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Vamos seguir na análise aqui no estúdio. Estão feitos os discursos da noite, estão encontrados os vencedores e alguns vencidos. Chamo também o José Manuel Fernandes a esta reta final da nossa emissão especial que estamos a fazer na rádio e também em vídeo. Emissão especial que arrancou às 18h e, José Manuel, olhando para os dois discursos, tanto de Ventura e de Seguro, o que é que nos espera agora para as próximas três semanas?

Vamos ter aquilo que de alguma forma já se tinha antevisto. Vamos ter um Ventura a apresentar-se como um candidato que deseja a mudança, que diz que o país não está bem e que não ficará bem com os mesmos protagonistas. E sobretudo a falar contra o socialismo e contra a esquerda, apresentando-se como quem ganhou o campeonato da liderança da direita. Eu creio que direita e esquerda talvez já não digam tanto a muitos eleitores, talvez possa dizer mais alguma coisa alguns temas da agenda de André Ventura, que têm vindo a ganhar força e continuo a pensar que ele, com esses temas, poderá crescer significativamente na segunda volta. Daí a duplicar a votação ou mais do que duplicar a votação, que é o que seria necessário pra ganhar a eleição, vai uma distância que me parece intransponível, mas enfim, ainda estamos no princípio. Relativamente a António José Seguro, ele tenta fazer um discurso moderado, a falar pra toda a gente. Tem algo que será sempre difícil, de alguma forma, que é: ele é alguém que vem da esquerda e que precisa de votos que nos últimos tempos têm estado à direita. Mas ao mesmo tempo que precisa desses votos, não pode fazer um discurso tipo antifascista, porque senão esses votos não vêm. Ele terá de procurar fazer o discurso de que será o presidente de todos os portugueses, por contraponto a um presidente só de alguns portugueses, que será o presidente que dialogará, por contraponto a um presidente que romperá. Eu creio que muito provavelmente é suficiente pra ganhar, mas tal como também é timbre de António José Seguro, ele não é o tipo de político galvanizador. E a necessidade que ele tem, por exemplo, como teve neste discurso, de dizer que é preciso mudar e o que é preciso mudar, é algo que ficará sempre a perguntar-se: mas muda com quem? Muda com o governo que está, que é um governo de outro partido e que não lhe está a dar o seu apoio? Muda convocando eleições? Quer dizer, há sempre este problema nas eleições presidenciais, que é a limitação dos poderes do presidente e a tentação dos candidatos de entrarem por aquilo que é a área da presidência.

Desculpa, José Manuel, deixa-me só ouvir também a Raquel sobre isso. Ventura pode estimular mais essa vontade de mudança entre os eleitores, apelar a esse corte, ou pelo menos uma mudança, que é o que se sente também nestes votos.

Esse tem sido sempre o discurso de André Ventura e aquele com que ele tem crescido. O José Manuel dizia aqui que não vê como é que Ventura consiga duplicar a votação. Eu não sou tão peremptória, porque o que Ventura nos tem provado é que tem conseguido, talvez não multiplicar aritmeticamente, mas tem conseguido paulatinamente crescer na sua votação. Não sei se os votos já estão todos contados, mas a última vez que se falou nos votos de André Ventura, ele tinha 1.300.000. Ele nas eleições legislativas teve 1.400.000, ficou a 100.000 votos. Se for assim, de ter segurado todo o seu eleitorado, o que pra umas eleições presidenciais em que ele entrou quase como por favor e com muita gente, como fomos ouvindo na campanha, a dizer a ele: "Eu não voto em si porque quero é que o senhor seja primeiro-ministro". Enfim, eu não desvalorizaria o potencial que André Ventura tem para crescer à custa do discurso que ele fez. Aliás, acho que os discursos que ouvimos esta noite vão ser o mote pra esta segunda volta e não vamos sair muito disto. E esta ideia que Ventura tem, que já teve em cartaz do "dêem-me uma oportunidade", ele fez muita questão de dizer: "Não tenham medo de votar em mim, porque isto vai ser sempre um país tranquilo, como sempre foi." Vai ser muito aí que André Ventura vai apostar, agitando com o papão do regresso do socialismo. E António José Seguro mostrou bem que já percebeu isso e que se quer afastar disso a toda a força. A questão é que, como dizia o José Manuel, António José Seguro tem um temperamento e André Ventura tem o temperamento oposto, e agora estão só os dois na corrida. Quem é que vai conseguir fazer vencer melhor a sua estratégia? Eu acho que está aí a chave daquilo que vai ser a segunda volta, que eu não diria à partida que está ganha por António José Seguro, e acho que ele tem consciência disso. Até por uma razão de que André Ventura tem que praticamente congregar todos os votos à direita pra poder vencer. Mas de facto, os votos chamados à direita, com mais alguns do Gouveia e Melo, são bastante superiores ao somatório da esquerda.

