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E o vencedor é, na Rádio Observadores, com a Judite de França, o Alexandre Borges e o Nuno Gonçalo Poças. Vamos começar, obviamente, pela campanha eleitoral. Devíamos estar aqui exultantes com mais três semanas de campanha.

Três semanas?

Sim, desde as eleições até à segunda volta são três semanas.

Ah, ok.

Mas não só a situação do país.

Pensei que ia correr isso.

Iam aumentar agora.

Não.

Está tão bom. Última hora.

É isso que eu ia dizer, a situação do país também não permite campanha e os candidatos parecem também não ter muito gás. Por isso, Judite de França, eu ia mesmo perguntar-te se chegámos àquela fase da campanha em que podemos dizer: "Anda lá com isso, homem, que isto já chateia."

Podemos.

Nunca tinhas ouvido "homem" na rádio, por acaso.

Não, eu tenho que fazer um top das palavras que tu usas na rádio que nunca foram utilizadas antes. Mas, de facto, isto está aborrecido. Eu acho que já não havia grande vontade de campanha, porque as presidenciais estão há um ano aí. Neste momento, eu acho que isto é uma espécie de cumprir calendário. É preciso cumprir calendário até que seja sábado, dia da reflexão.

Parece um bocadinho o jogo pra terceiro e quarto classificado do mundial, não é?

É um bocado. Tem que se fazer.

Só que estamos a jogar pra o primeiro.

António José Seguro está a jogar pro primeiro e é por isso que ele tem feito aqui uma pequena alteração ao discurso. E por isso, nas últimas duas entrevistas, dramatizou um pouco o discurso exatamente pra combater a desmobilização, porque é muito difícil. Já se sabe que a tempestade ia condicionar a campanha, isso era inevitável, e portanto, decidiu agigantar este medo das ameaças à democracia. Eu já ontem disse aqui que desde o início, Seguro percebeu que tinha que fugir à ideia de ou eu ou o caos.

O caos impôs.

Não, entretanto, foi preciso escolher alguma coisa pra abanar e pra dizer: "Estou aqui." E podia ter feito isso com as evidentes críticas ao governo, que não chegou a tempo à catástrofe. Podia ter feito isso. Preferiu falar em antidemocracia e outras coisas deste gênero, que são sempre muito complicadas, e eu acho que não ganha nada com isso. Não ganha nada em pôr o adversário nesse campo. E, portanto, olhando para esta estratégia da dicotomia, que aliás, André Ventura abandonou no dia da eleição da primeira volta, pensou se vai ser o socialista e o antissocialista. Ele próprio abandonou essa estratégia. E Seguro caiu agora nisto. Escorregou e caiu nisto. Já ontem, olhando pra entrevista que tinha sido só entrevista à SIC.

Entrevista na RTP ou a SIC? Sim. Foram duas entrevistas em dois dias.

Certo, mas ontem nós só comentamos a da SIC. Hoje é que temos a da RTP.

Depois de não ter dado várias.

Sim. E, portanto, acho que entrou pelo mau caminho e espero que, tendo em conta que hoje já começou a falar em exigências ao governo, espero que aproveite aqui pra emendar a mão nestes próximos dias.

O Alexandre Borges também queria falar sobre a declaração de rendimentos.

Sim, de António José Seguro. Se me dás licença, enquanto comentava aqui o que a Judite dizia, confesso que não concordo.

É uma mesa de conversa.

É, não é? Exato.

Não concorda, diz lá então.

