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Eu acho que os portugueses aceitam, e sempre com um pé atrás, por exemplo, atrizes talentosas. Os portugueses aceitam que as mulheres sejam boas cozinheiras, tenham jeito para costurar, sejam bonitas, tenham jeito para coisas, mas não aceitam que elas sejam capazes de gerir, de pensar, de ser organizadoras e de ter autoridade. É muito difícil um português aceitar a autoridade das mulheres.
Noutra vida quis ser escritora. Hoje, quando se fala em teatro, no imenso mundo da representação, o nome dela está lá. De muitas formas, de muitos feitios e sempre com a entrega e a paixão que a tornam um dos nomes mais acarinhados pelos portugueses. Não tem preconceitos, é irreverente, há quem diga revolucionária e hoje, sendo o Dia Internacional da Mulher, recebemos uma das atrizes que mais contribuiu para que a cultura seja um espaço seguro de partilha e devoção à arte. Maria do Céu Guerra, seja muito bem-vinda ao "Em 40 Minutos", aqui conosco na Rádio Observador. Bom dia.
Olá, bom dia.
Muito bom dia, Maria do Céu. É um gosto enorme tê-la aqui em direto e deixe-me só ressalvar o enorme sorriso com que entrou aqui no nosso estúdio. Muito obrigado por ter aceitado o nosso convite.
Eu ontem disse uma frase muito gira em televisão. Disse: "Não chega amar, é preciso ser devoto, ter devoção". E isto era um homem a falar sobre o amor entre homem e mulher. Eu acho que em relação ao que a gente gosta, não chega amar. É preciso a gente ter devoção. E eu tenho devoção pela informação. Tive uma mãe jornalista, tive um irmão jornalista, grandes jornalistas, João Paulo Guerra, e acho que vocês cumprem uma coisa extraordinária. E então a rádio, para mim, é o máximo.
Tem um amor especial pela rádio.
Tenho um amor, porque a minha mãe era jornalista de rádio quando eu era pequena, portanto, eu vinha para estes espaços que eram muito mais econômicos.
No fundo, está em casa também, não é? Hoje está a sentir-se em casa. Falava aqui da questão da devoção. São mais de 60 anos dedicados à arte de representar, a dar vida a muitas personagens, quer seja no teatro, quer seja em novelas. O que a move e o que ainda a surpreende em cada projeto, a cada novo desafio que aparece na sua vida?
Eu tenho uma esperança infinita no que cada projeto me pode dar e no tirar dele o máximo de inteligência transitável, portanto, que a gente possa aprender e ensinar ao mesmo tempo, e ter alegria com as coisas. Por isso eu quis fazer um grupo estável. Não quis andar em companhias, a ser contratada aqui. Quis ter um grupo estável de gente que fosse boa na sua qualidade de atores e de pensadores de teatro e de encenadores, mas também amigos e também pessoas que gostassem de estar juntas, se divertissem em conjunto. E realmente eu acho isso fundamental. Não gosto nada do contrato a prazo.
Ser dona de si própria.
Sim, fazer aquilo que a gente gosta, com os amigos que a gente gosta. E depois o que acontece é que o Estado, o governo português, e não é só um partido, é uma maneira de estar, é tão amiguista, duvida tanto daqueles que não lhe fazem acordes e que estão permanentemente com juízo crítico, porque sabem que é do juízo crítico que vem a inteligência e que vem o melhorar as coisas.
Uma melhor democracia.
Uma melhor democracia, exatamente. E como sempre fizemos isso, e há muitas coisas na intervenção dos Estados junto do teatro e das artes em geral, que são só fantochada e só mostra de amiguismo, de protecionismo, que a Barraca nunca deixou de ser uma semi inimiga, que é inimiga por reação, não é inimiga por intenção. Por reação ao que vê. Nós muito dificilmente conseguimos concordar, por exemplo, com o que se tem feito na DG Artes, na proteção ao teatro, no estímulo ao teatro, no proteger os amigos. A Barraca, desde que começou esta aventura da DG Artes proteger o teatro, nunca mais teve verdadeiramente apoio estável. É uma companhia com 50 anos, que já não devia ter necessidade de concorrer a concursos, já devia ser reconhecida. Não. Quando da última vez, o senhor ministro da Cultura nos disse que não íamos ter apoio, eu disse: "O que eu faço a esta companhia que tem 50 anos e 20 elementos?" "Faz o mesmo que fazem os jovens, anda a pedir apoios aqui e ali, quando arranjar apoios, faz espetáculos". Portanto, não é maneira de se tratar uma companhia que os portugueses adoram, ainda por cima.
