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Eu vou contar-lhes a história da minha ida à guerra de 1908.

Eu creio que terá sido o meu tio Jaime, naqueles tempos, que me apresenta pela primeira vez o Raul, a primeira mulher do Raul, creio que é a primeira, a Jô, que é brasileira. Quando o Raul morre, na primeira quinzena de agosto. Mas depois passado uns meses, há a mudança das cinzas para o Cemitério dos Prazeres. E está lá a Jô, estamos os dois a conversar e a Jô conta-me esta história. O Raul já me tinha posto a rir no velório do meu pai e voltou-me a fazer rir no cemitério quando estão a mudar as cinzas, os restos mortais do Raul para o Cemitério dos Prazeres. A Jô conta-me a seguinte história: ela vem viver para Portugal com o Raul, rapidamente se integra neste ritual lisboeta do velório. E o Raul sabia que eu tinha muita graça a contar anedotas. Eu ainda me lembro de anedotas que foi o Raul que me contou. Ele tinha muita graça a contar anedotas também. E então, diz a Jô que era inevitável que ir a um velório acabava com o Raul a contar anedotas. E diz a Jô que uma vez é que houve um problema. Que foram a um velório e chegam, os sentimentos, tal. Rapidamente se junta um grupo à volta do Raul, que conta anedotas e está tudo a rir. E o Raul, de repente, quando a Jô menos espera, diz: "Vamos embora". "Mas aconteceu alguma coisa?" Ela já tinha mais ou menos um horário calculado para uma ida a um velório. E o Raul diz assim, muito aflito: "Não é este o velório".

Esta é a voz de David Ferreira, que nos recebe em casa para nos contar a história da rábula que Raul Solnado estreou há 60 anos no Maria Vitória.

Tinha sete anos, ouvi logo quando saiu o disco naquela altura.

David Ferreira foi durante muitos anos o responsável pela editora Emi Valentim de Carvalho, que reeditou os monólogos de Raul Solnado em disco no final dos anos 90.

E a história que eu li, e uma parte também o Raul me contou.

Mas afinal, David Ferreira, onde nasceu esta guerra de 1908?

A censura foi ao teatro, presumo que ao ensaio geral. Um dos censores zangou-se muito com a história da guerra de 1914 e disse: "Isto é fazer troça da história, não pode ser. O senhor não pode pôr isto aqui". E o Raul: "Então, a gente põe a guerra de 1910". E depois já tinha aquela rábula que era a de 1908, depois subiu dois anos.

E eu perguntei: "Minha senhora, faz favor, diz-me aqui é que é a guerra 1908?" A senhora disse: "Não, é mais acima, aqui é a guerra 1906". Muito obrigado. Subi dois anos.

Então, pode ser assim, ao que o censor terá dito: "Bem, pode, assim não tem problema. Ora, isso vai ser mau para a sua carreira. Isso não tem graça nenhuma. Você tem a noção?" Terá encolhido os ombros. Não sei se eu li isso na biografia da Leonor Xavier, se foi o Raul que me contou, e já posso estar a baralhar, mas há uma história de que o Raul, também para se ver livre daquilo depressa, terá feito o número para os censores a despachar, portanto, sem aquelas inflexões. De maneira que toda aquela musicalidade do Raul, as pausas, que era à espera que as pessoas percebam, reajam.

E diz a minha mãe: "Pois, o meu filho vai agora para a guerra montar num cavalo que os outros já montaram". Sei lá quem é que já montou naqueles cavalos.

Não era propriamente uma rábula de revista, não é?

Aquilo é um monólogo para revista, mas não é uma coisa nova. Atenção. Mas neste caso, o Raul foi buscar este número a Espanha, portanto, um espanhol chamado Gila, por quem o Raul tinha uma grande admiração. E lembro-me até uma vez que houve uma reedição dos êxitos do Raul, onde estava a ida à guerra, e que uma secretária ter-se-á enganado e terá posto o nome do Raul na autoria, enquanto a única coisa que devia estar era a adaptação. E o Raul estava muito chateado com isso: "Não pode ser, porque isso é meio indecente", um tipo seríssimo, o Raul. Claro que o erro foi prontamente reparado naquela altura.

Mas a adaptação é feita pelo Raul do texto original?

