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Dama também vem de uma origem diferente. Nós não éramos o pianista, o que toca xilofone e o guitarrista que tocavam umas malhas juntos e depois decidiram formar uma banda.

Esta é a imagino.

Eu imaginei a banda que ele disse agora.

Nós vimos da amizade e sinto que um dos grandes fatores do sucesso dos Dama é exatamente isso, é a nossa amizade e aquilo que nós também passamos às pessoas da nossa energia interna dos três. Mas, de facto, é mais complicado. Eu sinto que o mundo também não está muito propício, infelizmente, a essas percepções de que a união faz a força.

Há músicas que nos acompanham como se fossem velhos amigos. Canções que dizem aquilo que sentimos antes de sabermos pôr em palavras. E há bandas que fazem isso com uma naturalidade que nos desarma. Hoje falamos sobre os dias de estrada, mas também o início em palcos pequenos e os sonhos que se foram tornando refrões cantados por milhares de pessoas. Uma das bandas mais queridas do público português, com uma carreira feita de letras que todos sabemos decor, concertos esgotados e uma ligação muito especial com todos os fãs. Os Dama, em 40 Minutes. Sejam muito bem-vindos.

Olá.

Miguel Cristovinho, Miguel Coimbra e Caixa.

Oi, boa tarde.

Bem-vindos aqui à Rádio Observador. É a vossa primeira vez aqui, é um gosto receber-vos. E foi interessante preparar esta conversa convosco, porque são 12 anos de carreira, mas para todas as pessoas que vos seguem há já muito tempo e muitas delas desde o início, é quase uma carreira muito consolidada na música portuguesa e que vos confere aqui uma certa responsabilidade ou um peso. Vocês sentem isso de alguma forma? Nesta fase da vossa carreira, vamos dizer assim.

Nós sentimos mais leveza neste momento. Claro que há uma grande responsabilidade, nós temos noção de que temos de trabalhar, isto é o nosso trabalho, nós levantamos e deitamos obcecados com o nosso projeto e com outros projetos que temos em comum também ligados à música. E temos noção do que nós estamos a semear hoje. Na música normalmente é assim, vai escolhendo à medida que vais andando. Então isto é a bola de neve, tens de estar sempre a alimentar, tens de estar sempre a meter neve. E nós temos 12 anos de carreira profissional, já fazemos música há 20 anos, desde pequeninos, desde a nossa adolescência, e tem sido uma aventura muito interessante.

Como é que se traduz essa leveza, Caixa?

Para compor um bocadinho, eu sinto que a nossa responsabilidade prende-se com nós fazermos música verdadeira e que venha de nós. Eu acho que isso às vezes é um desafio na tua carreira, tu manteres a razão pela qual tu começaste a fazer as coisas. E Dama tem mantido isso. Nós mantemos a nossa amizade, que originou tudo, as nossas canções falam sobre verdade e nós transformamo-nos sem perder a identidade.

E continuam a aclarar as mentes?

Essa é a missão. Depois serão outras pessoas a fazer o juízo de valor. Nós procuramos fazer isso, mas acima de tudo também é, acho que para os artistas, e isto é muito terapêutico. Nós precisamos disso, nós precisamos de fazer isto. Depois, a consequência é o que é que do outro lado as pessoas recebem e o que é que com aquilo que tu dás, aquilo lhes faz. Mas nós fazemos isto por uma questão de necessidade. E ao mesmo tempo, o facto de sermos uma banda, acho que tem um extra de tudo, de dificuldade, mas também de prazer, porque tudo é partilhado, as dores, as felicidades. Muitas vezes o meu processo sobre aquilo que nós fazemos não é só pessoal, eu também olho para os meus irmãos e vejo como é que este processo está a ser para eles. Ao longo destes anos todos, passamos a vida, os momentos mais marcantes da nossa vida, passamo-los juntos. Por isso, ver como é que isso reverbera em todos e como é que a energia dos outros dois pode puxar-me para cima ou o inverso, é mágico mesmo.

E o facto de te referires a eles, ao Caixa e ao Miguel, como irmãos, também já fala muito desse espírito que existe em vocês enquanto grupo. Nós estamos aqui essencialmente para falar de um projeto que vocês andam por aí a tramar algumas coisas. Já vamos desvendar um bocadinho daquilo que podemos ir desvendando. Doze anos de carreira, como eu já disse. Já foram a Alentejo num primeiro EP que se chama Canções Bonitas, volume um. Agora neste volume dois, já temos uma canção que entretanto já saiu, Terra da Maria, que é também aqui um tema original de Roberto Leal e é uma homenagem à vida do cantor luso-brasileiro. Há muitas coisas nas redes sociais que têm saído, vocês têm andado aqui a tramar muitas coisas, como eu já disse. Onde é que esta Terra da Maria nos quer levar? Os fãs vão convosco até onde?

Essa é uma boa pergunta, uma boa questão.

Isso é self-explanatory. Nós queremos balsa.

Não quero o óbvio.

Queremos ir de balsa à Terra da Maria.

O que é que tem essa terra?

É Portugal. Terra da Maria é Portugal. Até os brasileiros gozam, têm muitas anedotas da Maria, do Joaquim. São nomes tipicamente portugueses e a Terra da Maria, nós estamos a falar de Portugal. Fala de uma música de a Terra da Maria, fala de uma pessoa que emigrou, mas depois vai de volta à Terra da Maria. Eu vou andando para a Terra da Maria, quando eu parti disse adeus à minha terra. E depois é uma música que fala desta identidade portuguesa e tem a identidade portuguesa no sangue, portanto, é uma versão do Roberto Leal.

