomos escolhidos para governar." Aliás, Montenegro disse isso várias vezes, tentando de alguma forma condicionar o que ele próprio adivinha, que é a consequência destas eleições impacta na governabilidade. Portanto, ao fazer isto, eu diria, Montenegro sai do centro da decisão e abre espaço a André Ventura para fazer o que quer. André Ventura estará nas próximas três semanas com esta posição, sozinho. Claro que é difícil.

António, desculpa.

Ia dizer só que é o líder da direita.

Só uma nota sobre isso.

Liberal e iliberal.

É preciso não esquecer que André Ventura, para aí há dois dias do fim da campanha, pede ao PSD e à Iniciativa Liberal, já agora, que numa segunda volta não obstaculizem a eleição dele. Ele não pede o apoio, ele diz: "Não obstaculizem." O que Luís Montenegro fez ontem foi fazer-lhe o favor. E o que é que Cotrim fez ontem? Exatamente aquilo que André Ventura lhe tinha pedido. Portanto, é só para lembrar que André Ventura viu isto antes das eleições.

Sim, e vamos ter um fenómeno interessante. Nós ontem vimos, por exemplo, Pedro Duarte anunciar de uma forma sem ambiguidades e sem equívoco. Mas apesar de tudo, eu faço uma diferença entre os social-democratas que não estão próximos de Montenegro, das pessoas como Pedro Duarte, que fazem parte do núcleo político mais próximo de Montenegro. Pedro Duarte é um deles. Creio que na Iniciativa Liberal se vai passar a mesma coisa. Eu o ouvia ontem com atenção. Aliás, estivemos aqui os dois ontem, estivemos há poucas horas juntos na "E Na Sílvia & Mendonça."

Mas calma que não dormimos juntos.

Não.

Dormiram foi pouco.

Dormimos pouco, seguramente. E ouvíamos Rui Rocha, no fundo, a pré-anunciar o voto em António José Seguro. Foi o que fez ao dizer: "Eu vou deixar que o partido decida, mas eu já decidi e a minha decisão não está condicionada pela decisão do partido." Mariana Mortinho Lopes também anunciou o voto. E eu apostaria, não falei com o próprio, nem eu ouvi, mas apostaria que Carlos Guimarães Pinto também dará o seu apoio a António José Seguro. São três nomes muito relevantes, obviamente, da Iniciativa Liberal. O que João Cotrim Figueiredo fez, à sua escala, enfim, não está no governo e, portanto, não tem o mesmo peso, foi exatamente o mesmo que fez Luís Montenegro. No caso Luís Montenegro, eu acho que é particularmente grave, porque nós vamos ter, por exemplo, a discussão do pacote laboral. Com estes resultados e com André Ventura em campanha, como é que é possível criar o mínimo de condições para que haja algum entendimento com o governo?

A questão é se a discussão do pacote laboral vai ser retomada agora durante a campanha, se não se vai alegar novamente não haver condições de discernimento.

É provável que não. Eu diria da parte do governo, arriscaria dizer que não. Mesmo assim, o dia seguinte já está marcado, porque André Ventura, nós sabemos, já ganhou, independentemente dos resultados destas presidenciais.

Sim, para ele está feito isso.

Para ele está feito. Eu acho que ele próprio ainda se questiona se deve forçar muito ou não as eleições, porque de facto não são favas contadas. Há mais de 2 milhões, como tu dizias. Inclina-me a considerar que, em termos de probabilidades, a probabilidade de António José Seguro ganhar é claramente superior a 50%. Não é de 90 para 10. Não é 90% de probabilidade de ganhar. Se calhar é uns 70, 75% de probabilidade de ganhar. E é preciso que as coisas corram bem, que António José Seguro vai ser testado, como não foi agora, num confronto um a um direto, duro, difícil, como se percebeu já na noite de ontem. Portanto, eu creio que Luís Montenegro, ao afastar-se e ao afastar o governo, tentando proteger o governo desta hecatombe, deste descombros destas eleições, de facto, dá espaço de afirmação a Ventura para dizer: "Eu sou o líder da direita." Eu acrescentava há pouco, parece-me da direita liberal e iliberal, porque de facto a discussão eu acho que é mais rica, mais interessante até do que entre a esquerda e a direita, entre o socialismo e a direita. Portanto, cruzam-se várias matrizes, mas André Ventura tem este espaço e eu acho que isso vai ser um problema que se vai colocar, eu diria, nos próximos 12 meses.

Qual será o candidato preferido de Montenegro? Nessa questão da governabilidade, quem é que Montenegro preferiria ter, de facto, no Palácio de Belém?

