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Agora sim, temos a oportunidade de conversar com Cecília Meireles, já está aqui conosco. Muito boa tarde, obrigado por se juntar a esta emissão da Rádio Observador. Continuo também com Miguel Santos Rebelo, o editor adjunto de política do Observador. Cecília Meireles, gostaria de perceber como é ver este congresso depois de dois anos de ausência do Parlamento, de ausência do governo também, claro. E agora este momento de regresso, Nuno Melo falou no momento feliz durante o período da manhã, que era quase um momento para desfrutar, mas há muito trabalho para fazer neste CDS.
Boa tarde, antes de mais. Eu acho que é muito um momento feliz e é um momento também de esperança. Nós tivemos aqui dois anos que eu acho que foram provavelmente os mais difíceis da vida do CDS, para um partido que é um partido histórico em Portugal, que esteve sempre no Parlamento desde as primeiras eleições. A realidade é essa, desde as primeiras eleições em democracia, ele esteve sempre no Parlamento e de repente viu-se sem isso, sem essa maneira de fazer política e portanto, foram anos muito difíceis. Os presidentes do CDS sempre tiveram esse peso institucional, eram presidentes de um partido que existia no Parlamento. Eu acho que Nuno Melo foi o primeiro presidente que teve que viver sem esse peso institucional. Para conseguir que alguma coisa que o CDS fazia fosse notícia, até ele conseguir fazer passar a mensagem, foi completamente diferente do que tinha sido os presidentes antes dele. Portanto, ele tem esse enorme mérito. Ele conseguiu trazer de volta o CDS para o Parlamento e até para o governo. E portanto, conseguiu mudar o jogo, digamos assim. E isso abre um novo capítulo, porque agora a luta do CDS não é para voltar ao Parlamento, é para mudar a vida dos portugueses no Parlamento. São duas coisas completamente diferentes.
E mudar também a vida do CDS daqui pra frente.
Eu acho que os partidos nunca se devem esquecer, e às vezes esquecem, do que é essencial. Eu tentei sempre em política nunca me esquecer do que é essencial. O essencial não é o que é importante para o CDS. O essencial é o que o CDS pode fazer de diferente na vida das pessoas que seja importante. Esse é que é o ponto. O fato de nós estarmos no governo, é um momento de enorme esperança, porque acho que este governo é também um momento de enorme esperança. E às vezes, como o tempo político é tão acelerado e a pressão é tão grande, e os factos políticos sucedem-se e nós esquecemos do essencial. Este governo é, sobretudo, um governo de esperança, porque é um governo que é escolhido por um país que diz: "Eu não quero mais ser governado assim. Eu não quero mais ter um governo que gere o dia a dia e que não tem nenhuma visão de fundo para o país. Nós queremos diferente". E portanto, é um governo que vem em situação difícil, mas tem esse lado de esperança. E acho que este congresso é isso, quer para o CDS, quer para o país, nós estamos a ver um momento de viragem, um momento de esperança. O que é que vai acontecer daqui pra frente? É a grande incógnita. O papel do CDS é tentar que seja o melhor possível.
E já falaremos do governo. Deixe-me só fazer mais uma questão sobre o CDS. Não há o risco de se instalar a percepção de que o CDS só ressurgiu porque fez esta aliança com o PSD e que o valor facial do CDS já não é o que era anteriormente? Nuno Melo disse que nós, CDS, não seremos muleta e o PSD também não será uma barriga de aluguer. Há essa preocupação em passar a mensagem pelo menos.
O risco existe. A dificuldade agora é ultrapassar o risco. Eu acho que Nuno Melo deu alguns sinais e continuará a dar, e terá que dar, enquanto ministro da Defesa, tem que dar alguns sinais da diferença que o CDS faz, que torne perceptível para as pessoas que a presença do CDS torna algumas coisas possíveis.
Como por exemplo, nós temos feito essa pergunta aos nossos convidados e ainda não houve ninguém que fosse realmente capaz de explicar a diferença que o CDS faz.
Essa pergunta tem que ser, sobretudo, feita ao Nuno Melo. Eu posso explicar o que eu acho, o que eu sinto que o CDS representa de diferente. Acho que há uma preocupação de recompensa de talento, mérito e trabalho, que é muito presente no CDS. Não é que não exista no PSD, mas acho que ela é muito mais presente no CDS e isso, em tudo o que seja a organização da sociedade e da economia, é visível. Acho que tendencialmente o CDS terá uma preocupação maior com a questão fiscal, sobretudo com a redução da fiscalidade sobre o trabalho, vulgo IRS. Acho que isso que é absolutamente visível e deve ser um traço do CDS.
E está confortável com esta proposta do programa do governo, aliás?
Eu estou muito confortável com o que está no programa do governo e estou muito confortável que o IRS vá ser reduzido, e vá ser reduzido mais uma vez. E, portanto, esse conforto tenho.
Isso é para lá do que já foi anunciado agora.