É, não concordo. Pra já, é evidente que nas entrevistas, Seguro foi questionado sobre isso. E foi a tentativa, muito legítima, na minha modestíssima opinião, dos jornalistas de conseguir algum sangue naquelas entrevistas, porque elas eram muito pacíficas, muito redondas, como já foi apontado, a Seguro, e como se compreende que seja. Acho que António José Seguro está à procura de tudo, menos de uma polêmica. Desculpa só dizer, precisa, naturalmente, que o eleitorado, que as sondagens dizem que está com ele ou que as pessoas que olham pras sondagens e pensam que isto já está resolvido, precisa que essas pessoas vão votar. Isso é evidente. Agora, particularmente, na entrevista de ontem, foi bastante evidente pra mim que Vítor Gonçalves andou ali a tentar que ele dissesse outra vez qualquer coisa um pouco mais irritada, mais com sangue na guerra contra André Ventura, que ele acabou por não dizer muito. É basicamente questionado sobre se: "Mas isto é antidemocrático, não é?" Que ele acaba por dizer: "Sim, isto é um pouco antidemocrático."

Mas já na véspera tinha dito que era.

Na véspera tinha ido um pouco mais além e pra mim foi visível como ontem já estava quase arrependido de ter ido um pouco mais além. Eu acho que ele, como tu dizes, concordo totalmente contigo quando tu dizes, ele resistiu sempre, e bem, nesta campanha, a ir pra essa guerra pra qual tanta gente o tentou levar, que era do: "Nós somos as pessoas da democracia e estes são os contra, é o fascismo" ou qualquer coisa desse gênero. Acho que ele evitou isso muitíssimo bem. Tocou pela primeiríssima vez nestes dias, de facto, acho que foi o questionado sobre o assunto e também não concordo contigo quando dizes que até André Ventura abandonou esse combate. Não, André Ventura mudou de estratégia a meio. André Ventura, na noite da primeira volta, diz: "Isto é o espaço não socialista contra o socialismo." Quando percebeu que não conseguia, porque era acho evidente pra maioria de nós, que não dá pra colar António José Seguro ao socialismo, não dá pra colar António José Seguro a José Sócrates.

Pois, por isso deixou essa estratégia.

Por isso abandonou e voltou à sua velha estratégia.

Dos elite contra o povo.

Exatamente. E sou eu contra o sistema. E, portanto, aí voltou à sua postura habitual, até e anos já é o sistema, porque não há coerência possível em André Ventura.

Queres concordar ou discordar com algum deles?

Médio.

Médio bem ou médio mal?

Eu não concordo nem discordo de mim mesmo. Olha que eu às vezes nem concordo nem discordo de mim mesmo.

Eu raramente concordo comigo próprio.

Sim, eu sou o contrário, eu sou o anti Cavaco. Quase sempre me engano e tenho sempre imensas dúvidas.

Isto é um programa de análise.

Exatamente. Não é de psicanálise.

Análise política.

Sim, eu ia discordar há bocado da Judite, mas na verdade o Alexandre já o mencionou. O André Ventura deu o salto duas vezes e, portanto, passa da direita contra a esquerda, dos não socialistas contra os socialistas e depois, de repente, afinal, porque também lhe foi mais ou menos proporcionado isso, voltou outra vez ao discurso das elites contra as não elites e do sistema contra o não sistema. E agora, de repente, veio aqui a tormenta e ele está só a tentar fazer o seu número e estamos aqui quase numa disputa de ver quem é que consegue exigir mais do governo. Quer dizer, ele no fundo está a tentar fazer oposição ao governo. E o António José Seguro eu acho que tentou, de alguma maneira, com nuances, até porque a situação também é complicada, ou seja, é alguém que quer mostrar que é presidente sem ser presidente e, portanto, há uma série de limitações numa atuação que pretende ser vista de uma maneira, mas que não pode ser totalmente, porque na verdade há um presidente em funções e o homem ainda nem sequer ganhou eleições. E eu acho que isso também o deixa numa posição estranha, mais complicada.

Sim, a posição de Seguro é sempre mais complicada do que a de André Ventura, que pode gritar aquilo que quiser. Isso é evidente, não é?

Sempre, sim, mas eu acho que a posição do António José Seguro foi sempre a mais complicada desde o início. Mas eu concordo com o Alexandre. Mesmo aquela conversa do antidemocrático acabou por dar ali um bocadinho... eu também senti um bocadinho isso na primeira entrevista da SIC, salvo eu.