Isso eu acho que é António José Seguro. Por todos os motivos e mais alguns. Primeiro, porque olhando para aquilo que foi o histórico de Seguro quando era secretário-geral do PS durante um período difícil.

Então por que foi tão difícil ontem?

Eu acho que a posição de Luís Montenegro se resume a isto: falta de coragem. E eu acho que um líder, faz parte, vem no job description daquilo que se designa como um líder, tem que ter coragem e às vezes arrisca e perde. Agora, olhem para estas eleições, por que Cotrim Figueiredo teve o resultado que teve, ficando ainda assim aquém daquilo que era a expectativa dele? Porque há uma fatia substancial do eleitorado de centro-direita que está perdido, não sabe em quem votar e encontrou em Cotrim Figueiredo o candidato possível. Não era o mal menor, de todo. Era alguém que, apesar de tudo, era uma lufada de ar fresco num espaço de eleitorado que não é extremista, que não é radical, que é moderado, mas que quer progresso.

Sim, quer reformas, até.

Por que Cotrim Figueiredo passou a vida a colar-se a Sá Carneiro? Porque ele sabia que discurso é que estava a fazer. Por que uma parte do eleitorado da AD provavelmente até foi votar em Gouveia e Melo? Porque é a ordem, é o rigor, era apesar de tudo, alguém que, sobretudo na primeira metade da campanha de Gouveia e Melo, menos na segunda metade. Ou seja, o eleitorado do centro-direita é maior que o do centro-esquerda, só que não tem um líder. E André Ventura, não sendo propriamente o líder, é porque é quem tem a maior porcentagem de votos.

E toca para o espaço de forma ruidosa, não é?

E agora, Luís Montenegro só tem um caminho possível: é começar a governar, que é uma coisa que ele ainda não começou a fazer. E se calhar vai ter que começar por fazer uma remodelação, logo a seguir à segunda volta. Estávamos a falar da reforma laboral, eu não sei se não vai ter que provavelmente mexer na ministra que tem essa pasta, porque objetivamente nem Chega nem PS estão satisfeitos com o rumo.

E vai encontrar um bode expiatório.

Vai ter que encontrar.

Vai ser na saúde, eventualmente.

Mas depois se não começar a apresentar resultados, não é porque António José Seguro vai ser um fator de instabilidade em Belém, pelo contrário, eu não acho que António José Seguro vá ser uma espécie de aval para José Luís Carneiro chegar ao poder. Eu tenho, aliás, a intuição de que não é propriamente uma boa notícia para José Luís Carneiro que António José Seguro esteja em Belém.

Vai ser um institucionalista.

Mas é porque do ponto de vista parlamentar, Luís Montenegro não tem uma maioria. André Ventura está ainda numa fase de crescimento, claramente, não tendo crescido muito nestas eleições, eu duvido que ele tenha atingido o pico. E porque o PS sai galvanizado com uma eventual eleição de Seguro.

Aliás, eu ia dizer, eu acho que este tema da governabilidade é mesmo importante e sobretudo podemos fazê-lo enquanto não tivermos resultado das presidenciais dia oito. Porque as presidenciais vão agora correr nestas três semanas, seguramente vamos ter muito tempo para as discutir. Mas parece-me que acelerando o calendário político, e ele vai acelerar qualquer que seja o resultado, mesmo que seja o resultado mais previsível, que é a vitória de António José Seguro. Não exatamente, eu concordo contigo, porque António José Seguro seja um fator de instabilidade, mas porque antecipando-se uma aceleração do calendário, acontecerão três coisas. Luís Montenegro voltará ao modelo do primeiro governo. Vamos provavelmente, se calhar, no modelo revisto e aumentado, aos planos, às iniciativas, às medidas.

Aos PowerPoints?

Aos PowerPoints, obviamente, também, porque vai pressentir que pode haver uma crise política mais cedo do que tarde. E depois temos esta curiosidade, eu concordo também contigo nisso, Anselmo, eu acho que José Luís Carneiro pode ser uma espécie de António José Seguro de 2014. Isto é, a perspectiva de uma eleição no curto prazo, nos próximos 12 meses, pode acelerar, eu diria, virá acelerar uma discussão interna no PS para perceber quem é que vai às legislativas. E não é claro, na minha avaliação hoje, se José Luís Carneiro, ironicamente, não vai ser o António José Seguro de 2014. Isto é, se não chega lá, porque aparecerão outros fortes, como apareceu António Costa e literalmente correu com António José Seguro em 2014.

