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Há uma piada que eu adoro, sobre atores. Vamos ver se consigo contar isso bem, porque sou péssimo em contar anedotas. O que é autoconfiança para um ator?
O que é?
É um mecânico.
Tem feito muito cinema num país onde a sétima arte é um parente pobre dessa família pobre chamada cultura. Fez muita televisão e também muito teatro. Já trabalhou com os grandes e com os emergentes. Interpretou dezenas de personagens, umas mais densas, outras mais planas. Qual terá sido a que mais o marcou? Ganhou prêmios, saboreou o sucesso. É ele que nos tem guiado na história da vida dupla do espião traidor, o mais recente podcast Plus do Observador. Ivo Canelas, a partir de agora em 40 minutos. Ivo, bem-vindo.
Obrigado.
Já fizeste de tudo, o que andas a fazer agora?
Agora tenho uns dias de férias, bem apetecidos, e começo ensaios para um espetáculo encenado pelo Ricardo Neves Neves para o Teatro Villaret. Vamos fazer o "Closer" com a Helena Caldeira, a Sissi Martins e o José Vitor Costa. E depois tenho um monólogo encenado pelo João Paulo Benequiri sobre o Eduardo Lourenço. Escrito pelo Gonçalo Antunes Tavares.
Muito bem. Já tinhas experimentado o monólogo?
Sim.
Em Luanda, certo?
Não, all over. Fiz o "Todas as Coisas Maravilhosas", que eu encenei com a minha amiga Dora Bernardo, sobre a depressão e suicídio, e fiz durante muitos anos. Passei também por Luanda.
Muito bem. Cinema, teatro, séries de televisão. O que te preenche mais como ator, Ivo? Esta é uma pergunta recorrente, não é?
Sim.
Mas tu que já fizeste tanto.
Como a minha avó sempre me disse, eu sou uma boca santa. Eu gosto muito de tudo, desde que haja inteligência e humanidade no material, e as equipes sejam interessantes, com a mesma inteligência, profundidade, prazer, profissionalismo e, acima de tudo, noção de trabalho de equipe, que é algo que eu aprecio muito, esta ideia de colaborarmos para uma ideia conjunta. Mas o meu coração pende sempre pelo cinema e pela televisão. O teatro tem algo que eu gosto de ir pontualmente, mas há algo no respeito ao tempo, ou seja, no respeito de termos que lá estar às 21h todas as noites, que a mim me apraz menos. Eu gosto do caos organizado do cinema e da televisão.
És um ator libertário.
Gosto muito de acordar às 5:00 para filmar às 7:00 e deitar-me às 10:00 para filmarmos às 16:00. Gosto dessa instabilidade e constante mudança.
Prezas o trabalho em equipe, mas há um lado muito solitário na vida de um ator, ou não?
Eu acho que todas as profissões têm sempre um lado em que há um momento em que temos que estar sozinhos a preparar-nos e depois há o momento em que trabalhamos em conjunto. Não sei se um ator tem um trabalho mais solitário. Acho que pelas suas características humanistas e de experimentarmos e tentarmos apresentar o nosso ponto de vista de um ser humano, acho que requer um grande contato humano. Por outro lado, não sei, talvez em exagero, muitos de nós somos naturais bichos do mato e há uma propensão para alguma timidez e solidão.
Tu estás nessa?
Sim, completamente.
É?
Sim.
Engraçado. Não transpareces nada essa ideia.
Somos todos muito bons a pôr a nossa cara.
És um bom ator.
Somos todos ótimos atores.
Tenho muita curiosidade sobre isto, não sendo ator, sobre o trabalho dos atores, porque há ali muita dedicação ao texto, a decorar, e depois também muita dedicação à personagem que vai nascer dentro de ti. Como é que isso se cria?
Eu acho que todos nós temos formas diferentes de nos aproximarmos de um texto e de uma personagem. Acho que tem que haver uma profunda dose de curiosidade e interesse pelo outro. Acho que a empatia é uma ferramenta muito útil para nos aproximarmos do que é ser o outro, quer nós estejamos de acordo ideologicamente ou não com a personagem que vamos defender. Mas não me cabe a mim, como ator, julgá-lo, cabe a mim, como ator, defendê-lo.
Isso pra ti é um entrave, a personagem, ou seja, quando não te identificas com a personagem?