É aquela que tem chamas.

Ele é que vai para o antidemocrático sozinho.

Mas espera lá, que o Ricardo tocou aqui no ponto para mim mais importante.

Que é o cenário péssimo.

Então quem é que escolheu aquilo?

Como sempre, vou à substância.

Eu achei que quando liguei aquilo, eu disse assim: "Mas por que ele está naquela coisa do podcast do yoga?" Porque de repente, afinal fizeram daquilo telenovela e ele apareceu lá.

Não estás sozinho, porque eu também pensei o mesmo. Pensei até que era o cenário do podcast do yoga.

De facto não foi brilhante e aquilo destruiu-me o tempo todo.

Alguém tem que pôr ordem nisto. Alexandre, tu querias falar sobre a declaração de rendimentos.

Exatamente. Até porque na questão do antidemocrático, só para terminar esse assunto, acho que até aí António José Seguro tentou circunscrever bastante a questão à desinformação. Isso foi bom, porque há que apontar o dedo àquilo que pode ser criticável em Ventura. Acho que não se deve espetar a bandeirinha da democracia e do contra. Agora, o que já me parece um bocadinho mais complicado no caso de António José Seguro foi esta história, aliás, notícia do Observador sobre as empresas não declaradas por António José Seguro, que é daquelas coisas. Obviamente, todos os candidatos eram obrigados a declarar os seus rendimentos, isso incluía os rendimentos das empresas em que estivessem. Seguro foi questionado muito claramente por isto nas peças do Observador.

Deixa-me só fazer aí uma pequena nuance, que é: Seguro declarou as empresas, não declarou o que é que estava dentro das empresas.

Certo. E foi questionado sobre coisas muito explícitas, como: "Não tem nenhum carro em nome próprio?" "Não, não tenho carro em nome próprio." Podia ter dito: "Olhe, não tenho, mas tenho dois nas empresas que tenho, claro mal." Pronto, tenho umas empresas, fatalmente lá aparece a consultoria, lá aparecem estas coisas. Eu acho que estas coisas, sinceramente, não têm mal nenhum, como não achava no caso de Marques Mendes. Acho que se aponta o dedo a isto, aos interesses, como se fosse uma coisa, ao mesmo tempo que se diz que se quer legalizar o lobby, estas coisas, depois têm-se imensos problemas quando se quer com a palavra consultoria. O que eu não consigo compreender é como é que António José Seguro não declarou logo estas coisas todas, com todos os casos e mais alguns que se vão sucedendo, com a Spin Vivo, com estas coisas. Como é que se continua a partir para este nível de exposição, achando que não se vai saber, que um dia alguém não nos vai perguntar, e sobretudo, fazendo até como António José Seguro tem feito, um certo papel em que eu pessoalmente acredito, que é: vejam como eu fui para a vida real, olhem lá as minhas reportagens a ser agricultor. E uma certa coisa que só em Portugal, não é culpa de António José Seguro, mas é o país em que vivemos, que é: há um mérito qualquer na frugalidade, porque é o país onde ter sucesso na vida é um pecado. Portanto, exibe-se uma certa frugalidade, como esta do "eu nem sequer tenho carro", ou de se apresentar os debates quando questionado sobre isso, como "eu sou professor universitário". E depois, afinal, não se é. Acho que com isto António José Seguro tem que ter cuidado, como os políticos em geral têm que ter cuidado, sobretudo quando fazem da sua relação de confiança e da transparência e da ética bandeiras da sua atuação. É só.