Mas estás a ver algum adversário dentro do Partido Socialista neste momento?

Há o nome óbvio que é Fernando Medina, mas Duarte Cordeiro também.

E eu não sei se António José Seguro não vai ser o Jorge Sampaio de 2004.

Sim.

Ou seja...

Aquele que vai privilegiar a estabilidade.

E no sentido de, repara, se uma crise política que leva a eleições tem um risco acrescido, exatamente por aquilo que eu dizia há pouco, porque eu acho que a margem de crescimento do Chega não parou. Tem um risco acrescido de entregar o governo do país ao Chega, mais do que entregar o governo do país ao Partido Socialista. Ora, António José Seguro terá isso plenamente presente na cabeça dele. Se António José Seguro souber que dissolvendo a Assembleia da República e indo para eleições, é maior a probabilidade do Chega chegar ao governo do que a do Partido Socialista, eu quero acreditar que António José Seguro vai fazer tudo para evitar isso, nem que seja deixar o governo em duodécimos. Porque é disso que estamos a falar, que é o Chega não viabilizar um orçamento e José Luís Carneiro pressionado internamente, também não viabilizar um orçamento. O que é que acontece a seguir? Vamos para eleições? Não sei. Podemos ficar em duodécimos.

Podemos ter um segundo cenário ou um terceiro, que é a falta de decisão do Presidente da República nesse sentido, e haver uma coligação PSD-Chega, porque o próprio Luís Montenegro ou alguém em nome dele, pode chegar ao presidente e dizer: "Temos aqui uma solução de governo". É uma solução de governo que não passa por eleições, mas passa por uma coligação à diante.

Mas com Montenegro ou com Passos Coelho?

Eu diria com Passos Coelho, é mais provável do que com Montenegro, obviamente.

Porque tinham que tirar primeiro lá o Luís Montenegro. A não ser que ele queira nunca mais ser levado a sério neste país.

Mas tirando Montenegro, eu diria que a situação de viver em duodécimos pressupõe que consegue governar em tudo o resto e não tem orçamento. Mas se todas as medidas que vão ao Parlamento caem, se entra numa guerra entre o governo e o Parlamento em que nada passa, a situação fica ingovernável, fica ingerível. E portanto, às tantas, o Presidente da República não tem mesmo outra solução senão chamar Luís Montenegro e dizer: "Ou o senhor apresenta um governo que governe, ou então deixo o seu partido apresentar outra alternativa. A última hipótese, que eu não gostaria, vamos pra eleições". E às tantas, esse cenário vai se colocar de uma forma mais clara do que a que temos hoje.

Portanto, vocês estão os dois convictos de que passada esta segunda volta das presidenciais, tomada de posse no 9 de março, há muitas condições pra haver uma crise política e uma interrupção do ciclo governativo.

Acho que há mais condições pra isso, sobretudo com o resultado que André Ventura provavelmente vai ter na segunda volta, mesmo não ganhando.

Não ganhando, mas reforçando a votação.

Exatamente, o que vai interessar a André Ventura é saber quantos votos é que vai ter na segunda volta, porque é com esses votos, isso vai ser uma espécie de passaporte pra ele dizer aquilo que já disse ontem, que é: "Eu é que sou o líder da direita, não é Luís Montenegro".

Vamos lá, o André Ventura vai ter, em termos absolutos, mais votos do que teve agora, mesmo que cresça pouco, porque não é crível que estes dois milhões não votem ou desloquem-se para António José Seguro. E depois, por efeito da abstenção, haverá muita gente que não vai votar. Isso beneficiará, em termos percentuais, André Ventura, cujo eleitorado está obviamente mobilizado. Portanto, pela votação em percentagem, pela votação em termos absolutos, André Ventura vai ser reforçado nesta segunda volta. E se ele já conseguiu, não é preciso, provavelmente, ser um adivinho nem um grande cientista político pra antecipar isso. Isso vai lhe dar condições pra reforçar o discurso que já teve ontem, independentemente dos resultados. E creio que, sobretudo com esta ausência de Montenegro neste jogo, cava as condições perfeitas pra que tenhamos, não é nos próximos três meses, até por causa dos prazos constitucionais.

Nós teremos o momento crítico do orçamento do Estado.

Acho que o primeiro momento crítico será o do orçamento do Estado pra 27, mas eu se tivesse que apostar, até diria que o pior não vai ser o orçamento de 27, vai ser o orçamento de 28. Por quê? Porque eu acho que José Luís Carneiro terá, ainda assim, muita dificuldade em ser ele o causador de uma crise política este ano.

