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Quente e Frio de quinta-feira, 24 de setembro, com a Filomena Martins. Olá, Filomena, muito bem-vinda.
Olá, Nelson.
Agora que já estamos aqui a três, cinco dias daquela chuva que temos vindo a anunciar por cá no Quente e Frio, já podemos dar como certa.
Como certíssima, porque os modelos a três dias já são completamente confiáveis e a cinco dias também praticamente garantidos. Três dias é quase 100% de certeza e a cinco, apesar de pequenas incertezas, às vezes quanto às quantidades de chuva e aos locais onde vai chover, já é muito garantido. Portanto, certo, certinho, a chuva está a aproximar-se de Portugal e as previsões confirmam o regresso da precipitação já domingo. Deve dar-se na próxima semana, terça e quarta, a passagem de várias frentes atlânticas capazes de provocar chuva intensa, mas mesmo intensa, em várias regiões do país e em todo o país, portanto, norte a sul.
Chuva que vai andar por todo o país. Hoje ainda está muito calor e até ainda há alguns avisos amarelos do IPMA para vários distritos. Isto vai mudar de repente ou vai ser assim gradual até domingo?
Vai ser mais gradual. As temperaturas depois vão cair de repente e acentuadamente. Esta quinta ainda está este calor até bastante seco, mas esta sexta-feira o calor vai resistir já, sobretudo, no interior. No litoral, as temperaturas já são muito moderadas devido à influência do ar marítimo. No sábado vão começar a aparecer mais nuvens, sobretudo no litoral norte e centro. Vai ser o primeiro sinal da mudança do estado do tempo, que depois se acentua nos dias seguintes. No domingo, os tais primeiros sinais de chuva vão chegar ao norte e ao noroeste, sobretudo a partir da tarde, e depois a previsão de precipitação é que se estenda gradualmente às outras regiões. É a partir, no entanto, de segunda-feira e sobretudo na terça, que os modelos apontam pra uma mudança muito significativa. A passagem de uma frente atlântica é tal que vai provocar chuva mais generalizada, por vezes forte. O norte e centro vão ser inicialmente as regiões mais expostas, mas a chuva depois deve chegar a Lisboa, ao Vale do Tejo, ao Alentejo. E a instabilidade deverá prolongar-se até quarta-feira, com a possibilidade de passagem de uma segunda frente. Falta saber a intensidade e a distribuição da chuva, porque dependem da trajetória dessas depressões atlânticas. Por isso os acumulados previstos é que têm de ser acompanhados nas próximas atualizações. E por trás desta mudança está uma depressão atlântica que pode sofrer uma ciclogenese explosiva no início da próxima semana, e já iremos falar disso. Portanto, nos Açores, a instabilidade vai chegar mais cedo, porque a passagem de uma frente fria vai provocar chuva e vento forte já esta sexta-feira, sobretudo nos grupos ocidental e central, e no domingo poderá aproximar-se uma segunda depressão com mais chuva e mais vento. E é esta segunda depressão, este sistema que os modelos projetam que se intensifique muito rapidamente enquanto se afasta do arquipélago até à Irlanda e traz uma frente que altera o tempo em Portugal continental.
Vamos lá a esse fenômeno de hoje, ciclogenese explosiva. O que é isto?
Sim, ciclogenese explosiva acontece quando uma depressão se intensifica a uma velocidade extraordinária. E isto vai poder ajudar a explicar a chuva prevista pra Portugal na próxima semana e até a intensidade dessa chuva. O que isso significa exatamente, a tal ciclogenese explosiva? Uma depressão é uma região onde a pressão atmosférica é mais baixa que nas áreas à volta. Quando essa pressão desce muito rapidamente, a depressão intensifica-se. Se a descida ultrapassar determinados valores num período de 24 horas, estamos perante essa tal ciclogenese explosiva. O termo pode até impressionar, não significa, no entanto, que haja ali uma explosão. Refere-se à velocidade extraordinária com que a depressão se desenvolve. E é isso que neste momento os modelos meteorológicos estão a prever pro início da próxima semana. Pra termos uma ideia, o critério de referência mais conhecido é uma descida de cerca de 24 hectopascais, é assim que se mede a pressão, em 24 horas, embora o valor exato varie muito consoante a latitude onde estamos.
Pois, mas por que esta queda de depressão é tão importante?