Sim, eu concordo genericamente com isto. Acho que houve aqui talvez um excesso de desmazelo ou um déficit de zelo, se quiserem. Porque tudo visto e somado é um bocadinho isso. Ou seja, mais valia ter sido só honesto. Ainda por cima, nós olhamos para aquilo e parece uma vida perfeitamente normal de alguém que tem negócios e que dava umas aulas e que cria umas empresas e que tem lá património, etc. É relativamente normal. E apesar de tudo, há uma diferença bastante grande entre os casos da Spin off Viva e mesmo o caso do Marques Mendes. Aquilo que estava em causa no Luís Marques Mendes não era se aquilo era legítimo ou não era legítimo, era se alguém que fazia daquilo vida podia ser presidente da República, ou seja, alguém cujo grande objeto da sua vida profissional, e com grande rendimento, é representar interesses junto do Estado, articular soluções de alguma maneira, etc., seja lá o que for, se pode ser presidente da República, ou seja, viver acima disso, de repente. E no caso António José Seguro, não. Olha-se para aquilo e não se tira dali nada.

Embora haja uma empresa onde ele diz que é consultoria, mas o CAE não corresponde a isso, é lá dos produtos agrícolas. Mas concordo que a dimensão não é a mesma.

Faz-se uma ata e diz que agora excecionalmente vamos fazer isto, não sei o quê, porque não vem no objeto. Se formos olhar para todas as empresas que são criadas em Portugal, que já prestaram algum tipo de serviço numa atividade que não está tipificada ou que até está no CAE, mas não está registada nas finanças, não saímos disto.

CAE é código de atividade econômica, não é?

Boa, Ricardo. Amanhã entras às 9h. Tenho lá uma sala para ti.

Fiscalidade é um tema que me fascina.

Apaixona.

Sim. Guisse o déficit do subsetor Estado. Não vamos divergir.

Eu acho que há aqui uma questão, que é: objetivamente, todos os candidatos tinham que mencionar se tinham empresas, o que é que tinham dentro das empresas.

Certo, claro. Sim. Devia ter um ponto-

E o entendimento foi de que não tinha que declarar o que tinha dentro das empresas. Só tinha que declarar que tinha empresas. Mas a partir do momento em que é sócio-gerente, tem que declarar o que está lá dentro. Seja como for, é só uma daquelas coisas que não faz sentido nos dias de hoje. Nos dias de hoje não faz sentido que não esteja tudo, mesmo o CAE devia estar certo. Acho eu, para um candidato à Presidência da República, acho que isso faz diferença. Acho que passa incólume, sinceramente, porque é António José Seguro, que tem essa aura de ser o homem sério.

Eu diria que é mais um problema de burocracia do que propriamente de quem faz. Mas é outro assunto.

E vamos ao papel de José Luís Carneiro, Alexandre. Alexandre Borges, o que é que querias destacar da forma como José Luís Carneiro tem atuado nesta crise?

Olha, queria destacar que, ao contrário, lá está de, por exemplo, de André Ventura ou de outras forças políticas, ou do comportamento da oposição noutros cenários destes, José Luís Carneiro adiou, para já, a responsabilização política sobre o que se passa, e se a crítica seria fácil aqui, e o PS apresentou ontem um conjunto de medidas, de propostas de recuperação pós-catástrofe. E entre essas medidas há muitas coisas. Algumas já coincidem com medidas que o governo também está a anunciar, a isenção das portagens para as vias alternativas de acesso a estes lugares, mas depois um regime excecional de reconstrução simplificada para a habitação destruída, subsídios para as reparações e equipamentos, enfim, vantagens, isenções fiscais para as empresas afetadas pela tempestade. Um conjunto de medidas que depois poderíamos ver, umas são mais concretas do que outras, e também naturalmente pressionando o governo a solicitar o mais depressa possível o mecanismo europeu de assistência a estes casos. Mas acho que mais do que olhar para cada uma destas medidas, parece-me relevante saudar o comportamento do PS de uma forma geral aqui, de oposição responsável, que é uma coisa que muitas vezes as oposições não costumam ser, rápido a reagir. De facto, mais do que estar a apontar o dedo aos problemas ou ir fazer videozinhos, propõe soluções. E até a atitude muito construtiva do José Luís Carneiro de se oferecer, e é claro que isto é política, é claro que tudo isto é política, mas nem todos os políticos são assim. De se oferecer enquanto ex-ministro da Administração Interna e do seu conhecimento do terreno para estas coisas, para um diálogo com o governo.

