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Todas as manhãs, 360, avaliamos e pontuamos os protagonistas da atualidade. Hoje: o vencedor é com José Manuel Fernandes, Sara Antunes de Oliveira e Rui Pedro Antunes e claro, com Paulo Ferreira e também com Carla Jorge de Carvalho, que põe estas pessoas na linha, a nossa moderadora. Bom dia.

Vai tentando. Bom dia a todos. Na semana em que se assinala o aniversário da chegada do primeiro caso de infecção por Covid-19 em Portugal, é inevitável olharmos para o tema, até porque hoje Marta Temido dá uma entrevista à Agência Lusa, que é também uma espécie de balanço destes 12 meses. Sara, bom dia, vamos começar por ti, porque queres debruçar-te sobre as palavras da Ministra da Saúde.

Bom dia. Especificamente sobre uma passagem desta entrevista que me deixou meio, nem vou usar uma expressão, porque eu nem sei muito bem como é que fiquei. Marta Temido, a dada altura questionada sobre o Natal, e já ouvimos muitos responsáveis políticos falar sobre o Natal, até mesmo na oposição, e sobre que erros foram cometidos. Marta Temido diz: "Eu acho mesmo que ainda é muito cedo pra perceber o que aconteceu no Natal". E diz também: "Não tenho ainda uma percepção exata de alguns fatos". Nós estamos a caminho de uma nova fase de desconfinamento, que o próprio governo diz que é tão delicada que nem apresenta já um plano pra esse desconfinamento, porque isso pode passar uma mensagem errada e as pessoas começarem a desconfinar. Todos os especialistas, e até responsáveis políticos, são unânimes em dizer que a Páscoa é um risco, é um desafio, é um problema potencial e, portanto, nós temos mesmo de ter cuidado com a Páscoa pra não acontecer aquilo que aconteceu no Natal. E a Ministra da Saúde vem dizer que ainda é cedo pra perceber exatamente o que aconteceu no Natal. Eu não sei o que dizer em relação a isto, por duas razões. Primeiro, porque se ainda não percebeu, já devia ter percebido. Perceber exatamente qual é o problema é a primeira regra pra o resolver. E a única forma para corrigir um erro e tomar novas decisões é perceber por que aconteceu um erro. E se a Ministra da Saúde, em março, ainda não percebeu exatamente o que aconteceu no Natal, isto é um problema muito grave, porque o Natal foi uma das razões pra nós termos tido a terceira vaga que tivemos, o nível de mortalidade que tivemos, a rutura muito próxima do Serviço Nacional de Saúde que tivemos. E depois, se não percebeu, dizê-lo assim, numa fase destas, em que nós já percebemos que muitas pessoas até já começaram a desconfinar e, portanto, percebemos que a Páscoa vai ser mesmo um momento muito difícil. Dizê-lo permite que quem tem a tradição de passar a Páscoa em família e com a família alargada, possa dizer: "Bom, se calhar vou fazer o mesmo". Porque eles ainda nem sequer sabem bem se o problema do Natal foi mesmo estarmos todos juntos. A senhora ministra acabou de dizer. Eu não faço a menor ideia de como é que Marta Temido pode dizer uma coisa destas nesta fase. Não faço a menor ideia como é que isto é possível, mas tenho uma recomendação. O Observador começou a publicar ontem à noite um livro branco da pandemia, como sabem, é um documento de trabalho que serve pra analisar os problemas, identificar as várias dimensões dos problemas, chegar a conclusões e fazer recomendações pra eles não se repetirem. O primeiro, nem de propósito, é sobre a estratégia de confinamento e desconfinamento. A Ana Kotovic e a Tânia Prairinha falaram com especialistas, um painel de especialistas que ajudou a analisar o problema, nomeadamente do Natal. Está lá as várias dimensões, os vários problemas e o que fazer pra não repetir. Se a senhora ministra ainda não percebeu qual foi o problema do Natal, exatamente, não tem a percepção exata de alguns fatos, eu aconselho a ler o trabalho, porque talvez se evite repetir o problema já na Páscoa.

Aliás, um dos pontos desse livro branco tem a ver também com a estratégia de comunicação do governo. Esta afirmação de Marta Temido vem baralhar também nesse sentido, na tua opinião, Sara?

Sim, porque repara, era aquilo que eu dizia, Inês. Agora, uma família que esteja a pensar na Páscoa, juntar toda a gente, por que não tem legitimidade pra dizer isto que eu dizia que é: "Então, mas por que nós não devemos estar todos juntos?" Porque, afinal, o governo ainda nem percebeu se no Natal foi mesmo aquilo que a ministra diz. Bom, a nova variante, já todos percebemos que a nova variante estava identificada, mas mais do que isto, olha, até neste livro branco da pandemia, os especialistas com quem nós falamos diziam: "Esqueçam a nova variante. Os números que existiam à data já seriam suficientes pra não se ter aliviado as medidas no Natal, não era preciso saber da nova variante." Mas pronto, avancemos. Depois o frio, que diz Marta Temido, às vezes é ridicularizado, mas também é um problema. E depois, a menor disponibilidade pra adesão às medidas de proteção. Depois continuamos a falar desta maneira com as pessoas. Não faz sentido nenhum dizer isto numa altura em que as pessoas deviam ter todas na cabeça uma mesma ideia. Isto funcionou porque confinamos. Se desconfinarmos mal, vamos ter um problema ainda maior. Vamos, por favor, cumprir aquilo que estamos a fazer e respeitar o plano que vier por aí. E não é isso que temos ouvido.

Não tens palavras para essa afirmação da ministra, mas tens pontos.

Tenho uma nota, porque tem que ser. Eu acho que vai um cinco, até porque há outras partes da entrevista em que a senhora ministra não está tão mal como nesta. Mas pronto.

Não consigo perceber como é que Marta Temido diz uma coisa destas nesta altura.

Paulo, fala.

Ainda por cima é o enésimo membro do governo a ter uma ideia sobre o que se passou no Natal.

Ainda para mais, não há uma pergunta.

Siza Vieira já o disse ao New York Times, Augusto Santos Silva à CNN, se não me engano, Eduardo Cabrita diz que foram os portugueses, a culpa é dos portugueses que não perceberam a mensagem.

Mas Eduardo Cabrita, pelo menos, tem uma razão.

Tem, apresenta uma causa.

Paulo, pelo menos aqui a culpa não é dos economistas.

De todo. Mas Marta Temido pode encontrar essas explicações na própria sala do Conselho de Ministros, vira-se para os colegas e diz: "Querem me explicar o que se passou no Natal?" Há lá quem tenha tese sobre isto.

Não consigo perceber. E depois diz outra vez aquela coisa que nós já ouvimos do primeiro-ministro, por exemplo, que é: "Assumindo, obviamente, as responsabilidades por tudo o que possa ter sido decidido incorretamente ou imprevidentemente", que é quando ouvimos António Costa dizer: "Não, se quiserem arranjar um culpado, se for mais fácil e positivo pra toda gente, está aqui o vosso culpado." E ainda não perceberam que as pessoas não estão à procura de um culpado para o pendurar no pelourinho, porque nem sequer estamos nessa fase. As pessoas querem é perceber que alguém está a olhar para as decisões, a avaliar as decisões e a tomar novas decisões de forma ponderada. E que dispensamos todos este tipo de declarações de: "Se quiserem, eu assumo as responsabilidades pelo que possa eventualmente ter sido decidido incorretamente." Isso é que nós dispensamos.

José Manuel Fernandes, e o teu vencedor? Queres também debruçar-te sobre este ano de pandemia em Portugal?

Sim, e vou também pegar nesta entrevista, não vou pegar por este ângulo, mas vou pegar por um outro, que foi a certa altura, a ministra disse uma coisa que também me deixou bastante surpreendido. Foi que podia sempre ter sido feito mais, mas não foi feito mais porque não faltaram meios financeiros. Ora, isto também me deixou bastante surpreendido, porque o orçamento do Ministério da Saúde na área do investimento ficou por cumprir. E não foi o orçamento suplementar, foi o orçamento inicial, o orçamento feito antes de saber que ia haver pandemia. Portanto, aquilo que estava previsto investir no SNS antes de saber que ia haver pandemia, não chegou sequer a ser gasto. Portanto, eu pergunto, interrogo, se aquilo que foi posto no orçamento antes de saber que ia haver pandemia e, portanto, antes de saber que ia ter que ser gasto mais dinheiro por causa da pandemia, era tão para inglês ver que estava lá mesmo só para enganar os parceiros da Gingonça, que não contava para nada. Se aquilo que foi posto depois, que era pra reforçar o SNS no ano da pandemia. Já nem sei o que lhe hei de chamar, mas depois o que é facto é que nós soubemos que durante o ano houve necessidade de fazer muitos investimentos e em muitos sítios houve muitas necessidades que não foram logo supridas rapidamente. Houve muitas contratações que não foram feitas rapidamente, houve muitas necessidades, por exemplo, as necessidades de rastreamento, que podiam ter sido feitas através de contratações feitas sem ser dentro da administração pública, feitas através de contratações temporárias, que podiam ter sido feitas com meios financeiros.

José Manuel, mas aí o que falhou foi a falta de meios financeiros ou a falta de meios humanos?

Os meios humanos vêm com meios financeiros. É preciso pagar os meios humanos com meios financeiros. Agora, quando o ministro das Finanças tem sempre a mão na chave do tesouro. Portanto, nunca liberta os meios financeiros e o dinheiro não chega ao terreno. As pessoas têm sempre que pedir autorização a alguém pra libertar esses meios financeiros. E aquilo que muitas vezes eu ouvi dizer é que esses meios financeiros não eram libertados rapidamente. E o que é facto é que houve falta deles. E eles não se gastaram. Não se gastaram porque há duas hipóteses: ou porque houve incompetência, pura e simples, eles não foram pedidos, ou já está tão entranhado na máquina pública que eles não existem e, portanto, nem sequer são pedidos. Ou então alguém os fechou, não os largou a tempo, ou a máquina burocrática está tão emperrada que já leva tanto tempo a chegar. Agora, o que é facto é que houve sítios onde eles claramente eram necessários. Um exemplo: sabia-se há muito tempo, no Amadora-Sintra, que havia um problema que mais tarde ou mais cedo ia estourar com a rede de oxigênio, que acabou por estourar agora em janeiro. Portanto, esse problema poderia ter sido resolvido com antecedência, porque a administração do hospital sabia que aquele problema existia e estava identificado. Soubemos disso quando Perguntámos então por que ele não se tratou antes. Ele estava identificado. Podia ter havido ali um investimento para que ele não tivesse ocorrido da forma como ocorreu. No entanto, não houve nenhum investimento para procurar supri-lo. Durante o famoso planeamento para tentar suprir as necessidades em unidades de cuidados intensivos durante o verão, para que tivéssemos mais durante o inverno e não se tivesse improvisado tanto à última hora a criar unidades de cuidados intensivos de recurso, ele só foi feito à última hora. Não houve falta de meios financeiros. Eu, sinceramente, não acredito nisto, porque a execução orçamental mostra que não se gastou o que estava previsto gastar. Só há duas hipóteses: ou foi por incompetência, ou foi porque alguém tinha a mão no cofre e não a deixou abrir o cofre.

Eu aposto mais na primeira, confesso. Não digo que a segunda não exista, mas eu acho que a desorganização e falta de planeamento é tão grande, que às vezes nem que gastar dinheiro sabemos.

As duas hipóteses são possíveis. O Estado é tal, que já nem sabemos o que é gastar dinheiro.

Marta Temido diz: "Atenção que gastar muito não é a mesma coisa que gastar bem". Diz qualquer coisa assim do gênero. O problema, então, é de identificar coisas em que se gastava bem. Coisa que não me parece ser uma coisa muito difícil de identificar na situação em que estamos.

Não é muito difícil de identificar. Aliás, a gente sabe que em alguns casos gastou-se mal, porque andaram a comprar ventiladores que até hoje estão por instalar e utilizar.

Nesta situação, porque nós escolhemos ângulos muito específicos e questões muito específicas para dar as nossas notas, até pode parecer que nós achamos que este ano foi um passeio no parque para qualquer ministro da Saúde em qualquer lugar do mundo.

Não, ninguém sugere isso.

Não é verdade. Toda a gente sabe que esta é uma fase muito difícil, que Marta Temido tem uma tarefa gigantesca, que em várias coisas terá estado bem, noutras terá estado mal. Ninguém ignora isso. Agora, depois, quando vamos falar sobre os assuntos, não nos digam estas coisas assim, porque nós não temos a tarefa, mas estamos a ver como as coisas estão a ser feitas e merecíamos um bocadinho mais e um bocadinho melhor da descrição que é feita por parte dos nossos governantes daquilo que estão a fazer. É só esse o ponto. E com isto tudo e com as tuas críticas, José Manuel Fernandes, quem colocas como vencedor, perdedor? Vais dar a nota à ministra?

Tenho que dar nota à Marta Temido. Eu não sou tão severo como a Sara desta vez. A Sara foi até agora a única que deu um 20, penso eu. Depois talvez mais algum 20.

É segunda-feira de manhã, José Manuel.

Não dou cinco à Marta Temido por causa disto, dou oito. Sou mais generoso hoje.

És mais generoso para a Ministra da Saúde. Hoje dá uma entrevista a que nos temos debruçado muito neste vencedor. Rui Pedro Antunes, é por aqui também que fazes o balanço da pandemia ou vais buscar outros protagonistas?

Na verdade, eu queria dar nota a António Costa, mas é irresistível dar nota à Marta Temido e fazendo aqui um bocadinho aquela coisa do-

Como é segunda-feira, até podes dar aos dois.

É isso, mas fazendo aqui um pouco o preço certo, como a Sara deu cinco, eu posso dar um quatro. Como falei depois, posso dar um número abaixo.

Tu estás mesmo...

Estou mesmo, porque, para usar aqui a gíria do vencedor, é fiquei de queijo caído. Por quê? Marta Temido, como o José Manuel disse, que não faltaram meios financeiros. Ora, se não faltaram meios financeiros, o falhanço foi de planeamento. E se o falhanço foi de planeamento, mesmo reconhecendo isso tudo e a grande dificuldade que foi gerir uma pandemia e os méritos da Ministra da Saúde, que mais tarde lhe hão de fazer justiça pelo que passou, de facto, abre o caminho de que se os recursos então não foram finitos, do ponto de vista financeiro, houve alguma coisa que falhou e foi o planeamento. Depois diz que podia ter feito melhor e diz até no ponto de vista da motivação dos profissionais. Não percebo muito bem, porque isto significa também o quê? Que os profissionais podiam ter feito mais se estivessem mais motivados? Não creio que tenha sido também esse o ponto da dureza da pandemia. Depois diz aquilo que a Sara também referiu, que ainda é cedo para perceber o que aconteceu, mas dá três razões. Naquilo que é cedo, dá três razões. O frio, depois diz: "Ridiculariza-se muito". Ridiculariza, não. Do ponto de vista técnico, é um dos aspetos considerados. Claro, há críticas. As festividades e depois as novas variantes, que diz que o primeiro caso é em janeiro. Eu acho que a Região Autónoma da Madeira ainda faz parte de Portugal e, embora seja descontínua do ponto de vista territorial e tenha uma parte do oceano pelo meio. E foi em dezembro que apareceu o primeiro caso. Não foi em janeiro e todo esse tipo de linguagem que ia dar a volta, etc, não fica bem. Depois, não sei se repararam, 60% da população vacinada até o verão. Então nós aqui em meia dúzia de dias já perdemos 10% e ninguém diz nada?

Esse é o outro ponto. Passou para 60.

Andaram a dizer 70% o tempo todo, a ministra agora diz 60% e ninguém questiona?

É a média europeia, os 70%, não é?

Não, comprou 38 milhões, então fala-se dos 38 milhões e esquece que agora aqui, de repente, roubaram-nos 10% no calendário das vacinas e ninguém diz nada? Por este aspecto, deu quatro, porque a Sara tinha dado cinco, mas podia vir por aí abaixo. E ainda a cereja no topo do bolo para mim, que é sobre a relação com Graça Freitas. Não tem mal nenhum elas já não se poderem ver uma à outra. Há pais com os filhos e vice-versa, que estão desesperados, que não significa que não gostem um do outro ou que não funcionem bem na dinâmica familiar, tem a ver com confinamento, com sobrecarga de as pessoas estarem muito tempo juntas. Agora, diz ela: "Não há nenhuma explicação de zanga, mas recebemos tantas farpas e varapaus", varapau é um pau comprido e largo, "por estarmos sempre juntas que optamos por não cansar mais os portugueses." Nós aqui muitas vezes até utilizamos um registo mais próximo do humor para coisas sérias. Mas isto não é uma coisa para brincar. "Não, eu e a diretora geral de saúde não queremos estar a cansar os portugueses." Sabe-se, e é mais ou menos do domínio público, que elas estão saturadas uma da outra, que não se dão bem. Este tipo de coisa até pode ser uma estratégia de comunicação, mas de facto não é dizer a verdade. A relação delas não está bem. Portanto, esse tipo de declarações da Ministra da Saúde, de facto, não são bem conseguidas. Por isto tudo que eu disse, acho que a entrevista não foi bem conseguida e pelo meio, até ao verão perdemos 10% de pessoas vacinadas.

Já agora sobre isso, Rui Pedro, e sem ironia, pode ter havido aquela confusão do 60/70, do seis e do sete, que por vezes não passa bem.

Também pensei nisso, Paulo.

Sim, Rui Pedro, se ouvirmos a ministra, há uma transcrição da Agência Lusa. Ouvindo a ministra, vamos assumir que ela está a dizer 70%, porque pode haver mesmo essa-

Vocês ouviram já o som? Eu não ouvi. E ela diz 70%?

Diz 70. Sim. Aparentemente, pode haver só aqui uma confusão na dicção, mas vamos pensar que se mantém no 70.

Perdido na tradução.

Exatamente.

Nessa parte, peço as minhas desculpas à Ministra da Saúde, caso ela tenha dito 70% e a transcrição do take da Agência Lusa esteja errada.

Faz muito bem, mas não te livras do varapau.

Não, do varapau, não.

E ainda assim manténs o quatro à Ministra da Saúde.

Bom, é assim, se afinal nós de repente ganhamos outra vez mais 10% de pessoas vacinadas, isso mexe com o meu coração e passaria ao 4,7.

Mas atenção, que também podemos ter aqui um novo nome para esta rubrica, este novo programa. Farpas e Varapaus, parece um nome perfeito.

E muito mais aproximado daquilo que se passa de facto, que é que há pouco senso todos.

Muito mais. Ainda temos um vencedor para o Paulo, mas Rui Pedro, queres também dar uma nota a António Costa? Ainda tens dois, três minutos para fazer esse balanço.

Muito rapidamente. Eu ia dar um 10 a António Costa também precisamente porque eu espero que ele saiba o que está a fazer, porque ele continua muito popular nas sondagens, aposto que nos focus group também. Mas de facto ele mostra completamente que ele é que tem razão na maneira de agir isto e parece não ouvir o presidente. Disse na sexta-feira ao final da tarde: "Não haverá nenhuma medida que não seja tomada em concordância com o presidente", mas depois vamos olhar e Marcelo pediu um plano para agora, Costa diz que só daqui a 15 dias. Marcelo disse que não gostava muito da ideia da abertura por regiões. António Costa diz que afinal até pode ser uma boa ideia abrirmos por regiões. Marcelo Rebelo de Sousa pediu um desconfinamento só depois da Páscoa e quase que pediu por tudo. António Costa admitiu reabrir antes da Páscoa. Eu espero que o primeiro-ministro tenha razão e que essa seja a melhor solução, mas todos os gráficos que ele mostrou, mostrou que estávamos muito longe ainda do momento em que desconfinamos no ano passado, em 2020, pela primeira vez, quando se saiu da primeira fase de confinamento, e que se estava muito longe quando se tomou as primeiras medidas em setembro, que agora os casos estavam muito piores. E portanto, a perspectiva dele de abrir em meados de março e admitir isso, eu espero que o primeiro-ministro saiba efetivamente o que está a fazer. De facto, é ele que governa, é o governo que governa, não é o Presidente da República. Mas depois destes avisos todos, me fica clarinho que se as coisas falharem nesta reabertura e houver problemas na Páscoa, o responsável aí já não é o Presidente da República, de certeza, nem tem corresponsabilidade, o responsável vai ser o primeiro-ministro. Portanto, eu dou-lhe um 10 com o benefício da dúvida, que se isto tudo correr muito bem, reabrirmos, não houver casos na Páscoa, até pode ser um 20. Agora, parece-me que o primeiro-ministro não está a fazer tudo em concordância com o Presidente da República, está a fazer exatamente o contrário daquilo que o Presidente da República sugeriu, pelo menos até ver. Claro que ele tem uma ressalva, que é: se os números estiverem mal na altura, não vamos desconfinar nada. Essa ressalva é boa, é prudente, mas mesmo assim parece-me que o lado otimista, irritante, continua lá e está muito otimista o primeiro-ministro. Espero que ele tenha razão, mas ficamos a aguardar para ver se estes testes transformam em vídeo.

