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Aqui eu fui feliz. Aqui fui terra. Aqui fui tudo quanto em mim se encerra. Aqui me senti bem. Aqui o vento veio. Aqui gostei de gente e tive mãe em cada árvore e até em cada folha. Aqui enchi o peito e mesmo até desfeito, eu fui aquele que da vida vil se orgulha. Aqui fiquei em tudo aquilo em que passei. Um avião, um riso, uns olhos, uma luz. Eu fui aqui aquilo tudo, até, a que me opus.

Dizem que a poesia é um exercício de silêncio, mas para ele, a poesia foi primeiro um exercício de fôlego. Antes de aprender a medir as sílabas de um verso, aprendeu a medir a distância de um salto. Um dia, o atletismo de alta competição perdeu um campeão, quem sabe, mas a língua ganhou um poeta. Houve um tempo em que o seu escritório era o passeio do Cais do Sodré. Ali sentado diante de uma máquina de escrever, vendia a eternidade a troco de uma moeda de 1 €. Escrevia para estranhos o que eles não saberiam dizer a si mesmos. Hoje, as suas palavras já não cabem apenas numa folha de papel, habitam os ecrãs de cada um de nós, viajam em vídeos de segundos, mas mantêm a densidade de quem sabe que o tempo é o nosso bem mais escasso. Diz que veio sem tempo, mas aceitou parar o relógio para nos oferecer o que tem de mais precioso. Hoje sentamo-nos à conversa com Pedro Freitas, mais conhecido como o poeta da cidade. Bem-vindo aqui ao "Observador".

Muito prazer e muito obrigado pelo convite. E esta foi a melhor introdução que eu já ouvi.

Pronto, é para fazer jus às palavras da forma como tu as juntas para nós.

Muito obrigado.

É um miminho, no fundo.

Muita honra.

Gostamos de receber sempre assim os nossos convidados aqui no "Em 40 Minutos". Primeira pergunta: um poeta sente mais e de diversas formas do que um comum mortal como eu?

Eu quero acreditar que não. Quero acreditar que todas as pessoas têm a capacidade de sentir. Aquilo que se calhar difere um poeta de uma pessoa comum, não poeta, porque os poetas também são pessoas comuns, é esta racionalização daquilo que se sente e da tentativa de tradução daquilo que se sente em palavras, porque no fundo é isto a poesia. É traduzirmos aquilo que sentimos e aquilo que experienciamos do mundo e transformá-lo em palavras e depois dessas palavras, organizá-las em versos, dos versos organizá-los em quadras ou em poemas e a partir daí, a poesia, de forma mais geral.

Daí nasce a obra.

Sim. Portanto, eu quero acreditar que toda a gente tem a capacidade de sentir. E até porque quem lê poesia e quem gosta de ler poesia, gosta de ler poesia exatamente por isso, porque revê-se nas palavras do poeta. E é algo que, já me estou a alongar demasiado.

Temos tempo.

É algo que acontece muito com a poesia. Não acontece só com a poesia, mas com a poesia é um bocadinho mais prevalente. Há sempre o medo do julgamento, porque vê-se na poesia uma forma de literatura mais pessoal, mais individual e que representa mais o próprio autor. E as pessoas que escrevem poesia, principalmente as que estão a começar, muitas vezes sentem receio do que os outros vão pensar sobre elas.

Tu também sentiste esse receio?

Senti.

Logo no início ou mais a meio do processo?

Mais no início, quando não era lido. Porque depois, a partir do momento em que comecei a ser lido por outras pessoas, que não os meus pais, que não os meus melhores amigos e as minhas amigas, que me conheciam e que conheciam muitas vezes os contextos das coisas que eu escrevia. Quando comecei a ser lido por terceiros e por estranhos, apercebi-me de uma coisa que é algo profundamente libertador, que é: as pessoas quando leem um poema, não colocam o autor no centro da ação, não pensam que o sujeito poético é o autor ou que o sujeito poético é esta pessoa, que era a mulher do autor ou a namorada do autor, ou o namorado do autor. Colocam-se a si próprios no centro da ação.

E isso deixa-te também mais descansado nesse sentido?

Deixa descansado, porque de repente as pessoas estão a ler um poema e não estão a pensar em ti, não estão a pensar no autor, não estão a pensar: "Ok, no meu caso, o que o Pedro estava a sentir?" ou "Quem é esta pessoa para quem o Pedro escreveu este poema?" Não. É: "Eu deste poema, consigo retirar aquilo que, no meu contexto, na minha vida, me está a fazer sentido neste momento". E isso é uma prova de como todas as pessoas têm esta capacidade de sentir. E por terem essa capacidade de sentir, conseguem criar pontes empáticas com aquilo que leem.

Mas neste livro que eu tenho aqui à minha frente, reeditado agora e que está, vamos dizer, no top um da FNAC, no top de ficção, que também é algo de se assinalar, uma vez que é um livro de poesia.

E da Bertrand também.

Também. Pronto, mais um a acrescentar.Há aqui partilha pessoal ou nem por isso?

O livro é toda uma grande partilha pessoal.

Isto a propósito daquilo que dizias de tornar o autor no centro.

