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Está no ar o "E o Vencedor É". Hoje a análise aos protagonistas da atualidade é feita pela Ana San-Les e pelo Carlos Diogo Santos, que já aqui está conosco em estúdio. Bom dia, Carlos. Ia te chamar Diogo. Também podia ser.

Bom dia. Podia ser, mas hoje há dois.

Os dois juntam-se à Helena Matos e ao Paulo Ferreira, mas não são os únicos. Hoje temos um reforço, é de novo nosso convidado, Pedro Buzo Reim ndị, que faz também parte do pop-up da Rádio Observador, programa que regressa de férias em setembro. Diogo Teixeira Pereira. Esta manhã falamos de sinistralidade rodoviária e vamos voltar à saga da Endesa e aos abusos na Igreja, mas começamos com catrapázios publicitários. É uma palavra bonita esta.

O Pedro Buzo Reim ndị quer partir do conceito das férias cá dentro. Pedro, Portugal está transformado num bazar, é isso?

É isso, bom dia. Obrigado pelo convite. Há muitas ideias feitas em Portugal e uma delas é que Portugal é um país lindíssimo. Toda gente repete isso e eu tendo a concordar, pelo que vejo. Mas esta coisa de os autarcas tratarem o espaço público como se fosse propriedade deles, autarcas, e não das pessoas em geral, dos portugueses de hoje e dos portugueses de amanhã, daqueles que ainda não nasceram, é uma coisa que me irrita bastante. Ainda agora fui ao Algarve e a serra algarvia, um bocadinho antes de São Bartolomeu de Messines, quando estamos a chegar ao fim da A2, é uma espécie de cemitério com tabuletas gigantes, que neste caso são estes catrapázios, acho que têm oito por três metros, em que anunciam tudo e mais alguma coisa, nomeadamente uma competição muito curiosa entre supermercados, em que, por exemplo, o Lidl diz que temos 23 lojas no Algarve e depois o Aldi diz temos 30 e tal lojas no Algarve. Como se interessasse a alguém ou como se fosse uma informação que tivéssemos que ter. Quantas lojas de supermercados existem no Algarve? Eu acho que está na altura, e nós vemos também isso, por exemplo, em Lisboa, de tratarmos o espaço público como qualquer coisa a conservar, qualquer coisa a respeitar. As eleições já foram há uns tempos e ainda temos que gramar na segunda circulado, por exemplo, com aqueles cartazes do, julgo que se chama MEES ou MAAS, aquele partido de extrema-esquerda daquela Renata Câmara. Por que aqueles cartazes continuam ali? E por que Luis Montenegro, depois de ter assumido a liderança do PSD, também pôs catrapázios na rua anunciando a sua presença agora no espaço público?

Pedro, não vás ao Marquês de Pombal, porque senão aí vais ter um ataque. O Marquês de Pombal ainda tinha há poucas semanas cerca de seis cartazes das eleições de janeiro.

Além de achar isso irritante e inexplicável, também é altamente demonstrativo e elucidativo daquilo que somos, acho eu. A forma complacente como lidamos com o tema. Por que aqueles cartazes continuam lá e por que nós, enquanto pessoas, povo, não sei bem qual é a palavra que se usa agora, toleramos este tipo de invasão do espaço público? Claramente não é o vencedor. Sim, diz.

Ia perguntar se tens uma nota para alguém ou para alguma coisa.

Tenho uma nota para o autarca desconhecido, que um dia fará um monumento, se calhar já existe, de um quatro. De um a 20, dou um quatro.

Fica esse quatro para o autarca desconhecido. Ana San-Les, bom dia. Hoje vais dar uma nota no caso da contratação de Sérgio Figueiredo para o gabinete de Fernando Medina. Quem é que merece essa nota?