Não, de todo. O exercício é esse. Ou seja, há personagens que são muito mais perto daquilo que eu sou naturalmente e com os anos aprendi que isso, se calhar, nem sempre é uma vantagem, porque há uma falta de objetividade, há uma pouca distância que nem sempre me permite aquilo que nós achamos que nós somos e aquilo que nós somos realmente, há sempre uma grande distância. E depois há personagens que são francamente distantes daquilo que somos e acreditamos, e cada vez mais me interesso mais por essa distância. Todos temos que medir a que distância é que estamos e aprender a fazer essa caminhada.
Muito bem. Portanto, pra ti não há nenhuma diferença entre interpretar um sacana ou um motar.
Não, de todo.
Pergunto motar porque tu andas de moto.
Não, de todo. Se houver humanidade nesse personagem, serão personagens todos interessantes, sejam bons ou maus. E nós somos todos bons e maus, depende do lado em que estamos sentados.
Exatamente. Mas como é que é no teu caso?
Há um lado teórico de pesquisa. Há sempre um lado de pesquisa e de investigação, que é essencial. Depois, nós temos uma desvantagem na nossa indústria, que é sempre aquela com que eu debato mais, que é o tempo. Se calhar, não somos só nós, acho que ninguém tem o tempo ideal, mas nós estamos muito longe desse tempo. E é um trabalho de experimentação que eu muitas vezes sinto que não tenho o tempo suficiente, que é depois de apropriarmos a parte do texto, acho que é sempre a parte mais fácil, aspas.
Engraçado, dizes apropriar e não memorizar.
Sim, é muito giro porque a questão das palavras e as palavras que nós usamos, que tu usas e as que eu uso, aquelas que nos são mais fáceis e habituais, nem sempre são, muitas vezes não são, as que outras pessoas e personagens usam. E essa questão de nós querermos falar coloquialmente sempre usando o nosso vocabulário limita-te do ponto de vista do personagem, em termos da capacidade depois de memorizarmos, apropriarmo-nos daquela forma de falar ou daquelas palavras em particular, é sempre sintomático. Estou agora a traduzir um texto com uma grande amiga minha, a Margarida Vale de Gato, e nós rimo-nos imenso com aquilo que nos é natural dizermos. E gozamos muito com: "Por que tu dizes 'depaupério' com essa facilidade? Nunca me passaria pela cabeça dizer isso". Porque cometemos sempre um erro que é: nunca ninguém diz isso. E não é verdade, há sempre alguém que diz e é preciso perceber por quê. Depois dessa investigação e depois dessa apropriação, eu acho que há uma aplicação na realidade, se possível no mundo real, se possível fora da black box, para ver como é que o mundo reage àquilo que construímos. E depois há a parte mais interessante de todas.
E isso passa por quê? Por fazer testes com os amigos?
Ires pra rua com a roupa ou com as ideias. Coisas tão simples como experimentares o que acontece naquela frase, se a utilizares na vida real, dentro dos limites do que dá e do que não dá. E depois há um momento que eu acho particularmente interessante e difícil, que é o contacto com os colegas. Isto mais em cinema do que em teatro, já que em teatro há um processo de ensaios, normalmente coletivo. Em cinema é raro haver esse processo de ensaio coletivo, é um processo individual, que é o contacto quando tu chegas e eu chego ao nosso dia de filmagem e a tua ideia e a minha ideia, em contacto uma com a outra, forçam-me ou a ti a abandonar muitas das ideias que estive a trabalhar. E isso é um momento que me fascina e que eu encontro muito exclusivamente nesta área, que é depois de eu estar seis meses ou três meses ou dois meses a trabalhar em algo, em que defini e decidi uma série de coisas, mas aquilo que tu propões obriga-me a abandonar ou a adaptar violentamente aquilo que eu estive a fazer, acho fascinante, porque senão são só duas cabeças teimosas a amarrar com aquilo. Mas é muito difícil largares tanto trabalhinho em prol do que o colega está a propor, que provavelmente poderá tornar a cena mais rica e interessante.
Ivo, qual foi a personagem mais difícil de interpretar até hoje na tua já longa carreira?
Acho que é difícil responder.
A mais desafiante.
