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"E o vencedor é..." Hoje com Judite França, Helena Garrido e Gonçalo M. Poças. Bem-vindos aos três. Hoje temos vários temas aqui em carteira. Temos que falar de uma promessa do ministro das Finanças, de mexidas mínimas do ponto de vista fiscal na proposta do orçamento do Estado para 2026, proposta que vamos ficar a conhecer já nos próximos dias. Também ainda vamos falar de uma vontade de alteração da lei das eleições autárquicas e ainda temos que falar sobre algo que nos perturba a todos, as perturbações no metro de Lisboa. Mas, Judite França, arrancamos, e de novo, com os tempos de espera nas urgências e novamente no Amadora-Sintra.

Não arrancamos pra longe, porque o tempo de espera no Amadora-Sintra para doentes urgentes esta manhã, segundo dados do portal do Serviço Nacional de Saúde, portanto, são os dados mais certos que existem, era de 13 horas, doentes urgentes. Para os que são pouco urgentes, era 17. E estas 13 horas de espera acontecem depois de no domingo o tempo de espera ter sido de 16 para doentes urgentes.

E não estamos a falar de fim de semana, estamos a meio da semana.

Agora estamos a meio da semana. Só pra quem não tem muito claro o tempo do sistema de triagem. As situações muito urgentes têm um tempo recomendado de 10 minutos e as urgentes de 60 minutos. Dá a perceber que isto é o caos e que há problemas no Fernando Fonseca já há muito tempo. Já há muito tempo que tinha equipes desfalcadas, mas agora os médicos são desviados pro novo hospital de Sintra. Há médicos que fizeram a denúncia, que não foram realizados sequer processos de recrutamento pra assegurar médicos para o novo hospital de Sintra. Portanto, esta promessa de aliviar o Amadora-Sintra transforma-se num pesadelo ainda maior, porque sobrecarrega médicos e prejudica doentes. Não trouxe nenhuma vantagem o novo hospital de Sintra, porque no fundo, está a ser garantido pelos médicos do Fernando Fonseca. Enfim, é uma indignação.

Nuno, compreende-se por que o governo demora ou está a demorar tanto tempo a arranjar uma solução pra esse tipo de problemas que eventualmente poderá passar pela concentração de urgências?

Sim, é possível, mas é deste governo como é de tantos outros.

Mas este, vou usar aqui uma expressão do Chega, prometeu limpar este problema.

Sim, em 60 dias, exatamente. É certo, mas isso é um problema de credibilidade de todos os governos. Na verdade, todos os governos prometeram aumento de médicos de família, a resolução dos tempos de espera, das listas de espera.

Ninguém os obrigou a prometer.

Exato. E na verdade as coisas parecem que vão ficando sempre piores, aqui com algumas nuances. Alguns períodos vão melhorando, noutros vão piorando, mas de fato as coisas não estão ótimas. Por que que acontece? Eu não consigo explicar isso. Acho que há aquele problema de gestão, que eu acho que é mais ou menos consensual e reconhecido, que não tem a ver com a capacidade dos profissionais em concreto, os médicos, enfermeiros, auxiliares, etc. Mas há, no SNS, como em muitas coisas por este país fora, um problema de gestão, de organização, de funcionamento. Normalmente olhando pra essas coisas, não me parecem muito difíceis de resolver, tendo em conta o grau de complexidade que naturalmente o SNS tem, mas os problemas de gestão normalmente resolvem-se gerindo. Não me parece uma coisa especialmente extraordinária. Por quê? Não sei. A ministra da Saúde também não me parece, neste momento, a pessoa com mais capital político para tomar decisões, seja a este ou a qualquer outro propósito. O governo vai continuar a ter este problema por resolver. Não vejo nada no horizonte.

Helena, não era de esperar? O problema está identificado, estamos sistematicamente a falar disto, fim de semana após fim de semana, agora semana após semana, e parece que realmente nada acontece.