Essa história, por acaso, acho que é uma história que faz sentido contar aqui do porquê. Desculpa ter-te interrompido, Miguel, eu vou contar essa história.

Estejam à vontade. Eu disse no início que isto ia ser uma selvajaria e um freestyling off. Portanto, vamos cumprir como deve ser.

É isso, como tu disseste bem, nós com o Canções Bonitas em Português descobrimos um bocado o que é a beleza de ir às raízes e tentar com a nossa ancestralidade ir buscar coisas que nos unem a todos. E fazer com que, por exemplo, uma canção que tem como base o cante alentejano, fazer uma pessoa do Algarve ou de Trás-os-Montes sentir-se português na mesma. E claro, usámos um bocado também os nossos recursos, a nossa experiência e o nosso hábito de fazer canções para também pôr a nossa identidade lá e aí nasceu Casa e todas as canções do primeiro EP. Mas para este segundo EP, que é uma viagem noutra zona da portugalidade, coincidiu que até foi um EP muito puxado aqui pelo nosso Coimbra, que ele tinha na cabeça que tínhamos que fazer isto e contagiou-nos também. A coisa boa de termos uma banda é às vezes é isso. Um puxa para uma visão e os outros pegam ou os outros dois estão a ver e o outro não está, mas nós vamos convencer-te. E essa é a realidade. E ele puxou bué essa energia e nós dirigimo-nos a uma zona específica do país, que é o norte do país. Só que ao mesmo tempo que nós estávamos a começar a fazer isto, surgiu um convite muito interessante do Rodrigo Leal, que é o filho do Roberto, para estar conosco. Surgiu-nos que ele gostaria de estar conosco, então nós convidámo-lo para ele vir ao nosso estúdio. E ele foi com a filha, onde estivemos à conversa, almoçamos, estivemos à conversa durante muitas horas. E sinceramente, é óbvio que todos conhecemos o Roberto Leal, de sermos pequeninos e dele ser uma figura icónica, acho eu. Mas não tínhamos consciência, talvez, da grandeza mesmo da carreira dele, ou pelo menos eu não tinha, falo por mim. E mesmo do facto de ele ter sido uma pessoa que saiu da região do Minho e foi para o Brasil com apenas 11 anos e sem ter regressado a Portugal, só com aquilo que esses 11 anos de vida lhe deram, ele fez uma carreira no Brasil com sons daquela região do país, daqui do país de Portugal, região minhota. E isso foi muito inspirador para nós.

Concesso marcante mesmo.

Muito. Pronto, e ele convidou-nos para nós fazermos uma versão de um tema à nossa escolha, do repertório do Roberto.

A escolha foi fácil?

Não, por acaso tivemos várias opções.

Ouvimos muitas.

Ouvimos muitas músicas. Para um projeto de homenagem ao pai que ele vai fazer, vai lançar ainda este ano, que é o "Vira do Avesso". E nós íamos só fazer uma versão, como outros artistas que foram convidados também fizeram ou farão. Só que o problema é que nós gostamos muito de pôr tudo o que nós temos em tudo o que nós fazemos. Então acabou por uma versão transformar-se numa coisa com a qual nós já estávamos completamente entregues e apaixonados, que foi esta canção. E que fazia muito match com o projeto que nós estamos a desenvolver já para DAMA, que é o Canções Bonitas em Português volume dois. E então nós dissemos-lhe amavelmente que gostaríamos de levar a bandeira um bocadinho mais acima, neste sentido que gostávamos de lançar a música nós também e pô-la no nosso projeto. E ele ficou muito feliz, logicamente. Acho que é isso que todos nós queremos quando fazemos alguma coisa com algum artista, é que ele faça as coisas com a maior profundidade possível.

Claro.

E pronto, essa é a razão pela qual isto aconteceu.

A terra da Maria são esses caminhos de Portugal que nós estamos a percorrer e estamos a convidar as pessoas a virem conosco. Não só os caminhos de Portugal, mas os caminhos da lusofonia.

Exato. E vocês andaram aqui por Lisboa ainda na semana passada a promover este novo single. Vocês têm noção que têm aqui uma ótima música para a época que se está quase a inaugurar, dos Santos Populares. Isto vai ser muito badalado.

Oxalá.

Oxalá.

Não, mas vai acontecer.

Mas é isso, todas estas músicas que estamos a fazer transportam um bocado essa sonoridade.

Exato. Foi a primeira coisa que eu pensei assim que eu ouvi. Pensei: "Isto dá match com a época que vai começar".

Que vai bater nos Santos. Exato. Sim, eu creio que sim. Creio que daqui para frente vamos ouvir muito essa música e muitas outras que nós estamos a preparar para este projeto nos Santos e em épocas mais festivas e que pedem este tipo de canções e de andamento.

Exatamente. Viemos da viagem do Alentejo, em que tem mais que ver com as vozes, com as harmonias e com esse poder desse cante alentejano. No norte do país, temos descoberto mais ritmos. E pronto, estamos a incorporá-los agora também na nossa...

E muitos arraiais, não é? Muitos arraiais.

Bailaricos. Nós queremos é bailaricos.

Entretanto, eu não sei se vocês podem desvendar alguma coisa, mas a nível de colaborações, o que é que podemos saber? Se não podemos saber nada, também digam.

Quando é que sai esta entrevista?

Esta entrevista sai este domingo. Que é dia 1 de junho, dia mundial da criança.

Dia 1 de junho.

Podemos já dizer uma, assim muito rápido.

Pronto, ele já vai lançar.

O Miguel Coimbra é aquela pessoa que assim que tem a oportunidade...

Vou tomar liberdade. Eu podia dizer muita coisa que não vou dizer. Mas vou dizer esta em específico, é: vamos lançar uma música com a Agatha.

Uau!

Ya.

Ya, é verdade.

Nós vamos lançar um grande banger com a Agatha.

Meu Deus.

É verdade.

Também pertence a um disco de homenagem aos 50 anos de carreira da Agatha.

Sim, ela deu um concerto há pouco tempo no Casinha do Estoril.

Exatamente.

Vocês estiveram lá, não foi?

Foi a primeira vez onde nós aparecemos.

Eu já devia ter percebido, porque eu vi isso e lembro-me de ter falado disso aqui na rádio, do concerto dos 50 anos de carreira da Agatha, e estranhei no sentido de os DAMAs estarem aqui é porque pode haver aqui alguma ligação futura.

Ela inicialmente convidou-nos para esse concerto, para nós mais ou menos escolhermos uma música dela e irmos só cantar no concerto. Porém, nós como somos um bocado malucos, nós decidimos levar as coisas um bocado mais além, depois a música ficou um grande banger, espetacular. E nós decidimos: "Não, nós temos de lançar isto". Então nós basicamente Preparámos um single para ela que vai ser lançado também daqui a duas semanas, creio que dia 10, dia 11 de junho. E também é uma para os Santos, para os Santinhos estarem lá todos conosco.

Muito bailarico com os Dama e neste EP, Canções Bonitas em Português, volume dois. Ainda aqui neste tema. Eu sei que há uns dias, e já falámos disto, mas vamos falar aqui também em on nesta entrevista, montaram um estúdio num quintal.

Isso aí foi outra...

Expliquem-me esta experiência. Isto está nas vossas redes sociais, eu vi, acho que foi no TikTok.

Sim, mais uma vez também aqui um grande push do nosso Miguelito.

É mais um impulsionador desta charrete.

Nós tentamos todos ser impulsionadores à sua maneira.

Há fases e fases, não é? Vocês também, sendo uma banda, há sinergias que se vão formando em diferentes fases.

Estás a ver, nós somos indivíduos diferentes. Cada um de nós sente-se às vezes tocado primeiramente por alguma coisa que os outros ainda não estão a ver. E neste sentido, também muito pelo facto de eu estar muito por dentro deste projeto e de eu ter sido um grande impulsionador deste projeto também, relacionada com a tua pergunta, esta cena de termos ido fazer o quê? Nós fomos cantar a Miranda do Douro. E em Miranda do Douro, nós tomámos também contacto com a cultura mirandesa, que era logicamente uma coisa que tínhamos pouco contacto, só por ser uma cidade que está a cinco horas de Lisboa, nunca tínhamos lá ido tocar e foi incrível conhecermos as pessoas de lá, conhecer a cultura de lá. Nós somos pessoas realmente sensíveis, portanto quando a beleza é posta à nossa frente, nós não conseguimos ignorá-la.

E foi o caso.

E foi o caso. Então estávamos em palco e até dissemos que fica aqui a promessa de que vamos fazer uma canção em mirandês. E portanto, sem adiantar muito mais, esse estúdio que tu viste já foi uma consequência do facto de nós termos voltado a ir para Miranda.

Um estúdio à portuguesa. Eu já estou a ficar feliz porque estou aqui a saber coisas que nem esperava saber. Ágata.

Deixamos a próxima colaboração. Fizeram uma música no meio de um quintal. Podemos chamar-lhe quintal?

Era maior um bocadinho do que isso.

Era uma casa meio abandonada. Eu até tenho ideia que aquele sítio onde nós montámos o estúdio era onde a malta pisava uvas.

Era.

É provável.

Aquilo era meio uma adega.

O microfone estava montado no sítio onde a malta pisava uvas.

Exatamente.

Portanto, olhem, eu estou aqui...

Mas a acústica até era porreira. Nós a ver: "Olha, vamos lá estar a ver". Começámos a bater palminhas nos sítios todos da casa e da quinta, nos cantinhos todos, e aquele realmente tinha ali, no meio da pedra.

Foi muito engraçado ver as pessoas de lá que nos receberam. Deixar aqui um grande abraço, especialmente ao Paulo Meirinhos, dos Galandum, e ao Júlio e a toda a gente que nos recebeu lá, de coração. Eles todos do gênero: "Vocês estão habituados a estúdios", na ótica deles, a grandes estúdios. Na realidade, nós somos pessoas bastante simples, o nosso estúdio é um estúdio bastante tranquilo e nós gostamos é do processo de fazer música. Se agora tu quisesses fazer uma coisa aqui, nós fazíamos.

Eu não tenho esse talento, mas adorava proporcionar-lhes esse momento, mas eu para a música não é bem o meu talento.

O Francisco falou de uma coisa há bocado, que é a verdade. E era isso, essencialmente, foi aquilo que nós fomos captar lá. Independentemente de onde pões o microfone, nós arranjamos sempre forma daquilo sair com alguma qualidade, mas mais importante do que estar com o melhor som do mundo e o melhor isolamento e o melhor microfone, é estar com aquela energia verdadeira e tocado com fé e com a raiz e com o verdadeiro sentimento daquelas pessoas. E foi isso que nós conseguimos captar, por isso é que ficou mágico. Missão cumprida.