Acho que as personagens têm uma característica um pouquinho como a vida. Todos os dias são uma surpresa e há dias em que estamos ótimos e saímos pra rua e o dia torna-se mais complicado do que aquilo que nós esperávamos. Eu não vejo um personagem na sua totalidade como mais fácil ou menos fácil. Tens cenas que são difíceis, tens dias que são particularmente difíceis, ou por questões técnicas do que está a acontecer no momento durante as filmagens ou durante os ensaios, ou por questões pessoais, ou por questões do personagem. Portanto, eu não te consigo responder concretamente. Sei que há dias em que encontrares a disponibilidade não é fácil. Só isso é um desafio enorme, estares disponível, por exemplo, no monólogo "As Coisas Maravilhosas", conseguir manter a disponibilidade de aceitar todas as propostas de improvisação do público, manter essa disponibilidade constante não era fácil. Agora filmei uma série que ainda não saiu, dois dias de rodagem em que tive que me preparar fisicamente durante dois meses. Foram dois meses infernais até àquele dia. Chegando ao dia, fluiu surpreendentemente, não quer dizer fácil, mas mais fácil do que os dois meses anteriores. Não te consigo dizer um personagem particularmente difícil ou fácil.
Muito bem, mas é desafiante para um ator não só ter de viver a sua vida e o seu dia a dia e depois, de repente, ser chamado a interpretar a vida de outros. Como é que tu deixas para trás um dia mau para o transformares em frente à câmera ou no palco numa prestação boa?
António Damásio, neurocirurgião, no seu prefácio, "A consciência de si", fala sobre a consciência e tem uma descrição incrível sobre acordar num avião e em pouquíssimos segundos saber exatamente quem é, onde é que está, onde é que veio, que horas são, tudo, vindo do sonho, do mundo do sonho. A nossa consciência tem essa força, portanto, o desafio é o contrário. O desafio é conseguirmos surpreendê-la e convencer-nos ou imaginarmos momentaneamente que somos outra pessoa ou outra personalidade. Senão estaríamos no ramo da loucura e era muito difícil fluir entre uma coisa e outra. Eu, pessoalmente, tento que encontrar sempre um ponto zero. É-me difícil começar a trabalhar sem limpar o meu dia, sem fazer um caminho desde o que eu fiz até aqui, como é que eu me sinto hoje, para tentar identificar isso e recomeçar de um sítio zero, mais disponível pra inspiração e pra poder começar a aproximar-me de outras formas de estar mais próximas do personagem.
Praticas reflexão? É um momento?
Técnicas semelhantes à meditação e disponibilidade física, como um desportista, preciso de pôr o corpo num sítio de abertura e aquecimento. E depois também como uma espécie de desportista emocional ou intelectual, preciso de limpar a cabeça para poder estar disponível e não estar cheio de: "Deixei o gás aceso, chateei-me com a minha namorada, onde é que eu deixei o carro", etc.
Muito bem. Ivo Quando é que decidiste ser actor?
Cedo, muito cedo. Acho que com 16, 17 anos. A música e a representação sempre foram coisas que me interessaram muito. Acho que há uma parte minha que sempre quis ser cantor quando era miúdo. Percebi rapidamente que não tinha a voz ideal para tal.
Mas ainda experimentaste bandas?
Sim, a brincar, mas era sempre despedido com justa causa. E a representação para mim foi um salto natural. Comecei a interessar-me muito por cinema e por documentários sobre atores e interessava-me muito essa ideia de tentarmos representar bocados e momentos de humanidade e outros seres humanos e sairmos um bocadinho da nossa experiência. Isso foi por volta dos 16, 17.
16, 17. Quando é que está a tua estreia?
Fui para o conservatório nos 17, 18 e tive a sorte de fazer o meu primeiro espetáculo um ano ou dois depois, na antiga Cornucópia, um texto do Abel Neves, encenado por Jacá Nastál, Almeida Gonçalves, que foi um momento muito marcante na minha vida.
Foi em 1991, não é? A peça chamava-se "Amantes", não é?
Exatamente. É de 91.
91. Estou a ler aqui. Bom início.
Foi fantástico.
Fortíssimo. Depois estudaste também no estrangeiro, não foi?
Sim. Tive uma bolsa da Fundação Nova Iorque, Fundação Luso-Americana, na altura Gulbenkian e FLAD, e fui para Lee Strasberg e andei lá entre 2001 e 2004, 2005, se não estou em erro, a estudar no Strasberg em Nova Iorque.
O que é que aprendeste lá que não podias ter aprendido-
Uma técnica.
Uma técnica?