Certo. Mas foi uma escolha deliberada. O livro nasce de uma promessa que eu faço na altura em que ele começa a ser escrito, em 2015, a uma namorada que eu tinha. Nós namoramos durante sete anos e eu, no início desta relação, disse-lhe: "Eu um dia vou escrever-te um livro de poesia". E o livro foi sendo escrito ao longo desses anos da relação. E depois acontece a relação acabar em 2021 e eu ver-me com sete anos de poemas e sete anos de deliberação, de pensamentos e de sentir que queria fazer alguma coisa com isto, já que tinha passado tanto tempo a escrevê-los. Portanto, o livro é, no fundo, uma cápsula gigante do meu tempo, ou seja, da minha vida, de como eu era quando tinha 17, 18, 19, 20, 21 anos, do que eu pensava, da forma como eu via o mundo, mas também um bocadinho desta relação que eu tive, do início, o que eu sentia, do meio, as trials and tribulations que a relação teve e depois do seu inevitável final. Portanto, ela nasce disso, mas depois, mais uma vez, a partir do momento em que começa a ser lida por pessoas que desconhecem por completo este contexto, vai ganhando outros significados.

Vamos em 40 minutos tentar também conhecer-te um bocadinho além deste nome, Poeta da Cidade, que é como és conhecido. Tu mostraste-te ao mundo de uma forma mais íntima no Got Talent, foi o sítio que te projetou mais até aos dias de hoje, talvez para teres esta carreira que tens hoje. Mas queria te perguntar, quem és tu com os teus amigos? E também, sentes aquela pressão, uma vez que pela tua profissão, vamos pôr aqui entre aspas, não sei se encaras desta forma, sentes aquela pressão, uma vez que sou poeta, tenho que ser profundo 24 horas por dia ou há espaço para outras coisas?

Não, até porque os meus amigos não me deixam ser essa pessoa.

Ok.

E porque também no lançamento-

Do que tu te estás a lembrar?

Do lançamento do "Vim sem Tempo", na FNAC do Colombo. Eu tinha lá os meus amigos, as pessoas com quem eu falo todos os dias, sobretudo, e que conheço desde os meus 11, 12 anos. Aliás, um deles vai se casar para o ano, vou ser padrinho de casamento. Pessoas com quem eu cresci. Eu não tenho irmãos e tenho poucos amigos a quem posso chamar de irmãos e aqueles que tenho são vistos mesmo como irmãos. A certa altura, depois da apresentação, algumas pessoas quiseram dizer algumas palavras, sempre muito sentidas, sobre mim, sobre aquilo que eu faço, sobre aquilo que eu escrevo, sobre aquilo que eu digo e sobre aquilo que as minhas palavras as fazem sentir.

E tu ficaste com medo quando chegou a vez deles?

Não, porque eles não falaram, mas eu olhava para a cara deles e eles estavam: "Pois, pá, esse não é o Pedro que nós vemos. O Pedro não é assim quando nós vemos."

E quem é o Pedro que eles conhecem?

É uma pessoa que se esforça muito, não é por ser o bobo da corte, mas gosto de fazer as pessoas rir. Gosto que se sintam bem comigo, gosto de fazê-las sentir-se bem, gosto de pôr as pessoas à vontade e de ser um bom ouvinte. Sou uma pessoa que ouve mais do que fala, com toda a gente. Às vezes, até para detrimento e para desgosto, por exemplo, dos meus pais, que gostavam que eu falasse mais e que partilhasse mais do que aquilo que partilho. Mas é um traço de personalidade, não consigo fugir. Mas eles conhecem um lado do Pedro que, para todos os efeitos, não é um lado que eu não mostro nas redes sociais, porque para todos os efeitos, aquela pessoa sou eu também. Mas se calhar é um lado um bocadinho mais curado, aquele que eu deixo transparecer. Não deixa de ser o eu real, mas há certas coisas que eu digo com amigos que não digo em público.

Sentes essa necessidade de separar o autor da pessoa, vamos dizer assim, ou achas que é uma coisa natural?

No meu caso ou de forma geral?

No teu caso. Estás-me aqui a dizer que com os teus amigos és uma pessoa, não digo diferente aquilo que és enquanto autor, mas que revelas outros traços da tua personalidade, não é?

Sim. Revelo, mas por uma razão também específica. Eu não sei se nós temos a mesma idade.

Possivelmente, sim.

Eu criei, por exemplo, Instagram em 2012. Não sei em que ano é que tu criaste o teu.

Só depois. Possivelmente, acho que sim. És dos mais antigos.

Eu estava no oitavo ano. E partilhava, como qualquer pessoa no oitavo ano faz, muito da minha vida e muito dos meus dias, e as pessoas ainda podem voltar, ainda têm as fotos e os vídeos. E depois à medida que fui crescendo e que fuiBalizando aquilo que queria fazer e a forma como me queria posicionar em termos profissionais, fui me apercebendo que não me fazia tanto sentido assim partilhar tanto da minha vida. Porque o mundo é assustador, nunca se sabe quem é que está a ouvir e porque as pessoas que estão à minha volta não pediram para ter qualquer tipo de acesso público, que o público tenha acesso a elas. Portanto, há uma decisão deliberada e consciente de eu escolher muito bem aquilo que partilho, porque também não quero partilhar demais. Não quero ser daquelas pessoas que partilha tudo aquilo que faz durante o dia, ou aquilo que come, ou por onde é que anda. E quando o faço, também por ter crescido tanto como cresci e por agora ter conseguido profissionalizar isto que faço, a poesia e a poesia dita, encaro as redes sociais mais como um meio para o fim, que é a venda dos livros, a vinda para os espetáculos, do que necessariamente um álbum fotográfico da minha vida. E portanto, sinto essa necessidade de, com eles, ser a pessoa que sou sempre, porque sinto que O Poeta da Cidade, de volta à tua questão, é uma pessoa indissociável de mim próprio, é uma personagem. Sou eu. Mas senti a necessidade de afastar essas duas vertentes da minha vida pessoal, da minha vida profissional.