E todas estas canções que nós estamos a fazer, tanto fizemos no Alentejo como as que estamos a fazer agora, só são possíveis porque de facto nos sítios onde nós vamos, há pessoas dedicadas e orgulhosas às suas raízes e que as defendem e que as ensinam aos outros e que tentam passar para as gerações futuras. E essa tem sido a riqueza, nós temos ido às terras e com o facto de nós nos darmos à terra, a terra também nos dá algo para nós. E tem sido um verdadeiro privilégio, porque não tem sido os Dama irem ao Alentejo ou irem a Miranda do Douro ou irem a Ponte de Lima e fazer uma música à Dama em Ponte de Lima. Não, nós temos feito canções com as pessoas das raízes, por isso nós estamos a criar um universo novo, que somos nós e eles a pôr as mãos na massa para construir uma coisa que nunca existiu. É uma experiência completa e também torna especiais as pessoas dessas mesmas regiões que sentem que também, de certa forma, a cultura está a ser posta na música, ou seja, não existe aquela tendência de deixarmos tudo aqui, às vezes muito centrado em Lisboa, e vocês também se preocupam com essa questão de tornar a cultura difundida um pouco por cada parte do país.

Nós percebemos é que há uma riqueza imensa na nossa cultura, na nossa ancestralidade, nas nossas raízes, quando nós todos éramos mais unidos. Hoje em dia há muitas distrações e cada pessoa cada vez é proporcionada mais viver na sua bolha e na bolha do que gosta ou do que tem interesse. Mas há ritmos que reverberam no nosso corpo e corpo português, logo assim que começam a tocar e nós não sabemos porquê, mas vem daí.

E nisso eu fico muito contente, não sei se vocês concordam com isto. Eu venho do Norte, que é uma zona de muitos arraiais, muitos bailaricos, e parece que estamos aos poucos a esbater este, não é preconceito, mas havia, se calhar, muitas pessoas que ouviam música popular portuguesa e não o diziam às vezes por vergonha. E parece que aos poucos, com esta questão dos Santos, com este trabalho que vocês também estão a fazer agora, estamos a ir mudando aqui, não digo mentalidades, mas a torná-lo mais normal se dizer.

E porque existem pessoas que foram contra isso. Percebes? Foram contra a vergonha e mantiveram-se fiéis ao que é valioso na cultura

A conversa está muito boa, mas o tempo passa a voar e a primeira parte já está.

Já foi.

Vamos só atualizar aqui as notícias e já voltamos para a segunda parte em 40 minutos, hoje com os Dama. Estamos de volta à segunda parte do Bem 40 Minutos com os Dama, Miguel Cristovinho, Miguel Coimbra, Caixa.

Estamos aqui.

Sejam bem-vindos mais uma vez. Afinal estamos aqui de regresso. Estamos a falar do vosso novo EP, que vai sair até o final deste ano. Estamos aqui neste trabalho de produção e já soube coisas que eu não estava à espera. Vão ter um featuring com a Agatha, uma canção que fizeram num concerto que foram dar a Miranda do Douro e já estou aqui a saber inside information. Mas queria vos perguntar: este EP, à semelhança do primeiro, tem o mesmo nome, "Canções Bonitas em Português", neste caso, o volume dois. Para vocês, o que é que torna uma canção bonita? Há bocadinho já falávamos aqui da questão da verdade, mas o que é que torna uma canção bonita hoje em dia?

Boa questão.

Boa questão.

Vai lá.

Eu acho que quando tu ouves uma música, tu sentes, ou seja, é quase emocional. Tu podes racionalmente dividir a música e ver que ela está bem construída, bem ou mal gravada, etc. Mas o que a torna bonita, eu acho que é aquilo que ela te faz sentir.

Sim, e é subjetivo, claro.

O que torna uma canção? É que costumamos dizer que é diferente uma música de uma canção. Uma canção é um sentimento englobado de maneira diferente e harmonicamente. Nos faz sentir mais do que uma música. Às vezes uma canção fica bem de todas as maneiras. Só a guitarra, só o piano, com beat. Uma música já é mais específico. Mas sim, concordo que é bastante subjetivo o que é uma canção bonita.

Vocês já estão neste volume dois, mas queria perguntar aqui em relação ao volume um, o primeiro, que foi dedicado ao Alentejo, que principais diferenças é que vocês têm sentido até a nível de maturidade musical, ou seja, naquele que é o vosso processo criativo, o que é que vocês têm sentido de diferente?

De diferente em comparação com o quê?

No contexto do processo criativo, ou seja, de fazerem este EP. Eu sei que estão nesta fase mais inicial, acredito que tenham muitas coisas já pensadas, mas que se calhar ainda não estão realizadas. Como é que vocês fazem a diferença, ou seja, de um volume um para um volume dois, se bem que as zonas são diferentes. Estamos a falar aqui da zona do Alentejo para a zona do norte do país, mas ao nível de maturidade, ou seja, notam diferenças já de um volume para o outro em coisas ou decisões que eventualmente já tomaram? Isso nota-se de alguma forma?

Não sei, acho que para nós, foi uma coisa muito recente, portanto eu sinto que nós não podemos dizer que estamos numa fase diferente da nossa vida. Sentimo-nos um bocado as mesmas pessoas, mas a experiência é sempre diferente. O objetivo do Canções Bonitas em Português sempre foi, ou pelo menos quando começou, foi ir a alguma raiz, estar com as pessoas que estão habituadas a trabalhar essa raiz, com músicos, com produtores, com instrumentistas, que estejam habituados a trabalhar com essa raiz musical e fazer um trabalho colaborativo conosco. Eu não sinto propriamente uma grande diferença na maturidade, sinto mais ou menos a mesma coisa.