Nuno, André Ventura disse que a direita venceu esta noite.

É verdade.

A direita venceu.

A direita confrontada com esta situação poderá pender para o lado de André Ventura? Estou a fazer várias perguntas numa, porque apesar de tudo, André Ventura, se conseguir 40%, vamos imaginar um cenário, 40% pra André Ventura é um grande resultado no atual quadro político.

É, mas eu acho que, mais uma vez, estas eleições ajudam a explicar precisamente porque a direita ganha esta primeira volta, como ganhou as legislativas e tem-

E as autárquicas

...e as autárquicas, e tem maioria de dois terços no Parlamento. Mas o resultado destas eleições também ajuda a explicar que a direita portuguesa apesar de ter, neste momento, uma maioria sociológica, não tem liderança nem projeto. E é a isso que André Ventura se está a candidatar. Não descurando, naturalmente, a possibilidade de poder vir a ser eleito presidente da República, não descarta, como é óbvio. Mas não é isso que está, em última análise, em jogo pra ele. Ou seja, se André Ventura, à segunda volta, tem, e não lhe será muito difícil chegar lá, o mesmo resultado que a AD teve em 2025, nas legislativas, que rondou o 1.900.000 votos, salvo erro, não lhe é muito difícil reclamar o lugar do líder da direita, porque na verdade foi ele que foi capaz de ir à segunda volta das minhas presidenciais, foi ele que mobilizou, etc. Ele sozinho vale tanto quase como dois partidos.

Para ter 1.300.000 votos, as freguesias estão todas apuradas.

1.300.000 votos neste momento. Agora, a direita, obviamente-

E António já segurou 1.700.000

Certo. Mas chegaram a 1.900.000 de AD, as coisas mudam muito de figura em termos narrativos.

Sim.

E não é difícil imaginar que a direita se possa partir, naturalmente, pra abstenção, pros votos brancos, pra António José Seguro e pra André Ventura. Portanto, eu concordo com a Raquel, o resultado é muito imprevisível. Eu não acho que sejam favas contadas, lá está, mais uma vez, não é ou nós e o diabo, ou nós e a santidade e o fascismo. Vai ter que ser preciso muito mais do que isso. E estes dois discursos acho que encarnam mais ou menos isto que eu estou aqui a tentar explicar. André Ventura fez um discurso de um líder de fação e quer ser líder de fação. E o António José Seguro fez um discurso de um candidato a presidente da República. Durante a campanha toda, mas no final da campanha, no discurso do encerramento do comício de sexta-feira, ele deixou a porta aberta fazendo naturalmente um apelo à concentração do voto à esquerda, mas deixou a porta aberta pra um discurso mais centrado. Esta conversa da competitividade, do crescimento, da produção de riqueza, da produtividade, etc. Portanto, a amplitude dele é maior, porque a esquerda já está e pode alargar um bocadinho mais pra aquele lado, mas o espaço de crescimento do André Ventura também é muito grande.

Sim, é verdade.

Eu acho que tendo em conta que os votos do PSD se dividiram por quatro candidaturas nestas eleições, agora vão dividir-se por menos. Enfim, não vou contar com os brancos e com os nulos. Quer dizer, não vou contar com eles porque-

A abstenção também conta

Sim, mas é altamente imprevisível. Acho que é mais fácil uma pessoa pensar olhando pros resultados de agora.

Tivemos uma boa mobilização, apesar de tudo, pra essas eleições de hoje.

Uma boa mobilização, sim, é verdade. E acho que a segunda volta também vai ter uma boa mobilização, sobretudo se isto se tornar o espaço do socialismo versus o espaço do não socialismo.

Aparentemente é o que Ventura quer.