E que há esse reconhecimento. E a Maria do Céu foi uma das fundadoras da Barraca, assim como o Helder Mateus da Costa, uma companhia de teatro independente fundada logo depois da Revolução de 4 de março de 76. Na altura, quando assumiu este papel, numa sociedade que não estava habituada a ter mulheres a liderar fosse o que fosse, tínhamos saído há pouco tempo da ditadura, sentiu algum tipo de preconceito de alguém que nunca a tinha visto nesse tipo de papel, pelo menos naquela altura?
Sim, eu acho que os portugueses aceitam, e sempre com um pé atrás, por exemplo, atrizes talentosas. Os portugueses aceitam que as mulheres sejam boas cozinheiras, tenham jeito pra costurar, sejam bonitas e tenham jeito pra coisas, mas não aceitam que elas sejam capazes de gerir, de pensar, de ser organizadoras e de ter autoridade. É muito difícil um português aceitar a autoridade das mulheres. Não é autoritarismo, é autoridade.
Ter uma mulher num cargo de poder.
Exatamente, num cargo de poder, e que ela o aceite com tranquilidade e com competência. Portanto, é muito fácil ter grandes atrizes, porque as mulheres são boas atrizes, e é muito difícil serem aceites como encenadoras, como diretoras, como organizadoras.
Mas há uma evolução, Maria do Céu?
Há uma evolução porque a democracia permitiu haver muito mais grupos, e com muito mais grupos, muito mais companhias, apareceram muito mais mulheres competentes e irrefutáveis.
Há pouco falava aqui da questão da política associado à cultura e dos lugares de poder. Nós hoje em dia já vamos vendo algumas mulheres a aparecerem. Falávamos aqui, por exemplo, da questão de líderes parlamentares. Olhamos para o nosso Parlamento, temos Alexandra Leitão, líder parlamentar do PS, a Mariana Leitão, líder da Iniciativa Liberal, temos também Isabel Mendes Lopes, mas parece que ainda é difícil, e não é por não haverem mulheres capazes de o fazer. É difícil aceitar essa ideia de que um dia vamos ter uma mulher num cargo de poder, neste caso, falando da política.
É difícil.
Como é que olha para essa questão e para esse estigma que ainda existe?
Como olho pro estigma que eu estava a falar entre o ser atriz e ser diretora, por exemplo. É difícil os homens aceitarem, sem nenhuma posição preconceituosa, uma mulher a dirigir, seja o que for. As mulheres supostamente guiam mal. Agora já se aceita ver quase tantas mulheres como homens a guiar.
Chegou a ouvir esse tipo de críticas, vamos chamar-lhe assim?
Sim, a mulher era suposto ser uma péssima condutora. Quando se via uma asneira no carro: "Deve ser uma mulher a dirigir". Isso agora já, de certo modo, acabou. E nos cargos políticos também. E a verdade é que, não sendo totalmente verdade o que eu vou dizer, há muito menos corrupção no elenco feminino das governantes do que no masculino. Porque a partir do Cavaco Silva e dos seus protegidos, proliferou a corrupção em Portugal. Não havia corrupção. Havia, às vezes, umas facilidades, mas não havia corrupção. No tempo do Jorge Sampaio, no tempo do Mário Soares.
Não havia estas questões.
Não havia estas questões. As pessoas tinham mais respeito por si próprias.
Mais respeito pela democracia?
E mais respeito pela democracia. E por si próprias, e estarem a trabalhar no campo democrático pressupunha que isso não havia, que não existia. E, de facto, o país degradou-se muito. Perdeu muita qualidade. E neste momento nós estamos no tal pântano que falava o governante, não vou dizer quem, está outra vez à vista. Estamos sempre a pisar o charco.
A Maria do Céu Guerra viveu em censura, testemunhou, viu de perto a forma como a censura era aplicada. Aliás, teve um filme no qual participou, "O Mal-Amado".
É verdade, foi o último filme a ser proibido e o primeiro a ser libertado.
Sim, verdade. Precisamente, só estreou após a Revolução. Foi produzido em 72, pouco antes da Revolução. Como é que uma artista livre, sem preconceitos, amarras, viveu esta época, o antes e o depois do 25 de abril?