É feita pelo Raul. Eu por acaso tenho a gravação espanhola. Por acaso pode ser um exercício até engraçado comparar as voltinhas que o Raul dá.

"Esse é o inimigo? Poderiam parar a guerra um momento? Preciso mostrar o calcanhar."

O Gila é uma figura em Espanha. Atenção, o Gila é uma figura em Espanha e o Raul aproveita vários números do Gila.

Numa altura em que não havia internet nem YouTube, depois há um disco que é um êxito estrondoso e o David já falou nele.

Bem, o disco eu lembro, aí a minha memória tem a ver com o facto de a minha mãe, Maria Eulália Sobrinha do Valentim de Carvalho era um dos administradores da Valentim de Carvalho e nós tínhamos todos os dias as histórias das grandes coisas. Eu lembro-me de ouvir falar numa bicha pra comprar o disco que dava a volta ao quarteirão do Chiado, onde estava a Valentim de Carvalho. A Valentim de Carvalho era na Rua Nova do Almada. Eu lembro-me de a ida à guerra do Solnado foi dos maiores êxitos daquela altura.

Qual é a razão para aquele êxito?

Hoje em dia, as pessoas falam de coisas que na altura não estavam na cabeça das pessoas. Hoje em dia fala-se da guerra, etc. A impressão que eu tenho é que em 1961 não há a noção ainda do peso que a guerra vai ter na vida nacional. Ao contrário do que vai passar mais tarde, em que inclusive a palavra é proibida em festivais da canção. Enfim, a guerra de Angola tinha começado há muito pouco tempo, não há Guiné, não há Moçambique em guerra. E mesma coisa em Angola, não se prevê que a coisa vai ter esse peso. A ideia de que as pessoas estão a pensar especificamente naquela guerra, eu não creio. Creio que é mais uma coisa que existe em todos os países, e não é apenas em Portugal, que é um discurso no fundo pacifista, a gozar com a instituição militar, e o Raul vai buscar. E o número agrada muito às pessoas, porque o número é bom e porque o Raul é um grande ator. Tem uma graça natural incrível, veste muito bem aquela personagem do desgraçado que vai parar a uma guerra e não controla nada daquilo.

"Estava-me a balouçar quando entrou o meu tio que estava com um jornal que trazia um anúncio da guerra. Precisa-se soldado que mate depressa".

Toda aquela inocência, e ele faz aquilo muito bem. Aqueles comentários que ele faz muito bem. E depois eu acho que uma coisa fundamental também no Raul é que ele é profundamente musical. O Raul está a falar e tem uma entoação. Agora estava a virar a cabeça ao lado B do disco, que era a história da minha vida, em que o Raul contava qualquer coisa como: "Quando eu nasci, o meu pai estava fora de casa há dois anos".

"Bem, escrevemos uma carta ao meu pai, que trabalhava como escafandrista em Évora e que já não vinha à casa há dois anos".

"Meu pai era escafandrista em Évora, estava fora de casa há dois anos". Um silêncio, onde se ouve-se não sei o quê.

"Mas a minha mãe foi a Évora".

Como é que David Ferreira explicaria ou apresentaria o Raul Solnado às novas gerações, aos miúdos que hoje têm 20 anos?

Em relação às novas gerações, eu tive uma experiência muito divertida, e que foi o seguinte: o Solnado é uma paixão da minha infância, como eu disse, eu tinha sete anos quando comecei a ouvir e nunca deixei de ouvir completamente. E depois eu dirigi a EMI Valentim de Carvalho, estamos a falar de 90 e qualquer coisa, e quando chega a altura de pôr em CD as piadas do Raul, eu achei que tinha que fazer uma coisa especial. O meu pai ainda era vivo, David Morão Ferreira, e amigo do Raul, e faz um texto muito bonito que vem com esse disco, em que até brinca com o nome do Raul, Sol nado, sol nascido, porque é muito solar o Raul. Eu usei até pra título da capa, um postal que eu tinha encontrado do princípio dos anos 60, que era Raul Solnado best-seller dos discos. Era o nome do postal, porque ele era mesmo um best-seller dos discos. Ele não era apresentado como o Raul Solnado da televisão, não, o disco torna-se uma coisa central no Raul. E aquilo teve um sucesso muito razoável. Isto é 94, talvez, meu pai ainda era vivo. Depois passado alguns anos, fiz um segundo volume com as piadas que não tinham cabido no primeiro CD, e o Raul ainda gravou três coisas novas que ele tinha pra esse segundo CD. O segundo volume já não resultou como o primeiro, o que é normal também, que o primeiro que tinha ido à guerra e o bombeiro voluntário que tem aquela entrada absolutamente maravilhosa.