Mas aí é uma oferta um bocadinho-

Eu sei que isto é política, lá está, mas mesmo assim.

É a mesma coisa que dizer: "Se tem uma ministra que não funciona, eu posso dar uma ajuda."

Podia ser, o que é falado de evidente, isto é, o discurso em si mesmo, oferecendo soluções, confrontado com o discurso da ministra de dizer: "Eu não sei o que é que aconteceu, eu não sei qual é o problema, isto é tudo muito complexo." Enfim, fala por si. Mas tendo em conta que é oposição, acho que estes políticos normalmente não vão longe, têm vida muito difícil nos seus partidos, porque um dia mais tarde vão chegar a um debate em que vão ser acusados, incluindo pelo seu próprio partido, pelo resto da esquerda, de um dia terem sido simpáticos com a direita ou terem deixado a direita passar. Portanto, acho que não há vida muito longa.

Podem ser presidentes da República daqui a 10 anos.

Eu ia dizer, podem sempre acabar presidentes da República. Mas dizer isto, que o governo, apesar de toda a situação em que se encontra, particularmente sendo um governo minoritário, não se pode queixar de um conjunto de coisas. Tem Trump a criar a notícia do ano uma vez por semana, portanto, a distrair todo mundo disto. Tem presidenciais a decorrerem desde o dia em que este governo foi eleito, basicamente, tomou posse, há presidenciais a acontecer. E tem o PS mais colaborante, pelo menos dos últimos 12 anos, isto é, pelo menos desde António José Seguro. Portanto

Tem tido a tarefa muito facilitada, particularmente durante estes últimos seis meses. Era bom que soubesse fazer alguma coisa com isso.

Vamos aproveitar a deixa para falar da tribalização. O que é a tribalização da política, Nuno?

A tribalização é o contrário da polarização, porque a polarização em democracia é uma coisa perfeitamente normal e que normalmente é vendida como uma coisa errada, e que nós vivemos tempos muito polarizados. A polarização acho que é uma coisa saudável, desde que feita dentro de um quadro de normalidade. A tribalização é a polarização feita, para usar a expressão do Sérgio Sousa Pinto, por atrasados mentais. Porque é suficientemente abrangente e acho que corre todo o espectro partidário e, portanto, não posso ser acusado de ter tratado uns em detrimento dos outros. Tem a ver, sobretudo, com a espetacularização da política e com este fenômeno de tribo, e é daí que a coisa vem, em que aos nossos tudo é permitido e aos outros tudo é olhado com desdém, como se fosse uma coisa muito censurável. A mim irrita-me isto particularmente, porque eu habituei-me, às vezes até a ser mais crítico com aqueles que supostamente são os do meu lado, porque é desses que eu espero que não sejam cometidos os erros que eu vejo nos outros. E, portanto, sempre tive o hábito de tentar ser o mais justo possível com os dois lados.

Queres explicar onde é que isto vai dar?

Quero.

Quero muito.

Ontem o-

Porque isto o Nuno acordou hoje e pensou.

Não, eu acordo todos os dias a pensar nisto.

E no CAE.