Sim, são bichos diferentes. Alentejanos são bichos diferentes da malta do Minho.

A raiz em si é muito diferente.

Mas sim, encontramos mais coisas em comum do que diferentes. A grande diferença, de facto, aqui tem mais que ver com o ritmo do Minho para o Alentejo.

E isso chega a ser uma espécie de desafio para passar de um estilo para o outro?

É muito desafiante. Tu cantares em cima de uma concertina não é igual a cantares em cima de uma guitarra.

Pois não.

Isso foi mesmo tempo que nós tivemos que aprender.

Ficamos assim: "Por que é suposto fazermos aqui?" Os gajos começam a tocar e nós assim: "E agora? Como é que se canta isto?"

Onde é que nós nos metemos aqui no meio? Isso também é parte da beleza. Eu considero que Dama é um projeto que nós tentamos manter-nos fiéis à nossa essência, àquilo que nos fez começar, falar sobre os nossos sentimentos ou sentimentos das pessoas que estão à nossa volta, de uma forma simples, de uma forma inteligível e tentar conectar-nos com o público dessa forma. Mas efetivamente nós somos um projeto que não tem propriamente um gênero musical. A única coisa que normalmente somos englobados é no pop, porque é uma coisa que é bastante abrangente. Nós podemos fazer o Mãe, que é uma coisa mais rock com orquestra, como podemos fazer o Loucamente, que é música flamenca ou raiana, e continua a ser pop. Mas esse é o nosso grande objetivo, é nós conseguirmos manter a nossa essência, apesar de estarmos a fazer coisas com estilos musicais totalmente diferentes. Esse é que é verdadeiramente o desafio: como é que tu consegues fazer uma música que tem canta alentejano soar a Dama? Como é que tu consegues fazer uma música que é um vira ou um rancho soar a Dama? Esse é o nosso desafio, mas

Eu acho que estamos a conseguir.

Todos os artistas começaram por ser artistas porque estavam a divertir de fazer aquilo. Então manter esse reason why, nós estamos a divertir a fazer estas coisas, ousarmos transformar, ou seja, para nós, este momento estamos a viver agora com o Terra da Maria, que decidimos: "Ok, agora bora pôr umas perucas".

Eu fiquei desiludido, vou-te dizer. Eu hoje estava à espera de ver-vos aqui com fatinho.

Está calor.

Mas hoje está muito calor em Lisboa.

Estas personagens são mudas.

É muito calor.

Mas perante esta carreira de 12 anos que nós temos e a quantidade de coisas que nós tivemos a oportunidade e a bênção de poder fazer, seja a nível de concertos, seja a nível de discos, nós ainda termos tudo isto para dar e que nos entusiasma.

Têm essa energia, não é? Como no primeiro dia ainda.

Exatamente. É manter o que é essencial na nossa gênese igual, mas tudo o resto é transformar, ir em frente, descobrir e dar-nos ao mundo.

Porque já fizemos também muita coisa.

Exato.

Tipo, real. A nossa sensação é essa.

Eu a preparar esta entrevista, às tantas, ia-me lembrando de canções que vocês fizeram e é uma viagem, é passar de um ponto para o outro e é aquilo que vocês dizem. Eu acho que muitas vezes vos colocam na caixinha, vamos dizer assim, entre aspas, do pop, porque se calhar é aquele que é mais fácil de encaixar, porque vocês fazem de tudo.

Pop é popular. Nós somos efetivamente do povo. Graças a Deus, tivemos essa sorte daquilo que foi o produto dos nossos corações e do nosso amor uns pelos outros, ter caído no gosto das pessoas e de muitas pessoas.

Prova disso são os concertos esgotados onde quer que vocês vão.

Há aqueles artistas que seguem uma linha muito fiel musical ou em termos de género, e que quando saem dessa linha, parece quase que o público deles estranha.

Sim.

E fica: "Não estás a ser fiel a ti próprio". Ficam ali num espaço concentrado. E nós sempre procurámos tirar completamente essa barreira, porque não queríamos, acima de tudo, não queríamos, e porque também sentíamos que não fazia parte de nós estarmos a pôr numa caixa qualquer. E portanto, agora eu sinto também que as pessoas ao longo destes anos todos, já fizemos tantas vezes isso, que voltar a fazer é só natural.

Mas sentem que ao mesmo tempo, por exemplo, estão sempre a elevar a fasquia e as pessoas estão sempre à espera: "Bem, o que é que eles inventaram desta vez?" Se calhar, quando viram o nome da canção, pensaram: "'Terra da Maria', o que é que vem aí dos DAMA?"

Isso é lindo de sentir. Pomos na pele do que eles foram inventar outra vez.

Exato. Mas eu acho que é o que as pessoas pensam.

Se estiverem a cantar e a sentir, para nós está ótimo.

A questão é que funciona e tem funcionado ao longo dos anos. Vocês lembram-se de um momento em que perceberam que vocês, enquanto grupo, enquanto DAMA, iam mesmo resultar? Ou seja, conseguem fazer essa viagem ao ponto de perceberem: bem, foi aqui que nós percebemos que as coisas iam correr bem e que nós nos íamos manter estáveis ao longo do tempo.