E eu acho que desde o início que António José Seguro se posicionou pra não ser só o espaço do socialismo. E acho que vai continuar nessa linha, mostrando que é um candidato também de centro. Ou seja, eu acho que há maior rejeição de André Ventura junto de algum eleitorado de centro-direita do que há de rejeição de Seguro junto desse mesmo eleitorado. E acho que é aí que as coisas se vão discutir e portanto vai ser taco a taco, voto a voto, e acho que vai ser uma segunda volta muito interessante.

José Manuel Fernandes, como é que sai o governo também de tudo isto?

Ah, isso sai mal.

Sai mal.

Isso é a única coisa em que estamos todos de acordo.

Sai pior. Sai mal. Vocês reparem, com quem é que o governo agora vai conversar pra fazer aquilo que é preciso fazer no país? Nós vamos ter os dois partidos com que o governo tem de conversar a sentirem-se mais fortes e a quererem fazer mais exigências. Portanto, tudo vai ficar mais difícil pra Luís Montenegro e alguns dos pontos que estavam em cima da mesa, e que inclusivamente deram muita discussão durante a campanha eleitoral, como o pacote laboral, não sei se ficaram pelo caminho, mas levaram um grande pontapé. Independentemente de quem ganhar essas eleições, porque até o próprio André Ventura já andou a fazer piruetas nessa matéria. Portanto, acho que o governo não fez aquilo que, na minha perspectiva, talvez idealista, um governo, um político, sobretudo com a tradição do PSD, devia ter feito, que é: nós temos um projeto, esse projeto exige que tenhamos uma maioria, um governo e um presidente. E portanto, vamos apresentar o projeto

E vamos lutar pelas três coisas. Luís Montenegro nunca fez nada disso. Nunca apresentou projeto, girou sempre à vista, tentou sempre perceber de onde é que vinha o vento a costa para ir aguentando. E agora eu não sei se inclusivamente ele vai ter grande sucesso substituir um ministro ou outro. Isso vai acabar por acontecer, faz parte da lei da vida e da lei da política, que a certa altura, para salvar o primeiro-ministro, é preciso sacrificar alguns ministros. Quem tenha dúvida disso, que vá ler o pequeno livro de Cavaco Silva, em que ele também fala disso. Ele era habilidoso a fazer esses passos. Sabemos que é próximo de Montenegro e o tem aconselhado, mas há uma enorme diferença entre os dois. Cavaco Silva chegou ao país com vontade de mudar o país e Montenegro chegou ao país com vontade de ficar muito tempo em São Bento. É o dia e a noite, uma coisa da outra.

Raquel, que reação é que podemos esperar do governo?

Pois, não sei. Acho que já todos dissemos. Para mim, o grande derrotado desta noite, muito mais do que Marques Mendes, é o Luís Montenegro. Acho que ele fica aqui num papel muito complicado. Temo que com alguma falta de-

Mas este não apoiar ninguém...

Não, acho que ele não tem outra alternativa. Isso acho que era completamente impossível perante os dois candidatos que passaram à segunda volta.

Só se António Costa apoiar Marcelo.

Não, mas é que é diferente. Ou apoia António José Seguro e dá a liderança da direita a André Ventura, ou apoia André Ventura e dá a liderança da direita a André Ventura.

Dá a liderança da direita a André Ventura, claro.

Não é muito fácil.

Está entre a espada e a espada. Não tinha nenhuma hipótese e, portanto, isto era o melhor que ele poderia fazer.

Mas também foi ele que se meteu nisto.

Agora, a questão é: como é que vai ser daqui para frente? Eu espero que ele não leve a sua comparação como primeiro-ministro com Cavaco Silva tão longe, ao ponto de achar que se pode vitimizar e provocar umas eleições para tentar conseguir uma maioria absoluta, porque não são esses os tempos, nem é essa a geografia política.

E ele já fez isso uma vez.

Exato, espero que não faça isso.

Já fez isso uma vez. Correu-lhe bem, reforçou um pouquinho a sua maioria, deixou de estar quase empatado com o Partido Socialista.

Ganhou margem.

Mas correu bastante bem a André Ventura, que ganhou a liderança da oposição.

Não saiu pela porta pequena, passou por uma porta um pouquinho mais larga.

Sim, que ele estreitou agora com a estratégia para estas eleições. E estou de acordo com o Zé Manel, também não me parece que seja uma remodelação tipicamente politicamente correta que vá resolver esta situação. Acho que ele precisa urgentemente de alguém que consiga pensar e aconselhá-lo estrategicamente no governo. Olha, como era Marques Mendes e Fernando Nogueira no tempo de Cavaco Silva. Marques Mendes agora fica desempregado, pode ser. É uma graça.

Desempregado, mas com pouco valor de mercado.

É verdade, mas precisa urgentemente de alguém que o aconselhe, de um ministro político no governo, coisa que não tem, nem tem ninguém com qualidade para ser neste momento.

Mas precisa-o próprio também. Só que sabes de uma coisa? Eu acho é que ele tem ministros políticos no governo, mas quem manda no país, no país laranjinha, é uma pessoa que não está no governo.

É o Hugo Soares.

É o Hugo Soares. E isso o que diz muito.

Mas só com estas armas, Luís Montenegro...

Repara, isso quer dizer que boa parte da estratégia política da maioria é governada não por quem está a ter que resolver os problemas da governação, mas por quem está a fazer equilíbrios no Parlamento e a assegurar o partido. Também diz muito sobre as opções tomadas.

Pois. Mas só com as armas que tem, Luís Montenegro dificilmente consegue aguentar o barco muito mais tempo, seja qual for o resultado desta segunda volta das eleições. Acho que é muito difícil.

É, mas acho que ou ele ou vai fazer eleições à vista, não é?

Pois, era isso que me estavas a dizer.

É para aí que caminhamos.

Sim. Agora, não sei se são particularmente desejadas. De facto, é um bocado incompreensível perceber como é que-

Eu acho que há uma coisa que pode proteger, apesar de tudo, o governo de novas eleições. É que o Partido Socialista também não sai muito bem destas eleições. Atenção.

Sim. Só Luís Carneiro sai, o resto do Partido Socialista não.

Luís Carneiro aguentou-se, mas aquilo, vamos lá ver. No Partido Socialista deve haver hoje uns 20

Protocandidatos para roerem-se da falta de audácia que tiveram. Olharam para as sondagens, tiveram medo. "Não, não pode ser." E depois quem não teve medo das sondagens, deu-lhe sorte grande. Não digo sorte grande.

E entretanto, José Luís Carneiro convocou diretas.

Apostou, arriscou, ganhou. Quem é muito calculista é o quê?

Julite.

Eu posso estar completamente errada, se calhar estou, porque vocês os dois já me mostraram que não é uma boa estratégia, mas eu acho que Luís Montenegro vai ter uma vida muito difícil se tiver André Ventura em Belém. Muito difícil. E acho que a vida dele será muito mais fácil em Belém com António José Seguro do que com Ventura.

Sem dúvida.

Pode não apoiar de uma forma não taxativa, não de uma forma cabal, mas pode dar a entender que não gostaria de ver Ventura em Belém. E acho que isso era um bom caminho para Luís Montenegro. Eu acho que é melhor do que esta troca-tinta, que foi a posição de hoje de Luís Montenegro, que é um dos grandes responsáveis por esta derrota, sobretudo por ter escolhido Marques Mendes como candidato.

Mas daqui para frente, com o capital político que Ventura vai conseguir, porque vai, em princípio, reforçar a votação que teve aqui.

Sim, que foi abaixo da que teve o Chega, ainda assim.

Mas vai.

Sim, mas será superior à segunda volta.

Sim, tem que ser.

Será que vai resistir à tentação de tentar provocar eleições de alguma forma?

Quem, o André Ventura?

Sim.

Não, claro que não vai resistir.

Basta, por exemplo, se calhar convocar ou vazar com uma comissão de inquérito, chamar a mulher e os filhos de Montenegro ao Parlamento.

Já há muito tempo que se diz que estava toda a gente à espera de um novo presidente da República porque mais coisas surgirão relativamente ao primeiro-ministro e a mais membros do governo. Isso é uma coisa que tem sido mais ou menos dada por garantida. Não sei se é verdade, se é mentira, não faço a mínima ideia, mas não me admiraria que os escândalos sucedessem com mais ou menos substância, com mais ou menos factualidade. E o André Ventura vai tentar explorar isso o mais que puder. José Luís Carneiro também não tem a vida muito facilitada, de facto. Há bocado tinha visto essa notícia passar, de facto, eu acho que é uma notícia do Expresso há 40 ou 50 minutos, que diz que vai convocar diretas e congresso antecipado e que se recandidata. E portanto, também está à procura de uma clarificação interna e de algum reforço, porque de facto muita gente no PS neste momento também está em maus lençóis e há ali uma liderança que pode sair reforçada com isto, clarificando o seu próprio espaço, que até agora era sempre de alguma incógnita. Mas mesmo isto, está toda a gente aqui a tentar fazer um bocadinho pela sua própria sobrevivência e não sei se será muito vantajoso para a candidatura de António José Seguro, que se crie sequer a ideia de que o PS pode sair reforçado com uma eventual sua vitória na segunda volta. Mas acho que está toda a gente a tentar fazer pela vida, é um bocadinho isso.

José Manel, o que é facto é que estas eleições são presidenciais, supostamente suprapartidárias, mas têm uma influência gigante na governação que vamos ter e na forma como os partidos estão a remar.

Têm influência grande, mas atenção, de repente, o presidente não se vai sentar à mesa do Conselho de Ministros. De vez em quando, pode ir.

Se é que for André Ventura. Pode ser convidado.

Se é que for André Ventura. Mas mesmo sendo André Ventura, ele não tem o poder de dizer que faz isso assim: "Pronto, acabou, amanhã aparece aí." Não é assim que as coisas se passam, tem que ser combinado. Eu creio que aquilo que é muito importante e que vai ser aqui porventura mais determinante, é o que se vai passar no Parlamento. E atenção, no Parlamento, eu não creio que esta eleição tenha resolvido os problemas de José Luís Carneiro. José Luís Carneiro tem um grupo parlamentar que não é dele. É o grupo parlamentar de Pedro Nuno Santos, e é um grupo parlamentar, independentemente de haver uma ou duas pessoas que fugiram para apoiar outros candidatos à esquerda da esquerda, é um grupo parlamentar que tudo o que sejam compromissos, torce e retorce. E do lado do Chega, a estratégia de André Ventura até agora tem sido maximizar as exigências, pedir o impossível. Pedir o impossível mesmo em termos de racionalidade económica, de racionalidade de medidas, para ir alimentando aquilo que está a dar, que é: "Eu é que sou o elemento que é capaz de mudar isto tudo." A ideia de que a mudança pode vir de António José Seguro não é crível. Vai haver aqui um ponto, e já se notou nos discursos dos dois, que é André Ventura a dizer: "Não tenham medo de mim, pois não acabo se eu for presidente." E António José Seguro a dizer: "Eu é que dou segurança."

E isto vai ser um dos temas não desta eleição, mas das próximas. Até que ponto vai haver um momento em que os eleitores arriscam, porque mais do mesmo já não vai a lado nenhum. E mais do mesmo é, no fundo, diferentes composições dos partidos e de figuras dos partidos que têm andado aqui nos últimos tempos.

Só uma nota muito rápida relativamente a isto. É porque António José Seguro também falou de ser um agente de mudança tranquila.

Pois, mas o problema é que António José Seguro foi líder do Partido Socialista não sei quantos anos. E o Partido Socialista esteve no poder na maior parte dos últimos anos.

Só que o António José Seguro não é o candidato do Partido Socialista.

Claro, mas é difícil vê-lo como um agente de mudança, como fator de mudança. Ele diz as coisas populares, coisas que também dizia o Marcelo Rebelo de Sousa. "Isto da saúde é um problema." Marcelo Rebelo de Sousa falava dos sem-abrigo e da vergonha que é o sem-abrigo. Hoje não calhou falar da educação, porque a educação está mais tranquila. Mas é isto que vai ser fator de mudança? Criar as energias para a mudança? Custa-me a crer. Uma coisa é a mudança, outra coisa é o André Ventura e o Chega darem às pessoas a tranquilidade de que se tiverem poder não escaraqueiam isto tudo, para usar uma expressão popular à André Ventura . Ainda vai levar algum tempo. Para isso precisavam, por exemplo, ter tido mais autarquias e praticamente não tiveram autarquias. Só uma.

Tenho aqui já uma certeza que daqui a três semanas vamos cá estar todos outra vez para mais uma grande noite.

A noite é uma criança, a gente tem que ir atualizando a nossa informação e estavas a dizer que temos outra maratona daqui por uns dias.

Daqui a três semanas cá estaremos. Um abraço, Amâncio. E amanhã cá estarás na Rádio Observador. Obrigado também à Raquel Cassis, ao Gonçalo Poças Viagens, Judite França