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31º Congresso do CDS. Esteve também há pouco conosco aqui na Rádio Observador e neste momento temos a oportunidade de conversar também, entrevistar Manuel Monteiro, antigo líder do CDS. Muito obrigado pela disponibilidade, por estar aqui conosco na Rádio Observador. Estou ainda na companhia também do Miguel Santos Raposo, editor adjunto de política do Observador. Manuel Monteiro deixou fortes elogios a Nuno Melo e pelo trabalho que fez nestes dois anos, pela capacidade que teve de trazer o partido de volta para a Assembleia da República e também para o governo. Sem o Nuno Melo, não era possível?
Isso é uma pergunta que eu não lhe sei responder. É Nuno Melo que cá está e, portanto, é em relação a ele, que é o que cá está, que eu faço a análise que fiz.
Mas faz uma boa análise do trabalho que conseguiu e tem margem para fazer melhor agora, sendo eleito neste congresso também para os próximos anos.
Eu penso que sim e penso que o grande desafio da nova vida do CDS-PP começa agora. E eu penso que este congresso não é um fim de linha, ou seja, não é um fim de linha no sentido político de que estávamos fora, regressamos e agora estamos todos sossegados. Bem pelo contrário, ou seja, é o reinício de uma caminhada política e em que o CDS tem que, sob o meu ponto de vista, introduzir novamente um discurso político. Repare, eu penso que a política se esvaziou muito. Sou mais velho, comecei na vida política muito jovem e houve uma altura em que o professor Cavaco Silva, com todo o respeito, trouxe para a política portuguesa esta noção: os portugueses não comem ideologia e, portanto, o que interessa é fazer obra e eu vou aqui para fazer obra. Muito bem, eu percebo isso, mas quando nós retiramos a política da política, é a mesma coisa que retirar o tempero à comida. E, portanto, a não ser as pessoas que são obrigadas por receita médica a comer comida sem tempero, a comida com tempero tem outro sabor. Portanto, nós precisamos de reinstituir a política na política e instituir a política na política significa discutir política. E um partido como o CDS, mesmo mais pequeno que os dois maiores, PS e PSD, sempre soube ter uma perspectiva política. Repare, o grande impulso, por exemplo, para a primeira revisão constitucional, foi também do engenheiro Adelino Amaro da Costa e do CDS. O CDS esteve sempre à frente em ter impulsos e ideias para o debate político nacional. Quando nós não o fazemos, isso é muito mau. Repare, qualquer cidadão, e eu sou um cidadão como outro qualquer, está cansado da carga fiscal? Com certeza que sim. Mas ai de nós se a política se resume apenas a discutir impostos. Não pode ser. Quer dizer, há hoje um conjunto imenso de pessoas desiludidas com a política, desiludidas com o sistema político, que com certeza não gostam dos impostos que pagam, mas querem mais, estão sedentos de mais. E o CDS tem, sob o meu ponto de vista, não só a oportunidade, como o desafio e como o dever de contribuir para esse mais.
Nesse caso da carga fiscal, o mais que a AD avançou já nesta primeira medida serve para saciar essas necessidades dos portugueses?
Com certeza que sim, eu não ponho isso em dúvida. E obviamente que há que responder imediatamente a problemas muito concretos das pessoas. Eu não ponho minimamente isso em causa. Como lhe disse, sou um cidadão como outro qualquer e, portanto, se eu andar na rua intranquilo, quero ter polícia. Se eu não tiver dinheiro para comer, quero ter dinheiro para comer. Se eu não tiver emprego, quero ter emprego. Com certeza que sim. Mas a política e a atividade política não é um exercício de mera tecnocracia em que nós somos apenas uns gestores. Um político não é para mim um gestor. Um político é alguém que também tem que ter capacidade de gestão, mas ter capacidade de gestão não significa ser um gestor apenas, é um político, é por isso que é um político. Um político é aquele que tem uma ideia de mundo, de Europa, de país, de cidade, de comunidade, e nós temos necessidade de reintroduzir isso na vida política.