"O meu pai, que era um homem liberal, incapaz de impor a sua vontade. Disse-me: 'Meu filho, quer queiras, quer não queiras, tens que ser bombeiro voluntário'".

Entretanto, eu saio da EMI na primavera de 2007. Talvez um ano e tal, dois anos, não sei. Sei que eu estou de férias no Algarve e eu vou até meio punho aqueles discos aos meus filhos que achavam piada, mas eu não tinha pensado mais nisso. São os meus dois filhos rapazes, com um amigo, a repetirem, a dizerem aquelas graças. Ou com um primo, aliás, e sabiam aquilo tudo. E eu achei aquilo fantástico. Eles sabiam como eu sabia antigamente, com entoação própria, com as pausas, baixa a voz, levanta a voz, canta ligeiramente, que o Raul cantava ligeiramente. E eu pego e faço imediatamente dois telefonemas. Faço um telefonema pra Paula Homem, hoje é presidente da Sony Music em Portugal, mas na altura estava a trabalhar no Valentim de Carvalho, e falo pro Raul, a dizer: "Raul, os miúdos adoram, pá. E vou já falar pra Paula Homem pra dizer: "Ela tem que pôr um disco cá fora". O Raul ficou todo contente, a Paula gostou da ideia. Passado pouco tempo, também me telefonavam do Valentim, queriam que eu estivesse envolvido e depois acabei por estar eu e tive várias reuniões com o Raul, que eram muito divertidas, porque depois o Raul contava histórias, era uma ótima companhia. E a última vez que eu falei com o Raul foi no Ano Novo de 2008 pra 2009. Sabe, o Raul morre em agosto de 2009 e o Raul liga-me com aquele gaguejado dele: "S-s-s-sabe por que estou ligando?" Eu: "Imagino, hoje deve ser já bom ano". "Não, mas eu já despachei aquilo que eu tenho que telefonar. A esta hora só estou ligar aos amigos". Por que o Raul diz isso? Porque deve ter sabido muito bem. Isto foi portanto quase meio século depois do disco. O Raul continuava a ser alvo de um merecidíssimo carinho das pessoas, o que se deve a ele, porque o Raul tinha imensa graça, era um grande ator e não se pode falar do sucesso só daquele texto sem a gente ter presente a figura do Raul, que fez outras coisas importantes na vida, aliás.

Estava a contar isto ao meu capitão, entrou um soldado a correr: "Meu capitão de aliança, fiz um prisioneiro". "Onde é que ele está?" "Não quis vir".

Mas como é possível manter este sucesso num texto de humor durante 60 anos? É um texto que entrou no imaginário dos portugueses. Pedimos uma ajuda a dois dos quatro elementos do Gato Fedorento, Ricardo Araújo Pereira e José Diogo Quintela, para tentar perceber como é que este texto continua a ter graça. Será porque nós, os portugueses, encontramos ali elementos que até poderiam ser plausíveis?

É melhor ser o Ricardo.

Achas, mas eu acho que esta rábula tem ainda mais graça por ser o Raul Solnado a dizê-la. Não sei se é por ser mais plausível em Portugal, embora, pra já temos que ver a altura em que foi feita. Hoje, nós temos aqui uma felicidade e uma coisa que se deve assinalar. 60 anos depois, estamos a celebrar não só um texto, mas também uma interpretação. O texto do autor espanhol Miguel Gila, acho que é assim que se diz.

Exatamente.