Sim. O conservatório na altura ensinava-nos, mostrava-nos toca e foge uma série de técnicas possíveis e eu escolhi aquela. Durante quatro anos tive a possibilidade, já tinha pouca experiência profissional, mas alguma, e tive a possibilidade, que foi maravilhoso, que toda a gente pudesse ter esta possibilidade, que é voltar um bocadinho atrás e voltar a ter a possibilidade de não ter que resolver nada profissionalmente e poder estar em ateliê, em estúdio, com colegas a ver e professores a ver e dizer: "Não, sim, porquê? Mas achas que isso é assim? Por que é assim?" Teres o privilégio de cometeres erros à frente de pares, que é algo que eu acho que é extraordinário do ponto de vista de aprendizagem.
Isso exige uma grande disponibilidade pessoal, não é?
O ensino e a aprendizagem requerem isso e esta profissão tem este lado de termos que estar muito disponíveis para fazer figura de palhaço, no sentido de caírmos e ser risível o que estamos a fazer, de falharmos redondamente à frente das pessoas. Enquanto não tivermos essa capacidade de encaixe, dificilmente algum dia poderemos ter a possibilidade de fazer alguma coisa interessante. É preciso estar muito disponível para sermos risíveis.
É fácil cair?
Tão fácil.
Ir abaixo?
Como assim?
Psicologicamente, porque há um grau de exposição enorme, não é?
Sim, acho que é uma profissão que tem sempre este lado da exposição, do teu ego e da validação dos outros. O teu último trabalho é sempre o único que ou é uma grande porcaria ou que é fantástico, e todo o resto para trás parece que nunca contou para nada. Acho que tens que criar o teu próprio sistema, não diria de autoavaliação. Há uma piada que eu adoro, que é sobre atores. Vamos ver se eu consigo contar isto bem, contar que eu sou péssimo a contar anedotas. O que é autoconfiança para um ator?
O que é?
É um mecânico. É uma garagem, autoconfiança. Porque há algo nos atores, nós não estamos bem assentes nessa característica. Acho que é uma característica oposta. Tem que haver alguma fragilidade constante. Depois podemos representar tudo o resto. Podemos representar essa confiança e fingir essa autoconfiança, mas tem que haver sempre um sítio tenro para o nosso trabalho. E isso depois traz algumas, às vezes, vicissitudes que cada um de nós colmata e defende com as ferramentas que tem.
Muito bem. Estamos à conversa esta semana com Ivo Canelas. Vamos fazer aqui uma pausa. Regressamos já a seguir para a segunda parte do "Em 40 Minutos". Até já. Estamos de regresso à conversa com o Ivo Canelas, é o convidado do "Em 40 Minutos" desta semana. O Ivo Canelas narrou o mais recente podcast Plus do Observador, a vida dupla do espião traidor. Ivo, como é que foi esta experiência? Diferente do que tinhas feito até hoje? Nunca tinhas narrado um podcast, pois não?
Não. Tantos episódios, penso que não. Foi interessante. Eu gosto muito de narração, eu gosto muito de locução, gosto desse tipo de trabalho. É um trabalho de menor exposição, que eu também acho interessante, de estares atrás do microfone e não estares a dar a cara. Isso também acho interessante interpretar.
Há uma coisa que te assusta ou não?
O quê?
O sucesso.
Não.
Não?
De todo.
Convives bem?
Sim Na minha parca escala, ou seja, estamos a falar de um país muito discreto, o seu sucesso e o meu sucesso é um sucesso muito discreto, portanto, não sei como conviveria com não poder ir a um sítio qualquer porque as pessoas de seguranças, não conheço isso. Duvido que isso seja saudável. Deve ser difícil. Não sei quão fácil é seres feliz nessa estratosfera, parece-me difícil.
Muito bem. E o que é que te faz feliz fora dos sets de televisão, dos palcos?
A praia. Adoro a praia.
Eu vi que tu fazes mergulho.
Adoro fazer mergulho.
Mergulho de garrafa, portanto, vais fundo. Conta lá como é que surgiu essa paixão.