Sim, mas vai se pôr como a bengala que segura o governo.

Mas essa é a tenacidade de Carneiro. Que a tenacidade de Carneiro é ser o causador de uma crise política, não tendo nenhuma garantia de que o Partido Socialista possa vencer umas eleições, ou então ficar, mais uma vez, com uma bengala do governo, fazendo abstenções violentas pra ver se o governo não cai. Por isso eu acho que não será tanto no orçamento do próximo ano. Agora, há aqui um outro fator que nós temos que ter em linha de conta, que é: nós temos estado a viver no país das maravilhas. A economia tem estado bem, as coisas têm estado a correr bem, portanto, isto está a andar quase por si, é apesar do governo. O governo tem distribuído dinheiro. Baixa impostos, sobe salários. Portanto, até agora, Luís Montenegro, tirando os casos crônicos da governação do país, como a saúde, tirando isso, ele não teve ainda que gerir crises enquanto primeiro-ministro. E não é claro pra ninguém, aliás, os economistas todos apontam nesse sentido, não é claro pra ninguém que aquilo que está a passar-se lá fora, do ponto de vista econômico, não nos atinja a nós. E perante esse cenário, eu acho que, obviamente, a situação política fica muito mais tensa e André Ventura também não tem o tempo todo do mundo. André Ventura tem que usar esta janela e estas presidenciais para capitalizar eleitoralmente pro cargo que ele de fato quer ocupar, que é ser primeiro-ministro.

E não é um líder que se dê ares de ter paciência.

Não, isso não tem.

Não mostra ser uma pessoa com capacidade pra esperar. "Vamos esperar aqui três anos". Não parece. Creio que José Luís Carneiro e o PS estão condenados a ir a jogo. Não acho possível, porque parece-me que suportarem o governo numa lógica de vou salvar o PSD de ser confrontado com as suas escolhas, não sei se dará tempo a Luís Montenegro, mas não dará tempo ao próprio José Luís Carneiro nesta opção. Portanto, eu diria que o espaço de José Luís Carneiro para não alinhar com Ventura numa clarificação política no espaço de um ano, eu diria, em janeiro, irmos a eleições no primeiro trimestre do próximo ano, eu acho muito difícil.

Estamos com dois minutos para o fim, quais vos parecem que serão os principais temas da campanha que vamos ter a partir da próxima semana? Esta discussão de cenários, a clarificação que cada um dos candidatos pensa sobre situações-limite e condições de dissolução da Assembleia da República passarão, ou vamos estar aqui a medir o caráter ou o cartão ideológico?

Eu posso estar completamente enganado, e gostava de não estar, eu acho que esta segunda volta será menos suja do ponto de vista da tática política do que a primeira. Será muito mais ideológica e muito mais política do que a primeira volta. Aliás, acho que se percebeu isso ontem, quer pelo discurso de António José Seguro, quer pelo discurso de André Ventura. André Ventura fez o discurso previsível de nós contra o socialismo, socialismo nunca mais e, portanto, trará, como já trouxe ontem, o período da Troika, os tempos em que António José Seguro foi secretário-geral do PS, mas mais do que isso, José Sócrates vai trazer a bagagem toda do Partido Socialista, aquela que Seguro carrega e a que Seguro não carrega, tudo o que for possível. E António José Seguro vai polarizar isto entre a moderação e o extremismo, entre os democratas e os antidemocratas. E eu acho que vai ser muito uma segunda volta de medo, criar medo nos espaços eleitorais. André Ventura criar o medo do socialismo, o bicho-papão do socialismo, e António José Seguro criar o medo do extremismo. É basicamente isso.

E creio que, além disso, vai se discutir governabilidade no sentido das medidas que estão em cima da mesa. Não vai ser possível, António José Seguro e André Ventura vai obrigá-lo a ir a jogo nesse sentido. O que faz na saúde? O que faz no código de trabalho? O que faz na educação? O que faz na imigração? Portanto, eu diria que tivemos uma primeira campanha pra primeira volta sobre poderes presidenciais, obviamente, também se discutiu internacional, a questão da Ucrânia, a questão agora nos Estados Unidos. Eu diria que André Ventura, sobretudo André Ventura, vai querer discutir mais política interna e, de fato, opções de políticas que estão na mão do governo. O que vai tornar a ausência do governo, do primeiro-ministro ou do PSD desta discussão ainda mais esquisita.

Um vazio. António Costa, Anselmo Crespo, muito obrigada por terem estado neste "IUven história".