E o seu discurso foi esse exercício, um discurso muito político, muito aplaudido, aliás, onde sugeriu ou defendeu, estou a parafrasear, que o CDS não deve ter vergonha de ser de direita. Tem faltado essa coragem ao CDS nos últimos tempos?
Eu não digo que tenha faltado essa coragem, penso que tem faltado. Em determinada altura, eu penso que o CDS se perdeu dentro de si próprio. Eu próprio terei contribuído para isso. Eu próprio saí em determinada altura, como sabe, do CDS, por variadíssimas razões, uma das quais essa. Mas eu penso que quando o CDS quis reganhar a vontade de discutir política e de se afirmar como um partido de direita, que houve algum receio que isso tivesse acontecido. E repare, eu era um miúdo, quando o CDS votou contra a Constituição em 1976, caiu carne a trindade, porque votar contra a Constituição em 1976 era quase estar a dizer que se queria o regresso da Constituição de 33 e do Estado Novo. Mas porque é que o CDS afirmou, e nas eleições legislativas desse ano, após a aprovação da Constituição, passou de 7 para 16%? Porque teve coragem.
E foi essa ausência de política no discurso do CDS que contribuiu ou ajudou a que o CHE ganhasse mais protagonismo, mais acredita nisso?
Eu também acredito nisso, mas nesses últimos tempos, o CDS estava numa circunstância Muito objetiva de sobrevivência e tinha muito menos espaço midiático, os senhores sabem isso. Eu tenho que compreender isso. A comunicação social não pode dar tanto impacto a alguém que tem zero face a alguém que tem 10. Nós temos que ter essa compreensão e essa capacidade. E, portanto, o meu desafio, a minha expectativa e a minha esperança é que o CDS perceba que tem agora aqui um início de caminho para trazer um lado político e ser o irmão da direita do PSD.
São temas muito concretos, como a questão da ideologia de gênero, a questão do aborto, a cidadania nas escolas, que não são temas que, pelo menos para já, estejam a ser explorados pela linha oficial do partido, um partido que tem muitas sensibilidades diferentes, como sabe melhor do que ninguém. Isto não pode criar um embaraço a Nuno Melo?
Não, sinceramente, acho que não, porque há aqui uma diferença. Uma coisa são aqueles que, como eu, respeitam a liberdade individual de cada um ter as orientações, por exemplo, sexuais, que entendem que devem ter. Nós temos que respeitar. Como eu peço que me respeitem a mim, sendo heterossexual, também tenho que respeitar alguém que não o é. Outra coisa é aceitarmos ou considerarmos que é tudo igual, e não é tudo igual. Ponto um. Ponto dois: uma coisa é educarmos os jovens para respeitar a orientação de cada um, outra coisa é conduzirmos os jovens a dizer: "Tens que ser assim ou tens quase que ser assim, porque se não fores assim, és marginalizado". E isso é algo que nos distingue de alguém mais extremado e de alguém que não tem este tipo de preocupações. Uma pessoa livre, sempre fui. A questão dos ciganos. Eu estou à vontade. Sabe que o CDS, não sei se têm noção disso, em 1976 era considerado o partido dos ciganos e, portanto, eu percorri este país e muitas das seguranças dos comícios do CDS eram da comunidade cigana. É um facto. Eu fui muitas vezes para o Alentejo e quem fazia a minha segurança era a comunidade cigana. Portanto, eu não tenho nada e causa-me uma angústia imensa ver alguém estigmatizar uma pessoa só porque pertence a uma determinada comunidade. Agora, eu reconheço que há pessoas da comunidade cigana que se comportam de uma forma que a população não gosta, mas não são só eles. Portanto, uma coisa é eu dizer assim: há gente a viver de subsídio quando podia trabalhar? Há. São todos ciganos? Não. Há muitos que não são ciganos e que também vivem de subsídios, podendo trabalhar. E, portanto, nós temos que ter a capacidade e o discurso de dizer: "nós não aceitamos que exista gente a viver à custa do Estado, independentemente da cor da pele que tem, independentemente da etnia". Agora, se há pessoas que sistematicamente recusam o emprego, porque fica mais barato receber um subsídio e fazer os chamados biscates, essas pessoas têm que ser denunciadas e tem que se dizer: "seja o senhor branco, preto, azul, amarelo, o senhor não pode continuar a fazer". Portanto, nós podemos ser firmes criticando a forma como o sistema critica, sem estigmatizarmos grupos étnicos, só porque não simpatizamos tanto quanto esses senhores.