Olhe, vivi de uma maneira muito dorida. Eu era bastante nova e tinha um amor enorme pelo teatro, pelo cinema. Era isto mesmo que eu queria fazer. No princípio, não. No princípio, fui um pouco levada pela universidade, pelos jovens que estavam a fazer, e não tinha a certeza que queria seguir isto.
Mas já havia o bichinho.
Sim, mas já havia o gosto. Depois, realmente Viví de uma forma muito dorida. Foram nove anos em que se misturou a alegria de estar a fazer o que se gosta com uma grande tristeza e humilhação. Para mim era uma humilhação enorme estar a fazer um ensaio de censura, um ensaio para cinco, seis ou sete censores.
Que às vezes mais do que uma vez, não era?
Sim, às vezes mais do que uma vez, que iam ver o nosso espetáculo, que já estava pago, vestido, cenografado, com três meses ou dois meses de atores a trabalhar e a receberem, e depois eles chegavam ali e diziam: "Não pode ser". E isto era uma maneira de amedrontar também os fazedores e os empresários.
Foi o que aconteceu com o "Mal-Amado"?
Foi o que aconteceu com o "Mal-Amado". Nós fizemos o filme, estava o Spinella a mexer-se na Guiné, a organizar o livro que iria fazer. O Fernando Matos Silva e o Álvaro Guerra, que eram os autores do filme, tinham estado na Guiné e havia um interesse especial no que se estava a passar na política. E nós éramos todos um pouquinho políticos. E de repente, faz-se o filme com uma paixão enorme e o filme é proibido. É proibido pelas mesmas razões exatas, com as mesmas palavras, de uma peça de teatro que eu tinha feito dois anos antes, que era a "Noite dos Assassinos", do José Trindade. A "Noite dos Assassinos" foi proibida por ser antipatriótico, por faltar ao respeito às instituições, por ser contra a família, e este também. Eram chavões que se punham ali. E realmente nós ficamos muito desanimados. E depois quando veio o 25 de Abril, ficamos animados com o 25 de Abril e ficamos muito contentes.
Como é que foi recebido? Lembra-se como é que foi recebido este "Mal-Amado"?
Foi muito bem. Nós estreamos no Monumental, numa sala que o Monumental tinha, no primeiro andar, e lembro-me que estávamos todos felicíssimos. E lembro-me que uma senhora veio ter comigo e disse: "Como é que vocês conseguiram fazer isto tão depressa? Porque isto tem dias". E eu tive que lhe explicar: "Não, isto estava na gaveta".
Porque as pessoas nem sequer sabiam como é que se processava, não é?
Porque não se podia falar nisto. Não se podia dizer. O "Mal-Amado" foi proibido, porque a palavra proibida era proibida.
Falando aqui da questão da censura, falamos aqui de uma censura no século XX, o lápis azul, a não liberdade de expressão. Para a Maria do Céu Guerra, existem também novas censuras, entre aspas, neste século XXI. E de que forma é que elas se notam?
Eu acho que sim. Na perseguição a determinadas ideias, a determinadas palavras que não devem aparecer, estão-se a criar novos preconceitos em nome de novas liberdades. Eu lembro-me quando estava na faculdade, todas as raparigas progressistas usavam saltos baixos. Ninguém queria andar de saltos altos. E eu, quando entrei para a Casa da Comédia, penso que foi para a Casa da Comédia, eu tinha que usar saltos altos e comecei a treinar. E um dia encontrei-me com as minhas colegas e eu ia de saltos altos, e olharam para mim com um ar e disseram: "Ai, tu também usas saltos altos?" E isto era gente progressista, que tinha desistido e condenado os saltos altos por serem conservadores, uma maneira de conservar a mulher na boneca, e estavam a construir um novo preconceito contra o salto alto. E está a acontecer exatamente a mesma coisa. Pessoas proibidas, palavras que não se podem dizer, não se pode falar de etnias, não se pode falar de características. Está em perigo a questão sexual, também.
Uma espécie de, vamos chamar-lhe não censura, mas se calhar cancelamento. É isso?
Cancelamento, é isso. Eu não quis dizer a palavra porque me irritam palavras que representam coisas que eu odeio.
É uma lista muito grande?
Grandinha.
Sim, parece que sim. Maria do Céu Guerra, vamos voltar à representação.
Vamos falar do Camões?
Vamos falar do Camões, precisamente. Uma arte que a move há mais de 60 anos. Antes de olharmos para o Camões, pergunto-lhe: já encontrou alguma personagem que tivesse muito de si, que a representasse de certa forma? E é mais difícil quando a colocam na sua zona de conforto ou completamente fora dela?
Olhe, eu ajudo-me, como atriz, com muitas coisas minhas, porque eu sempre cultivei em mim multiplicidades, gostos vários, opções que parecem contraditórias e não são. Estar em vários patamares da vida. E isso tem me ajudado quando estou a trabalhar uma personagem, tem me ajudado A perceber as personagens e a representá-las com um entendimento que parece meu, mas que não faz parte da minha personalidade, só que faz parte daquilo que eu tenho trabalhado como o que é o ser humano, o que é uma mulher, o que é um homem, o que é um amor. Essas coisas. Como vocês disseram, eu antes de querer ser atriz, queria ser escritora. A minha mãe era jornalista e havia muitos livros em casa.
Aliás, começou desde muito cedo a gostar de literatura.
Exatamente. Tive uma professora fantástica, já desapareceu, infelizmente, chamava-se Maria Joana Meira, e que nos ensinou a amar a literatura, a ler e a gostar de ler, e a gostar de ler em voz alta. E a Sra. Maria Joana foi, com a minha mãe, a responsável por eu gostar disso. A minha mãe lia-nos Cesário Verde, lia-nos Pessoa, mais até ao meu irmão do que a mim, porque a minha mãe achava que eu era uma querida, uma menina e, portanto, não tinha que estar, mas sempre estimulava um bocado. Eu adoro poesia, eu não queria ser exatamente escritora. Às vezes lembro-me de passear por Cascais e de andar a pensar.
Na sua bicicleta?
Na minha bicicleta.
Que foi a sua primeira namorada.
A minha primeira namorada, exatamente. Eu adorava bicicleta. Em Cascais alugavam-se bicicletas e custava 25 tostões meia hora, cinco escudos uma hora, e eu ia quase todas as tardes andar de bicicleta. Até que um dia a minha mãe deu-me a bicicleta daquela loja em que eu andava mais. Portanto, uma bicicleta em segunda mão, azul, que eu adorava, que eu ia lá alugar. Depois a minha mãe disse: "Eu quero comprar a bicicleta. Pode-se comprar?" Compramos. E andava felicíssima. Ia todos os dias ao Guincho, vinha, ia, vinha, via o rei a namorar os soldados, via tudo, via a vida-
A acontecer.
A acontecer.
Foi o seu primeiro momento de liberdade total?
Foi. Foi andar de bicicleta a caminho do Guincho, a caminho da Boca do Inferno e depois do Guincho. A apanhar aquele vento na cara, que é melhor do que andar a cavalo.
O que é feito da bicicleta?
Não sei, ficou velhita, começou a perder peças e depois perdi-a de vista.
Mas depois lá arranjou uma substituta, suponho.
Não, mas durou muitos anos. Depois comecei a vir para a faculdade.
Vieram outras ocupações, não é?
Vieram outras ocupações.
E veio a representação.
Agora, no primeiro ano de faculdade, eu já tinha um livro escrito, que apesar de eu não querer.
Não gosta muito que falem desse livro, não é?
Não. É um amor imperfeito e um bocadinho violentado, porque eu não queria publicar ainda naquela altura. Aquilo eram poemas dos 18 anos, dos anos da bicicleta. Era uma coisa íntima, e de repente aparecer publicado. Fui eu que os dei, mas fui eu que os dei a pedido e influenciada. E eu estava numa fase de querer ler tudo, ler as correntes várias. Estava apaixonada pela Beat Generation, adorava os Beats, os Beatniks. E quando aquilo saiu, eu achei que estava tão aquém daquilo que eu queria fazer, que não quis ficar muito pegada àquilo e depois, verdadeiramente, comecei a representar e a comunicação com a representação é tão forte e tão poética também, que deixei de escrever, embora escreva para mim.
Vamos tirar a poeira a Camões, vamos fazer isso? Vamos. A Maria do Céu Guerra que está aqui também para falar do seu regresso ao Parque Mayer, onde se estreou aos 27 anos no Teatro de Revista.
Estreiei-me no Teatro de Revista.
Teatro de Revista, exatamente. A peça chama-se "O Amor é um Foguete Art Sem Se Ver", em cena já na próxima semana, entre 13 e 16 de março, no Teatro Variedades. Vamos conhecer Camões de outra forma nesta peça?