Olá, bom dia. Sim, vou ter de voltar a este tema. Sei que já falámos nele, mas foi o caso que o governo escolheu para nos animar nesta amena semana de agosto, depois de na semana passada ter sido a Endesa. Nem quero imaginar o que será na próxima. Mas neste caso, e a óbvia polêmica criada em torno dele, obriga-me a usar uma expressão que eu detesto, que é o governo ou Fernando Medina, como queiram, pôs-se a jeito. E era óbvio que se ia criar um caso em torno disto, quer pelos protagonistas e pela conhecida ligação entre eles, quer pela forma como a contratação foi feita, aqui metida na silly season, sem margem para explicações, quer pelo cargo criado, quer pelo salário igual ao salário de ministro. Nada contra Sérgio Figueiredo, nem quero alimentar as reações manifestadas ontem pelos partidos que falavam de possíveis favores, subserviência, o que seja, mas gostava de olhar para isto de outro ponto de vista, de mais uma desastrosa opção de comunicação ou de gestão da imagem do governo, quando imagino que o objetivo fosse precisamente o oposto. E depois também esta obsessão do governo pela comunicação, também acho que não augura absolutamente nada de bom. Já tinha contratado João Cepeda para gerir a comunicação do governo. Supostamente, a função de Sérgio Figueiredo não terá diretamente que ver com comunicação, mas acho que não há poucas dúvidas de que haverá aqui um papel ligado à imagem ou pelo menos ao fabrico de uma percepção de como é que as coisas são ou serão feitas. E se as coisas fossem bem feitas, não era preciso tantas relações públicas, digamos assim. Deixando de parte o currículo de Sérgio Figueiredo, ele é contratado para fazer consultoria no desenho, implementação e acompanhamento de políticas públicas, diz a nomeação, o que inclui a auscultação de partes interessadas na economia portuguesa e a avaliação das políticas públicas. E nós, agora também puxando aqui um pouco a brasa na nossa sardinha, nós observadores, se calhar não temos uma novidade a Fernando Medina. É que já existe uma consultora na esfera do Estado que tem precisamente como missão fazer isto e chama-se Centro de Competências de Planeamento de Políticas e de Prospetiva da Administração Pública

É conhecido como PlanAP, foi criado há um ano, acho que em fevereiro. É de fato pouco conhecido, mas existe precisamente para avaliar as políticas públicas e apoiar a sua aplicação. É preciso mesmo contratar alguém de fora com salário de ministro para fazer um trabalho para o qual já existe toda uma equipa especializada a fazê-lo? É esta questão que me causa algumas dúvidas e acho que é natural todo o caso que se criou em torno disto. Acredito que merece ser explicado. Já foi pedida uma audição a Fernando Medina no Parlamento. Se calhar há quem ache exagerado, eu por acaso não acho. Espero que não seja chumbada pela maioria, porque há esclarecimentos a dar e por muito que o governo queira que isto passe pelos pingos da chuva, está toda a gente de férias, Fernando Medina está de férias, ninguém se vai pronunciar diretamente sobre isto, mas temos aqui mais uma questão de transparência. E a transparência acho que é algo que faz bastante falta a este governo. Ainda hoje o Público tem uma notícia que diz que quase dois terços dos membros do governo não entregaram a tempo e horas as suas declarações de registo de interesses. E quem não quer casos, mais uma vez, não se põe a jeito para ser enredado neles. E este governo já vai com casos a mais e ainda só vamos com meia dúzia de meses. Portanto, a nota para o que tu querias saber desde o início, vai uma nota negativa para Fernando Medina, vai um oito para o ministro das Finanças.

Fica esse oito para o ministro das Finanças. Seguimos com o Carlos Diogo Santos, que hoje regressa às denúncias de abusos na Igreja. Para quem é que vai a nota hoje?