É uma incapacidade incompreensível, de fato. E se a ministra, se o governo não conseguir reorganizar os serviços, e aí a concentração de urgências parece-me fundamental, nós não vamos ter solução pra este problema. Nós chegamos a um ponto em que isto, obviamente, resulta da falta de planeamento do país. Isso acontece no setor da saúde, como acontece no setor da educação, onde faltam professores. Como acontece na habitação. Os problemas para estarem resolvidos, às vezes exigem planeamento. Resulta também de uma cedência que foi sendo feita por sucessivos governos às corporações. O Estado Novo parece que não saiu de nós, apesar de nós termos saído do Estado Novo. E este problema vai ter de ser um problema de racionalização de recursos. Como é que o governo vai conseguir fazer isso com o poder que ainda têm as corporações, e falo, por exemplo, da Ordem dos Médicos e alguns sindicatos, vai ser muito difícil, mas vai ter de o resolver. E se não o resolver, este problema da saúde é um dos problemas que preocupa mais as pessoas, naturalmente. Porque todos nós precisamos de serviços de saúde, andamos muito tempo a discutir privado, público.

E mina a confiança no sistema. A confiança dos cidadãos no sistema, que não sabem se vão ser atendidos, se não vão.

Exatamente.

Esta dúvida instala-se.

Completamente. E num quadro como aquele, o quadro político em que nós vivemos, com os populismos em crescimento, não resolver um problema desta natureza e estarem as notícias Sobre problemas na saúde, sempre, todos os dias, a mostrar às pessoas e a transmitir essa insegurança às pessoas, é um rastilho para este votar contra estas pessoas, entre aspas, que não lhes conseguem resolver os problemas fundamentais. É muito importante que este problema seja resolvido e seja bem resolvido.

Judite, vamos à tua nota para este tema.

Para isto que acontece no Amadora-Sintra, eu só posso dar um zero, porque eu não entendo porque a abertura de um novo hospital, quando o Amadora-Sintra já funcionava como funcionava e agora funciona ainda pior.

Avançamos, Helena Garrido. Há uma promessa do ministro das Finanças de alterações fiscais mínimas na proposta do Orçamento do Estado, que vamos conhecer daqui a alguns dias.

No dia 10 de outubro, no dia em que acaba a campanha eleitoral. Vamos ver o que é que o governo vai anunciar nesse dia.

Ora, alterações fiscais mínimas é uma boa promessa para uma proposta de Orçamento do Estado. Eu faço esta pergunta no sentido de que a proposta do Orçamento do Estado tornou-se, daqui há uns anos desta parte, uma espécie de bíblia do governo do ano.

E dos parlamentares, e dos partidos.

É ali que está tudo. Não é apenas um orçamento.

Eu diria que é, se o governo conseguir respeitar esse compromisso, o ano passado não conseguiu, com aquelas regras que depois aprendem que se chamavam cavaleiros, qualquer coisa desse género.

Cavaleiros orçamentais.

Os cavaleiros orçamentais. Isto é um tema que eu ouço falar desde o tempo de Sousa Franco.

A ordem de cavalaria.

Exato, a ordem de cavalaria. Eu ouço falar deste tema desde que Sousa Franco foi ministro das Finanças, já foi há alguns anos, que o Orçamento de Estado não deve servir para fazer alterações no quadro jurídico dos códigos dos impostos.

Deve ser um orçamento.