E que cidade é essa que tu achas que estás a construir à tua volta? São cada vez mais as pessoas que te seguem, as pessoas que te leem, as pessoas que gostam do teu trabalho. Há bocadinho falávamos aqui à tua chegada à rádio, tens uma voz muito radiofónica, podias perfeitamente fazer rádio e ser meu colega aqui no Observador. O que tu achas que estás a construir? Porque o Got Talent deu-te o palco que tu precisavas, possivelmente, para abrir-te para outros caminhos. Serias uma pessoa diferente se, na altura, quando apresentaste, o impacto não tivesse sido tão positivo e tão na forma de abraço como tu recebeste.

Sabes que o Got Talent foi uma boa experiência, mas eu não sei se posso dizer que me fez chegar onde estou hoje. Porque também aconteceu em 2017, a presença nas redes sociais em Portugal não era tão forte como é hoje e temos visto muitos poetas e dizores de poesia aparecerem nos anos seguintes no Got Talent e terem uma presença digital, e depois até conseguirem ter um output muito maior do que aquele que eu tive. Aquilo que eu fiz esgotou-se muito rápido, porque nem sequer veio assim para as redes sociais, nem teve esse alcance que as coisas agora têm.

Mas não sentes também que foi o impulso para outros criadores também, no fundo, se darem a mostrar e pensarem: "Eu realmente tenho um talento e isto pode ser o meu talento para mostrar aqui"?

Não sei, porque não sei se é o melhor sítio, pelo menos para isto que faço.

Sim.

E até porque eu fui ao Got Talent porque abriu-se essa oportunidade. Já tinha criado o projeto O Poeta da Cidade há poucos meses e eu sabia que isto que eu queria fazer, e que comecei em dezembro de 2016, sabia que tinha espaço na internet e nas redes sociais e no Instagram e no Facebook e no YouTube, e depois mais tarde no TikTok, mas eu sabia que a coisa ia viver ali. E a minha ida ao Got Talent foi mais em duas perspectivas: de sondar a validação também, para que pudesse chegar talvez a um bocadinho mais gente, mas perceber. Eu sabia que tinha, mas queria essa validação também externa. E depois, a outra razão foi, eu em 2014 oiço poema do pai do Sam the Kid, do Napoleão Mira, que me deixa profundamente abalado emocionalmente. E eu estou sozinho no quarto.

Tinhas que idade na altura?

Tinha 16 anos. Recebo uma notificação a dizer que o Napoleão Mira acaba de partilhar um novo vídeo no YouTube. Acho que é Páscoa, tenho a família toda em casa, eu vou para o quarto, vejo o vídeo, fico profundamente abalado emocionalmente e digo, em 2014, não sei quando, não sei como, nem sei em que circunstância, mas eu algum dia hei de fazer alguma coisa com este poema. E quando se dá esta oportunidade, eu penso, não há outra forma, não há outro palco maior do que poder também, para todos os efeitos, dar este reconhecimento a uma pessoa que foi tão importante para mim, que continua a ser tão importante para mim.

Faz questão de mencioná-lo?

Em todo lado. Porque é o meu mentor ainda hoje, e continua a ser para mim o melhor dizor de poesia em Portugal, vivo neste momento. E foi uma pessoa que me mostrou exatamente que havia espaço mediáticoPara eu fazer isto que faço e poder continuar o caminho que ele trilhou e que vem nas costas também do Vilarê, que vem nas costas do Ari dos Santos e vem nas costas do Mário Viegas. Portanto, a minha ida ao Got Talent foi nessa perspectiva, de mostrar-me um bocadinho a mais gente, dar a conhecer este poema do Napoleão, mas a poesia, não vou dizer que não tem espaço, mas não sei se é sustentável naquele meio, porque é um meio que se move muito rápido, é uma máquina que come tudo e todos. E há coisas que pedem mais reflexão, mais tempo, mais espaço. E a poesia, para todos os efeitos, já existia na televisão. E quando tu querias ouvir poesia, tu ias ouvir a RTP, ias ouvir os programas do "Literatura Aqui", da Ana Sara Condante, do Pedro Lamas, da Filipa Leal. E que começaram com o Vilarê, começaram com o Mário Viegas, etc. E faltava o outro lado. Porque por todos os efeitos, a televisão foi perdendo a atenção das pessoas e principalmente dos mais jovens, e faltava chegar a este outro lado, que é como é que eu consigo e para onde é que eu vou buscar a atenção desta outra geração que já não liga tanto à televisão. Tanto que as pessoas que falam ainda do Got Talent são as pessoas mais velhas, que são as que veem.

Falta poesia em rádio. Quem sabe se não é aqui uma porta de abertura.

Falta poesia em rádio.

Um projeto, não é?

Eu acho que a única pessoa que me lembro de falar de poesia era o Gonçalo Câmara, na Smooth FM. Não sei se ele continua na Smooth FM ou não.

Já não.

Já não.

Mas ele tinha programas de autor e era uma pessoa que arriscava nesse sentido.