Mas a interpretação do Raul Solnado é fundamental. Aliás, o Observador fez um texto sobre a rábula, sobre este fenômeno, na verdade, um texto da Maria Ramos Silva, em que ela cita a Florbela Queiroz. E a Florbela Queiroz diz com muita razão: "O texto é muito bom, mas nem toda a gente o podia fazer". Exatamente, é isso. A interpretação do Raul Solnado é decisiva para o sucesso do texto. E é curioso notar que ele fez isto numa peça de teatro de revista. E toda a gente lhe disse, ou pelo menos uma boa parte das pessoas lhe disseram que isto ia falhar. E é possível a gente perceber por que as pessoas diziam que ia falhar, porque quem já foi à revista sabe que, sem nenhum desprimor, é uma coisa meramente descritiva, o tipo de comédia não é contida. A própria maneira como o Raul Solnado faz o texto é quase o inverso do teatro de revista, que é mais extravagante, mais exuberante, mais gritado. E, portanto, era perfeitamente possível perceber as reservas das pessoas. E há outra coisa que é curioso notar, que é o êxito esmagador que ainda assim ele teve. Ou seja, por duas razões. A primeira, é um texto muito sofisticado e, no entanto, é um texto muito acessível. E segundo, o estilo contido do Raul Solnado funcionar dessa maneira absolutamente fulgurante num meio em que o estilo é tudo menos contido.

Então, anda o capitão. Fomos ao capitão e o capitão perguntou-me se eu trazia a espingarda. Eu disse: "Não, pensava que a ferramenta dava, não estava a ser."

José Diogo, a Florbela diz mesmo: "O Raul fez aquilo apenas com o chapéu na cabeça e à frente de uma cortina". Concordas, portanto, aqui com o Ricardo, que a grande chave para o sucesso do texto é mesmo o Raul Solnado?

A grande chave pro sucesso do texto aqui, certamente, mas o texto, como o Ricardo aliás estava a dizer, é já de si muito bom e sofisticado.

Eu, depois do simpático convite para vir aqui falar, tive que ir ver várias vezes a RÁBULA. Só tinha que ir ver uma vez, mas acabei por querer ver mais, porque no YouTube e também no arquivo da RTP é possível ver várias versões da RÁBULA, algumas ao vivo, algumas sem ser ao vivo. E é impressionante que o Raul Solnado diz sempre de maneira diferente, não o texto, como é evidente, mas adaptando ao público, que ri sempre nos sítios certos e às vezes em sítios que se fosse um intérprete normal e não o Raul Solnado, se calhar não ririam.

Cheguei à guerra, eram 07h00 estava a guerra ainda fechada.

Mas é impressionante como é que ele, sempre dizendo de maneira diferente, com ritmos condicionados pelo público, o êxito é sempre estrondoso.

Mas não deixa de ser curioso, e voltando à pergunta inicial, quando nós ouvimos esta história, eu pelo menos senti isso, quando me lembro de casos como o de Tancos, toda a gente se lembra da guerra do Solnado. Há ali elementos que quase que poderiam ser reais dentro da nossa vida surreal em Portugal, ou não? Ou eu estou aqui a fazer uma leitura demasiado exagerada?

Há aqui uma questão que é: quando os nossos problemas como militares, apesar de graves, é o desaparecimento de armas que depois aparecem na Chamusca em maior quantidade, é um bom problema, porque quando o Solnado fez isto, estávamos a iniciar uma guerra em África, portanto, o país estava mesmo em guerra e há menos de 20 anos tinha havido uma guerra mundial. É bom que os nossos problemas sejam esses.

Sim, e depois ela perguntou: "E mata este depressa?" E eu disse: "Por enquanto, ainda mata assim."

Sim, reparem, talvez seja possível definir o estilo do Raul Solnado, especificamente quando ele está a interpretar este texto, que aliás, o Miguel Gila também interpretava do mesmo modo, digamos, de um modo semelhante. É possível, se calhar, descrever esse estilo dizendo que é um estilo inocente, ou seja, esta personagem, não só pelas coisas que diz, mas pela maneira como as diz, tem um parentesco que a gente reconhece com o soldado Svejk, do Hašek. E esse parentesco consiste no seguinte, acho eu, verifica-se até no estilo. Ou seja, o Raul Solnado, o que ele faz aqui, e fazia muitas vezes, a sensação que nós temos é uma sensação de inocência. Ele não faz ideia de que o que está a dizer tem graça. E essa inocência, acho eu, beneficia o texto de duas maneiras. A primeira é humoristicamente. Humoristicamente, o texto é mais forte por causa disso. E segundo, beneficia por causa das circunstâncias em que o texto foi dito pela primeira vez, que era aquilo que o Zé Diogo estava a dizer. Quando se faz um texto que sublinha o absurdo da guerra num momento em que um país está a partir para uma guerra, é óbvio que o que está a acontecer é uma crítica ao esforço de guerra. Qual é a vantagem da inocência do intérprete? Por exemplo, muitas vezes as pessoas dizem assim, é uma precipitação: "As ditaduras não gostam nada de comédia. A primeira coisa que proíbem é logo a comédia." Isso não é verdade. Basta olhar para Portugal. A década de ouro da comédia no cinema português é durante a ditadura.

É até um mecanismo de propaganda, não é?

Exatamente, até é um mecanismo de propaganda. Há uma cena n'O Pátio das Cantigas em que o Vasco Santana abriga as crianças no telheiro para as proteger e o telheiro diz Salazar, tem a palavra Salazar escrita. Portanto, as ditaduras não proíbem, como é óbvio, a comédia. O que as ditaduras proíbem é a crítica, quer tenha graça, quer não tenha. Se tem graça, proíbem, se não tem graça, proíbem na mesma. O que proíbem é a crítica. Agora, a questão é: proíbem a crítica quando percebem que é uma crítica. Portanto, este texto ter um intérprete a dizê-lo daquela forma, conseguia a proeza de fazer com que os censores não percebessem bem que o regime que defendiam estava a ser criticado.

Deixa-me fazer uma pergunta, espero não ser mal interpretado aqui, mas será mais desafiante para um humorista escrever numa ditadura do que em democracia? E atenção, deixa-me frisar isto, eu não apoio a ditadura.

Se calhar até podíamos experimentar. Eu vou agora seis meses para a Venezuela.

Vai escrever piadas para a Venezuela.

Sim. Não sei. Tu disseste qual foi a questão que eu já disse, é mais desafiante?

Sim.

Mais desafiante é de certeza.

É isso, mais desafiante é de certeza, recompensador, não sei se será, mas deve ser mais desconfortável.

Não, isso não há dúvida nenhuma. Desconfortável é um eufemismo. Porque é mais desafiante do ponto de vista de tentar fazer com que o texto seja publicado, é desafiante para a integridade do pescoço do humorista. Há uma série de desafios que, felizmente, em democracia, a gente não enfrenta. Ainda bem.

Então, deixa-me ver aqui outra coisa, que é: nesta altura em que vivemos, em que vivemos nesta onda do politicamente correto, que não se pode ofender A, B, C e temos que incluir. Na vossa escrita, na forma como produzem a vossa arte, sentem-se constrangidos de alguma forma com os tempos que vivemos ou não querem saber, pura e simplesmente isso?

Acho que é a segunda opção. Nós fazemos o que nos apetece. E depois o que acontece é que as pessoas dizem o que lhes apetece sobre o que a gente fez. E isso é legítimo. Atenção, é legítimo, mesmo quando é estapafúrdio. A questão é esta: vamos imaginar que uma pessoa lê "Os Maias" e conclui no fim da leitura: "Eu acho que este livro sobre a civilização maia não presta." E a gente diz assim: "É uma crítica estúpida, mas a pessoa tem direito a ela, com certeza." O que a pessoa não tem direito é impor a sua interpretação e, com base nessa interpretação estapafúrdia, tentar que o livro, por exemplo, saia do programa escolar. Isso já não tem direito. O que se passa é o seguinte: um humorista diz uma coisa, as pessoas criticam o que ele disse, e há pessoas que acham que a liberdade de expressão termina aí. Para mim, continua até o infinito. O humorista pode dizer que a crítica é absurda ou estúpida, a pessoa pode explicar que não, que é válida por outras razões. A questão é essa, é quando uma crítica, uma interpretação absurda, como por exemplo, às vezes a gente diz assim: "Se calhar hoje", aliás, o próprio autor da série diz: "Se calhar hoje, o Archie Bunker da série 'All in the Family', talvez não fosse possível."

"Who you calling you people? You people are you people."