Deve ser um orçamento, como o ministro, aliás, disse, e vai. Deve ser um orçamento que define o teto das despesas e faz a previsão das receitas, porque o facto do orçamento servir para fazer mudanças no quadro legislativo fiscal, num momento em que está tudo a olhar para o Parlamento, incentiva muito os partidos a mostrarem trabalho. E mostrar trabalho, já se sabe, com os governos e com os deputados, é legislar. Quando o que nós precisamos não é de mais legislação e de alterações à lei. Isso parece-me uma ótima notícia. Esperemos que o governo cumpra, que consiga fazer alterações mínimas. Quais são essas alterações mínimas? É atualizar os escalões de IRS de acordo com a inflação. Isso até já está, neste momento, na lei, vai passar a ser obrigatório. Alterações que passem apenas por reajustamentos. O que eu penso, e aqui já é questão conjuntural, isto parece-me uma ótima notícia. Há muito tempo que se fala que era necessário fazer isso. Vamos lá ver se o governo consegue cumprir e os deputados também. O que me parece que o governo e principalmente o ministro Joaquim Miranda Sarmento devia ser mais claro, é em relação ao que é que vai fazer no IRS, porque o governo prometeu que a fatura fiscal ia diminuir € 500 milhões no próximo ano. Há já 111 ou € 116 milhões comprometidos com o Chega e o ministro continua a ser muito ambíguo, mesmo no que disse hoje, e não se percebe se de facto vai respeitar o compromisso que vai no programa eleitoral e depois no programa de governo da redução do IRS.

Nuno.

Só uma nota muito rápida sobre isso, porque de facto eu percebo a lógica da simplificação, das alterações mínimas, e até porque neste momento há uma maioria parlamentar que eu acho que de alguma maneira poderia estar de acordo com isso, eventualmente até juntar o PS a tudo isso, e fazer uma coisa que se fala cá há muito tempo e que as coisas, ao contrário, vão ficando também sempre cada vez piores, em vez de melhorarem, que tem a ver com o processo de simplificação da legislação fiscal. Porque às tantas ninguém sabe o que é que vale. Os próprios fiscalistas, contabilistas, auditores, etc, anda toda a gente sempre um bocado sem saber muito bem. Depois a Autoridade Tributária também tem os seus entendimentos e isto é, no fundo, sempre uma selva um bocadinho incompreensível.

Mas tem sempre aquele e-mail quando fazes aquela pergunta à Autoridade: "Isto pode ser assim, pode ser assado", aquela notinha no e-mail que, atenção-

Não é vinculativo

...esta opinião não é vinculativa.

Não é vinculativo. Eu uma vez tive uma funcionária das finanças que me disse assim: "Mas isso é o que diz a lei, mas nós aqui temos procedimentos."

Procedimentos.

E eu meti a viola no saco e cumpri o procedimento. E deixei a lei lá para trás.

Compra primeiro e reclama depois.

Exatamente. Primeiro paga e depois reclama.

Eu acho que isso não é uma má política.

Mas enfim, eu ia deixar aqui só esta nota. Há uma maioria parlamentar suficientemente grande para isso.

E há esse compromisso, penso eu, da simplificação.

E ainda temos de ir ao metro.

A questão da simplificação era uma ótima ideia, a questão de não meterem tudo dentro do orçamento também era uma excelente ideia, e no fundo, nada disto acontece de um ano para o outro. Portanto, tu estás com fé, Helena, que o governo consiga simplificar alguma coisa neste orçamento?

Eu penso que provavelmente neste pode fazer.

Mas tens os partidos a apresentarem centenas e centenas de alterações.

Tenho dúvidas que isto seja. Tinha de haver, de facto, aqui um acordo de regime, como se costuma dizer.

Não existe no país, infelizmente.

E tens uma nota para isto?

Tenho uma nota para o ministro Joaquim Miranda Sarmento, que seria um 12 na expectativa que ele cumpra. Não é uma nota mais alta, porque ele tem sido muito ambíguo em relação à questão da receita do IRS. Vai descer ou não?

E aproveitamos agora para falar sobre o metro de Lisboa e das perturbações na circulação, perturbações que causam muitas perturbações a quem anda de metro e segundo os dados disponíveis, e os dados não são recentes, encontrei só dados do início do ano passado, podemos estar a falar em média de 450 mil passageiros por dia no metro de Lisboa. Nuno, quão perturbado estás com as perturbações na circulação? Não sei se queres incluir neste rol de perturbações as escadas rolantes da Baixa-Chiado.

Agora sim, uma matéria de sua preferência.

Essa é horrível.