Arriscava.

E tem uma voz incrível também.

Eu tenho uma mensagem, ainda há de estar no Instagram, que lhe enviei sobre a poesia e sobre ter ouvido alguma coisa. Depois até o convidei para um evento que fiz. Mas sim, acho que falta um bocadinho de poesia em todo o lado.

Em todo o lado.

Mas uma pessoa vai fazendo aquilo que consegue.

Pedro Freitas, o poeta da cidade. Estamos no "Em 40 Minutos", voltamos já a seguir. Vamos só fazer aqui uma curta pausa. Já voltamos para a segunda parte. De regresso para a segunda parte do "Em 40 Minutos", esta semana com Pedro Freitas, conhecido como poeta da cidade. Pedro, tu tens 28 anos, eu tenho 27. Há bocadinho estavas a perguntar a minha idade, portanto, temos idades aqui muito parecidas. Como é que um jovem com objetivos, com muita garra, com muita vontade de ler, escrever poesia, chega a uma editora e lhe dizem: "Bem, se calhar não há muito espaço para isto". Como é que se encara, eu não digo um fechar de portas, porque depois está provado que conseguiste e o caminho até aqui prova isso mesmo, mas para alguém com tantos sonhos, com tantos objetivos, como é que se lida com esse primeiro não?

Lida-se de forma muito, não há nada a fazer. Se nos dizem não, dizem-nos não. E acho que aquilo que se calhar me diferencia ou diferenciou foi eu acreditar tanto naquilo que faço e no meu trabalho e no potencial, e porque eu sabia o quão disposto estava a sacrificar-me para conseguir alcançar todos os sonhos que eu tinha e que tenho. Se ninguém acredita, eu ok, vou arranjar outra forma, vou arranjar alternativas. E foi exatamente isso que fiz. Há duas formas de trabalhar com editoras ou há dois tipos de editoras. As editoras ditas, à falta de melhor termo, normais, que é: assinas um contrato, trabalham o livro contigo, vendem-te o livro, colocam o livro, distribuem o livro, etc. E depois há as vanity editoras, que também te imprimem o livro, mas obrigam o autor a comprar um X número de exemplares, pelo menos para garantirem que não perdem o dinheiro que foi investido. E se estas primeiras, se as editoras normais me fecharam as portas, eu tinha este outro lado das vanity. Mas pensei: se eu vou comprar 200 ou 300 exemplares para ter de ser eu a vendê-los, não me compensa ter esta outra instituição, esta outra empresa, esta outra editora ao meu lado, se posso fazê-lo sozinho. E perante o não, aquilo que eu decidi fazer, e em retrospectiva, foi a melhor decisão que tomei, foi: "Ok, se ninguém acredita em mim, eu vou ser o primeiro a acreditar e vou aprender a fazer um livro. Vou aprender o que é que custa, vou aprender como é que se faz, vou aprender com quem é que se tem de falar, vou aprender como é que se mete nas Bertrand. É muito caro meter nas Bertrand, nas FNAC, então vou mudar de plano, vou criar um site, vou vendê-lo online. As pessoas não têm confiança em pessoas que vendem coisas online", porque foi na altura dos scams todos, dos YouTubers e tudo. "Ok, eu vou certificar-me que as pessoas olham para mim e veem alguém de confiança."E vou-me gravar a enviar os livros e vou enviar livros todos os dias se as pessoas comprarem. E todo esse percurso, que foi feito ao longo de dois anos, deu-me um arcabouço muito grande de entender como é que funciona o mercado, mas mais importante, de entender como é que funciona e qual é, e se tenho, o meu público. E que público é que me quer ler e que tipo de pessoas é que estão dispostas a gastar dinheiro num livro meu. Em final de 2023, depois de todos os nãos que tive antes e depois de ter passado dois anos a editar, a publicar e a vender o livro sozinho, e depois de ter provado que conseguia vender e ter vendido milhares de exemplares, eu sabia que era uma questão de tempo até as editoras voltarem a olhar pra mim com outros olhos e voltarem a vir falar comigo. E nesse ponto, que era uma coisa que eu sabia quando comecei que ia acontecer, se tudo corresse bem, eu ia ter um espaço de manobra muito maior.

Quando te ligam, o que se sente depois desse processo todo que me foste contando agora? É uma libertação?

Não. Acho que é sentir que é o passo a seguir. Não foi uma euforia de: "Meu Deus, vou ser editado", porque eu sentia que já estava a correr tão bem, eu a fazer as coisas sozinho. Obviamente, estava fora de tudo isto que neste momento tenho a sorte de conseguir ter, que são os tops da FNAC, que são os tops da Bertrand, que é o prêmio melhor livro do ano da Bertrand. Estava fora disso. Mas se por acaso ou por algum mal, eu não conseguisse ou não tivesse tido esses contactos através das editoras e tivesse que continuar sozinho, eu continuava. E continuava feliz. Porque não deixa de ser o meu trabalho. Eu só tenho um trabalho a menos, que é o de chegar a casa, retirar a folha de Excel, imprimir as etiquetas, embalar os livros todos e levá-los aos CTT. Eu só não tenho esse trabalho, porque depois tudo o resto mantém-se.

Sim, mantém-se igual.