Eu penso que sim. É nossa intenção, e por isso lemos muito os novos camonianos, o que se está a estudar, o que se descobriu, como é que mudámos de olhar sobre o Camões. Há uma frase que a gente diz logo na primeira cena. A primeira cena começa com uma espécie de aula, em que os meninos estão a pedir ao professor para lhes ensinar Camões de outra maneira. Era muito o que nós sentíamos quando éramos jovens e tínhamos que dividir as orações, saber de cor quantos cantos tinham e o que dizia cada um, mas de cor.
Sim.
E depois, quando saímos disso, esbarrámos com um preconceito político contra o Camões, por Portugal ser um país, na altura, colonialista, e se considerar A aventura dos descobrimentos, o primeiro passo para o colonialismo. Felizmente, agora estamos livres disso. Toda gente pensa aquilo que entende pensar. E nós podemos, com o teatro e com o nosso trabalho de influencers, que somos, de certo modo, melhorar e dar mais modernidade, verdade, cultura.
Uma nova abordagem, no fundo, também.
Com uma nova abordagem de Camões.
E consegue conhecê-lo da forma certa.
Se nós olharmos pra obra de Camões, vemos quão falsa, quão mentirosa tem que ser a fama de Camões como boêmio, bêbado, namoradeiro, impiedoso, namorava as mulheres. Um homem que é bêbado, boêmio e namoradeiro, que namora as mulheres todas, não tem tempo de escrever esta obra, não tem tempo de escrever "Os Lusíadas". Não é possível saber a mitologia de cor. Não é possível saber tão bem o que ele sabe de cada figura da antiguidade e de cada um dos seus contemporâneos. Portanto, percebe-se que ele gostava de desanuviar, era um pouco boêmio, gostava de ser irreverente, mas aquilo que ele gostava era de estar agarrado à sua obra. Ele foi pra Índia, esteve lá 17 anos, foi preso três vezes. Uma vez por não ter dinheiro pra pagar uma dívida que contraiu. Outra vez, já não sei bem por quê. Com certeza, situações injustas e invejosas. E ele escreveu grande parte dos "Os Lusíadas" na Índia, mas andou sempre a trabalhar ao mesmo tempo. E trabalhar era viajar, era acompanhar o poder, os maiores nas viagens. Isto não é compatível, não é possível. As pessoas não podem ser boêmias e ao mesmo tempo grandes acadêmicos e grandes escritores. Essa é uma primeira chamada de reflexão para os jovens. Perguntar-lhes se é possível passar num exame sem perder muito tempo a estudar. Penso que não. Depois, o resto. Os novos escritores, o Lourenço, um que já não é novo, mas que é pra mim o maior, o Hélder Macedo, trazem imensas novidades à leitura de Camões. E essas novidades é que nos apaixonaram. O nosso espetáculo começa com uma aula e há uma menina na aula que diz: "Nós queremos aprender Camões, mas de uma maneira que a gente perceba, que a gente fique a gostar dele". E eles começam a dizer: "Não é assim". E a gente depois coloca o espetáculo como se fosse na vontade dos mais novos, como se fossem os mais novos a pedir-nos: "Falem de Camões". E assim falámos sobre todos os aspectos que ele deve ser falado, sim, como boêmio, sim, como apaixonado, sim, como grande poeta, mas não estamos a martirizar as pessoas com poemas seguidos. Não.
Não é esse o objetivo.
É a vida dele.
É mesmo tirar a poeira.
É mesmo tirar a poeira e mostrar como ele foi capaz de ser tão grande poeta em tantas áreas, no soneto, na canção, até em poesia aparentemente popular. E como as pessoas acabam contentes no final do espetáculo. O Hélder Costa, que é o principal autor deste texto, que eu trabalhei com ele, mas que não fui a autora principal, fui apenas uma colaboradora. O Hélder Costa disse: "Não vamos acabar a peça com o homem doente, triste, a morrer, cheio de fome". "Essas coisas têm que ser nomeadas", dizia eu. Sim, têm que ser nomeadas, mas podem não ser maximizadas. Ele pode continuar a ser o grande poeta, pode continuar a ser a grande pessoa. E assim fizemos. Eu fui pra casa pensar como é que isto tem que acabar pra ser alegre, pra ser um hino ao Camões e ao seu tempo e a tudo o que eles fizeram. É uma espécie de sonho da Ilha dos Amores. A Ilha dos Amores foi o canto mais proibido, porque tinha o amor erótico, porque tinha o amor proibido, estava lá o amor que a Igreja Católica não achava muito bem. E, portanto, pensámos: e se o Camões fosse pra casa, adormecesse e sonhasse com a Ilha dos Amores e esse fosse o final? E era uma espécie de morte, mas era uma morte a adormecer e a sonhar. Foi a última ideia. E depois, de repente, pensámos: não precisa. Basta ele estar na tristeza de estar velho, de estar doente, de estar com o Jau a ajudá-lo, e a dizer um poema que diz muito bem isso: "Não mais, Musa, não mais, já tenho cansado". A desistir da vida, praticamente. E depois dá o braço ao Jau, começa a dar uma volta à cena e aparece o elenco todo cheio de flores e com uma música do António Vitorino de Almeida, que é lindíssima, e é a Ilha dos Amores. E portanto, conseguimos acabar a Ilha dos Amores sem dizer exatamente o que é aquilo, mas vendo-se exatamente o que é aquilo.