Era para fazer um trabalho, uma série que eu ia fazer, em que comecei a fazer pesquisa sobre apnéia e mergulho com garrafa, e depois o trabalho acabou por não se realizar, ou não se realizar comigo. E eu apaixonei-me por aquilo e é um sítio maravilhoso onde tem várias coisas que eu gosto muito, que uma é estar calado. Estás ali embaixo calado e ninguém diz nada e só ouves uma coisa exagerada de respiração e bolhas. E estás num meio que nós nos afastamos muito, que é o mundo aquático, de lá viemos e vivemos longe daquilo, mas onde eu entendo que cada vez que lá estou, aquela imagem que eu não percebia bem por que é que se via quando vais para o Guincho e vês aquelas pessoas tristes nos carros. Eu acho que não é mais do que-
Ali a apanhar sol uma tarde inteira, não é?
São pessoas que ainda não descobriram que podiam fazer mergulho e que estariam exatamente a fazer a mesma coisa de uma forma muito mais lá dentro. Na nossa costa não tem uma vida absolutamente excecional.
Mas tem paisagens aquáticas bonitas.
Tem coisas lindas. E às vezes não vês nada em Sesimbra. É onde tu mergulhas habitualmente, em Sesimbra? Sim. Tens uma visibilidade de meio metro a um palmo, mas só o facto de estares debaixo d'água, calado, encontrares a flutuabilidade zero, que é o mais perto de estares a voar no espaço, é absolutamente extraordinário. E o silêncio, e termos que comunicar por gestos de uma forma muito clara e teatral, uma série de sequências.
Do gênero: vou subir, vou ficar.
Estás bem? Estás calmo. Olha este peixe aqui, não sei o quê. Olha o peixe. Há um monte de sinais que eu sei.
Ainda estás a aprender a sinalética.
Olha um peixe pedra.
Um peixe pedra faz-se assim como se tentasses segurar uma concha?
Peixe pedra, por exemplo. Há um monte de sinais muito divertidos.
Muito bem, então como é que será um polvo?
É uma coisa assim. Sou péssimo com gestos.
O Ivo está a varalhar com as mãos.
Estava aqui a tentar fazer uma dança espanhola.
Mas é engraçado, é todo um mundo novo, não é?
É todo um mundo e é um sítio onde tu te apercebes com facilidade também, ou não te esqueces ainda com mais facilidade das alterações climáticas, onde tu estás lá embaixo e vês realmente a enorme porcaria que andamos a fazer de uma forma claríssima. A quantidade de lixo que tu encontras embaixo é assustador.
No fundo do mar.
Sim, a quantidade de armadilhas ilegais, de plástico, de porcaria. Nós fazemos mergulhos noturnos. O mergulho noturno é uma experiência absolutamente mágica. Mergulhares à noite no mar é mágico e de repente estamos em Sesimbra, em junho, à noite e a água está a 15 graus. Não é possível. Tu ires Sesimbra à noite e teres uma água de 15 graus. Portanto, é um sítio onde tu claramente percebes os problemas que estamos a deparar.
Tu fazes mergulho ou caça?
Mergulho.
Só mergulho.
Não caço nada.
Tens alguma objeção em relação à caça?
Não sou apreciador, nunca fui apreciador de caça. Caça como desporto não me interessa. Não me interessa em qualquer forma, feitio. É desequilibrada, nós estamos armados. Enquanto não tiver fome e poder evitar essas coisas, caça como desporto não me interessa e sou contra.
Muito bem. Ivo Canelas, manifestavas há pouco a tua preocupação em relação às alterações climáticas. És uma pessoa socialmente ou politicamente engajada com alguma causa?
Provavelmente não o suficiente. Sou pescetariano, só como peixe, já não como carne há uns anos. Faço porque não preciso, faço porque acredito que não devo, faço porque sinto que tenho que contribuir de alguma forma para equilibrar este profundo desequilíbrio do excesso de consumo humano. Portanto, compreendo piamente e absolutamente o que está a acontecer. Vejo acontecer todos os dias e acho incontornável. Acho surpreendente que não falemos sobre isso ativamente e claramente e continuemos a atirar areia para os olhos, enquanto há esta sensação de irmos a toda a velocidade contra o muro, com um sorriso na cara. Como é que dizia o outro? Isto vai ser porreiro. Até chegarmos ao apocalipse, vai estar quentinho. E depois deixa de estar quentinho e torna-se insuportável. Mas nós continuamos, há uma fotografia fantástica agora dos incêndios em França, onde tens um casal a beber os seus drinks a olhar os fogos do outro lado da costa. Portanto, para mim, esse é o sítio onde nós estamos como humanidade. O Covid teve uma coisa fantástica que foi-
Na tua opinião, essa fotografia demonstra o quê? Demonstra passividade ou impotência?