E no CAE. Ontem o deputado Bruno Nunes, do Chega, estava num debate na SIC Notícias com o deputado António Rodrigues, salvo erro, do PSD, e às tantas, no meio de uma série de coisas que estava a dizer, invocou o vídeo do ministro Leitão Amaro, e disse que aquilo era uma encenação, e era uma palhaçada, e que não diz nada às pessoas que estão em casa a sofrer. Eu concordo com ele. Acho que o vídeo foi uma palhaçada e uma fantochada e não diz rigorosamente nada às pessoas que estavam em casa. Só que depois nós não podemos fazer este tipo de comentários e fazer coisas do mesmo gênero e achar que elas já são normais. Por exemplo, carregar uma palete com seis garrafas d'água e fazer um vídeo pro TikTok como se estivéssemos a salvar a humanidade ou apagar um incêndio com uma pá, e muitos mais vídeos desse gênero. Ou tal como me incomoda também que se esteja sempre a viver neste permanente tirar de culpas de notícias falsas e de mentiras, como se a mentira fosse um exclusivo. Eu acho que, de facto, aqui a grande introdução, e que não acho que seja só uma coisa do Chega. O Chega não introduziu a mentira na política. As notícias falsas não foram introduzidas nos últimos anos, é uma coisa desde o tempo das notícias.

E desde o tempo da política, acho eu.

E desde o tempo da política. Aquilo a que nós assistimos nos últimos anos é, enfim, porque os tempos o permitem e porque a realidade tecnológica o permite, é uma difusão muito maior de tudo aquilo que é falso. Aquilo que eu espero dos políticos é que depois ajam em conformidade e, portanto, que saibam distinguir o trigo do joio e que não sirvam de megafone a todo esse tipo de coisas. E não é necessariamente o caso das pessoas ou de muitas pessoas do Chega, incluindo deputados, já pra não falar do próprio líder do partido, que muitas vezes faz uso desse tipo de mensagens e coisas do gênero. E, portanto, não é uma crítica direta ao Bruno Nunes, até porque eu volto a dizer, relativamente àquilo que ele disse no debate com o António Rodrigues, eu concordo com o que ele disse e, portanto, vai daqui um abraço pro deputado Bruno Nunes, porque estamos de acordo. Mas incomoda-me um bocado isto que o Alexandre estava a falar do José Luís Carneiro. Eu acho que é importante que as pessoas percebam que ainda há pessoas na política que conseguem estar uns patamares acima. Eu não vivo especialmente agradado com esta coisa da democracia purificada, em que todos nós valemos exatamente a mesma coisa. Todos nós valemos o mesmo voto, e isso é um ponto importante. Não temos todos direito à mesma opinião, ou a opinião de todos não vale exatamente a mesma coisa. E a responsabilidade de determinadas pessoas, sim, é superior à de outras pessoas. A responsabilidade de um deputado, de um líder partidário, de um presidente da República, de um primeiro-ministro, a responsabilidade de um administrador de condomínio é maior do que alguém que só é dono da garagem. E a elitização também faz falta à democracia.

Eu, por acaso, queria só dizer uma coisa anterior sobre o José Luís Carneiro, só pra concluir o que o Alexandre estava a dizer. José Luís Carneiro tem pedido desde o início que o governo acione o mecanismo de proteção civil da União Europeia, uma vez que podia disponibilizar uma série de coisas, nomeadamente geradores. E ainda não foi solicitado. Sinceramente Ouvindo o que as pessoas dizem no terreno, se falta eletricidade, faltam geradores. Parece-me mais ou menos evidente. Portanto, por que não foi pedido? Eu ainda não ouvi o governo explicar e acho que o José Luís Carneiro tem um conhecimento da matéria, porque não só esteve no MAI como foi autarca, portanto conhece os dois lados.

E foi secretário de Estado das Comunidades.

Sim, mas há duas coisas que lhe dão uma visão: ser autarca, proteção civil e, por outro lado, ter sido ministro da Administração Interna. Portanto, gostava de ouvir o governo sobre isto. Em relação à tribalização da política, eu acho que nós já estamos assim há algum tempo e acho que isso entrou na normalidade. Infelizmente, entrou na normalidade.

É, mas incomoda-me particularmente mais em momentos como este. Quando se fala daquelas coisas do chão comum, na verdade, aquilo que está em causa é um país e um Estado local ou central acudir às necessidades de portugueses como nós. Portugueses ou não, seja lá o que for, mas de pessoas que estão a sofrer dificuldades. Não é o tempo disto.