Nós tivemos muita sorte, incertamente.

E a estabilidade é sempre uma coisa, mesmo para nós, que graças a Deus temos uma carreira ótima e bastante consolidada. A estabilidade não é uma coisa, não sabemos como é que são os DAMA nos próximos 12 anos. Por isso, nós só podemos garantir é que vamos estar aí a fazer canções e a transformar-nos. Mas a estabilidade nem sinto que seja uma coisa que faça muito bem.

E a questão de vocês perceberem, no início, as coisas. Vocês já se conheciam antes, ou seja, o projeto em si acabou por acontecer porque vocês estavam muito bem e perceberam que conseguiam funcionar juntos. Vocês conseguem transportar-se para esse momento e perceber se nesse dia não tivessem dado esse passo ou não tivessem apostado na música, o que estariam a fazer? Hoje em dia, Miguel Coimbra, Miguel Cristovinho, Caixa, seria algo relacionado com a música ou o futuro seria muito diferente daquilo que é hoje?

O futuro é tão específico que seria com certeza muito diferente daquilo que é hoje.

Mas eu acho, olha, nós contactamos muito, nós temos agora, aproveitar também para dizer, não sei se tiveste a oportunidade de ler isso em algum lado, mas nós temos uma editora que nós abrimos, que se chama Maktub Art Group, uma editora e uma agência onde nós procuramos dar a artistas emergentes uma nova, ou fazer aquilo que nos aconteceu, que é através da nossa arte nós conseguirmos subsistir e pôr o pão na mesa. Temos conosco o artista que já está um bocadinho mais consagrado da nossa editora é o Buba, Buba Spin, mas de resto é tudo malta que está a começar agora, os Bandidos do Cante, um projeto que há três anos não existia. A Mar, que é um projeto, bem, não vou falar individualmente de cada um, mas a Mar, o Bruce, o Lutz, Potter, Suave. O que eu observo, nós observamos, é que são artistas que, apesar de não conseguirem ainda viver em absoluto da música, tirando a exceção do Buba, logicamente agora, porque a vida dele também mudou muito recentemente. Apesar disso, são pessoas que estão constantemente a trabalhar na música, como nós. E eu acho que, de certa maneira, ou pelo menos eu gosto de pensar assim, se as coisas não tivessem acontecido da forma que aconteceram, que foi muito abençoada, no sentido em que tu mudas enquanto pessoa e enquanto profissional, quando tens algum sucesso de volta, porque é quase uma resposta do mercado àquilo que tu estás a fazer, então és obrigado a pôr as coisas numa perspectiva diferente. Quando tu ainda não recebeste isso, é mais difícil, porque tens que estar constantemente no teu belief interno ou no belief das pessoas que trabalham contigo, ainda não tens aquele feedback positivo. Eu acho que nós estaríamos a fazer outras coisas, mas ao mesmo tempo a tentar continuar a fazer isto, ou pelo menos é assim que eu gosto de pensar, porque não íamos conseguir não fazê-lo.

Acho eu.

E falando desta nova geração de músicos, de canções que vão surgindo, as coisas são diferentes hoje. Vocês têm a agência e falaram aqui de vários nomes, alguns já muito conhecidos no panorama musical. Sentem que as coisas hoje, até pelas redes sociais, estão ligeiramente mais fáceis? Ou seja, hoje em dia, pode ser possível alguém lançar um single, uma canção e ser minimamente conhecido ou até a música ter algum reconhecimento nas redes sociais, pode tornar-se conhecido através dessa plataforma. Na vossa altura era ligeiramente diferente, ou seja, não havia esta questão das redes sociais. Já havia redes sociais, mas não com esta exposição. Como é que vocês olham também para essa realidade e essas diferenças que existem antes para o agora?

É sempre um pau de dois bicos. Percebes? Porque-

A exigência hoje também, se calhar, é maior do que há uns anos.

E há mais artistas. E há mais meios. E agora é um algoritmo que se tu não o promoveres, não te leva a tua arte às pessoas. Ou seja, hoje em dia já não existe aquela coisa que nos aconteceu, que é: somos miúdos, pomos a música no YouTube e a música bateu um milhão sem nada. Isso é uma coisa que também já não existe. Por isso eu sinto que é mais complicado hoje em dia, se tu quiseres criar um nome, tu o criares do que era na nossa altura. Na nossa altura, quando nós surgimos neste panorama de passar na rádio, não havia assim tantos players no mercado. É um caso muito único e foi a tempestade perfeita, mas sinto que hoje em dia é mais difícil para um artista chegar e conseguir criar um nome e subsistir da sua arte. De outra maneira, também sinto que há mais facilidade, porque tu podes criar efetivamente a tua comunidade, estar mais próximo das pessoas que querem saber da tua história e da tua arte. É mais fácil para as pessoas monetizarem a sua história e a sua arte, ou seja, esse trabalho de proximidade, sinto também, há mais plataformas para as pessoas estarem próximas dos fãs. Mas é um pau de dois bicos, não está assim tão fácil, porque o algoritmo de fato é complicado e se tu ainda não estás a dar concertos, não tens propriamente dinheiro para pôr em promoção. E então fica efetivamente mais complicado.

E muitas vezes é encontrar a pessoa certa, a questão da sorte que vocês falaram.

Claro.

De ter alguém que olhe para vocês com outros olhos e ver em vocês o potencial, a vocês ou noutros artistas, para também potenciar esse talento.