A comunicação que faço, a forma como falo do livro, às vezes exaustivamente, fazer chegar o livro às pessoas e muitas vezes não chega ao mesmo tempo. Temos esta ideia de que uma pessoa lança um livro e toda a gente sabe. Nem toda a gente sabe, nem toda a gente tem dinheiro na altura pra comprar. E portanto, é bom ir relembrando às pessoas que a coisa está aí. E se calhar, às vezes o momento em que as pessoas ouvem pela primeira vez não é o certo e passado dois ou três meses voltam a ouvir e já lhes faz sentido e há um clique. E todo esse caminho continua a ser feito com a editora. Não houve um momento de grande celebração. Houve um momento de: "Tenho esta oportunidade, agora é tentar chegar onde sozinho não conseguia", que é a mais gente.

E o caminho fez-se por aí. Falavas aí de uma questão, ia-te perguntar, e aqui o só com muitas aspas, tu neste momento consegues viver só da escrita?

Sim. Só da escrita com muitas aspas, porque eu consegui, e sempre foi um dos meus objetivos, tentar profissionalizar isto que faço. E tenho aqui a Sara, que é o meu braço direito, é o meu braço esquerdo, e temos trabalhado nos últimos dois anos nesta tentativa de tornar a poesia e o dizer poesia sustentável financeiramente, sustentável culturalmente. E portanto, neste momento sou um poeta à full time, no sentido de vender o livro, porque não escrevo todos os dias, e sou um dizedor de poesia à full time. Aí sim. O meu trabalho no digital, e mais importante pra mim, o que é que o digital reflete ou como é que o digital se traduz na vida real, e na vida real nos espetáculos de poesia, e também a falar com escolas e a falar com miúdos. E portanto, com estas três, as escolas, os espetáculos e os livros, é a minha vida. É a minha vida full time.

Eu perguntava-te isso porque muitos dos teus leitores são jovens com 20 e poucos anos. Sabemos como é que está, por exemplo, a crise da habitação em Portugal. Há jovens que não conseguem, por exemplo, pagar um quarto em Lisboa. Como é que tu olhas também, porque tu no fundo acabas por ser uma inspiração pra muitos jovens, com a idade que tens e com o sucesso que conseguiste construir e deste conta disso mesmo ainda agora, mas olhas pra esta questão também com preocupação, em termos do futuro dos jovens. Tu vais a muitas escolas e conheces possivelmente também muita dessa realidade que se vive hoje em dia.

Sim. Claro. Aliás, não estou separado dessa realidade, porque tenho 28 anos e ainda vivo com a minha mãe. Aliás, vou me mudar de Lisboa pra São João da Madeira.

Minha terra natal.

Um bocadinho também exatamente por causa disso, porque não é bem sustentável financeiramente, neste momento, conseguir arranjar uma casa em Lisboa sozinho. Eu não tenho bem uma resposta ou uma soluçãoPara o problema.

Este é daqueles assuntos que, por exemplo, nas tuas conversas entre amigos, este tema vem à baila ou não se fala sobre isso?

Vem, porque estão todos nesta altura da vida em que começam a pensar em comprar casa, alguns já compraram, alguns já arrendaram, vão se casar, querem começar a ter filhos. Tudo isto me parece muito estranho, porque eu, na minha cabeça, ainda tenho 18 anos.

Ainda estás longe desse caminho.

Mas sim, falamos muito sobre isso. E antes não era assim, mas tenho tido também cada vez mais um cuidado redobrado em falar sobre coisas sobre as quais só tenho opiniões. Uma pessoa tem opinião sobre tudo, mas isso não significa necessariamente que eu tenha de as partilhar ou que a minha opinião, por eu ser quem sou ou por fazer aquilo que faço, tenha de ter primazia ou eu tenha de a impingir às pessoas que me seguem. Não tem sido todo fácil. E eu adorava já ter saído da casa da minha mãe também.

Por vezes há iniciativas e sabemos que o presidente Marcelo teve esse à vontade e convidou alguns jovens para ir até falar com ele e perceber os reais problemas dos jovens. Se te fosse feito esse convite agora com a presidência de António José Seguro, por exemplo, tu aceitavas?

Sim, obviamente que aceitava. E até porque também já fui convidado pela ex-ministra da Cultura, Dalila Rodrigues, e o primeiro-ministro, o ano passado, para um pequeno almoço com players fundamentais do setor cultural para se falar sobre a cultura e eu estava ali presente. Confesso, eu senti-me um bocadinho deslocado, porque de repente estou ao lado do Álvaro Covões, estou ao lado da Clara Ferreira Alves, estou ao lado do maestro, agora perdi o nome.

Rui Massena.

Do Rui Massena, diretora da Fundação Calou.

Sentiste-te pequenino naquele momento.

Senti-me pequenino na perspectiva de que o input e aquilo que eu posso partilhar, em termos de impacto, se calhar, financeiro, é muito menor do que estas pessoas que gerem muitas vezes budgets de milhões e impactam a vida de milhões de pessoas. Mas eu estava ali, era o mais jovem da sala e estava a representar esta experiência de autor, o que é que se pode fazer de diferente na escrita e na educação. E portanto, eu estou mais do que disponível para ter estas conversas com pessoas e figuras políticas, e tenho-as muitas vezes. Tenho a oportunidade de ter vários amigos e vários conhecidos políticos. Entrar na política enquanto figura política não é uma coisa que me interessa, e eu e a Sara temos essa conversa também muitas vezes. E já fui convidado para várias coisas, já fui convidado para campanhas.

Mandatário, possivelmente.