Sobre essa matéria, já tive a oportunidade de falar, não voltarei outra vez aqui a chover no molhado. Que o IRS vá ser outra vez reduzido, parece-me excelente e espero que no futuro, tal como está no programa do governo, nos próximos anos, continue a ser reduzido, porque é esse o plano e ainda bem que isso vai acontecer. Da mesma forma, nas áreas de soberania, como são a defesa e como são a administração interna, onde o CDS tem governantes, eu acho que pode fazer a diferença falando de uma forma descomplexada de ordem, de autoridade, de segurança ou de insegurança. E eu acho que em Portugal estamos a cair, e esta é minha opinião pessoal, numa espécie de armadilha ideológica, em que nós ou não falamos de insegurança, e dizemos que Portugal é uma espécie de paraíso e que aqui cai do céu aos trambolhões e que não há nenhum problema, ou então, se queremos falar para as pessoas que se sentem inseguras, eu acho que qualquer pessoa que viva, sobretudo numa grande área metropolitana, que é o meu caso, tem momentos e tem sítios onde naturalmente se sente insegura e onde obviamente a ordem pública é posta em causa. Aí falta a presença do Estado e aí o Estado tem que ser forte e tem que ter mão forte.
Mas há mais insegurança hoje do que havia há 10 anos, por exemplo?
Eu sinto-me mais insegura, por exemplo, na área metropolitana de Lisboa hoje, do que me sentia há 10 anos. Sim. E se olhar para os dados, por exemplo, da criminalidade, vai perceber que atingimos recordes desde os últimos 10 anos. Se olhar para os dados de 2023. Eu não vejo que dizer isto seja sequer uma questão ideológica. A questão ideológica pode ser como é que nós resolvemos este problema e o que é que deve ser feito. Agora, assumir que há bolsas de insegurança, eu não acho sequer que isso seja uma questão ideológica. Basta consultar os dados e vai perceber isso.
Manuel Monteiro dizia, e vou parafrasear, que o CDS não pode ter vergonha de ser de direita.
Mas desde quando é que falar de insegurança se tornou um tema de direita?
Não, eu ainda nem tinha feito a pergunta. Falava há pouco da questão dos complexos. O CDS não pode ter complexos. Se isso é uma discussão que existe neste momento no CDS, de que o partido tem de agarrar as bandeiras que antes deixou.
Eu não sei se existe ou não no CDS, eu não sou dirigente do CDS. Para mim não existe minimamente. E da mesma maneira que lhe digo isto, também lhe digo, por exemplo, sobre educação. Para mim é um enorme problema que a geração que temos agora, com o efeito da pandemia ou com o efeito das reformas socialistas, que uma pessoa de 15 anos agora é como se tivesse menos do que um ano de escolaridade que uma pessoa de 15 anos da última vez que alguns estudos foram feitos. Isso pra mim é um enorme problema, maior do que todos os outros na área da educação. Para mim, este é que é o problema. E como é um problema que não é uma causa fraturante e que não está na moda, é um problema que passa ao lado do resto. E eu acho que é preciso uma direita descomplexada, que fale nisto e que esteja preocupada com isto, porque isso não existe.
Neste renascimento do CDS há temas tabu, há temas que não são trazidos com tanta clareza para cima da mesa para não criar um desconforto, como por exemplo, o aborto, por exemplo, esse tema que tem sido também falado durante este congresso, mas que tem sido sempre colocado por grandes figuras do CDS que estão agora com cargos, como isto não está no programa. Isto é algo que pode aparecer no Parlamento, em iniciativas do CDS? Isto é algo que deve ser discutido dentro do CDS?
Eu não sou dirigente do CDS, não estou no Parlamento, não sou membro do governo, portanto, não sou a pessoa certa para responder essa pergunta. Do meu ponto de vista, a lei está bem como está e, portanto, para mim, não é ser um tema tabu, não é um tema sobre o qual eu queira agir.
Muito bem, mas perguntava-lhe sobre a relação.
Mas é a minha posição pessoal, não é a posição do partido, mas eu acho normal que eu procure no espectro político, sítios onde esteja bem com essa posição.
Perguntava-lhe sobre a relação do CDS com o PSD, também perspetivando o que vai ser esta legislatura. Há um facto indesmentível de que a AD precisa ou do Partido Socialista ou do Chega para fazer aprovar, por exemplo, o próximo orçamento de Estado. O que lhe pergunto é se vê, pelo que tem assistido nas discussões do Parlamento, se vê alguma margem para que o Partido Socialista, por exemplo, possa vir a abster-se no orçamento de Estado.
Margem haverá sempre, isso é uma decisão sobretudo do Partido Socialista, mas acho que o governo, neste momento, tem que se preocupar, primeiro a demonstrar que as coisas que pode fazer sem orçamento e só através da sua ação, são nitidamente uma mudança para melhor. E em segundo lugar, no orçamento, tem que se preocupar em fazer um bom orçamento. Depois, a responsabilidade de o passar ou de o rejeitar ficará com quem o passar ou com quem o rejeitar.