Porque o Archie Bunker era uma personagem racista e hoje a gente tem o seguinte receio. Quando digo a gente, digo há um ambiente cultural que tem o seguinte receio: se as pessoas se riem de uma personagem racista, podem estar a rir-se pelos motivos errados e por isso é melhor não fazer esse tipo de comédia para que não haja essas pessoas que estão a rir erradamente. Eu creio que ceder a essa tentação é entregar aos idiotas, às pessoas que não sabem interpretar o que estão a ouvir, não sabem que o que está a ser dito é irônico, é entregar a esses idiotas que não sabem entregar um texto, o poder de decidir o que é que pode e não pode ser dito em público. Essa ideia, ouve-se às vezes dizer coisas desse tipo, por exemplo: "Pois, o Archie Bunker hoje já não seria permitido ou seria contestado fortemente, porque nós evoluímos e percebemos que aquelas piadas eram racistas." A minha ideia é diferente, eu acho que nós regredimos e deixamos de perceber que aquelas piadas eram piadas.

Vamos ouvir a opinião do autor José Diogo.

O que eu acho é que, estando nós aqui ainda por cima a falar do Raul Solnado fazer isto em 1961.

Exato.

E com censores sentados na primeira fila, acho que nós temos uma boa bagagem histórica no nosso país para perceber que pôr nas mãos de alguém a decisão sobre o que o povo pode ou não pode ver, seja no teatro, no cinema, na televisão ou ler nos jornais e nos livros, é perigoso e acima de tudo não aproveita a ninguém. Quer dizer, aproveita, neste caso era à ditadura, e não querendo agora cair em comparações perigosas da ditadura que nós vivemos no Estado Novo, nós não felizmente não éramos nascidos.

Claro.

Os portugueses viveram com o Estado Novo e agora querer compará-la a uma ditadura que haja agora, que não há, como é evidente, mas a vontade de uma suposta proteção das pessoas, daquilo que elas podem ou não podem ser sujeitas, dar o poder a alguém para retirar, neste caso, seria um novo, é perigoso.

Estava eu a matar muito quentinho.

A guerra de Solnado é uma expressão que usamos para classificar uma série de coisas que nos acontecem mais ou menos surreais. Vocês quando estão a escrever, têm a noção de que, por exemplo, o papel qual papel vai ser uma expressão que vai entrar no dia a dia das pessoas. Vocês dizem: "Ora, aqui está, esta frase vai ser, vais ver."

Eu acho que nunca tivemos, pois não?

Não. Aliás, seria bizarro. Isso seria bizarro.

Exato, nunca quisemos criar bordões.

Até porque não repetíamos a mesma personagem em sketches diferentes, por duas razões. Primeiro, porque não era bem aquilo em que estávamos interessados em fazer. E segundo, porque não sendo nós atores, fazer a mesma personagem várias vezes iria indicar que nós não sabíamos fazê-la. As poucas vezes que tivemos que fazer, porque tivemos que fazer o programa no teatro, eu pessoalmente via antes o que tinha feito para me imitar a mim próprio a fazer aquilo. Era a única maneira de eu ter controle sobre o meu corpo que me permitisse sustentar uma personagem. Não sou ator e por isso tinha essa dificuldade. Mas sim, nunca repetimos bordões, digamos assim. Não havia isso. As pessoas pegaram no que lhes apeteceu, mas como calcula, seria bizarro se nós estivéssemos em casa a dizer: "Sabe o que é que vai pegar? O papel qual papel."

Então deixa-me fechar aqui a conversa com um assunto que às vezes enerva um pouco o Ricardo, por isso começo por ti, Zé Diogo. Vocês sentem que têm também alguma influência na forma como as pessoas pensam, nomeadamente influência política, por exemplo, com o programa que estão a fazer agora na SIC?

Eu espero sinceramente que não. Eu acho que não temos. Espero sinceramente que não. Eu sei o que estás a dizer sobre irritar o Ricardo, porque acho que nos irrita aos dois. A tese principalmente do humorista influenciar o clima político, quando na realidade somos comentadores. Usamos uma linguagem que é o humor, mas não somos actores.

Ricardo, podes irritar-te à vontade agora.

Sim, eu acho que o Zé Diogo disse. O que nós pensamos é, primeiro, que não temos essa influência, segundo, que não a queremos ter. Nós fazemos isto com um objetivo bastante claro. E esse objetivo não é manipular, condicionar, influenciar o povo ignaro que está em casa à espera que a gente lhe diga em quem é que eles hão de votar. Sinceramente, parece-me que os humoristas ativistas falham, quer como ativistas, quer como humoristas. Quer dizer, se querem ser ativistas, vão fazer ativismo mesmo. Não é subir a um palco e fazer um espetáculo humorístico. Não vejo como é que isso pode ajudar alguém. Agora, ir mesmo para o terreno, fazer voluntariado, por exemplo, isso sim. Acho que até é ofensivo para os ativistas, uma pessoa dizer: "Eu também estou a fazer ativismo, tanto é que peguei aqui no microfone e disse: o racismo não presta." Parece-me ofensivo para os verdadeiros ativistas. O meu problema é o seguinte: faz parte, acho eu, da atitude humorística, a gente dizer coisas. Deixa ver se a gente se entende. O que me interessa é, quando subo ao palco, eu não vou falar exactamente das minhas qualidades, até porque há muito poucas, faria números muito curtos. Eu vou falar, sobretudo, daquilo que em mim é repugnante e aquilo que me agrada é que as pessoas se riam disso, porque isso dá-me uma grande sensação de bem-estar. Primeiro, que é as pessoas aceitam-me apesar daquilo, do ser grotesco e moralmente reles que eu sou. As pessoas também me parece que têm uma sensação de bem-estar, porque lá no fundo dizem: "Eu também sou um bocado assim, não tenho é coragem de o admitir." Portanto, se eu for para o palco fingir que sou a Madre Teresa de Calcutá, que sou a melhor pessoa do mundo, que estou a tentar ser melhor ainda, eu não tenho nenhuma intenção de fazer isso. Eu já sei que o ponto em que parto é bastante baixo e sou muito descrente em relação à minha própria capacidade para evoluir a caminho da beatificação.

Aproveitando o facto de vos ter aqui e de ter esse privilégio, queria desafiar-vos ao seguinte: vamos imaginar que há jovens que nunca ouviram esta rábula, que vamos ouvir já a seguir. Como é que os desafiavam a ouvi-la? Como é que a apresentariam?

Sei lá, chamava o miúdo, vestia uma gabardina e dizia: "Puto, queres ver uma coisa engraçada?" E abria. Não sei.

Abrias a gabardina e estava lá o disco do Raul Solnado, é isso?

Estava lá o CD, sim. Não se pode aqui tapar a tarma.

Não, acho que pode. Uma boa maneira de cativar crianças e jovens que nunca tenham ouvido, é dizer-lhes primeiro o seguinte: reparem que o que está em causa aqui é uma frase que o Raul Solnado dizia muitas vezes e é uma frase que eu acho que é do Woody Allen, que é: "Fazer rir ou é fácil ou é impossível." E eu acho que ele referia-se não ao ato da criação, mas àquilo que acontece quando o humorista está no palco, à nossa impressão do que acontece quando o humorista está no palco. Se ele está a esforçar-se muito para nos fazer rir, é impossível. Se nós temos a sensação de que ele está a fazê-lo com uma grande facilidade, então aí é fácil, ele consegue. E o Raul Solnado faz exatamente isso. A sensação que nós temos é: é tão fácil para ele fazer-nos rir, que ele parece nem estar a tentar.

Eu vou contar-lhes a história da minha ida à guerra de 1908. Eu trabalhava numa fábrica de produtos farmacêuticos. Um dia, sem querer, parti um comprimido e despediram-me. Fui então lá para casa sentar-me numa cadeira que nós lá temos para quando somos despedidos. Estava-me a balouçar quando entrou o meu tio, que estava com um jornal que trazia um anúncio da guerra: "Precisa-se soldado que mate depressa." Diz a minha tia: "Por que tu não respondes esse anúncio?" E diz a minha mãe: "Isso, isso, olha, o que era preciso era comprar-lhe um cavalo." E diz a minha tia: "Mas eles na guerra dão cavalos." E diz a minha mãe: "Pois, e o meu filho vai agora para a guerra montar num cavalo que os outros já montaram. Sei lá quem é que já montou naqueles cavalos." Fomos à feira de gado, mas não vendiam cavalos sozinhos, só vendiam cavalos com as carroças e com as moscas. E a minha mãe disse: "Meu filho não vai agora para a guerra encher a guerra de moscas. Meu filho vai a pé, mas vai limpo." Fomos para casa, a minha mãe preparou-me umas papas de sarrabulho para o caminho. Tomei um táxi e fui para a guerra Cheguei à guerra, eram 7 horas da manhã. Estava a guerra ainda fechada. E estava uma mulherzinha a vender castanhas à porta da guerra. E eu perguntei: "Minha senhora, faz favor, diz-me aqui é que é a guerra de 1908?" A senhora disse: "Não, é mais acima, aqui é a guerra 1906". "Muito obrigado". Subi dois anos, cheguei lá acima, estavam já a abrir as portas onduladas da guerra. Já eram 9 e tal. E o sentinela perguntou-me se eu vinha ao anúncio. Eu disse que sim, e depois ele perguntou: "E mata este pressa?" E eu disse: "Por enquanto, ainda mata assim". Esses trens. "Então, anda ao capitão". Fomos ao capitão e o capitão perguntou-me se eu trazia a espingarda. Eu disse: "Não, pensava que a ferramenta dava, não estava a ser. O que eu trago é uma bala que um vizinho meu guardou como recordação da Guerra dos Cem Anos". E diz o tenente: "E como é que você mata só com uma bala?" E eu expliquei: "Disparo a espingarda, depois vou lá a correr buscar a bala". Aí diz o capitão: "Pois, e a guerra vai parar dois em dois minutos por sua causa". Diz o sargento: "Ata-se a bala com uma guita, depois puxa-se a guita". E diz o capitão: "Pois, depois parte-se a guita, perde-se a bala, perde-se a guita, tudo prejuízo". Fizeram uma conferência e deram-me seis balas e mandaram-me matar. Estava eu a matar muito, quietinho. Veio o capitão, mandou-me ir despia, puseram-me um vestido organdi com uns laços cor-de-rosa na cabeça e mandaram-me despia. Cheguei à guerra do inimigo, bati à porta, o sentinela espreitou para a fresta e perguntou: "Quem é?" E eu: "Sou a Maria Albertina". Malandrice. E ele disse: "O que é que queres?" Eu disse: "Eu venho cá buscar os planos da pólvora". E ele disse: "Trabalha este espia há muito tempo?" Eu disse: "Trabalho desde as 11". "Não levas os planos da pólvora, não levas os planos da pólvora, não levas os planos da pólvora". Eu não achei graça a aquilo. Fui fazer queixa ao capitão dele. E o capitão dele disse: "Deixa lá que ele é nuro. Amassa-te cá com a gente". Bem, almocei no inimigo. Comemos uma cabeça pescada muito grande e voltei para a minha guerra. Estava a contar isto ao meu capitão, entrou um soldado a correr: "Meu capitão, dá licença!" "O que é?" "Fiz um prisioneiro." "Onde é que ele está?" "Não quis vir". Na guerra há prisioneiros teimosos, a gente puxa, puxa, se eles não vêm, feitios. Aí o meu capitão disse: "Já que eles não dão os planos da pólvora, vai lá buscar o avião". Como a gente se dava muito bem com o inimigo, nós tínhamos um avião que dava para todos. Eles bombardeavam às segundas, quartas e sextas e a gente bombardeava às terças, quintas e sábados. E lá íamos vivendo. Eu cheguei lá, bati à porta e diz o capitão: "O que é?" Eu disse: "Eu venho cá buscar o avião". E disse o capitão: "Não levas o avião, estamos a adaptar uma torneira para andar a jato". Eu não vi torneira nenhuma. E voltei outra vez para a minha guerra. Quando eu cheguei à minha guerra, estava o meu capitão encostado à porta da guerra e disse-me: "Olha, a guerra acabou". Acabou? "Acabou, olha, veio cá o fiscal, não tínhamos licença de porte de armas, vai buscar as empreadeiras".

A guerra de 1908, aqui na versão publicada no disco Raul Solnado Essencial, da EMI Valentim de Carvalho. Participaram neste especial da Rádio Observador, David Ferreira, que ouvimos no início, e ainda Ricardo Araújo Pereira e José Dio Quintela. A editora de lifestyle do Observador, Maria Ramos Silva, assina um especial publicado no dia 17 de outubro. Há 60 anos havia bombas às terças, quintas e sábados, quando Raul Solnado chegou à guerra e ela estava fechada. É um texto a não perder e que está disponível em observador.pt. A sonorização é da Beatriz Martelo Garcia. Eu sou o Ricardo Conceição.

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