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A 45 minutos da hora marcada, já havia fila para entrar na Igreja de Benfica. Maria Luísa não quis faltar à primeira missa depois do desconfinamento.
Hoje, realmente vim para saber como é que é esta situação. Tenho seguido à risca e continuo. Eu sou paroquiana, mas além disso, sou consagrada à igreja. E, portanto, a minha vida tem sido isso.
Não quer dizer a idade ao certo, mas já passou os 70. Faz parte do grupo de risco. Nos últimos meses, saiu só o necessário e fez-lhe falta a missa.
Sim, isso custou. Mas eu ouvia a missa das 11 em Fátima, a do meio-dia na Renascença e depois à noite vejo sempre o terço.
No regresso, é tudo diferente. A começar por esta fila, com lugares marcados para garantir a distância de segurança.
Eu acho bem. Aliás, eu já sabia que havia isto. E eu vi há bocadinho ali da minha janela que já aqui havia gente. Este meu amigo, que é como se fosse meu irmão, disse: "Olha que eu já estou na fila". "Ah, então tá bem, eu já lá vou". E pronto, e é assim a minha vida.
Não tem Facebook nem nada dessas coisas modernas, mas ao telefone foi se informando destas mudanças. Traz a máscara, como tem de ser. Veio mais cedo para garantir o lugar.
Então, já sei mais ou menos como é que é. Agora vamos entrar. Acho que está aqui uma pessoa à espera.
E a pessoa lá está, um voluntário de máscara posta, colete refletor e desinfetante em riste, pronto para ajudar a cumprir as regras. Entretanto, chegam a Ana e o Ricardo acompanhados pelos dois filhos. Vêm do Conselho vizinho, da Amadora, que este fim de semana ainda não tem celebrações presenciais. Não iam à igreja desde março.
Assistimos à missa na televisão todos os dias, às celebrações que houve em Fátima, às celebrações organizadas pelo Papa Francisco. Portanto, fizemos uma vivência, não comungamos neste período, portanto, ao fim de três meses vamos voltar a comungar, nós pais, e os filhos, que também já têm a primeira comunhão.
Ana e Ricardo têm estado nestes meses em teletrabalho, os filhos em telescola. Saem de casa para o essencial, mas com o regresso das celebrações, sentiram que era a altura de desconfinar.
Estava a contar de pertencer à celebração na minha paróquia, não houve essa possibilidade e, portanto, não foi para nós uma hipótese não vir à missa quando havia novamente a abertura à celebração comunitária. Sinto falta de estar em assembleia, eu própria sou uma pessoa ativa, portanto, tenho essa saudade, mas tenho consciência de que estamos numa realidade muito pontual e que a nossa população é muito envelhecida, principalmente quem assiste às eucaristias. Isso é para nós, todos cristãos, certamente um momento de preocupação, porque não sabemos qual vai ser a aceitação nestas condições em que vamos retomar.
Para este regresso à missa, Ana informou-se bem e até viu o vídeo que a Paróquia de Benfica publicou no Facebook a explicar todas as regras para a reabertura.
Vi o vídeo ontem à noite, eu própria também já tinha estado a estudar as regras exatamente porque tenho outra paróquia e também temos que equacionar. Mas sim, e já tinha ouvido também algumas entrevistas do pároco aqui de Benfica e vi o vídeo, foi explicativo, foi elucidativo também, e achei que era seguro, dentro deste contexto, que iriam respeitar as regras que são importantes.
E o que é que lhe parece destas regras?
É uma consequência. Eu tenho formação em ciências, portanto, compreendo os dois lados da questão. Para mim é muito lógico e sou muito racional neste problema, portanto, consigo ponderar, talvez por formação, de uma maneira diferente.
À porta da igreja, antes de entrar, ainda há tempo para as últimas indicações aos filhos, Lourenço e Maria.
Só que nos vamos desinfetar as mãos.
Para comungar, o que é que vai acontecer?
Isso ainda não sei muito bem.
Por acaso não falámos sobre isso. Mas o que é que temos que fazer com as mãos, Lourenço, sempre?
Desinfetar as mãos.
E? Não?
Tocar na hóstia.
Não tocar em nada.
Já dentro da igreja, o cenário é bem diferente do habitual. Depois de desinfetar as mãos e os sapatos num tapete pulverizado para o efeito, é preciso seguir as setas que marcam o percurso. Os voluntários vão encaminhando as pessoas aos lugares, assinalados também com uma placa, que garante que as distâncias são cumpridas.
A missa vai começar, mas há algumas indicações que gostava de deixar.
No púlpito, o padre Nuno Fernandes vem lembrar as indicações para a cerimônia.
Começa do fundo, de um lado e do outro, numa fila única. A fila é demarcada pelas setas que estão assinaladas, que têm a distância de distanciamento necessária.
Em cada banco, não há mais que duas pessoas, a não ser quando se trata de uma família. E durante toda a cerimônia, é preciso manter a máscara posta. Só é tirada para comungar. E mesmo aí, as regras são diferentes. É preciso desinfetar as mãos para receber a hóstia e na altura não é possível falar. O habitual diálogo que existe com o padre é feito em conjunto, antes da comunhão.
Corpo de Cristo.
Não há velas para acender junto aos altares, os corredores laterais estão vazios, a missa acontece de portas abertas para arejar o espaço. Os donativos são recebidos à saída e não há abraços nem cumprimentos. Até no púlpito está agora um frasco de desinfetante. Na primeira missa presencial, a lotação da Igreja de Benfica, de 70 pessoas, não esgotou, mas esteve perto. A saída é feita também em fila, com todas as distâncias. João Pinto e Maria Josina não ficaram incomodados com tantas regras.
Foi normalíssima. Temos que cumprir todas as diretrizes das direções de saúde. E então eu procuro cumprir tudo o que está a fazer.
Não lhe fez confusão esta questão da máscara?
Não fez, porque se cumpre as coisas com...
Nos supermercados e em todo lado de máscara, por que é que aqui havemos de pôr questão? É caridade para com os outros.
E temos que andar. Portanto, temos que usar a máscara, nos transportes.
Já é natural usar máscara.
Já é natural. Já vai sendo uns meses de preparação.
Maria Josina não esconde a alegria do regresso.
Estou muito feliz, porque era muito bom também ter a missa na nossa sala, mas parece que estávamos assim zangados uns com os outros. E assim não, eu tenho saudades de ver as pessoas, porque eu sou uma pessoa muito social, muito sociável, aliás.
Mesmo com a distância que é preciso.
Com a distância, mesmo com a distância. Claro, o ótimo é o inimigo do bom e virá o tempo em que teremos.
Na verdade, João Pinto e a mulher não deviam estar aqui. Não fosse a pandemia, estariam numa outra missa, a muitos quilômetros de distância.
Temos a nossa filha com o genro americano e três netos em São Francisco, na Califórnia. Éramos para estar agora lá, mas os aviões não andam.
Por agora, essas saudades vão ter de aguentar. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto