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Segunda parte de E o Vencedor É... com a Judite de França, a Raquel Cassis e a Filomena Martins. Ficaram as notas por dar ao Congresso do Partido Socialista, que arranca oficialmente daqui a pouco, às 19h. Judite, qual é a tua nota?
Dou um 12 morninho.
12? Vá lá, positiva.
É positivo. Também não tenho nenhuma razão pra dar negativo ao Congresso.
Pronto, está bem. Raquel?
Eu dou um 10 a Zé Luís Carneiro pra ver se ele tem competência pra subir a nota.
Filomena?
Isso era uma negativa.
Vou. Por quê? Nove é negativa, não é?
Ah, nove? Isso é uma nota alta.
Mas nove, se se esforçar, é a mesma dinâmica do 10. É esforçado.
Vamos ver.
Isso é uma nota alta. Vamos olhar agora para o artigo de Cavaco Silva, publicado esta sexta-feira no Expresso, com o título "O dinheiro do Estado não cai do céu". O antigo primeiro-ministro e antigo presidente da República pede ao governo coragem, firmeza contra a oposição que, segundo Cavaco, bloqueia reformas. Diz que o CHEGA é um partido sem credibilidade, de quem Sá Carneiro estaria bem longe. Ele que criticou, Cavaco Silva, os outros por estarem sempre a falar de Sá Carneiro, e acrescenta que o pouco crescimento econômico vai fortalecer André Ventura. Judite de França, Cavaco Silva ainda incomoda?
Eu acho que incomoda, senão André Ventura não teria reagido como reagiu. Ouvimos há pouco aqui no jornal que estava bastante indignado pela forma como foi claramente atacado por Cavaco Silva no artigo. E não só incomoda, como ainda todos o ouvem, que é o fato de ser cirúrgico na forma como escreve ou como intervém, torna-o relevante e continua a torná-lo relevante. Eu acho curioso este "o dinheiro não cai do céu", porque se pudéssemos deixar uma frase que identificasse Cavaco, esta podia ser uma delas. Dizer que o dinheiro não cai do céu e que é preciso ter contenção com o dinheiro do Estado, é preciso crescimento pra poder gastar dinheiro. Isto tudo é o pensamento econômico e político de Cavaco Silva desde sempre. Daí não traz nenhuma novidade. Podia ter dito: "Portugal não tem uma árvore das patacas", teria sido exatamente igual, é mais ou menos o mesmo gênero. Não sei se repararam, mas no fim do artigo está escrito em letras minúsculas. Parece uma daquelas mensagens irritadas.
Acho um bocadinho vulgar.
Escrever em maiúsculo. Se calhar, não avisaram o professor Cavaco Silva que não deve escrever SMS em maiúsculas.
Em maiúsculas, pois. Eu sei que SMS em maiúsculas significa que é um grito, mas isto, de fato, eu acho que foi um sinal de apoio a este governo, isso sem dúvida, e aproveitou para, como se costuma dizer, malhar na oposição, sobretudo no CHEGA, e apontando o PS como um parceiro preferencial. Apesar de ter dito, eu escrevi, tomei nota que o PS estava envolvido em rodilhas. Era assim uma expressão ideológicas. Sei, claro, obviamente. E Cavaco Silva também sabe. Enrodilhado em preconceitos ideológicos. Sim, mas vem de rodilha.
Pros ouvintes mais novos, é uma espécie de um trapo.
É isso, um trapo torcido.
Até dava pra pôr na cabeça e levar um caneco.
Exatamente, o pano da cozinha.
Sim.
É o pano de cozinha torcido que dá pra levar alguma coisa à cabeça.
Exato. Isto foi um apontamento do TV Rural.
Eu achei curioso em relação às críticas ao CHEGA, sobre o fato do CHEGA não ter nenhuma reforma que se digne desse nome, segundo Cavaco Silva, e aquelas que tem, se fossem implementadas, entraríamos em bancarrota. Uma das notas que eu deixaria aqui em relação ao pensamento de Cavaco Silva é que, de fato, falou muito de reformas, mas não deu uma. Podia ter falado em uma em específico, mas não falou, e portanto, isso também teria sido interessante. E depois explicou como é que o governo, sem o apoio meritário na Assembleia da República, acaba por sofrer a chamada força de bloqueio. No caso de Cavaco Silva, quando era primeiro-ministro, referia-se a Mário Soares, aqui refere-se a-
Mário Soares, presidente da República
...Mário Soares, presidente da República, claro. Quando Cavaco era primeiro-ministro, referia-se a Mário Soares, presidente da República, como uma força de bloqueio, e agora fala disso em relação à forma como o Parlamento está organizado.
E há sempre grande comoção quando Cavaco Silva ou Pedro Passos Coelho dizem alguma coisa ou escrevem alguma coisa. Filomena Martins, tenho um desafio pra ti, que é-
Dar uma boa nota.
Não. Completa esta frase: Luís Montenegro tem em Cavaco Silva um amigo e em Pedro Passos Coelho um...?
Um adversário.
Um adversário. E por quê?
Ora, na política portuguesa-
É que os dois cada vez que escrevem...
Está bem. Ou não, no caso do Passos Coelho, é cada vez que fala. Mas eu acho que é um adversário e em Cavaco, um amigo. Agora quase cantava.
Sim.
Eu acho que na política portuguesa há vozes que criticam e há vozes que legitimam Foi uma frase que saiu assim bem, não é?
Saiu-te muito bem.
O artigo de Cavaco Silva pertence claramente à segunda categoria, mais legitimar do que criticar. E com o que escreveu neste artigo do Expresso, ele não fez um aviso, nem acho que tenha dado um puxão de orelhas ao governo. E eu nem sequer acho, e acho que houve muita gente a ler, que eu tenha visto nos comentários, que estava ali uma pressão. Lendo aquilo desde ontem à noite, não vejo pressão. Vejo outra coisa, vejo uma espécie de um gesto de enquadramento político, quase de tutela simbólica, paternalismo. Pode parecer a muita gente que Cavaco disse agora o que Pedro Passos Coelho já tinha dito antes sobre a necessidade destas reformas estruturais, crescimento económico sustentado, coragem política para enfrentar bloqueios. Só que há aqui uma diferença que eu acho mesmo essencial, substancial, que é o tom. É verdade que nós não ouvimos Cavaco, lemos, e ouvimos Passos, mas onde Passos foi direto e exigente, Cavaco é institucional e é mais envolvente. E, portanto, pra mim, Passos pressiona, pressionou, e Cavaco legitima. E isso, para Montenegro, eu acho que faz toda a diferença, porque o primeiro-ministro não aparece aqui como alguém sob escrutínio, aparece como alguém alinhado com uma tradição política, que é reformista, que o PSD sempre reivindicou. Não é a primeira vez que aparecem sociais-democratas a dizerem que são reformistas e que vão fazer reformas, pois às vezes ficam pelo caminho ou então nem sequer começam, mas pelo menos eles dizem que as vão fazer. E quando Montenegro disse, depois na conferência de imprensa do Conselho de Ministros, que o artigo caiu que nem uma luva, não está apenas a concordar com Cavaco, está a agradecer-lhe, está a agradecer a Cavaco e a apropriar-se da ideia. Cavaco Silva está a dizer ao país que quer este caminho, quer o do reformismo, sem dizer que reformas, é verdade, e que esse caminho é o certo, esta linha é que já resulta, esta estratégia tem lastro, isso não fragiliza Montenegro, só o pode reforçar. Cavaco não falou para corrigir o governo, falou pra o incentivar, pra lhe dar força, e acho que ainda até há uma dimensão que pode ser mais interessante neste movimento. Cavaco não se limitou a elogiar, ele organizou ali o campo político, atacou o PS por falta de ambição reformista e fechou a porta ao Chega, classificando-o como uma força sem credibilidade. Ou seja, reduziu ali o espaço das alternativas, concentrou a legitimidade do governo. Eu acho que é uma operação subtil, mas de claro apoio a Montenegro, e que Cavaco não abre caminhos, restritou os estreitos ali e deixa Montenegro no centro. Ou seja, não há exigências públicas, não há reservas, não há avisos, há uma coisa mais útil que é a cobertura política. Portanto, Cavaco oferece a Montenegro aquilo que poucos podem dar, que é uma continuidade histórica, uma coerência ideológica e uma espécie de garantia de estabilidade neste momento, que eu acho que é importante.
Raquel, isto depois vale alguma coisa na prática?
Eu acho que vale. Eu concordo com quase tudo que foi dito, mas acrescento uma. Eu acho que sim. E aliás, se nós ouvimos com atenção a reação de André Ventura ao que Cavaco Silva disse, ele atira-se ao tempo da governação de Cavaco Silva. E por que eu digo isto? Porque diga-se o que se disser, goste-se mais ou menos de Cavaco Silva, não há ninguém em Portugal que não identifique os anos 80 como a década de grande passo em frente em Portugal, de grande crescimento, de grande mudança no país. Portanto, Cavaco Silva, pra os que gostam e pra os que não gostam, é o reformador. E portanto, quando o reformador dá caução a um primeiro-ministro, e desde os primórdios de Luís Montenegro, na liderança do PSD como candidato a primeiro-ministro e daí em diante, Cavaco nunca lhe faltou com o apoio.
Até fez congressos e tudo.
Tudo, e no apoio expresso. E Montenegro nunca deixou de dizer que o seu grande inspirador era Cavaco Silva, e não Passos Coelho. E portanto, este artigo surge, de facto, na sequência do de Passos Coelho. O tema das reformas não surge aqui como uma crítica, e eu acho que é por isso que ele não designa nenhuma reforma, porque deixa subentendido que essas reformas estão no prelo e que se não forem pra frente é por causa das forças de bloqueio. Portanto, ao contrário de Passos Coelho, que disse expressamente que este governo não estava a fazer as reformas que eram necessárias, Cavaco não diz isso e daí também não referir as reformas. Agora, eu como sou um bocadinho conspirativa, eu acho que o timing da saída deste artigo, na véspera ou no dia em que começa o Congresso do Partido Socialista, e no momento em que estamos prestes, vamos ver se confirma, a perceber que neste acordo dos cargos externos do Parlamento, o entendimento foi todo feito com o Chega. Eu acho que Cavaco Silva, sem querer dar o tom crítico de quem está a criticar o primeiro-ministro, está a dizer a Luís Montenegro que ele tem é que se virar pra o Partido Socialista e ao Partido Socialista que ele tem é que se portar com juízo e ser o partido dos acordos pras reformas com o PSD. Eu acho que Cavaco Silva, aliás, isso ele não esconde no artigo, até porque é doutro tempo da política, que ele também refere no artigo. Eu acho que talvez a maior preocupação, neste momento, de Cavaco Silva, é o crescimento do Chega e o que isso pode fazer ao país.
E ao PSD, talvez também.
Mas eu já o disse muitas vezes e vou dizer como é que traduzi o que ele diz. O que ele diz é que para além de inconsistente, irresponsável e tudo mais, o Chega é socialista. E é, do ponto de vista económico, o Chega é um partido socialista. Aliás, se ouvirmos hoje a reação às medidas que o primeiro-ministro anunciou, o que ele quer são medidas mais estruturais. E portanto, medidas mais estruturais são o quê? São para ficarem para todo o sempre, para se gastar o tal dinheiro que não há, que Cavaco Silva diz que não há. Eu acho que essa é a grande preocupação de Cavaco Silva e acho que Cavaco Silva quis dar um recado delicado a Luís Montenegro, ao contrário do que aconselhou Passos Coelho, que não vire as agulhas todas para a direita e que tente, apesar de tudo, manter a base de entendimento com o Partido Socialista.
Vamos a notas, Raquel. Qual é a tua nota para o artigo? Não sei se é o artigo que queres dar.
Eu vou dar uma nota alta ao artigo. Vou dar um 18 ao artigo de Cavaco Silva, porque acho que ele continua a manter-se vivo passados estes anos todos, e interventivo e com peso político na sociedade portuguesa, mesmo para os mais novos que não viveram esse tempo, mas que têm esta referência de que houve um tempo em que as coisas não corriam tão mal em Portugal.
Mesmo os que não sabem o que é uma rodilha.
Exato.
Tens uma nota?
Tenho, é 14.
Catorze. Eu não sei o que se passa contigo.
Está a dar loucura. É sexta-feira.
Está calor.
Eu acho que é vires aqui à tarde, ao "Vencedor da tarde".
É, o "Vencedor da manhã" deixa-me rabugenta.
É, não é? Este é mais distendido.
Sim.
Cocktail, um drink de fim de tarde. Judite.
Eu dou 15 ao artigo de Cavaco Silva.
Pronto, só notas positivas a fechar este "Vencedor". Amanhã há mais, depois das 10h30 da manhã, porque é edição de fim de semana, e desta vez o "Vencedor" vai ser feito em direto a partir do Congresso do PS em Viseu, amanhã, com Rui Pedro Antunes, o editor de política do Observador, e a Eunice Lourenço, editora de política do Expresso. Vamos, de resto, estar a acompanhar o Congresso do PS em permanência no Observador, na rádio e em vídeo.