Mas na posição da AD, do PSD e CDS, terá de haver negociações, seguramente.
Eu acho que seguramente que terá que haver negociações. Agora, também uma coisa parece-me mais ou menos evidente. Eu percebo que, do ponto de vista da estratégia negocial, que os partidos tenham as suas posições e conduzam a sua estratégia. Eu, sendo completamente livre e independente, há uma coisa que me parece evidente. Nós vamos ter que fazer muito diferente do que fez o Partido Socialista e, portanto, vamos ter que procurar quem nos viabilize medidas que sejam substancialmente diferentes das do Partido Socialista.
Não é de alguma forma bastante difícil de conseguir imaginar se a AD vai ter um programa que terá necessariamente um caminho alternativo, ter dirigentes do PSD como o Hugo Soares, com as responsabilidades que tem, a defender, ou dizer que ainda acredita que Pedro Nuno Santos possa viabilizar o orçamento de Estado, não é incoerente? E quem é o PSD a falar sobre isso.
Eu não começaria por desresponsabilizar o Partido Socialista, até porque Pedro Nuno Santos, no primeiro discurso que fez no Parlamento, foi prometer uma série de medidas que andou a recusar-se a tomar nos últimos oito anos. Portanto, se calhar ele próprio gostaria de ser o protagonista da mudança. Eu não desresponsabilizava o PS, mas é óbvio que o caminho é de alternativa ao PS. Portanto, parece-me uma evidência que vai ter que se procurar apoios onde eles existam e onde sejam de políticas alternativas ao PS. Agora, quem tem que desenhar as políticas e quem tem que desenhar quais vão ser os seus pontos fortes e os caminhos que não vão ser percorridos, eu acho que isso cabe à AD e cabe ao governo. E é isso que é normal.
O Chega nessa equação é um parceiro confiável? Já não falo de um acordo de governação. Estou a perguntar se é um parceiro confiável com quem se possa manter uma conversa de negociação.
Eu não sou a pessoa certa para fazer essa pergunta. Primeiro, não estou nessas negociações e depois porque eu tenho uma posição bastante cética sobre o que são negociações políticas e a vida ensinou-me a ser muito desconfiada de toda a gente.
Não consegui perceber o alcance da sua resposta.
O que eu queria dizer com isto é que eu não confiaria em ninguém.
Portanto, estamos de alguma forma condenados a ver a legislatura ser interrompida, se as três partes não mudarem.
Eu acho que nós não estamos confiados a nada, porque até as pessoas agirem, nada está escrito. Eu acho que a história desta legislatura ainda não está escrita e, portanto, tudo pode acontecer.
É difícil de fazer previsões com esta legislatura.
Eu acho que não é difícil, é impossível. Agora a função de um partido responsável é tentar que ela seja a melhor possível. E eu acho que nós temos à nossa frente um tempo em que quer a AD, quer o CDS dentro da AD, farão o possível para demonstrar, e eu acredito nisso, que são a melhor alternativa para Portugal.
Deixe-me só fazer uma pergunta que eu imagino que me vá responder rapidamente. Candidata às eleições europeias, é uma questão para si? É uma possibilidade, sequer?
Oiça uma coisa, eu não vou estar aqui a discutir lugares, mas eu acho que o meu caminho tem sido escrito nos últimos anos e, portanto, acho que é fácil tirar.
Eu queria apenas fazer uma última questão, até porque sei que o nosso tempo está já a acabar. AD, CDS e PSD em conjunto, relação com muitos anos, em muitas ocasiões, às vezes mais próximas, outras vezes mais afastadas. Como é que viu as declarações de Pedro Passos Coelho sobre uma relação entre PSD e CDS no passado, no governo?
Bom, eu já tive a oportunidade, no espaço que tenho na SIC, de ter respondido a isso e de ter esclarecido porque é que tinha muito orgulho em ter feito parte de um partido que fez parte de um governo e que muitas vezes, sim, ter sido muito desconfortável para a troika. E portanto, ainda bem que fomos muito desconfortáveis para a troika e que fizemos frente à troika. Suponho que foi para isso que os portugueses confiaram em nós. E foi essa a diferença também que o CDS fez, já que se está a falar em diferenças que o CDS fez. No mais, não vou agora passar o tempo no Congresso do CDS a discutir afirmações de um terceiro.
Essas declarações aconteceram já no início da semana. Paulo Portas não falou propriamente sobre o assunto, acha que devia ter feito?
Não.
Muito bem. Obrigado, Cecília Meireles. Obrigado por ter estado conosco aqui na Rádio Observador, neste espaço em que estamos a dedicar em direto para a cobertura do Congresso do CDS. Estamos em direto a partir de Viseu. Vamos regressar nos próximos minutos aos estúdios de Alvalade para atualizar toda a informação