A nota hoje vai para o Conselho Presbiteral, que ontem decidiu abordar o tema e sair em defesa do cardeal patriarca de Lisboa. Este órgão colegial que representa os padres da Diocese de Lisboa emitiu ontem, já à noite, um comunicado a dizer que era preciso discutir seriamente os problemas da Igreja e não limitarmo-nos a tornar casos mediáticos. Aquilo que eles tentam dizer é que estas notícias que têm saído têm feito com que apareça um caso atrás de um caso e isso não é útil para que se discuta os problemas e lamentam mesmo ter-se perdido essa oportunidade de um debate sério dos problemas estruturais da Igreja. E acrescenta este órgão que alguns casos já foram investigados, outros já julgados, uns condenados, outros arquivados. Uma espécie de desvalorização das notícias que têm saído. Eu acrescentaria aqui que a maioria são casos que nunca saíram do silêncio que a Igreja tem imposto e portanto acho que esta nota faltou nesse comunicado. Dito isto, também concordo com este órgão que seria preciso haver uma discussão séria e não tanto casos mediáticos, mas também a verdade é que aqui, como noutros países, já nos habituámos a que o debate só surja depois de haver casos mediáticos, depois de haverem casos que são tornados públicos. E mais, se o objetivo deste conselho era lançar as bases para um debate sério, ontem perdeu a sua oportunidade ao não lançar qualquer contributo nesse sentido, limitando-se apenas a fazer o que a Igreja sempre fez, que é criticar que se fale abertamente em casos de denúncias e portanto sem qualquer contributo nesse sentido. E acaba por ser mais uma vez a prova de que a Igreja, a todos os níveis hierárquicos, só fala a reboque do que vai saindo, nunca de forma proativa sobre denúncias de abusos sexuais e portanto não há uma ação, há sempre uma reação e neste caso reage mal mais uma vez, dizendo que quer que o problema se resolva sem que se fale nos casos. E portanto, eu acho que se perdeu Uma oportunidade de se lançarem as bases para essa discussão séria e, portanto, vai uma nota negativa.

Não te vejo com um bom ar para dar uma nota positiva.

São cinco padres.

Não o Carlos, mas é o comunicado.

Exato.

São cinco padres que compõem o conselho permanente deste conselho presbiteral e, portanto, vai um cinco dividido por eles.

Um cinco para dividir por todos.

Para dividir por todos, nem sequer é para cada um.

É fazer as contas agora para perceber quanto é que tem cada um, mas não parece que seja muito. Paulo, vamos falar sobre a continuação de uma saga, a saga da Endesa.

A saga da Endesa, que ontem teve mais um desenvolvimento. Isto, de facto, já começa a parecer perseguição. Se havia dúvidas no primeiro embate deste tema, eu acho que ontem ficou claro. Por quê? Porque depois do polémico despacho de António Costa, que atribuía ao secretário de Estado João Galamba a tarefa de verificar as faturas que a Endesa apresenta aos serviços públicos, a quem fornece energia, ontem foi a vez do próprio João Galamba e ele próprio assinar um despacho com mais algum detalhe. Esse despacho contém obrigações diferentes e mais exigentes para a Endesa, para as faturas que a Endesa apresenta ao Estado do que para os outros operadores. E há muitos operadores de energia e, portanto, muitos fornecedores de energia ao Estado. A Endesa é obrigada sempre a mostrar nas faturas os benefícios que há com o travão ao preço do gás. Isto de acordo com as regras definidas pela ERSE. A Endesa tem sempre que apresentar essa indicação, os benefícios. Para os outros operadores, os outros fornecedores de eletricidade concorrentes da Endesa, só têm que mostrar nas faturas os benefícios se também apresentarem os custos, que é para haver ali um equilíbrio. Isto é tudo surreal, de facto. Primeiro, não estamos aqui sequer a falar de informação prévia ao consumidor. Estamos a falar da apresentação de uma fatura, de um contrato de um serviço que já foi contratado, muitas vezes por concurso público, a serviços públicos, a compradores que é suposto serem informados, até porque já assinaram os contratos, as contas já as fizeram antes. Não é o cidadão que não percebe muito o assunto e que incauto pode não saber aquilo que está nas faturas de eletricidade. Isto é surreal. A diferença de tratamentos, eu não sei se isto é legal sequer, enfim, os juristas que o decidam.

Uma discriminação, pelo menos.