A nossa capacidade como ser humano de nos dessensitizarmos e de não nos relacionarmos com aquilo que não nos acontece diretamente. Ou seja, seja porque razão for, por desinteresse ou impotência, ou provavelmente a soma das duas coisas. Mas eu falava com alguém muito mais novo do que eu, muito mais engajado, muito mais ativista do que eu Porque é evidente. Porquê? Para já, porque toda e qualquer grande alteração vem sempre da juventude e não da meia-idade. Estão a perceber que são eles que vão ficar aqui a grelhar na grelha. Nós achávamos que íamos escapar, mas estamos todos a perceber que vamos, pelo menos apanhar, se não a reta final. Eu aos 80 anos, tu imaginas o que é nós aos 80 anos a levarmos com estas temperaturas? É loucura! Portanto, nós também vamos pagar o preço. Mas o Covid teve uma coisa fantástica que foi: nós todos em simultâneo dissemos: "Isto está mau." E foi em simultâneo. E durante aquele momento nós percebemos o espaço que como espécie e como sociedade ocupávamos, ocupamos. Foi claro. Ao retirarmo-nos, percebemos o espaço que ocupamos.
Achas?
Naquele momento, sim. Naquele momento, ao ficarmos quietos em casa, percebemos o espaço que a natureza de repente reocupou naquele mês cósmico, onde de repente nós recuamos e o resto voltou. Só que a questão do clima é que não é transversal, simultânea, universal e global. Agora é no teu bairro, no teu país, e eu estou a ver nas notícias: "Coitados, que tristeza. Vamos comer ou vamos viver com a nossa vidinha como sempre" e depois troca, depois sou eu. Andamos sempre uns OK e outros a caírem pro lado. Isso faz com que haja esta incapacidade amorfa de tomarmos uma decisão coletiva. E depois, tu vês isso agora em França outra vez, por exemplo, o Macron não disse uma palavra sobre mudanças climáticas. Falou-se imenso sobre carros de bombeiros e comprar aviões para apagar os fogos, mas ninguém disse. Agora o novo primeiro-ministro inglês, que eu não sei o nome dele, está a dar as voltas pelo por Inglaterra e está tudo à espera. Então tu não dizes nada? A Inglaterra está a arder. Não diz nada.
Achas que estamos aqui numa espécie de ponto de viragem em relação à mensagem dos últimos anos?
Acho que ainda não.
Nos últimos anos construiu-se o discurso público de que estávamos em emergência climática. Achas que estamos a sair desse discurso mais catastrofista?
Nós saímos. Nós em 90, quando fizemos as primeiras declarações de que temos que fazer aqui uma grande alteração, se não estou em erro, 92, 93.
92, com a Conferência do Rio.
Houve ali uma convergência.
O subsalto. O início do subsalto.
Vamos tratar do assunto, vamos já resolver isso todos como uma grande equipe. E depois, desde então, temo-nos vindo a afastar violentamente, a afastar no sentido de: "bora atrasar". Agora, nos últimos cinco anos, estivemos no: "vamos negar", enganámo-nos redondamente, desinformação total, e nós estamos na reta da desinformação, a discutir ainda com aquela imagem da água pelo pescoço. Eu acho que isto deve ser maré cheia e temos a água pelo pescoço. Portanto, estamos ainda na reta da desinformação e não tens um índice de opinion político, que tens Espanha neste momento na Europa, a fazer um discurso claro sobre condições climatéricas, sobre alterações climatéricas.
Muito bem, estamos muito longe da representação.
De todo.
Muito longe do teatro.
Deixa eu só dizer isto com uma ideia que é: de todo. Ou seja, é muito curioso, nós como artistas e como cada um nas suas profissões, não podemos mais. Ou seja, esta base onde nós vivemos, que é o nosso planeta, nós estamos longe demais, estamos a querer continuar com a vida as usual, quando isso não vai mais ser possível. Porque nesse sentido, não estamos longe, temos é que nos aproximar mais aquilo que fazemos das circunstâncias onde vivemos.
Ok, então deixa-me perguntar-te com muita provocação.
Claro.
O que tu fazes para mudar o atual estado de coisas, Ivo Canelas?