Porque uma diferença muito grande de pressão entre o centro da depressão e as regiões à volta pode gerar ventos muito fortes. Nos mapas meteorológicos, isso traduz-se em isóbaras muito próximas umas das outras. É uma coluna de ar em queda abrupta. O exemplo que eu posso dar não é perfeito, mas imagina que deixas cair uma coluna de qualquer coisa de grande altitude ou um objeto qualquer de grande altitude. Se essa queda for muito rápida, percebes que à volta se espalham ventos, espalha tudo à volta. Agora é aumentar em muita escala e perceber que isto é uma coluna de ar e de chuva que cai muito de repente, muito rapidamente, de uma grande altitude. Portanto, imagina os ventos que isto provoca. E é assim que depois formam aquelas ventanias e aquelas chuvas.
Mas como é que esta depressão que se está a dirigir aqui, vai primeiro passar pelos Açores, depois vai ali encaminhar-se pra Irlanda, pode trazer chuva a Portugal?
Aí a explicação está naquelas frentes atmosféricas que falávamos ontem. No domingo, a depressão deve passar perto dos Açores, lá com a tal chuva e vento, e até antes dessa fase de intensificação explosiva. Depois vai deslocar-se para nordeste. É aí que se aprofunda muito rapidamente sobre o Atlântico Norte e na segunda-feira o seu centro já deverá estar próximo da Irlanda e provocar as tais condições meteorológicas adversas. Só que as frentes associadas à depressão poderão prolongar-se para sul e atingir já Portugal continental, porque essas frentes podem ter centenas e centenas de quilômetros e estender-se, é aquilo que parece os rabos da depressão, a última fase que enrola e depois fica pra trás. É por isso que os modelos apontam pra possibilidade de chuva mais generalizada na terça e depois de uma nova frente que ainda fica pra quarta-feira. Ou seja, Portugal não precisa ser atingido diretamente pelo centro de uma tempestade para sentir os seus efeitos. E uma ciclogenese explosiva não é necessariamente um furacão. Os dois fenômenos têm mecanismos de formação diferentes. Mas pronto, os rabos desta depressão, que serão dois, são frentes e devem nos atingir a sério terça e quarta-feira, sendo que as primeiras chuvas chegam já no domingo.
Vamos à curiosidade de hoje. Parece que o deserto mais seco do mundo está a transformar-se num jardim. Como? Alterações climáticas, não.
Sim e não. Neste momento, a culpa é muito do El Niño. É um dos lugares mais secos do planeta, ficou este enorme jardim natural. Eu trouxe fotos pra te mostrar, cabe a ti descrevê-las.
São lindas. É mesmo um deserto em toda a sua plenitude. As montanhas ainda estão com cor de deserto, mas embaixo, no vale, já está tudo colorido.
Isto é o deserto do Atacama, no norte do Chile, é o deserto mais seco do mundo. Só que as chuvas invulgares das últimas semanas, e aqui o El Niño é o culpado, fizeram despertar sementes que permaneciam adormecidas debaixo da terra. E esta paisagem extraordinária são extensos tapetes de flores roxas, brancas, e que estão a cobrir normalmente as áreas que são áridas. O fenômeno é conhecido como deserto florido. Só acontece quando se reúne realmente uma combinação particular de chuva e temperatura. Muitas destas plantas sobrevivem durante anos sem chuva. As sementes permanecem lá no solo, à espera das condições certas pra germinar, enquanto outras são apenas bulbos e tubérculos, que ficam também subterrâneos. Há um pormenor surpreendente em determinadas zonas costeiras do Atacama, pouco mais de 15 milímetros de chuva, que não é nada, são chuviscos, podem ser suficientes para desencadear o aparecimento destas flores. Quando isso acontece, podem surgir mais de 200 espécies de plantas, algumas que são exclusivas desta região do Chile. Um aviso pra os visitantes, alguém que possa estar por estas bandas. As autoridades chilenas pedem que ninguém pise as flores, nem circule de automóvel fora dos caminhos autorizados, porque muitas destas plantas precisam completar o seu ciclo de vida completo pra produzir novas sementes pra que o deserto possa voltar a florir nos próximos anos.
Quando as condições estiverem reunidas, elas lá vão surgir outra vez e tornam um dos desertos mais secos do mundo num autêntico jardim. Procurem também pela internet, estas fotos serão fáceis de encontrar. É no deserto do Atacama, com grandes porções de flores a nascerem num cenário que não esperávamos por isso. Obrigado, Filomena.
E até amanhã.
Até amanhã.