É uma discriminação óbvia. É o comprador, o Estado, neste caso, está ali como comprador e tem que defender os seus interesses, se acha que os defenda e que, já agora, confira todas as faturas de todos os operadores. Espero eu bem que o façam para não serem enganados e todos os serviços. Mas isto tudo parte, já agora, das declarações célebres de Nuno Ribeiro da Silva, presidente da Endesa em Portugal, que disse que vinham aí aumentos de 40%. Ora bem, todos os dias nós temos verificado em vários órgãos de comunicação social, faturas de empresas, sobretudo, que apresentam até crescimentos de fatura de junho para julho, até muito superiores aos 40% que Nuno Ribeiro da Silva falou. Há crescimentos para o dobro. E há crescimentos para o dobro precisamente por causa de uma consequência da aplicação do mecanismo. Ou seja, aquilo que tanto o governo quanto o presidente da República apresentaram como sendo especulativo e alarmista, se foi especulativo, foi por defeito, porque tem havido aumentos em alguns casos, atenção, não é em todos, mas em alguns casos muito superiores. E era interessante saber o que é que Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa têm agora a dizer aos consumidores sobre isto. Que apresentem dados, porque pelos vistos quem estava errado, quem passou a informação inverdadeira, vamos aqui utilizar o eufemismo, inverdadeira aos consumidores, foram o governo e o presidente da República. E tudo isto é surreal, porque vamos lá ver uma coisa. O governo está mais preocupado na gestão da informação e da percepção pública do que na questão essencial que são os preços, neste caso, da energia. Ainda por cima num tema e com a aplicação do mecanismo, que feitas as contas depois no final, pela forma como está desenhado, só pode ter vantagens, de alguma maneira. As vantagens podem não ser muitas, mas feitas as contas depois no final, àquilo que são os benefícios, agora o pagamento de uma parte desses benefícios nos próximos meses e depois o conjunto dos clientes que vai pagar essa compensação, digamos, porque as empresas do gás pagam o gás ao preço de mercado, não é o valor que o governo escreve num decreto. Feitas essas contas, só pode ter vantagens. No limite, podemos estar naquele cenário brasileiro do Tiririca, pior não fica. E portanto, à partida, este mecanismo é bom, estabiliza preços, no conjunto permite vantagens para clientes e o governo se tivesse explicado isto tudo direitinho desde o início, tinha evitado esta polêmica. Qual foi o problema? O governo preferiu só falar das vantagens iniciais, sem falar do pagamento de uma parte dessas vantagens nos meses seguintes. E foi disso que falou Nuno Ribeiro da Silva, ontem, para alertar as pessoas. Atenção que a fatura do último mês não tome como referência, porque depois vai disparar. E se o governo tivesse contado a verdade toda do início, tinha poupado esta polêmica absolutamente desnecessária, mas está muito preocupado em manter a sua narrativa de que os benefícios que isto tem são muito maiores do que os reais, e isso é um disparate. O governo tem vantagens neste tema, devia explicá-lo. Já houve N artigos, entretanto, na comunicação social a explicar os detalhes todos do mecanismo. O governo devia tê-lo feito numa linguagem que as pessoas entendessem e seguramente não havia polêmica nenhuma. Agora, chegar a este ponto de colocar o aparelho do Estado e a força do Estado, isto faz lembrar um regime, basicamente. Esta coisa da especulação e isso é alarmista, isto são sempre os argumentos que os regimes musculados utilizam quando querem calar seja quem for a respeito de qualquer tema, é para não alarmar a população. E eu acho isto tudo deplorável, não ter mais do que vantagens.

Mas neste caso tem a ver também com o apoio do Presidente da República.

Claro, o presidente da República nós já percebemos, depois daquela sardinhada em Alfama. Foi no dia seguinte que Marcelo Rebelo de Sousa fez essas declarações. Imagino que ali entre a salada de pimentos, o primeiro-ministro lhe possa ter explicado sua visão sobre o tema. Absolutamente desnecessário, num tema em que o mecanismo é bom, só poderá ter efeitos positivos, podem é não ser muito grandes, mas se são positivos, devia ter explicado isto e tudo isto é deplorável.

E a nota é para quem?

Vai um quatro para o governo. Esta perseguição a quem contou a outra parte da história, que é verdadeira também, como se está a ver pelas faturas, é um quatro.

Bem me tinham dito que o nome deste programa não fazia jus às notas que aqui eram dadas.

É só um engodo.

Nota para o perdedor é.

Helena Matos, vamos falar sobre um assunto também muito sério, a sinistralidade rodoviária, em particular com foco no número de acidentes com mortos, que continua a ser muito expressivo, e em particular a idade destes envolvidos, que é também muito jovem.