Mas esse é um tema que acha que o CDS devia colocar na agenda e que o grupo parlamentar do CDS devia colocar na agenda?
Eu lembro-me, por exemplo, que o doutor Paulo Portas, quando foi presidente do CDS, falava disto. O doutor Paulo Portas dizia: "nós não podemos continuar a financiar pessoas que, podendo trabalhar, não trabalham". Por que o CDS não há de poder colocar essa questão na agenda?
Sobre o ponto de vista de conseguir ficar com essa bandeira?
É que há uma coisa para mim, que é esta: não foi o Chega que inventou bandeiras, foi o CDS que as perdeu. Esta que é a questão.
E consegue reconquistá-las?
Tem que as reconquistar. Eu disse, o nosso desafio é reconquistar um a um, porque se não tivermos o desafio de reconquistarmos um a um, então como é? Nós temos que saber ler, penso eu, o comportamento das pessoas e perceber que há um conjunto de pessoas desiludidas, como diz o doutor Passos Coelho, e eu estou completamente de acordo com ele, que convergiram na sua desilusão, ainda que a desilusão individual não seja igual à do outro, mas convergiram na sua desilusão para um determinado espaço. Agora, eu não posso ignorar a desilusão e tenho que saber recuperar bandeiras, causas, valores, princípios, em democracia, que sempre caracterizaram o CDS-PP. Se o CDS-PP abandonar essas bandeiras e falar uma linguagem muito simpática, mas muito hermética, que não vá ao encontro daquilo que são as coisas concretas, então...
O que está a dizer é que o CDS perde com o "não é não" de Montenegro feito ao Chega?
Eu, se estivesse no lugar do doutor, eu estou a falar do CDS, não estava a falar do doutor Luís Montenegro. Eu acho que esse "não é não", é evidente que ele agora tem um compromisso do qual dificilmente se libertará, mas eu nunca o teria dito. E nunca o teria dito atendendo à circunstância do país. Porque, repare, nós temos aqui uma circunstância nova na política portuguesa, que provavelmente não estará para acabar Na minha opinião, a única forma de alterar essa situação passa pela afirmação do CDS como um partido conservador. Se o CDS começar a se reafirmar como um partido conservador, com certeza que pode ter liberais, com certeza que pode ter pessoas que não comunguem exatamente desses princípios, isso nunca foi obstáculo, mas se o CDS não tiver essa afirmação, então a situação manter-se-á por mais algum tempo. Isto implica, em termos práticos, o quê? Implica que, sob o meu ponto de vista, o governo deverá conversar com o Chega. E se o Chega faltar à palavra e nós chegarmos à conclusão que o Chega é um partido com o qual nós não podemos falar, porque não sabemos se aquilo a que se compromete connosco às 10h da manhã, se mantém às 17h, então os portugueses perceberão que não é do lado da Aliança Democrática que há uma animosidade, mas há uma perspectiva de alguém que diz todos os dias: "Eu quero ir para o governo", mas na realidade não quer. Aquilo que mais agrada ao doutor André Ventura é poder dizer que quer, sabendo que não quer e esperando que nunca ninguém o convide para almoçar ou para jantar. E eu creio que foi isso que o doutor Pedro Passos Coelho percebeu. O doutor Pedro Passos Coelho percebeu que uma parte substancial daquele eleitorado é eleitorado do Partido Social-Democrata. Vamos ser objetivos. E foi isso que eu pretendi dizer. Nós não podemos considerar que uma pessoa quando vota em nós, é muito inteligente, e quando não vota em mim, já é burra. Isso não pode ser. E, portanto, nós não podemos meter a cabeça na areia e desconhecer que amigos nossos, familiares nossos, vizinhos nossos, que sempre votaram ou no PSD ou no CDS, desta vez foram votar Chega. E eu tenho que dizer a esses eleitores: compreendo-vos, respeito-vos. Não estou a falar dos fascistas. Não