Sim, o sucesso depende de muitas coisas e com quem te rodeias é, sem dúvida, um dos fatores mais importantes, porque como o Miguel disse há pouco, nós vivemos o sonho, e o sonho é tão simples quanto isto: nós sentimos, expressamos, cantamos com os nossos amigos e pomos o nosso pão na mesa. Esse é o verdadeiro sonho. Há muita gente muito talentosa que não tem essa possibilidade. Nós estamos a tentar, pelo menos os que estão conosco, tenham a possibilidade de viver este sonho.

Acho que as pessoas, só para dar aqui mais um insight, as pessoas também esquecem-se que isto não é um sprint, isto é uma maratona. Não é com uma música que se chega lá, não é com duas. Às tantas, não é no primeiro disco, nem no segundo.

Vocês são a prova disso.

Tens de continuar. Nós fomos um caso único na medida em que as nossas três primeiras músicas foram três singles que rebentaram e que foram das nossas maiores músicas logo, que foi o 'Às Vezes', o 'Desajeitado' e o 'Luísa'. Ou seja, aquilo batia nas rádios todas, isso foi tipo . Mas até chegar aqui, mesmo com este avanço todo que nós tivemos, isto é uma maratona, porque podia tudo ter acabado ali. Nós estamos sempre a depender. Os nossos próximos anos estão a depender daquilo que nós estamos a fazer agora.

Mesmo assim, nós fazíamos canções desde os 14 anos. Tocávamos em discotecas e fazíamos essas coisas.

Limpávamos muito chão.

Limpávamos muito chão pra poder tocar também.

Ou seja, agora com as coisas que estão virais, etc, virou-se um bocado essa perspectiva e é importante, principalmente os jovens perceberem que é preciso muita consistência, muita disciplina no trabalho. Hoje vais estar a trabalhar o que vais colher nos próximos anos. E mesmo que tenhas sucesso agora e a tua música bata os 40 milhões ou 50, whatever, tens que continuar a ir no estúdio com a mesma humildade que foste no dia anterior.

Sim, eu tenho a sensação que às vezes as pessoas romantizam um bocadinho, também fruto do fato de na música e nalguns gêneros musicais, a ostentação e haver certas coisas que fazem parte da cultura, que faz com que romantizem um bocadinho a profissão. Mas a verdade é que todos os artistas que estão e que continuam a estar bem posicionados, é malta que trabalha todos os dias, muito, e que têm todos os dias à sua volta pessoas que trabalham também muito. Portanto, não consegues com o momento, porque nós já passamos por algumas ondas de foco, as pessoas estão a olhar para nós, e ondas onde as pessoas não estão a olhar para nós. E o que faz com que tu consigas ter as pessoas a olharem para ti é quando as pessoas não estão a olhar para ti, tu estás a dar exatamente o mesmo que estavas a dar quando as pessoas estavam a olhar para ti, porque voltará a vir uma onda em que as pessoas estão a prestar atenção e tu só vais estar preparado se tu tiveres feito o trabalho, tiveres feito a parte difícil que é

estar quando ninguém está a ver, a fazer o mesmo.

O trabalho ao longo do tempo.

Não esquecer isto.

E limpar chão. Não nos vamos esquecer. Nós aqui no ano passado, no "1min40", recebemos o João Gil e numa parte da entrevista falámos sobre bandas. Ele é um grande impulsionador e fundador de nomes grandes em Portugal. E ele falou em alguma tristeza pelo facto de hoje em dia não termos tantos grupos musicais, ou seja, os artistas acabam por socar mais na carreira a solo. E o facto de termos grupos como o vosso, estou a lembrar-me agora dos HMB, mas existem muitos outros grupos. Ele dizia que dava uma certa frescura e que era preciso criar mais sinergias. Vocês, olhando enquanto grupo para aquilo que está a ser feito, também sentem isso ou conseguem ver essa questão de uma outra forma? Isto porque vocês também têm a agência e têm artistas a solo, mas falamos aqui dos Bandidos do Cante, que são um grupo.

É muito complicado. Por isso é que eu acho que também há menos, porque é muito mais difícil. Nós, Damas, já poderíamos ter terminado diversas vezes. Isto não é para ser um chavão, nem um clickbait. Já muitas coisas poderiam ter feito com que cada um de nós olhasse de uma perspectiva mais individualista ou pouco comunitária e deixássemos de ver o grande objetivo ou a grande missão que nós temos. Porque às vezes passamos por muita fase na vida. É muito mais difícil fazer música quando tens os teus colegas que têm filhos. Tu é que não tens.

Vocês estão os três em fases de vida diferentes.

Exato.

Só por si, já é um desafio.

Dama também vem de uma origem diferente. Nós não éramos o pianista, o que toca xilofone e o guitarrista que tocavam umas malhas juntos e depois decidiram formar uma banda.

Sempre que ouvi isto, eu imagino esta imagem.

Já imaginei a banda que ele disse agora.

