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Neste jornal continuamos a fazer a análise e junta-se agora a nós Bruno Cardoso Reis, é historiador, é colunista do Observador, comentador aqui também na nossa rádio. Bruno Cardoso Reis, olhar para este caso é quase recuar uma década ao grande movimento independentista na Catalunha e desse período em que houve referendo entre 2016 e 2017. Estamos a recuar todo esse tempo, a recordar tudo isto. Está de regresso com força o movimento independentista ou estamos a falar de uma aparição de Puigdemont que nos faz lembrar de tudo isso, mas o movimento não está assim tão presente como já esteve?
O que é paradoxal é que o próprio Puigdemont fala sempre na linguagem da democracia, mas a grande questão que nós temos sempre de nos recordar é: não há uma maioria clara a favor da independência na Catalunha. Basicamente há um empate. Mas, por exemplo, nas últimas eleições, os independentistas perderam as eleições. É por isso que está de má posse o governo liderado pelo Partido Socialista Catalão, que não é defensor da independência, é um defensor da autonomia. Falamos muitas vezes aqui do sistema eleitoral americano que tende a favorecer, nos resultados finais, mesmo que não nos votos, os republicanos, que já por mais que uma vez ganharam a presidência sem ganhar o voto popular. Isso também acontece na Catalunha, há um peso maior do voto rural, é o sistema que existe, portanto a democracia está feita das regras, mas a verdade é que muitas vezes eles conseguem a maioria no Parlamento sem ter realmente a maioria dos votos. Mas não estamos a falar, portanto, de um processo de oposição à independência em que 80% dos catalães ou 70% dos catalães estejam a favor. Não, é basicamente 50/50 ou até um pouco menos de 50 a quererem essa independência. Mesmo esta manifestação hoje é uma demonstração de falta de respeito pela democracia. Estamos a falar do mesmo dia em que há a posse de um governo que é escolhido pelo Parlamento catalão, que foi livremente eleito pelos catalães e que no fundo é ofuscada, é interrompida, é perturbada por esta manifestação. E sobretudo, é muito importante lembrar isso. Eu acho que a excessiva judicialização da política é má para os dois lados, para a Justiça e para a política, mas a verdade é que os políticos não podem estar acima da lei e, portanto, quando ele diz: "Ninguém se pode opor a um referendo numa democracia." Há regras, há países onde nem sequer são permitidos referendos. Por exemplo, na Alemanha, por causa da sua experiência histórica, em que Hitler utilizou os referendos para legitimar, supostamente, o seu regime autoritário. Há muitos países em que há limite ao que pode ser referendado. Geralmente, por exemplo, elementos da Constituição não podem ser referendados, que é exatamente o que está também aqui em causa. Mas realmente, o que isto mostra é que independentemente do volume de votos que tenha, o independentismo recusa no fim de aceitar o resultado das urnas, acha que tem aqui uma legitimidade que está para além disso, uma legitimidade histórica, vamos dizer assim, e portanto continua sempre a perturbar o processo político, a dificultar o processo político, seja na Catalunha, seja em Espanha.
Olhando para o problema que isto cria para a governação nacional em Espanha, temos o PSOE, que lidera o governo, que tem parcerias com independentistas também na Catalunha, mas pouco ouvimos do governo ou do PSOE durante esta manhã. O PP vai reagindo. Já hoje, Feijóo reagiu nas redes sociais, na rede social X, para criticar bastante o que está a acontecer e para dizer que está envergonhado com toda esta situação. Feijóo já durante a manhã disse que é uma humilhação insuportável, outra humilhação para Espanha e que resulta de um delírio de Pedro Sánchez, diz que é o máximo responsável por também ter criado essas alianças nesta governação. Nesta altura está a decorrer uma conferência de imprensa da secretária geral do PP, Cuca Gamarra está a falar aos jornalistas, portanto o PP está a cavalgar esta situação. Como é que fica a situação política em Espanha perante todo este incidente? É normal que o PP queira tirar algo desta situação. O que deve fazer o PSOE?
Realmente, o problema aqui é todo esse, é que em termos nacionais o PSOE precisa do apoio dos independentistas catalães no Parlamento para se manter no governo. E portanto isso cria aqui uma situação de enormes ambiguidades, de acordos equívocos. O próprio Sánchez, por exemplo, aceitou uma anistia que os tribunais acabaram por declarar que não teria aplicação no caso Puigdemont, até porque ele nunca cumpriu pena, portanto está em fuga há anos. Mas portanto isso cria aqui um problema enorme, enormes desconfianças também dos setores mais nacionalistas em Espanha de que há algum tipo de cumplicidade do governo em todo este processo. Por exemplo, coloca-se a questão por que não foi envolvida a Polícia Nacional na operação para deter Puigdemont, por que foi a polícia local, no fundo catalã, que se sabe há muito tempo que tem elementos que são cúmplices deste nacionalismo catalão, que têm relações próximas com o nacionalismo catalão. Portanto, realmente temos este fenômeno que é inclusive uma das explicações, por exemplo, da subida surtout do Vox, ou seja, o nacionalismo periférico, sobretudo catalão e basco, alimenta também o nacionalismo, vamos dizer, espanholista. E tudo isso torna a Espanha cada vez mais difícil de governar, porque depois todos estes partidos muitas vezes têm enormes dificuldades em chegar a compromissos. Mais uma vez, no discurso de hoje, Puigdemont utiliza uma linguagem que numa democracia não é dizer que o acordo entre os socialistas catalães e a esquerda republicana catalã para governar a Catalunha é uma traição. Isso não é propriamente uma linguagem normal de um discurso democrático normal. Mas portanto como referias, há implicações ao nível local, mas sobretudo também há aqui implicações ao nível nacional que nos devem inclusive preocupar a nós em termos de Portugal, porque uma Espanha difícil de governar, com uma grande tendência para a instabilidade, que é o que se tem verificado nestes últimos anos muito também por causa destes nacionalismos periféricos, é um país que em termos económicos coloca mais problemas, gera mais incertezas, embora a performance económica de Espanha como aliás Portugal, tenha sido bastante razoável, também muito graças ao turismo, mas enfim, há sempre o risco de havendo aqui uma degradação do processo, uma nova crise, isso possa afetar a economia espanhola e afetará sempre indiretamente a economia portuguesa, por causa da nossa ligação muito estreita, somos os principais parceiros económicos. E depois também tem implicações em termos até de política europeia. Se a Espanha está muito distraída, muito concentrada em problemas internos, tem menos capacidade de estar presente com força a nível europeu e em muitos casos aí há interesses convergentes entre Portugal e Espanha, que são melhor defendidos se tivermos uma Espanha também com alguma capacidade de influência a nível europeu, que está aqui sempre limitada por causa destas perturbações internas.