Muito bem, provavelmente não o suficiente. Com certeza, não o suficiente. Eu deveria, teoricamente, alterar uma série de comportamentos, para além dos poucos que alterei, que foi a minha alimentação em relação à carne. Essa é a minha contribuição concreta para o assunto. Como artista, penso que me deveria aproximar muito mais de um discurso claro sobre o que está a acontecer. A minha questão, e não a sei resolver, é que não sei porque se calhar me falta artisticidade, no sentido de eu não sou professor, eu não quero dar lições, não tenho sequer know-how para isso. Procuro veículos no meu trabalho onde se possa abordar determinados temas, mas fazê-lo de uma forma não moralista e professoral, que penso que isso também não interessa a ninguém e que não me compete a mim.
Muito bem. Tens uma longa carreira, Ivo Canelas. És um jovem de 52 anos. Quando trabalhas com jovens atores ou atores mais jovens do que tu, sentes alguma diferença geracional ou não?
Isso é giro. Não sei.
Nunca tinhas pensado nisso?
Nunca tinha pensado nisso.
Então ainda bem, quer dizer que te sentes ainda um jovem.
Nesse sentido. Não sei. Pois se calhar não, nunca pensei nisso. Estava aqui a ver se ia encontrar alguma diferença.
Para ti, trabalhar com um jovem recém-formado ou com um ator já com larga experiência é igual?
É igual. Ou seja, desde que haja dedicação e vontade de trabalhar e inteligência, vamos a isso. E prazer naquilo que se faz. Acho que é algo que determina muito o meu prazer em estar com pessoas. É pessoas que realmente gostam daquilo que fazem, têm essa possibilidade de gostar daquilo que fazem e têm a sorte de fazer aquilo que gostam. E isso dá um prazer imenso trabalhar com essas pessoas.
É uma sorte ser ator, digo eu, diz-me se estou errado, porque é uma daquelas profissões onde Onde só vão parar pessoas realmente apaixonadas. Ou há atores por engano?
Como em qualquer profissão, há relações mais próximas e mais distantes.
Ou seja, estarei enganado então? Não há só atores provocação.
Não, de todo. Como em qualquer profissão.
Isso destrói a profissão.
Como em qualquer profissão, equilibra. Temos uns mais perto, outros mais longe. Não digo que haverá, com certeza, pessoas com mais talento e mais dedicação do que eu. Não me coloco aqui numa posição nenhuma de superioridade. Cruzas-te com tudo. Cruzas-te com pessoas que dedicam 48 horas de dias de 24 e outros que dedicam o mínimo essencial. E outros que têm talentos extraordinários e têm uma profunda ética de trabalho, outros com talentos extraordinários que usam isso e não exploram a sua ética de trabalho, porque têm um grande talento e pouco precisam de fazer. E são poucos aqueles que cruzam realmente o talento e a ética de trabalho. Mas eu acho que isso se vê.
Vê-se onde?
Vê-se quando estás a trabalhar com eles, há uns momentos em que o queixo me cai por uns segundos e digo: "Fogo, ok." E obriga-me a ir para casa e eu subir a minha fasquia mais um bocado, porque é como uma corrida, percebi que aquele gajo treinou mais quatro horas do que eu, nitidamente, e eu tenho que puxar mais para manter a velocidade.
Há muitas formas de determinar o valor profissional de qualquer profissional de qualquer área. Os atores, por terem mais visibilidade pública, talvez seja mais notado o facto do crédito ou o valor profissional do ator hoje em dia estar indexado, por exemplo, ao seu número de seguidores nas redes sociais e à sua importância no digital. Sentes que isso está a determinar o meio artístico português ou nem por isso?
Está a determinar todos os meios artísticos. Sem dúvida alguma.
Sentes que há atores que são convidados para determinados papéis porque têm muitos seguidores nas redes sociais?
Estava aqui pensando no meu lado analítico. Gostava de ter dados concretos, mas esta é uma área que tem um lado de uma enorme subjetividade e abstração. Sempre tive colegas com formação e sem formação. Quando eu era jovem, arrogantemente achava: "Não tens formação ou não vieste de outro sítio." Hoje não penso isso. Hoje tem uma série de atores hiperconhecidos que não têm qualquer formação e que têm provado pelas suas escolhas e pelo seu talento e mérito. Portanto, a questão dos likes e não likes. Eu acho que estamos todos queimados com os likes. Eu acho que o problema é mais grave do que isso. Quer dizer, estamos à procura de resultados através de garantias. Se o like é uma garantia, quando uma produção estrangeira vai a um país como Portugal, vai procurar o seu ator mais reconhecido para atrair pessoas para o seu filme. Se o critério é uma mistura de talento e likes, se calhar é. E eu não tenho a certeza do que isso significa, porque eu acho que há pessoas com muitos likes, com muito talento e há pessoas com muitos likes, sem grande talento. Eu não sei o que isso significa. O que eu sei no final do dia? Sei que se tu fores a um realizador e a produção te apresentar várias pessoas para a frente e a tua escolha for aquela e te disserem, provavelmente não te vão dizer: "Escolhe este pelos likes." Vão te apresentar três pessoas, não te vão dizer grande coisa dos likes e tu vais escolher aquele que te interessa mais. Tu vais trabalhar com o material humano que tens. E ao fim do dia, é o que tu fazes com aquele material humano. Esta coisa a ver hoje o Edward Norton dizer este cérebro narcísico do ator de: "Eu faria melhor do que ele." Achas que sim? Se calhar não farias. Se calhar naquele momento, aquela pessoa é ideal. Não sei, eu tenho uma relação ambígua com esta história dos likes. Eu tenho o meu Instagram. Acho que estamos todos com o cérebro um bocadinho frito por causa dos telemóveis, é um facto. Portanto, em última análise, é uma forma de quantificar qualquer coisa. Acho que tem havido uma série de experiências no audiovisual que têm provado o contrário, que é independentemente dos likes ou não likes, há uma série de circunstâncias que ultrapassam a soma de likes, porque senão todos os filmes da Marvel eram um sucesso e não são. É muito difícil quantificar o talento e o sucesso de um projeto. Portanto, eu penso que ao final do dia podes pôr os likes que tu quiseres e o público vai determinar se vale a pena ir ver ou não.
Muito bem. Tens 52 anos, Ivo Canelas, já entraste na crise da meia-idade ou nem por isso?
Fogo, já entrei sim. Arranham, depois viram-me as costas, depois ela vem falar comigo, depois eu fujo outra vez. Andamos nisto, chateamos todos os dias.
A é? E isso manifesta-se em quê?
Na percepção que a vida é curta. E que a vida é mesmo curta. E há um momento em que parece que estás fisicamente em franca ascensão e depois há o momento em que estás fisicamente em franca luta pra te manteres vivo. E isso é fascinante e sempre me fascinou nos vários pontos da minha vida, de quando eu era novo a ver os mais velhos, agora em meia idade a ver os mais novos, em meia idade a continuar a ver os mais velhos, tenho sempre um imenso fascínio pelos mais velhos. Minha avó morreu com 101 anos, é uma referência pra mim da sua fisicalidade. Garanto que não tinha a pele esticada. E eu amava aquela pele enrugada. Já em ti é diferente. Mas acho que ao final do dia, eu lembro sempre dela olhar pra suas fotografias quando tinha 90 anos e dizer: "Eu era muito bonita", a relembrar-se de uma fisicalidade qualquer. A vibração do corpo é realmente uma luz fascinante, enquanto nós nos conseguimos levantar, correr um bocado e estar ativos. E depois é provavelmente ir evitando os espelhos. Evitando. Estar vivo é aproveitar enquanto queremos.
É verdade. O que ainda gostavas de fazer?
Fogo.
Nos muitos anos que tens pela frente ainda, Ivo Canelas.
Gostava muito de continuar a ter, como diz o Leonardo DiCaprio: "Só mais um filme". Eu acho que em vez de pôr o golo lá muito pra frente e a baliza lá muito longe, é mais um ano, a ver o que eu consigo fazer este ano agora que aí vai. Mais um filme, mais um projeto. Porque acho que é isso, acho que de projeto em projeto, a gente vai provando ou não a nós próprios qual é a nossa pertinência e vivacidade artística. É isso, só mais uma oportunidade. Vá lá, deixa-me lá só mais uma.
Ivo Canelas, muito obrigado, foi um gosto.
Obrigado eu, gostei muito.
Muito obrigado por teres vindo ao "Em 40 Minutos" esta semana com o ator Ivo Canelas. Ele é o narrador do mais recente podcast Plus do Observador, "A Vida Dupla do Espião Traidor". Ivo, até a próxima.
Obrigado, até a próxima.
Obrigado.