Sim, aliás, tudo indica, ou os dados que chegam a nós neste momento, é que no primeiro trimestre de 2022, o maior aumento da sinistralidade tem-se registado com condutores com idade inferior a 25 anos. São estes agora que lideram a tabela de frequência da sinistralidade automóvel. Isto é algo que nos devia fazer pensar. Se nós passarmos dos números para a realidade e para lá da juventude, nós tivemos, e foi um pouco essa notícia que me fez pegar neste tema para o Vencedor, sendo que aqui o vencedor é que somos todos perdedores. As notícias têm-se multiplicado. O mês de agosto é um mês sempre muito complicado em termos de sinistralidade rodoviária, de acidentes de automóvel. Nós mesmos usamos uma linguagem muito eufemística para falar disto. Nós dizemos sinistralidade automóvel, nós dizemos que os automóveis têm colisão, que a viatura colidiu, que a viatura embateu, mas na verdade são pessoas, os automóveis não andam por aí sozinhos como numa animação, sem condutor humano, não andam por aí sozinhos a chocar uns com os outros, a despistarem-se. E não são eles que ficam feridos. Podem ficar muito amolgados, mas não são eles que ficam feridos, não são eles que morrem, são pessoas que estão lá dentro. Nós temos notícias como esta neste mês de agosto. Eu agora vou ler uma sequência de títulos que acabam atirados lá para o fundo das notícias. Por exemplo, temos dois jovens de 18 anos que morrem em despiste no regresso do Festival Sudoeste. Um motociclista de 32 anos morreu ao início da madrugada na saída da A4, em Penafiel, quando a mota onde seguiu colidiu com um automóvel. E aqui vale deixar claro a situação: a mota colidiu com o automóvel, mas quem morre é o motociclista. Depois temos também uma colisão entre uma mota e um automóvel na zona de Azetão, que provocou outra vítima mortal e mais dois feridos, um deles em estado grave. Depois, cerca das 19h40, dois jovens de 18 anos, um rapaz e uma rapariga, perderam a vida num despiste de carro na IC2, na zona de Alcochete. Também na sequência de um despiste, mais perto da meia-noite, um jovem de 25 anos morreu na vila de Brito, em Guimarães. Na passada terça-feira, dia 2 de agosto, um homem de 81 anos morreu cerca das 22h, na sequência de um despiste no interior da localidade de São Martinho do Porto. No distrito de Portalegre, morreram dois homens em colisões. Uma das vítimas, de 40 anos, conduzia um automóvel quando colidiu de frente com um camião na Estrada Nacional 4. O outro sinistro, para o qual foi dada o alerta cerca das 8h, que vitimou um homem de 72 anos, aconteceu na Estrada Municipal 506. Eu podia continuar aqui a ler a sequência destas notícias. Elas caem com uma regularidade pendular. E há aqui algo que me parece profundamente grave, que é a nossa desatenção destes factos. Aqui estou a falar também da comunicação social, dos jornalistas, dos comentadores. Isto é como se fosse uma guerra com a qual nós já nos habituámos a viver. Em 2019, que é o ano que serve de referência para tudo isto, porque como sabemos, 2020 e 2021, por razões da pandemia, foram anos atípicos. Portanto, em 2019 perderam a vida nas estradas portuguesas 626 pessoas, sendo que estes números podem ser contados de outra forma, porque se contam ou não os mortos e os feridos depois de 30 dias. É claro que quando comparamos com os números de há duas décadas, em que morriam 2 mil pessoas por ano nas estradas portuguesas, estes 626 não são números maus, mas temos de perceber que são números tenebrosos, porque além dessas pessoas que morrem, temos os feridos graves, as pessoas ficam com sequelas para o resto de sua vida. Para o Paulo, que aí está sentado em estúdio, e para as pessoas que se interessam mais depois pela versão disso na área económica, estima-se que o custo económico e social para a sociedade portuguesa da sinistralidade rodoviária equivale a 1,6 do PIB nacional. Portanto, há uma desatenção. Isto, na minha opinião, é uma guerra com a qual nós já nos habituámos a viver e à qual nos tornamos indiferentes, porque estes números, desculpem, não são normais. Suponhamos, nós teríamos dado mais atenção a um morto na Ucrânia, se alguém tivesse morrido, e felizmente não morreu, num destes incêndios, mas estas mortes ao volante, estas pessoas que ficam com sequelas para o resto da vida, foi algo com que nos habituamos a viver, para o qual olhamos com enorme indiferença e, portanto, eu repito aquilo com que comecei. Neste momento, são os condutores de idade inferior a 25 anos que passaram a liderar a tabela de frequência de sinistros de automóvel. Portanto, eu só posso acabar isto com um tudo zero por todos nós.