Integrar comissões de honra, etc. E sempre disse que não, por várias razões, sendo a principal a de eu não acreditar que a resolução dos problemas se encerrem numa só pessoa ou se encerrem num só partido.

Ou se fechem numa caixa.

Ou se fechem, exatamente.

Ou naquilo que é de extremos hoje, que é esquerda ou direita e muita fricção entre os dois lados.

Entre os dois. Eu acredito numa comunhão de ideias e numa comunhão destas ideologias de vários lados. E nesse sentido, é-me impossível abraçar um só partido ou abraçar uma só figura política. E tenho essa mentalidade de quando vou falar com estas figuras, não posso mudar o mundo, nem tenho essa ambição. Aquilo que posso tentar fazer é fazê-los ver o que é que pode ser alterado dentro disto em que tenho a pouca relevância em que tenho. Também não me considero a última bolacha do pacote. Não me quero dar mais relevância do que aquela que tenho. Para todos os efeitos, sou uma pessoa completamente comum e normal.

Se fosse uma comissão de honra para o Sporting, por exemplo, aí já era uma outra história.

Aí era outra coisa.

Até porque, e tu disseste na introdução, nós podíamos ter tido aqui um atleta de alta competição. Não sei se chegaste a concorrer em alta competição. Aconteceu?

Fui aos campeonatos nacionais. Eu deixei o Sporting em júnior, com 18 anos.

Ok, ainda foi até bastante.

Foi de infantil, ou seja, foi dos meus 11 anos até aos 18. Foi sete anos de Sporting. Eu gostava de ter continuado, mas foi na altura em que eu entrei na faculdade e a minha vida levou ali um retopio. Também criei este projeto do Poeta da Cidade por essa altura.Era muito difícil eu ter conseguido chegar a um atleta profissional, porque a genética não foi boa pra mim. Tenho uma-

Para os nossos ouvintes que não conhecem esta tua faceta, qual era a tua especialidade?

Em criança eu fazia um bocado de tudo, mas depois à medida que fui crescendo, iniciado juvenil, especializei-me em salto em comprimento, triplo salto e barreiras até juvenil, porque depois em júnior e sênior elas foram crescendo e eu mantive-me na mesma estatura. Elas, de repente, estavam pelo pescoço, já não dava pra saltar barreiras. Mas especializado em comprimento e triplo salto. Eu ainda treino todos os dias. Já não compito há quatro ou cinco anos, quero ver se volto a competir este ano.

Há esse desejo de voltar?

Sim, como atleta individual. Quem sabe, se as coisas correrem bem e eu conseguir ter um convite de uma equipa, quiçá São João da Madeira, uma vez vou pra lá competir.

Tens muita oferta ali à volta. Tens o Feirense, tens Oliveira e Oliveirense.

Tens.

O Lourosa, que agora no futebol também está a começar a dar os seus passos na Segunda Liga, mas isto em questão de futebol. Mas tens muita oferta.

Há muita oferta.

O Norte está muito bem servido nesse sentido.

E é algo que eu continuo. Sou um sportinguista na essência. E a missão de honra do Sporting era uma coisa diferente.

Já era um convite que olhavas-

Era um convite que eu olhava com outros olhos.

Com outros olhos. Voltando à questão da infância, os teus pais, um pai polícia, uma mãe educadora, eles nunca te, esta expressão é horrível, cortaram as pernas no sentido daquilo que tu querias ser, porque temos aqui duas vertentes. Havia esta questão da alta competição, podias ter sido atleta, a faculdade que, pelo que sei, ainda está em processo, mas vais terminar. Mas há os poemas. E eles nunca te cortaram as asas nesse sentido.

Não, eu tenho muita sorte em ter os pais que tenho, porque podiam ter sido pais diferentes e podiam ter uma outra visão pro meu futuro. O meu pai sempre me seguiu muito na parte do desporto. A minha mãe também, mas quando eu disse ao meu pai, eu joguei futebol no Loures até aos meus 10 anos, dos oito aos 10. E quando fiz 10 anos, que o que eu gostava mesmo de fazer, eu era extremo, e aquilo que eu passava a fazer no jogo era piscinas, era correr, era desmarcar-me. E o que eu gostava mesmo de fazer era correr. Ele disse-me: "Pedro, se não gostas de ser futebolista, vamos tentar." No desporto escolar, tive um professor no quinto ano, que viu que eu tinha um potencial muito grande pro comprimento. Então ele e o meu pai falaram e o meu pai disse: "Vou arranjar forma de ver pra fazer as captações pro Sporting." Encontrámos o meu-

É um desporto que não há, e corrige-me se eu estiver errado, em qualquer lado, muitas condições. No sentido em que-

Atletismo?

Atletismo, sim, e por aquilo que se ouve quando falamos e quando ouvimos entrevistas de atletas que ganham medalhas por aí fora, portugueses, as condições não são as melhores.

Não são.

Até mesmo ao nível de logística e até mesmo de instalações para o vosso treino.

Aliás, aqui em Lisboa, a única grande pista continua a ser o Centro de Alto Rendimento no CAR, ali no Jamor, e que é onde treinam todos os atletas olímpicos que temos, e que sempre ficou muito longe pra nós. Eu, com 10 anos, fui fazer estas captações com o meu treinador, com o Fonseca. Foi uma pessoa que treinou com o José Menino Pereira, um homem excecional. Aliás, semana passada fui treinar à pista Menino Pereira e encontrei-o lá, também estava a treinar. É um homem já com 70 e muitos anos.

Mas que parece que tem 20.

É absurdo. Tem um físico, um homem como um gémeo gigante. Mas ele sempre nos disse, e que vem um bocadinho da escola do Meninos Pereira, que mais importante do que as condições técnicas e de termos um grande ginásio e de termos uma pista fechada, etc, é o mindset, se é mesmo isto que queremos e se estamos dispostos a treinar mais do que todos os outros, quer faça sol, quer faça chuva. E passamos muitos anos a treinar no Inatel, aqui à beira. E depois passamos pra Meninos Pereira quando o Sporting acabou o contrato com o Inatel. E posso dizer, nós temos agora a Salomé Afonso, que foi campeã da Europa. Eu sei que ela ganhou uma catrafada de coisas, agora não me recordo o quê, mas a Salomé Afonso começou comigo. Nós fomos colegas de treino e colegas do Fonseca durante mais de cinco ou seis anos. A Patrícia Mamona não começou comigo, mas lembro-me dela em juvenil ou iniciadaEu fui crescendo com estas pessoas todas e muitas delas continuam e conseguiram chegar exatamente onde se notava. Uma pessoa olhava para a Salomé Afonso e notava-se que ela ia ser uma atleta extraordinária. E eu gostava de ter sido, quem sabe se ainda posso ou não ser, mas houve este outro lado que tomou primazia.

A poesia.

A poesia. Mas voltando atrás.

Puxando a fita atrás.

O meu pai, sempre que eu lhe dizia que gostava de mudar, ele era a primeira pessoa: "Ok, queres fazer outra coisa? Vais fazer outra coisa." Aconteceu com o futebol para o atletismo. Aconteceu quando eu entro na faculdade, depois do secundário, em Estudos Gerais, na Faculdade de Letras, e nos primeiros seis meses apercebo-me de que não é nada daquilo que eu quero fazer e digo aos meus pais que quero desistir da faculdade.

Mesmo desistir, na altura.

Quero ir trabalhar. Estou um bocado cansado e bateu nesta altura do começo do projeto do Poeta da Cidade e deu-lhes dizer que precisava de dinheiro. Não queria andar sempre a pedir dinheiro, porque não somos uma família abastada e havia coisas que eu queria comprar para melhorar aquilo que faço, câmaras, lentes, microfones. Era um peso demasiado grande colocar isso em cima deles. Então disse-lhes: "Olhem, gostava de desistir da faculdade, de ir trabalhar." Fui um dos primeiros estafetas da Glovo em Portugal, trabalhei na restauração, como armazionista, e dois anos depois digo-lhes outra vez: "Olhem, vou voltar." Já consigo, em 2019, as coisas já estão mais estabilizadas e quero voltar. E inscrevo-me, faço o exame de Filosofia outra vez, entro na mesma faculdade, na Faculdade de Letras, mas mudo de curso, vou para Ciências da Linguagem, para Linguística, e eles: "Ok, muito bem, continua então." Ainda estou a acabar, e mesmo este ainda estar a acabar, porque depois a pandemia deu um cabo da cabeça e deu um cabo dos planos de estudo e eu não me dei muito bem com aulas online. E depois o próprio Poeta da Cidade também foi crescendo e eles sempre muito compreensivos neste sentido de: "Pedro", principalmente mais o meu pai, "eu adorava que tu acabasses a faculdade".

Mas vais acabar.

Sim, vou acabar, mas adorava que já tivesse acabado.

Sim.

"Não te esqueças da faculdade", mas eles sempre acreditaram nisto, porque eu também sempre que me dediquei a fazer alguma coisa.

Houve sempre resultados.

Houve sempre resultados e acredito que sempre viram em mim uma ferocidade e uma perseverança em busca disto que eu queria fazer. No atletismo foi isso durante muitos anos. E depois quando comecei este projeto do Poeta da Cidade, eles não só sempre foram e sempre serão os meus fãs, foram eles a quem mais espetáculos já foram. Eles são as pessoas que mais me acompanham, que já viram mais espetáculos.

Não se cansam de ti, não se cansam de te ouvir.

E o meu pai é o meu maior fã e fala de mim a toda a gente. Ele é um bocadinho relações públicas.

Vende-te melhor do que ninguém.

Vende-me melhor do que eu próprio. E acredito que sempre acreditaram em mim quando lhes dei certezas de que era isto que queria fazer. E eles agora veem tudo isto a acontecer.

E agora vão ouvir isto e vão ficar muito contentes.

E vão, porque eu digo-lhes isso, não tenho problemas. Há esta coisa que eu disse no início, de eles se calhar gostavam que eu partilhasse mais.

Tu disseste que ouvias mais do que aquilo que falavas.

Ouço mais do que falo. E às vezes para desgosto deles, mas sou assim desde criança. Gosto de guardar as coisas para mim, até porque gosto de guardar as coisas até ter a certeza de que elas vão acontecer.

Falavas aqui de palavras e fazes questão de as dizer também muito bonitas aos teus pais. Qual é para ti a palavra mais bonita da língua portuguesa?

No outro dia vi um vídeo do Marco Neves.

Sim, eu trabalho com o Marco Neves. Nós temos o "Portuguesinho Suave".

Exatamente. Então viste aquele vídeo dele?

Ainda ontem estive com ele.

A sério?

Sim.

Ele veio cá?