A da Baixa-Chiado é muito pior. Mas eu acho que não há uma estação de metro que tenha as escadas rolantes todas a funcionar. Eu uso várias estações do metro ao longo do dia, enfim, uso mais duas, mas uso algumas, e nunca há uma estação de metro que esteja tudo a funcionar. Ou os elevadores, há sempre qualquer coisa que está errada. Mas eu tinha essa percepção que me é causada por andar de metro todos os dias, e como há mais de 20 anos que uso o metro todos os dias, tenho sentido que as coisas também se têm agravado nesse sentido. Nós hoje estamos numa maré de coisas que pioraram.

Reina otimismo neste programa.

Exatamente. Descobri que alguém se deu ao trabalho e criou um site que se chama perturbações.pt, que parece uma coisa meio da psicologia, mas não é. Fui ver por curiosidade e não, de facto, é sobre as perturbações na linha do metro de Lisboa.

A sociedade civil é incrível.

Exatamente. Há um espírito empreendedor em cada um de nós. Eu estava a ver os dados que aqui estão. Perturbações na última semana: na quinta-feira, dia 25, houve perturbações em todas as quatro linhas, na azul uma vez, na amarela duas vezes, na verde duas vezes, na vermelha uma vez. Na sexta houve perturbações na linha azul e na linha amarela. No sábado houve uma perturbação na linha vermelha. No domingo houve uma perturbação na linha vermelha. Na segunda não houve perturbações.

Olha!

Que bom!

Na terça houve uma perturbação na linha azul e hoje, quarta-feira, dia 1 de outubro, houve uma perturbação na linha azul, que eu apanhei porque foi logo de manhã muito cedo, e na linha amarela e na linha verde. Portanto, só a linha vermelha é que não teve ainda perturbações hoje, se afosse.

Pelo menos não há registo ainda.

E aparentemente, a disponibilidade na última semana, eu no final não vou dar uma nota péssima a isto, porque apesar de tudo, as percentagens de funcionamento e disponibilidade são elevadas. Mas há aqui uma nota importante: que as perturbações duram em média, na linha azul, na última semana, 61 minutos, na linha amarela, 90 minutos, na linha verde, 116 minutos e na linha vermelha, 169 minutos.

169?

169 minutos.

São mais de três horas.

É mais de uma hora, sempre.

Sim. A linha vermelha, curiosamente, é a linha que vem do aeroporto. Também há aqui uns dados interessantes relativos ao tempo de espera entre cada comboio.

Entre cada metro.

Entre cada metro. E o tempo médio entre cada viagem na linha vermelha, que é de onde vem uma avalanche de gente, que está quase à volta dos sete minutos, incluindo em horas de ponta, e portanto, que tudo aquilo demora muito tempo.

É muito tempo.

Isto significa que há muita gente a usar o metro ao mesmo tempo. E depois quando se sai do metro, as escadas rolantes não funcionam.

E a malta toda tem malas.

E do metro vai tudo cheio de malas e depois as pessoas zangam-se.

E perturbam-se.

E perturbam-se e chateiam-se com estas coisas.

Então, que nota é que tu tens para essa perturbação?

Vou dar um nove, uma nota negativa, mas apesar de tudo, a coisa não é horrível.

Não é a saúde.

Exato, é isso. Atrapalha muito a vida das pessoas, é um facto.

Não é tão grave.

Mas não é assim tão grave, apesar de tudo há meios.

Isso quando não vais beber café à brasileira.

Não vou.

E tens que subir três lances de escadas, que as escadas estão paradas. Aí não sei se dás só nove. Bom, já voltamos para a segunda parte do "E o Vencedor É". Antes, às 18h30, vamos atualizar as notícias. Segunda parte de "E o Vencedor É", hoje com Judite França, Helena Garrido e Nuno Gonçalo Poças. Vamos olhar agora para uma possível alteração da lei eleitoral autárquica para o futuro, não para estas de 12 de outubro. Judite França, ajuda-nos aqui primeiro a perceber o modelo que temos hoje, que não é assim às vezes tão fácil de entender como se julga, e qual é a ideia de proposta para o futuro?

