Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
É sobre casas que vamos falar nos próximos minutos. A habitação é um problema que afeta, e de que maneira, Portugal. As casas são caras, já sabemos. Há poucas casas onde há muita procura e muitas casas vazias onde há poucas pessoas. Enfim, há uma empresa que se vai fixar aqui em Idanha-a-Nova e que promete construir casas modulares em poucas horas e são casas que dispensam a instalação ou pré-instalação de água, esgoto e eletricidade. Eu sei que parece estranho, mas eu já estive, à hora de almoço, dentro de uma casa destas e posso garantir que isto é verdade. A empresa que se vai fixar aqui em Idanha-a-Nova chama-se Biome Space e a primeira pedra da futura fábrica vai ser colocada amanhã aqui em Idanha-a-Nova. O Joaquim Rodrigues é sócio da empresa Biome Space e está aqui conosco. Bem-vindo, Joaquim. Muito obrigado.
Boa tarde, João. Muito obrigado pelo convite.
Ora essa. Como é que conseguem? Explica aos nossos ouvintes como é que se consegue produzir uma casa que dispensa água, eletricidade e esgoto.
Isto não foi fácil, foi um desenvolvimento longo, muito longo, muito complicado. Foi há 10 anos que comecei com esta ideia, quer dizer, há mais anos, mas há 10 anos é que comecei a desenvolver mais a ideia precisamente.
Na altura vivia em França?
Não, vivia em Portugal.
Já vivia em Portugal. Já tinha regressado.
Sim. Ao longo dos 10 anos, a tecnologia ainda não estava madura para este tipo de tecnologia. Entretanto, a tecnologia evoluiu, os painéis fotovoltaicos evoluíram, a tecnologia dos inversores evoluiu, o tratamento da água também evoluiu muito. Só tínhamos aqui uma grande dificuldade, que era o tratamento das águas negras. E trabalhamos muito nessa tecnologia com a ajuda do INES, no Porto, e desenvolvemos uma solução que trata as águas negras in situ.
Muito bem. Então vamos por partes. Dispensar eletricidade é fácil perceber como, não é? Colocam-se painéis solares.
E eólica também.
E uma eólica, tem a forma de uma espiral, não é? Muito engraçado. Água, tem um reservatório de água. Agora, dispensar o esgoto, como é que é? A casa vem com uma mini ETAR, não é?
Sim, é um concentrado.
Portanto, toda a água suja vai para uma mini ETAR.
No fundo, tem duas mini ETAR’s. Aliás, três.
Tem três?
Tem três mini ETAR’s, que uma é em conjunto. No fundo, tem três circuitos. Um circuito para a água das máquinas, um circuito para a água potável e do duche para poder cozinhar. E essa, depois, no final, tem mais uma filtragem ou osmose inversa para poder ser potável, para poder beber. E depois temos uma outra ETAR, que é um concentrado também, que trata todas as águas negras. Portanto, que no fundo, se nós formos a ver, vou ser aqui um bocadinho mais cru, mas os nossos excrementos, 100% desse total, 90% é água. Portanto, o que é que nós fazemos? Tiramos essa água através de um processo num reator, que vai até uma temperatura de 200 graus e uma pressão de 27 bars. Separamos a água dos sólidos. As bactérias, quando chegam ali, desaparecem, porque não aguentam a temperatura nem a pressão. Portanto, não usamos nenhum produto químico, é um processo completamente natural. Depois da separação da água e dos sólidos, os sólidos são guardados numa pequena cassete, que demora cerca de dois anos a encher para quatro pessoas.
Dois anos?
Sim.
Portanto, ao fim de dois anos é preciso ir lá e tirar.
Tem um aviso, aquilo é tirar, dá para pôr no jardim, dá para queimar, dá para fazer o que quiser, aquilo é biomassa.
Portanto, não há perdas?
Não.
Muito bem. Fizeram testes nesta casa?
Sim. Este protótipo que está aqui teve um ano em França, em teste. Agora voltou porque nós entretanto evoluímos. Evoluímos nesse ano, evoluímos muito, sobretudo nos painéis. Agora estamos a trabalhar com os painéis híbridos, que aquecem também a água. Estamos sempre a evoluir. Mas já temos uma tecnologia assente para poder começar a comercializar em 2025. Mas vamos continuar sempre a desenvolver.
A desenvolver. Vão abrir a primeira fábrica no próximo ano, aqui em Idanha-a-Nova. A primeira pedra vai ser colocada amanhã. Qual é a vossa expectativa em relação a esta unidade aqui em Idanha-a-Nova? Quantos empregos vão criar? Quando é que vão começar a produzir as primeiras casas?
É assim, o processo é longo. Falamos em fábrica, mas no fundo, vamos fazer uma grande máquina. A própria fábrica vai ser completamente autónoma. No fundo vai ser uma Biome gigante que vai fazer Biomes pequeninas. A fábrica vai ser com a eólica, fotovoltaico e recuperação também da inércia das águas locais.