Nós vimos da amizade e sinto que um dos grandes fatores do sucesso dos Damas é exatamente isso, a nossa amizade e aquilo que nós também passamos às pessoas da nossa energia interna dos três. Mas de facto é mais complicado. Eu sinto que o mundo também não está muito propício, infelizmente, a essas perceções de que a união faz a força. E é uma coisa que os Bandidos têm e que para mim é uma das chaves do sucesso, é que eles são realmente fãs uns dos outros. Eles estão a gravar, microfone, um faz uma coisa incrível, o outro: "Iupi, uma cena incrível, Bora. Tu também". E isso é uma cena muito importante, juntamente com outra que é: eu acho que isto está lindo, brothers. Isto está mesmo lindo, mas para eu achar que isto está lindo no seu máximo, o meu lindo máximo é eles os dois acharem que está lindo. E assim se forma essa unidade daquilo que é a banda, é a junção do que eu acho que está lindo com o dele e com o dele. E isso é uma coisa que às vezes é difícil de alcançar, porque estamos em trabalho criativo, estamos a pôr sangue nas coisas e muito sentimento, mas se pusermos a meta que é: "Ok, isto para estar do caraças mesmo, é para estar do caraças para os três". Se ainda não está, se só estão dois, é porque ainda não está. Vamos lá arranjar maneira disto estar do caraças para os três. E só aí quando atingimos esse pináculo é que as coisas estão prontas para ser lançadas.

E esse sentimento é de facto extraordinário. Estarem os três ao fim de 12 anos, mais um bocadinho até, no mesmo comprimento de onda e sentirem o mesmo.

Nós não estamos sempre no mesmo comprimento de onda. Nós puxamos é sempre para o comprimento de onda que importa.

Está aí a diferença.

É óbvio que ao longo da nossa vida já um estava a desbaratar.

Um estava no Alentejo, o outro estava no norte.

Onde fosse. A grande diferença é que nós enquanto homens conseguimos mesmo olhar uns para os outros e perceber. Nós sabemos o que é que importa mesmo. E se tu não estás a ver, eu vou te mostrar. E quando eu te mostrar, tu vais perceber. E depois de perceberes, ok. Os outros dois vão dizer assim: "Bem-vindo outra vez".

Estamos aqui mesmo a chegar ao final do nosso tempo, mas eu acho que se não fizer esta pergunta, há pessoas que me vão, não digo criticar, mas possivelmente vão mandar uma mensagem a dizer assim: "Por que não perguntaste isto?"

Ok.

Como é que é um dia de estrada dos Dama?

É um dia normal. Nós saímos com a nossa comitiva, somos 18, normalmente. É uma grande família que se desloca na estrada e chegamos ao sítio, temos um soundcheck, onde estamos todos. Já ali sincronizamos a nossa energia, vemos o nosso som e depois normalmente vamos jantar.

Outra garrafa de uísque.

A segunda metade da garrafa de uísque.

Importa dizer que quando começaste a falar, o Miguel Cristovinho meteu as mãos na cabeça, só para os nossos ouvintes.

Porque eu tenho sempre algum receio. O Miguel é uma pessoa um bocadinho...

Sentes-te mais ou menos o pai deles os dois?

Não.

Não há essa questão.

Aliás, eles já foram meus pais muitas vezes, portanto não tenho essa...

A história vai mudando.

É verdade. Sim, e depois temos o concerto e depois vamos para o hotel. É muito simples. Há um ou outro local onde nós vamos festejar, mas hoje em dia já acontece muito raro.

No início, já íamos todos os dias.

Até deixar de ser possível festejar todos os dias, porque senão era todos os dias, todos os dias.

Agora a nossa experiência de estrada também já está muito mais enraizada na nossa vida. Ir para a estrada há sempre e haverá sempre A magia e a beleza de antes de entrar em palco é mais uma bênção, é mais um concerto. Não são só pessoas que estão aqui mais uma vez.

Nós temos o nosso ritual.

Nós temos os nossos rituais, só que agora já não é sempre uma grande festa. Às vezes há dias em que estamos mais felizes ou mais acesos.

Acredito. Acontece-me todos os dias também quando chego ao trabalho. Há dias que me apetece mais, há dias que me apetece menos.

Maioritariamente, eu acho que a ideia que as pessoas têm do que é estar na estrada tem alguns fundamentos de verdade, mas maioritariamente é quando as coisas são novidade e quando ainda não as fizeste, então queres mais viver tudo. Nós já vivemos bastante. Portanto, agora estamos tranquilos.

Vamos fechar esta conversa com a pergunta para vos fazer pensar. Esta é a pergunta o que dizem os teus olhos, versão Rádio Observador.

São João.

Se pudessem convidar os Dama de 2012, bem daquele início, para um concerto hoje, o que acham que eles iam dizer no final do espetáculo?

"Foi incrível, não foi?" Acho que era o que eles iam dizer. Foi o que nós dissemos depois do nosso concerto nas Festas do Mar e o nosso manager da altura disse assim: "Foi bom".

Temos muito que trabalhar.

Foi bom.

Foi lamentável.

O que nós lhes diríamos a eles ou o que eles nos diriam?

O que eles diriam de vocês.

De nós?

Sim.

Olha, não está mau.

Quem diria?

Quem diria?

Sim, senhor. Como é que o senhor faz isso? Dama, muito obrigado por terem estado aqui conosco na Rádio Observador.

Obrigado nós.

Em 40 minutos. Estendeu-se mais um bocadinho, mas acho que todas as pessoas que gostam muito de vocês e que vos seguem já há muito tempo vão gostar também de perceber este lado do grupo, o lado do Miguel Coimbra, do Miguel Cristovinho e do Caixa, porque com vocês é sempre uma animação e nós agradecemos por isso e continuem a serem fiéis a vocês próprios, à vossa sinergia e a criarem sempre coisas novas e diferentes, porque é disso também que a música portuguesa precisa. Muito obrigado por isso.

Obrigado nós.

Muito sucesso e lá estaremos em breve para ouvir esse featuring com a Agatha, porque eu estou curioso.

Vamos lá.

Um abraço.