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Uma conversa com o Rui Marques, diretor-geral da Associação Empresarial de Braga. Boa tarde, Rui Marques. O Rui sugere a criação de vouchers de inovação industrial. O que é isto?
Ora bem, nós achamos, na Associação Empresarial de Braga, que o maior catalisador de competitividade nas empresas é claramente a questão da inovação. Mas sentimos que persiste muita dificuldade, sobretudo das PMEs, em fazer estes procedimentos de inovação, em ligar com os centros de investigação, com as universidades, com a academia. Existem ainda muitas resistências, muitas barreiras. Os empresários ainda tendem a olhar para a academia de forma desconfiada e a dizer: "É tudo muito teórico, tudo muito acadêmico." E entendemos que, de facto, é preciso romper estas barreiras. E para isso, pensamos numa medida que pudesse ser de fácil implementação e que pudesse ter um efeito efetivo de transformação da economia. E o que pensamos foi num voucher de inovação industrial em que as empresas pudessem beneficiar de um voucher por candidatura, que lhes permitisse depois contratar investigadores das universidades para irem às empresas, portanto, ir para o habitat natural dos empresários, ajudá-los a pensar em novos processos, a desenvolver novos produtos, a combater o desperdício, a tornar as fábricas mais inteligentes, a implementar questões mais ligadas à inteligência artificial nos processos de fabrico. Parece-nos que isso podia acelerar este processo de inovação nas empresas.
Portanto, seria uma espécie de pontapé de saída depois da ideia inicial do empresário, é isso?
Sem dúvida. Falta-nos claramente cultura de inovação nas empresas e de recorrer a especialistas externos, e é preciso, de facto, fomentar isso.
É um entrave ao crescimento da economia portuguesa?
Não tenho dúvidas. Eu diria que provavelmente o maior entrave é a falta de qualificações das pessoas, a começar pelos próprios empresários. Nós somos dos países da Europa onde, em média, os trabalhadores têm mais formação acadêmica do que os empresários. Isto claramente acaba por prejudicar a qualidade de gestão e os processos que as empresas têm do ponto de vista organizacionais. E o recurso a consultoria especializada, neste caso, a investigadores das universidades que sejam capazes de fazer a transferência do conhecimento, no fundo, transformar aquilo que é o conhecimento em valor nas empresas, achamos que pode ser uma forma interessante de dar um pontapé de saída e contagiar positivamente estas organizações para ganharem esta cultura de inovação.
Eu já fiz esta pergunta acho que pelo menos uma vez ao longo do dia aqui na emissão especial da Rádio Observador a partir do Teatro Circo em Braga, mas gostava de ouvir. O que aconteceu aqui em Braga nos últimos anos que levou ao crescimento do setor industrial, do aparecimento de muitas empresas, da fixação de muitos trabalhadores, enfim, o que aconteceu aqui?
Bem, eu diria que foi uma tempestade perfeita, mas desde logo há aqui uma responsabilidade fundamental de um trabalho extraordinário que foi feito pela Universidade do Minho. O facto de termos talento qualificado a ser formado de forma regular pela universidade é uma mais-valia. E esta formação de talento também permitiu abrir mentalidades. Braga, apesar de tudo, era uma cidade relativamente conservadora na forma como encarava o mundo. E o facto de virem pessoas de diferentes geografias para Braga e terem uma visão mais cosmopolita, também ajudou a criar aqui um território que encara o empreendedorismo de uma forma muito mais global. Por outro lado, houve aqui um trabalho que me parece muito meritório também do município de Braga, do ponto de vista da construção de uma marca territorial forte. Este trabalho iniciou-se no mandato do anterior presidente de câmara, do presidente Ricardo Rio, e claramente conseguiu-se criar esta imagem positiva de que Braga é uma cidade de dinamismo, de inovação, de empreendedorismo. E, portanto, hoje em dia, em Portugal, quando se fala com qualquer pessoa e se fala em Braga, as pessoas imediatamente associam só coisas boas, coisas positivas. Isto depois entrámos aqui numa espiral de sucesso em que o crescimento gera crescimento. Se juntarmos a isto a vantagem que Braga tinha há alguns anos, agora deixámos de a ter, o presidente de câmara já disse que vamos reforçar. Nós há cerca de 15 anos atrás tínhamos um stock de casas disponíveis muito alto. E isto permitiu que a cidade pudesse crescer. E portanto, tínhamos oportunidades, tínhamos as empresas, tínhamos conhecimento e as empresas instalaram-se, as pessoas puderam vir para Braga trabalhar, criar a sua vida e tinham qualidade de vida e preços relativamente acessíveis. Este processo, naturalmente, começou a criar alguma pressão, que neste momento se sente, falta de habitação, e muita pressão até na infraestrutura diária.
Pois é, isso que ia lhe perguntar, estão se a sentir já as dores de crescimento ou não?
Já se sentem as dores de crescimento, mas eu confesso, são dores boas, porque são as dores do sucesso.
Não há muita gente que possa utilizar essa frase em Portugal. Dores do sucesso, é verdade.
Mas é que corresponde à realidade. De facto, Braga anda um bocado em contraciclo do resto do país. Um dos poucos municípios deste país que tem uma dinâmica de crescimento do ponto de vista da demografia é Braga. Andamos completamente em contraciclo. Mas é importante também termos esta consciência que para continuarmos a crescer, para continuarmos a ter este ciclo virtuoso, precisamos de criar condições para que isto aconteça.
Quais são os grandes desafios para os próximos anos, Rui Marques?
Eu diria que haver terreno disponível para que as pessoas possam construir é claramente um fator crítico. O presidente da Câmara já hoje aqui falou que aumenta em 40% a área possível para construir e isso é uma enorme mais-valia, portanto vai nos dar aqui outra vez um grande impulso de crescimento. Por outro lado, e também associado a isto, é fundamental para nós termos área disponível para acolhimento de empresas industriais. Nós temos, felizmente, muitas empresas regionais, locais, em fase de crescimento e neste momento elas precisam de se expandir, precisam de dobrar ou triplicar as suas instalações e neste momento não encontram espaço em Braga para poderem fazê-lo ou não encontravam. Com a aprovação do novo PDM, isto passa a ser possível e, portanto, a nossa expectativa é que possamos, de facto, crescer de forma orgânica e ter capacidade de continuar a atrair projetos relevantes para Braga, que também depois ajudam a alavancar toda uma cadeia de valor.
Para atração de investimento, nos próximos tempos é de esperar, será notícia a instalação de unidades industriais de capital estrangeiro?
Confesso que não sei. Eu gostava de ter essa informação para partilhar convosco, mas tenho a certeza que Braga continua claramente no radar dos grandes investidores, seja na área dos serviços, seja na área do turismo, no comércio, porque Braga também continua a ser uma cidade de comércio, a capital do comércio, mas também na área industrial, muito ligada às tecnologias, muito ligada ao setor automóvel e depois a um cluster fortíssimo que em Braga temos, que é o da construção civil, porque de facto Braga é o grande epicentro, a grande praça para a questão toda relacionada com a fileira do habitat, a construção civil e a engenharia.
Tivemos a oportunidade de ouvir aqui alguns durante esta tarde na Cimeira da Indústria. Rui Marques, diretor-geral da Associação Empresarial de Braga, muito obrigado. Agradeço-lhe ter estado aqui connosco nos últimos minutos a olhar para as empresas e indústria em Braga.