Quando diz águas locais é porque há lá um poço, não é?
Que era um problema, mas afinal vem a ser uma grande valia.
Que não sabiam que existia.
Não, que havia um poço.
Descobriram depois.
Sim, descobrimos. Aliás, a inauguração de amanhã não é a primeira pedra, vai ser arranjar o poço. É simbolicamente a primeira pedra.
Que é curioso, porque vão utilizar esse poço para arrefecer a própria fábrica. Como é que vão fazer isso?
Eu consigo dizer em francês, acho que a palavra existe em português, nem verifiquei. É um sistema adiabatique. Deve ser o mesmo nome em português, desculpe não ter pesquisado.
Ora essa.
É um sistema, no fundo, é uma troca de inércia. O calor do ar passa numa tubagem dentro da água, não há contato entre o ar a não ser na matéria e há transferência do calor para o frio e vice-versa. Portanto, o ar que sai, sai fresco e arrefecemos a fábrica.
Do fundo do poço?
Sim.
Portanto, saem boas coisas do fundo dos poços.
No fundo, há uma serpentina dentro do poço.
Dentro do poço. Dizia-me que uma casa demora poucas horas a construir, é verdade?
Isto para já não é verdade.
Vai ser um dia.
Vai ser. Nesta máquina que eu tinha começado a falar, esta máquina grande que vamos fazer aí, essa fábrica, no fundo, o que vamos fazer é industrializar a construção. É o único setor da sociedade que não está industrializado Nós vamos exatamente copiar a indústria automóvel. Vamos fazer casas em linha. Claro que no primeiro ano vamos conseguir fazer cerca de 100 casas, no segundo ano já conseguimos fazer cerca de 250, no terceiro já 500, 1000. Vamos chegar a um ritmo que vão sair cerca de quatro casas por dia. Mas é um processo moroso, porque temos que pôr a máquina a funcionar. Entre o primeiro passo em que a estrutura é montada, os painéis são assemblados e por aí fora, todo o processo de assemblagem. É por isso que neste posto, vamos criar cerca de 70 postos de trabalho.
Em Idanha-a-Nova.
Diretos e cerca de 500 indiretos, porque vamos necessitar de várias fábricas nos arredores que vão criar outros postos de trabalho, que nós vamos fazer parcerias, porque, na realidade, nós não queremos fabricar nada. Queremos assembler.
Montar.
Sim, exatamente.
E esses 500 postos de trabalho vão ser criados-
Vou dar exemplo. Aqui há muita indústria da casca de noz, da casca de amêndoa. Nós vamos ter prensas para fazer painéis, por exemplo, painéis de isolamento ou painéis de revestimento usando os meios da terra daqui da região.
Boa, muito bem. Como é que um empresário, Joaquim, de Barcelos, que viveu em França, acaba a gostar de Idanha ao ponto de investir neste território?
Foi uma história longa, já vai há cinco, seis anos. Descobri Idanha por acaso e vi que era uma região que se preocupava com o bio e como eu me preocupo também com o bio, achei que para nascer uma empresa deste tipo, tinha que ser neste sítio. Queria que a empresa fosse portuguesa, apesar de ter vários interessados lá fora, mas eu queria que fosse em Portugal e esta região adequou-se. Vou dar um exemplo muito prático. Todos os produtos que são usados na casa têm que ser biológicos e aqui há muitas empresas, por exemplo, os xampus, os sabonetes e por aí fora.
Portanto, a Biome Space também é uma subsidiária desta biorregião que existe aqui em Idanha-a-Nova. Joaquim, falta a pergunta mais difícil. Sei que não me vai responder, mas estas casas, sendo autónomas do ponto de vista energético, do ponto de vista dos recursos, dispensando água e esgotos, são mais caras.
São mais caras nesta fase. Nós estamos numa fase semiindustrial, estamos a fabricá-las ainda de uma forma artesanal, portanto os custos são mais altos. Só vamos ter economia de escala quando estivermos a fabricar em série.
Quando a fábrica estiver em velocidade de cruzeiro.
Consigo fazer simulações, mas também há aqui uma coisa que nós não calculamos. Por exemplo, há aqui um custo, que é o custo das redes, que se você o descontar, também tem aqui um descontínuo. Ao longo dos anos, os preços dos materiais, pelas quantidades que vamos comprar, vamos ter preços muito mais interessantes.
Estas casas, muito rapidamente, servem não só para habitação própria, mas também sei que é uma ideia vossa, da Biome Space, criar, por exemplo, comunidades estudantis nos campus universitários com estas casas ou até mesmo com pequeninos aldeamentos. É isso?
Sim, isto tem um leque de possibilidades quase interminável. Até pode haver negócios efémeros, por exemplo, hotéis em sítios que podem ficar durante X anos e mudar de sítio a seguir, porque há esta possibilidade de tirar e de pôr. Campus universitários, habitação, todo o turismo, resorts, o potencial é quase infinito.