A aguardar até para 11 de março, altura em que vai ser anunciado o tal plano de desconfinamento. Mas para já, esse benefício da dúvida com um 10 ao primeiro-ministro. Paulo Ferreira, e a tua análise?

Eu tenho que salvar aqui a honra do convento do nome do programa, não é? Porque vê-se que tem umas notas positivas e umas positivas altas, porque senão isto de facto são as tais farpas e varapaus.

A média fica baixa.

Exato. Eu quero assinalar o comportamento dos sindicatos da TAP. Nós tivemos este fim de semana o desfecho destes acordos de emergência, que são absolutamente essenciais para a reestruturação da empresa e que entram hoje precisamente em vigor, hoje, 1 de março, e os últimos sindicatos a aprovarem esses acordos foram aqueles que, por regra, são mais renitentes e que fazem parar a companhia, que são precisamente os sindicatos dos pilotos e dos tripulantes de cabine. Portanto, deixaram para o fim a aprovação, mas acabaram por dar luz verde Estes acordos que são penosos, introduzem cortes salariais que vão dos 25% até aos 50%. Está bem que estamos a falar, neste caso concreto, dos pilotos, que têm ordenados elevados, mas de qualquer maneira, foram ordenados que eram deles, negociaram, foram-lhes atribuídos pela empresa e, portanto, por mais que se pense que estamos a cortar ordenados elevados, é verdade, mas eram deles. E, portanto, eu queria aqui sublinhar o comportamento destes 14 sindicatos da TAP, estes dois últimos juntaram-se aos outros 12, alguns da CGTP, que tiveram a frieza, o sangue frio, o pragmatismo para perceber a situação da empresa, que tem previsto já 3,7 mil milhões de euros do orçamento de Estado até 2024 depois, e que provavelmente a alternativa seria pior. E perante esta realidade, eles assinaram estes acordos. De qualquer maneira, isto é contranatura daquilo que estamos à espera, sempre em sindicatos, daquilo que é a prática comum do sindicalismo em Portugal. E eu acho que isto devia ser visto como um exemplo, de alguma maneira, porque por vezes, para salvar as empresas, para salvar a maioria dos postos de trabalho, é preciso que aqueles que lá ficam, de facto, façam sacrifícios. Estamos sempre a dizer que os sindicatos são forças muitas vezes exercendo a sua atividade, obviamente de forma legítima, mas por vezes são mais forças que impedem as empresas de se reestruturarem quando é necessário, do que estarem do lado construtivo, se quisermos. E desta vez eles tiveram do lado certo, independentemente daquilo que se pense sobre a operação de salvamento da TAP. Portanto, nota positiva aqui para os sindicatos da TAP, 17.

Um 17 para os sindicatos da TAP, todos os 14 que assinaram este acordo de emergência. A média sobe num vencedor que esteve dedicado à pandemia. Vamos continuar a fazer esse balanço na semana em que se assinala o aniversário do primeiro caso de infeção em Portugal. Muitos outros se seguiram. No Explicador, já a seguir, temos vários convidados para fazer esse balanço, a começar pelo epidemiologista Manuel Carmo Gomes, que deixou de fazer parte das reuniões do Infarmed depois de ter feito muitas críticas à estratégia do governo. Vamos também ouvir a ex-ministra da Saúde, Ana Jorge, o pneumologista Filipe Froes e também o virologista Pedro Simas, depois das notícias às 21h00.