A proposta é rever a lei que regula a eleição dos titulares dos órgãos das autarquias locais. Como é que funciona? Deixa-me só fazer aqui uma comparação.

Estou a rir porque já não é fácil.

Espera aí.

Estamos a falar de um projeto de lei antigo apresentado pelo PS e pelo PSD, que nunca avançou E que sugeria que a formação do executivo municipal surgisse a partir dos eleitos da assembleia municipal, equiparando o modelo de eleição ao das assembleias de freguesia, que já funcionam assim. Isso obrigava que os partidos negociassem, o que era interessante, porque é uma coisa que hoje em dia não interessa. O que interessa é quem ganha, portanto, não vale a pena estar a fazer.

Quem ganha a Câmara.

Quem ganha a Câmara.

Exato.

E depois quem ganha a assembleia municipal ou quem ganha a assembleia de freguesia.

Que é o caso de Carlos Moedas em Lisboa, que não tem uma maioria entre os vereadores.

Claro. Certo. Mas aquilo que eu estou a olhar é para a ideia da assembleia.

Deixa os ouvintes respirar um pouquinho agora, que estão com um nó na cabeça. Ok, vamos continuar.

Isto obriga a negociações entre os partidos para formar eventuais maiorias, o que seria interessante, porque nas assembleias de freguesia já funciona assim, porque aquilo depois resulta no executivo da junta. Ou seja, é uma lista única e essa lista única tem pessoas de vários partidos. E isso não deixa de ser interessante. É evidente que ela é proporcional, mas não deixa de ser interessante. Temos José Luís Carneiro, que é favorável a esta alteração, não sei se exatamente nestes moldes. Tens um problema com isto, que exige um entendimento de-

Dois terços.

Sim.

Ou seja, PS e PSD não chegam.

PS e PSD não chegam, portanto precisavas de Chega ou IL ou Livre. Para conseguir teres, precisas de dois terços dos deputados presentes.

E há possibilidade disso acontecer?

Há possibilidade disso acontecer, até porque tu tens o Livre, que também está disponível para trabalhar sobre este assunto. Portanto, pode acontecer, de facto, teres aqui a capacidade de olhares para os municípios. Nós quando olhamos para os municípios, parece que temos uma Câmara alta e uma Câmara baixa. É um sistema dual que não há necessidade de existir.

Os vereadores para um lado e a assembleia municipal.

Para o outro. E, portanto, a ideia é transpor o exemplo da assembleia de freguesia para o executivo camarário.

Queres dar alguma nota a esta possibilidade?

Não, eu acho que isto é interessante, mudar a lei. Eu acho que a lei é confusa como está. A forma como as pessoas têm que eleger os seus representantes também é confusa e, portanto, eu acho que isto é uma boa, eu dou um 14 a esta-

Esta vontade.

Esta vontade de ser possível. Esperemos que PS e PSD se consigam entender, coisa que até agora nunca conseguiram.

Há tanta coisa para mudar na lei eleitoral, que estamos aqui sistematicamente a falar dessas alterações que acabam por não acontecer. Entretanto, uma das notícias que marcam esta tarde é de mais uma saída do Tribunal Constitucional. Há mais um juiz a renunciar, depois de Gonçalo Almeida Ribeiro, agora é Telos Pereira que renuncia ao mandato. Nuno Gonçalves Possas, estas renúncias feitas com estrondo, porque não há substituto, e estas pessoas estão a aguardar há semanas, meses, talvez, por um substituto no Tribunal Constitucional, que não é um órgão qualquer. O que isso diz do sistema? A minha pergunta vai neste sentido: é porque não há alternativa, porque é preciso agora também ter o Chega nesta solução e tudo isto complica, mas é um dos órgãos principais do país, se não um dos mais importantes. Deveria ser fácil conseguirmos arranjar alguém notável para ocupar este lugar.