E eu não estou distraído. Ainda não pedi notas a ninguém, mas vou pedir. Alexandre?

Claro que sim. Eu sobre isto estava a pensar que se calhar um bom nome também é a stallonização da política ou a brucewilização da política, porque estes vídeos de António Leitão Amaro e de André Ventura são um bocado o herói comum. O herói comum levado a circunstâncias extraordinárias em que tem que agir.

Imaginavas Leitão Amaro ali com os troncos de árvore a subir.

Isso. Em camisola interior, como o Bruce Willis fazia nos filmes.

Estou a imaginá-lo mais no assalto ao arranha-céus.

Só que depois aquilo parece sempre o "Onde Para a Polícia". Acaba sempre a parecer isso. Eles têm de decidir que género é que querem.

É um mashup.

É isso mesmo. É que, de facto, vale a pena enquadrar quem não viu. Caramba, então o vídeo do Leitão Amaro, ele está ali a sofrer ao telemóvel, a ver mapas, a roer as unhas, a coordenar tudo a partir do gabinete de gestão de crise. E depois tivemos André Ventura, depois ou antes, não sei bem, André Ventura, depois do vídeo "André apaga um foguinho", agora tivemos o "André ajuda a arrumar as compras do supermercado." Foi este vídeo que a gente viu. André Ventura muito aflito a carregar paletes de água.

Enquanto toda a gente assiste.

Enquanto toda a gente assiste, porque aparentemente é uma coisa para a qual as outras pessoas não estão dotadas, não têm condições físicas de fazer.

Mas o grau de agressividade da troca de argumentos depois suscitada por todos estes vídeos também é um bocadinho desproporcionado.

Eu não deixo de achar que compreendo melhor isso do que os vídeos.

Mas é tudo desproporcionado, porque é tudo parvo.

Eu compreendo melhor a reação do que os vídeos. Eu digo que isto aqui qualquer dia, eles que não se ponham ao pau, deixamos de vir para cá nós, comentadores políticos, e nós atiçamos os críticos de cinema do público. Atiçamos, porque então espera lá, vamos avaliar a qualidade do filme, se é isto que andamos a fazer. E então isto vai ficar mais fino, porque eles não têm a nossa tolerância.

Também fica mais soporífero.

É, exato. Também vai ficar um pouco. Perante as circunstâncias difíceis em que estamos, sinceramente, e acho que aqui de André Ventura nós já esperamos isto, de António Leitão Amaro, honestamente, acho que lhe fica muito mal e não é a primeira vez que Leitão Amaro lhe foge ou não foge, é deliberado ter um pé mais perto deste centro de discurso. Lembrar aquele: "Hoje Portugal ficou mais Portugal", aquele tipo de anúncio que ele faz quando está a falar da lei da nacionalização e dos imigrantes, ou mesmo a forma como gosta de explicar as coisas muito devagarinho para todos nós entendermos, vai um bocadinho na linha do que estes vídeos são, que sinceramente acho que é tomar as pessoas por tolinhas, de achar que isto não é aproveitar uma desgraça para fazer marketing pessoal nas suas redes. E, portanto, é isso que me parece. Eu dizia-lhes que parassem, que não fizessem isto mais, mas se calhar, não, digo o contrário, continuem a fazer isto que vos vai levar longe.

Vamos a notas, doutora Judite.

Eu quero dar nota a António José Seguro e vou lhe dar um 10.

Por quê?

Porque acho que, de facto, escolheu um caminho. O caminho da antidemocracia é um péssimo caminho.