Percebe-se.
São rapazes e raparigas a dançarem, floridos. E ele pelo meio, e de vez em quando dança um bocadinho com uma, depois dança um bocadinho com outra, depois o Jau também dança um bocadinho. E é a Ilha dos Amores. Portanto, é um espetáculo que acaba na positiva, que acaba sem dizer às pessoas: "Vocês têm que saber isto, senão são brutos". Não é dizer isso, é dizer: vejam como isto é interessante, vejam como isto é bonito, vejam como se pode fazer teatro, que toda a gente pode entender, que toda a gente pode gostar. É por isso que eu estou muito contente por ir para o Variedades, que é o coração do Teatro Popular em Lisboa. Foi, e que eu espero que volte a ser.
Estamos aqui estarrecidos a olhar para a Maria do Céu Guerra. É incrível a paixão com que fala de tudo isto. Exatamente. Para falar sobre esta peça, "Amor é um Fogo que Arde sem se Ver", no Teatro Variedades, na próxima semana, de 13 a 16 de março. Quinta-feira às 20h, sexta e sábado às 21h e domingo às 16h. É ir. É só ir. E com esta descrição eu acho que vamos ter casa cheia todos os dias. Esperemos nós. Temos de fechar porque o tempo voa e temos notícias à hora certa, senão ficávamos aqui muito mais tempo à conversa consigo. Aos 81 anos continua a aprender todos os dias. Está agora ainda a fazer uma novela, faz novelas, está no teatro. O que é que a inquieta ainda?
Vida.
A vida inquieta de que forma?
Quero saber mais, quero ver como é que isto vai dar, em que é que isto vai dar, em que é que cada coisa vai dar. E preocupa-me muito. E tenho muito medo que as pessoas se deixem aprisionar por uma ideia que os políticos são todos iguais e não vale a pena ser sério, e não vale a pena lutar por coisas melhores. Tenho muito medo que as pessoas desistam da esperança, da alegria, da cultura, da vida coletiva e daquilo que pode fazer ainda da vida o melhor que ela tem para nos dar. E tem muita coisa boa, mas acho que estamos numa, como se diz na agricultura, na política, estamos numa má colheita. Está a haver um mau momento em que parece que tudo está a acontecer ao contrário, parece que não há esperança. Não é só em Portugal, é em todo lado. Parece que os 50 anos a seguir ao fim da Segunda Guerra, toda a gente queria melhorar a vida, toda a gente queria garantir a paz. Agora fala-se mal da Europa porque só deu atenção à paz. Isto é uma coisa linda que a Europa fez. Teve duas guerras, teve os seus filhos de todos os países a matarem-se com duas guerras. Como pode acontecer agora? E fez quase um juramento sobre si própria: não queremos mais guerra no nosso território. É lindo. E agora está a sofrer as críticas de não ter querido defender-se o suficiente. Ainda bem que teve essa intenção. Infelizmente, deu mau resultado ou pode dar mau resultado. Vamos fazer tudo para não termos que ir para guerras, para que haja paz, mas não é a paz emblemática, a paz do paz, paz, paz, quer dizer paz, paz, paz. Não é isso. É paz. Paz conosco, paz com os outros, paz com o futuro.
Vamos trabalhar para isso, todos juntos.
Vamos trabalhar para isso.
Maria do Céu Guerra, mais uma vez muito obrigado por ter estado aqui conosco na Rádio Observador, em direto neste Dia Internacional da Mulher, para também nos contar um bocadinho da sua história e para nos mostrar a grande mulher que é. Muito obrigado e até breve.
Muito obrigada mesmo. Dá lentinho.