Devia. Eu acho que não é assim tão difícil quanto isso. Nós podemos queixar-nos muito da falta de pessoas hoje em dia disponíveis para ocupar determinados cargos que dependam mais diretamente de nomeações políticas, etc., porque não querem ficar coladas a este ou àquele, àquela escolha.

Ser escrutinadas, enfim.

Embora isso também possa levar aqui outra discussão, um bocadinho na linha desta questão da eleitoral autárquica, que eu acho que também não seria absurdo repensar o método de escolha dos juízes do Tribunal Constitucional. E no fundo, torná-lo um tribunal constitucional menos dependente.

Não tão político, é isso?

Não tão político, não tão dependente da vontade dos partidos. Se calhar, eventualmente, agora até podia ser uma boa oportunidade para o fazer. Mas eu não consigo perceber muito bem, até porque os partidos também não têm sido muito abertos sobre isso. Está toda a gente a fazer de conta que o problema não existe e os juízes acho que fizeram muito bem em bater com a porta. São mandatos longos, ainda por cima, estamos a falar de mandatos de nove anos.

Estão fartos.

Já passaram dois ou três meses desde o final do mandato e o Parlamento continua sem fazer aquilo que lhe compete, que é substituir aquelas pessoas.

Era mais fácil quando isto era só decidido entre PS e PSD.

Pois, mas isso é a vida.

É. Mas por que não se resolve? Não se resolve por causa disso. Não se resolve porque o PSD não está com muita vontade de negociar com o Chega.

Parece-me que isto tem algo aqui, também há provedor, que ainda não foi escolhido.

E no caso da Provedoria, temos uma longa tradição de mandatos que se arrastam muito para além do desejável.

Exato. O que me parece existir aqui é, se quiseres, os sinais do tempo, que é preciso entendimentos neste momento com o Chega Estas nomeações, uma vez que isto exige a maioria de dois terços, sem o Chega não se consegue chegar lá. Não se conseguindo chegar lá, o que me parece é que pode existir aqui sinais de não existir um entendimento com o Chega em relação às pessoas que eventualmente o Chega esteja a escolher para estes cargos que podem não conseguir a tal maioria de dois terços, porque eles têm de ser votados no Parlamento.

Ou seja, o problema é do escolhido.

Pode ser o problema do escolhido não conseguirem chegar a entendimento em relação às pessoas que estão a identificar, nomeadamente para o Tribunal Constitucional.

Já houve um problema de escolhas quando foi este governo-sombra, que já se percebeu que foi tirado a ferros.

É aí porque os escolhidos não querem ficar com a etiqueta de "é o juiz do Chega"?

Desculpa?

É aí porque os escolhidos podem não querer ficar com a etiqueta de "este é o juiz do Chega"?

Não, eu pensei que pode ser porque as pessoas que o Chega vai encontrando são pessoas que podem não passar no Parlamento com os tais dois terços. Isso pode ser o mais complicado. Nós, aliás, vemos pelo governo-sombra, como a Judite aqui chamou a atenção, que o Chega continua a ter muitas dificuldades de atrair quadros que sejam de referência. É verdade que nós agora o candidato a presidente à Câmara do Porto, o candidato à Câmara de Lisboa, têm ensaiado ou têm feito uns discursos que não são tão gritaria, nem sei como classificar, que nós temos assistido nos últimos tempos no Parlamento por parte de alguns deputados, mas o Chega e Rita Matias têm referido às vezes isso, que é muito difícil atrair pessoas. Pode haver várias razões, razões de as pessoas não quererem ser identificadas como sendo do Chega ainda, vamos ver. E pode ser razões mesmo de convicção, de que com este grupo não querem, com estas ideias também não querem. Mas aquilo que nós temos neste momento, e pode ocorrer, é algum bloqueio no funcionamento das instituições, e é isso que está a acontecer praticamente.