Sim.

Viste aquele vídeo dele a falar sobre a palavra mais bonita em língua portuguesa?

Sim.

E ele falou da palavra azul, que é uma palavra muito bonita. Obviamente que temos a palavra saudade.

Que é muito nossa, muito portuguesa.

É muito nossa, é muito portuguesa e eu gosto muito da palavra saudade, mas se calhar, para mim, a palavra mais bonita, e se calhar não é a mais bonita em termos fonéticos, em termos sonoros, mas no geral, pode ser inevitável.

Por quê?

Porque gosto do peso que acarreta. Não é uma adivinhação do futuro, mas há ali um quêQuem a profere tem tanta certeza naquilo que faz que não há outra chance senão o futuro ser aquilo que é. Portanto, é inevitável. É capaz de ser a minha favorita.

Uma bela descrição dessa palavra. Tens 28 anos, ainda há muito para descobrir, muito para tentar. Possivelmente vais descobrir novas formas de comunicar também com quem te segue. Já são quantas pessoas, mais ou menos, aquelas que te seguem? No Instagram são mais de 140 mil, pelo que sei.

São 140 no Insta, são 148 no TikTok, portanto falamos de 288, certo?

Uhum. Eu não sou muito bom com contas, mas estou a confiar em ti.

São 34 no Facebook e, portanto, já são 300 e-

Mais de 300 mil, possivelmente. Sim.

E depois são 2000 no YouTube.

E haverá aqueles que não seguem, mas que acompanham.

Sim, também acontece muito. Portanto, são mais de 300 mil pessoas, o que é completamente absurdo, não faz sentido.

Faz sentido, sim. O que te inquieta mais naquilo que o mundo se está a tornar?

O que me inquieta mais naquilo que o mundo se está a tornar? Não sei, eu tenho muita fé na humanidade. E porque sei que as coisas são cíclicas e sempre o foram, e hão de continuar sempre a ser. Quero tentar dar primazia àquilo de bem que temos e que fazemos, do que dar mais atenção à malvadez de certas situações e de certas pessoas. Acho que nós, enquanto humanidade, não temos outro caminho senão o da união.

E neste momento estamos a andar no sentido contrário.

Lá está, não sei se estamos a andar no sentido contrário, porque sendo as coisas sempre cíclicas, há de chegar o momento em que volta a dar a volta. E nesse sentido, obviamente que muitas vezes assusta-me esta falta de, isto parece um bocadinho clichê, falar em clichês, mas é a falta de empatia que muitas vezes temos para com o outro. Mas eu sou uma pessoa que acredita muito no carma e que acredita muito nas boas energias e que acredita muito que aquilo que se coloca no mundo é aquilo que recebemos de volta. Isto não quer dizer que nós temos de colocar no mundo a pensar que: "Ok, eu vou ser uma boa pessoa para retirar frutos ou para um dia vir a colher boas coisas também." Não, as boas pessoas vão ser sempre lembradas por serem boas pessoas e vão ser aquelas que vão tomar primazia por todas as outras. E por isso é que eu escolho deliberadamente dar mais atenção a tudo aquilo que fazemos de bem, porque sei que é aquilo que se vai manter e porque é a única forma de união. Nós falamos muito, e ouve-se muito falar da união pelo mal, mas que não se sobrepõe à união pelo bem. E acho que se nós todos coletivamente decidíssemos dar mais atenção ao bem, a humanidade estava muito mais sustentável e acho que é o caminho que vai tomar.

Pedro Freitas, poeta da cidade. Vamos fechar este "Em 40 Minutos", não podia ir embora sem te pedir isto.

Conta-me.

Se tu pudesses escolher um poema para pintar esta fase da tua vida, vais-te mudar agora para São João da Madeira, em breve, já me partilhaste aqui. Há algum poema que tu associes à mudança, a isto que estás a viver agora?

Há um poema, não sei se posso dizer que representa aquilo que vai ser a minha vida a partir daqui, mas se calhar pode ser uma vírgula. Sinto que pode ser uma vírgula daquilo que fui até então. É um dos meus poemas favoritos do Ruy Belo, chamado "Meditação Anciã" e que está presente no livro "Toda a Terra", de 1976. Queres que eu leia?

Claro, não vou perder esta oportunidade.

E que diz assim: "Aqui eu fui feliz. Aqui fui terra. Aqui fui tudo quanto em mim se encerra. Aqui me senti bem. Aqui o vento veio. Aqui gostei de gente e tive mãe em cada árvore e até em cada folha. Aqui enchi o peito e mesmo até desfeito eu fui aquele que da vida vil se orgulha. Aqui fiquei em tudo aquilo em que passei. Um avião, um riso, uns olhos, uma luz. Eu fui aqui aquilo tudo, até a que me opus".

Que bonito, eu já não vou dizer mais nada. Ficamos assim, no "Em 40 Minutos". Foi muito bom receber-te aqui.

Foi uma honra enorme.

Pedro Freitas, o poeta da cidade.

Obrigado.

Bebemos um café um dia destes em São João da Madeira, fica combinado.

Eu queria conhecer o Senhor no Costa.

Pronto. Para quem não sabe, o Costa é um sítio célebre em São João da Madeira, com os melhores rissóis deste Portugal. Está para chegar o dia em que alguém bate estes rissóis. São todos bons.

É verdade.

Pedro, um grande abraço. Muito obrigado.

Obrigado.