Há a questão da comunicação e da desvalorização de que tens falado, Helena, mas conseguimos perceber, de facto, o que é que está errado, uma vez que, apesar de tudo, a qualidade das estradas terá aumentado nos últimos anos, a qualidade dos próprios automóveis também terá aumentado. Por que isso não se resolve?

Eu acho que talvez também exista uma cultura de falta de segurança ao volante. A forma como as pessoas conduzem É, de facto, muito perigosa, por outro lado, também não temos tido campanhas a alertar para os perigos e para as consequências de uma condução não prudente. Eu recordo, há vários anos, havia grandes campanhas, algumas até noutros países. Há campanhas muito expressivas a alertar para as consequências de uma condução perigosa, da distração ao volante, várias coisas. Agora as coisas incidem sempre, geralmente, no uso ou não uso do telemóvel, não beba álcool, se beber álcool não conduza, mas muitas coisas não passam pelos média.

Já agora, Helena, eu acho que há uma questão cultural nossa também, de alguma maneira.

Muito claro. Qual?

Não sei se é nossa portuguesa, nossa latina, nossa do sul da Europa. A ideia, por exemplo, da caça à multa, que toda a gente critica. Há casos em que isso é óbvio, de alguma maneira, isto é, em que as autoridades se escondem de propósito. Mas é normal as pessoas serem multadas quando ultrapassam limites de velocidade. Os limites existem para alguma coisa, não é? Mas há sempre uma reação, no fundo, quando as autoridades estão a fazer o trabalho delas, desde a multa de estacionamento, que aí não há um grande perigo de acidentes, mas com manobras e sobretudo a questão da velocidade nas estradas, as pessoas ficam furiosas com os radares e com a chamada caça à multa.

Respondendo àquilo que o Diogo estava a perguntar das causas, eu ainda ontem recebi aqui alguns dados. Só no ano passado, em 2021, 3564 acidentes, daqueles que foram registados apenas pela Guarda Nacional Republicana, tiveram como principal causa o excesso de velocidade ou a velocidade desajustada à via.

3500?

3564.

10 por dia.

Certo.

Ou seja, e num ano atípico, porque o ano passado nós ainda tivemos vários casos de confinamento.

Estivemos dois ou três meses no início do ano remetidos a casa, basicamente.

E atenção, excluindo aqui todos aqueles acidentes que aconteceram na área da PSP. Portanto, é um número expressivo.

O que é que tem muita visibilidade? É, por exemplo, o som, e realmente é muito irritante, alguns condicionamentos de velocidade aqui em Lisboa, por exemplo, não fazem, na minha opinião, aparentemente muito sentido. Muitas vezes, aí nessa perspectiva da caça à multa, temos uma fiscalização muito urbana, que também é necessária, mas muitas vezes até muito caráter burocrático ou administrativo naqueles sítios que nós sabemos que podem multar. Mas há quanto tempo vocês e nós, ou eu, que tenho mais alguns anos, ou bastantes mais anos, lembramos perfeitamente de ver polícia na estrada. Eram as brigadas da GNR, havia muita polícia na estrada. Eu este ano viajei e não se vê.

Não se vê essas patrulhas.

Essa fiscalização na estrada que me parece fazer cada vez mais falta, porque estes números, desculpem, são números de uma guerra, não são números de algo com que nos possamos habituar a viver, portanto zero.

Helena Matos, Paulo Ferreira, Carlos Diogo Santos, Ana San-Lees, Pedro Boucher Mendes, obrigado por mais esta participação no "E o Vencedor é..." Hoje é que eu fiquei a perceber por que o nome do programa não está exatamente correto.