Mas a questão é essa, que o jogo não está a ser muito transparente. Eu consegui mesmo, assim de repente, viram-me aqui à baila alguns nomes de constitucionalistas que acho que não rejeitariam a possibilidade de ser juiz do Tribunal Constitucional se fossem indicados pelo Chega, ou pelo PSD, ou outra coisa qualquer. Portanto, não excluo essa hipótese do Chega de facto estar a apresentar um senhor que é pedreiro para ser juiz do Tribunal Constitucional. E é normal que os outros rejeitem.

Não, não é nesse sentido, é mais pessoas controversas do ponto de vista da ideia de pensa.

Sim, mas esse é um problema que já vem de trás e ainda não dependia do Chega, porque na verdade começou-se a levantar esse problema da personalidade controversa que não podia ser juiz do Tribunal Constitucional, porque tinha opiniões que o outro lado não concordava.

Isso aconteceu, não é?

Isso aconteceu várias vezes nos últimos anos, mas antigamente isso era uma questão que não se colocava em cima da mesa. O objetivo de ser juiz do Tribunal Constitucional não é transportar uma visão política que seja unânime naqueles 13 juízes.

Exatamente, era a pergunta que te ia fazer. É suposto terem convicções diferentes ou não?

Exato. É suposto mesmo. Aliás, a própria natureza política do Tribunal Constitucional como está neste momento, é suposto que ela exista. O que nós não podemos é continuar, como estavas a dizer, Judite, a achar que o mundo de hoje, de 2025, é o mesmo de 1995, em que o PS e o PSD se sentavam, naquela gente conhecia-se toda, tinham sido todos colegas de curso.

Tal e qual.

Se não gostavam mais, gostavam menos, mas aquilo estava tudo bem, agora vais tu, depois vou eu, e a coisa ficava mais ou menos resolvida assim. Agora já não estamos aí.

A alternativa de explicação é incompetência. Por que nunca mais escolhem as personalidades?

Não, é incompreensível, de facto.

Judite, mas a Helena fala aqui de incompetência. Será mais incompetência do que incapacidade?

Independentemente de incapacidade ou incompetência, vai ter que acontecer.

Porque não deixa de ser curioso que no momento de maior pluralidade, se quisermos, temos três grandes partidos no jogo. Tínhamos dois, passámos a ter três.

Mas não sei se teremos quadros para tantos.

Se torna cada vez mais complicado. Estamos a falar do Tribunal Constitucional, mas há outros institutos públicos e outros organismos públicos para os quais é difícil encontrar pessoas. Consensos, neste caso.

Mas o Chega tem direito também a lá meter alguém e portanto isso vai ter que acontecer e PS e PSD vão ter, de facto, que ter essa perceção da nova realidade. Eu acho que o PSD já entendeu e acho que o Partido Socialista é o que tem feito aqui uma maior resistência.

Vamos a notas para este impasse ou para estas renúncias? Judite, Nuno?

Eu dou a estas renúncias um 16, porque eu acho que faz sentido, acho que as pessoas têm direito a já estarem fartas e já terem cumprido o seu mandato e portanto já terem feito o seu trabalho com zelo, portanto está na altura de, por exemplo, irem para casa. Têm esse direito.

Sentem-se desrespeitadas desse ponto de vista.

Sim, o facto de ter acontecido no mesmo dia em que é nomeado um vice-presidente do Tribunal Constitucional, é evidente que é um statement também.

Claro. Helena, queres dar uma nota? Acompanhas?

Sim, eu sigo a Judite, um 16.

As renúncias, sim, mas eu acho que para a falta de decisão devia-se dar aqui uma espécie de nota, um ponto a menos por cada semana que passava.

Uma nota que vai baixando.

A incompetência pode mesmo ser a explicação. Veja-se o que se passou com a escolha do governador do Banco de Portugal.

Sim, é verdade.

Incapacidade, pode ser.

É possível.

Fica no ar, como diz o outro. Obrigado a todos e o Vencedor regresso amanhã, depois das 08:30, nas manhãs 360 da Rádio Observador.