Eu vou dar um nove. Se calhar vou fazer uma soma disto, que também tem a ver com todas as reações à forma como se tem vivido o pós-tempestade. Vou dar um nove ao clima político que se tem vivido quase de todo lado, do governo, das oposições. E a nota é um bocadinho mais alta porque apesar de tudo, como disse o Alexandre, tem havido algumas notas um bocadinho mais positivas e que fazem aqui a média subir. Primeiro, não tem sido um espetáculo muito bonito e mesmo as acusações quase de parte a parte, o governo, claro, é óbvio que não tem feito tudo bem, mas também acho que se tem virado muito o disco contra o próprio governo, nalguns casos com algumas acusações que eu acho um bocadinho injustas, que ninguém estava à espera daquilo, que não foi noticiado, que ninguém sabia. Também não é o momento ideal para as fazer e não é agora que se farão, mas gostava também que fizessem perguntas aos autarcas, porque também têm responsabilidades de proteção civil e de prevenção nos seus conselhos. E eu acho que é mesmo importante nós olharmos para o final disto e perceber, que é uma coisa que nós nunca fazemos, nem na pandemia. Corra bem, corra mal, aquilo que foi feito foi melhor ou pior do que fazer o seu contrário? Essas coisas desse género.

Alexandre?

Queres que dê nota a tudo? Eu dava, de facto, um 14 a várias coisas que falaste. Dava um 14 a José Luís Carneiro, porque acho que é essa atitude benigna perante apesar de tudo o que se passa e corporizada nele, não será só ele, mas corporizada nele. A António Guterres dava um 9,5 apenas pela questão da falta de cuidado na declaração de rendimentos, do resto que expliquei da minha discordância da Judite, mas acho que neste caso é uma nota muito próxima do 10 ao 9,5, porque é isto. É uma falha que é preciso estar atento, mas ainda dá para ir a exame. Sobre a dita tribalização da política. Neste caso não vou dar notas, vou seguir a minha linha e vou dar estrelas, porque isto é filmes. Então é uma estrela para cada um. É uma estrelinha para o Ventura e uma para o Amar.

Portanto é um filme a evitar. Leonino, ainda querias falar dos ficheiros Epstein.

Queria. Quanto tempo é que tenho?

Ainda temos aqui.

Estás à larga.

Ainda tens aqui dois, três minutinhos.

Queria deixar aqui, não é uma nota, mas talvez uma partilha, porque tudo aquilo que tem vindo a público e do pouco que ainda se sabe, as notícias têm surgido com alguma rapidez e neste momento aqueles ficheiros já praticamente correram o mundo na substância. Eslováquia, Noruega, Brasil, e pessoas de todo o lado que ali podem estar envolvidas. Estamos a falar de presidentes americanos, ex-presidentes americanos, grandes empresários, secretários de Estado disto e daquilo, famílias reais. E até agora, o próprio do Epstein faleceu na cadeia e a mulher foi condenada a 20 anos. E, de facto, há qualquer coisa estranha no meio disto tudo, que em primeiro lugar, pode-se ter a noção, posso estar muito errado nisto, mas pelo menos a perceção que tenho é de que tudo isto parece só uma pequena manta a que se está agora a destapar de um novelo interminável e que inclui muita gente poderosa, importante, influente, que pode ou não envolver casos de pedofilia de vários países, grandes redes de tráfico humano, etc. Se calhar muitas coisas estavam por resolver. Isto é uma coisa que embrulha o estômago a qualquer pessoa. Sendo certo que nós não temos propriamente aqui grande poder para isso, mas eu gostava que este caso dos ficheiros do Epstein acabasse nalguma coisa concreta e que correspondesse à verdade o mais possível. E que não acabássemos daqui a uns anos a achar, como aconteceu com o caso Casa Pia em Portugal, que a montanha não pariu propriamente um rato.

Vamos de certeza voltar a este caso dos ficheiros Epstein, porque há muito trabalho a ser feito, pesquisa e nesta altura recolher informação também sobre o conteúdo que está nos ficheiros.

Que são milhões de documentos.

Sim, e tenho a certeza que vamos voltar a falar nisto em breve.

Ok.

E há mais "E o Vencedor É?" amanhã, depois das 20h30, nas manhãs 360.