estou a falar de pessoas que não gostam da democracia. Estou a falar de pessoas conservadoras que se desiludiram com as nossas áreas. Eu tenho que lhes dizer, eu compreendo. O general de Gaulle, que como sabem, foi, para mim, um dos grandes líderes da Europa do pós-guerra, tinha a ideia e dizia várias vezes que mesmo que um eleitor vote de forma que eu considere que não é inteligente, eu tenho que sempre entender a sua razão. Porque no dia em que eu não quiser entender as razões dos eleitores, eu estou a ser contra a democracia. Eu não posso ser democrata, não aceitando as razões de cada um. E, portanto, eu tenho que perceber isso. Eu tenho que dizer a esses eleitores desiludidos: eu compreendo-vos, nós compreendemo-vos. Acontece que vocês estão a votar apenas pela negativa. Nós queremos trazê-los e atraí-los para nós, para que as causas e as razões negativas que vos levaram a sair de nós, se possam converter em causas positivas. O que é que isso implica? Implica ter a coragem de mudar o sistema para salvar o regime.
Só não consigo perceber em que é que isso pode beneficiar o CDS, se é que isso é algo importante neste contexto todo.
Em tudo, porque se for o CDS a mola propulsora dessas causas e desses valores, obviamente, que eu acho que isso não só beneficia o CDS, como pode beneficiar a Aliança Democrática.
Com o Chega a conversar com a AD, o CDS não desapareceria?
Mas o CDS é dono da casa, é um anfitrião, e portanto, o outro é convidado, isso a mim não me choca minimamente.
Temos falado muito da concorrência entre o CDS e o Chega, concorrência política, naturalmente. Há também aqui uma dialética muito particular, que é a relação entre o PSD e o CDS. Integrar esta coligação, fazer parte deste governo, nas circunstâncias em que aconteceu, ou seja, o CDS não tinha a federação parlamentar, portanto, partia de uma posição muito mais frágil. Não há aqui o risco de o CDS perder identidade?
Todas as coligações, repare, partilhamos identidade. Isso é como tudo na vida. Quando nós aderimos à Comunidade Económica Europeia, e está lhe a falar um soberanista, europeu, mas soberanista, da ideia da Europa das nações do velho general de Gaulle. Já agora, permita-me aqui um pequeno parêntesis, há aqui uma perspectiva de que só a extrema-direita é que descobriu a Europa das nações. Não, o autor é de Gaulle. E o grande propulsor da ideia da Europa das nações era o partido gaullista francês. Agora, a questão para mim é muito clara. O CDS tem todas as condições para recuperar um espaço, e um espaço objetivo, que é o seu. E isso penso que é favorável e vantajoso para a própria ideia de Aliança Democrática. Agora, repare, tirando uma mãe que dá ao filho, ou um pai, sem esperar nada em troca, vamos ser objetivos. O PSD só deu a mão ao CDS porque sabia que ganhava com isso. Porque se entendesse que politicamente não ganhava com isso, com certeza que não teria feito coligação com o CDS. Vamos ser claros. Eu acredito que Que terá havido um momento, acredito, porque eu era miúdo e, portanto, não vivi por dentro isso, sei de testemunhos que me foram transmitidos, de textos que li, que em dada altura o doutor Sá Carneiro e o engenheiro Amaro da Costa tinham tal forma uma ligação que acredito que há de se pudesse institucionalizar no sentido de não esvaziar ninguém, porque eles acreditavam verdadeiramente num projeto de maior comunhão entre os dois. Mas a partir daí, isso acabou. O PSD juntou-se ao CDS quando precisou do CDS.
Pergunto-te isto porque há gente no seu partido que defende que o caminho natural do CDS seria a fusão com o PSD.
Eu respeito, penso que é, aliás, o doutor Diogo Feio. Eu não sei se ele fala bem de fusão. Fala de uma espécie de uma maior aproximação, integração, não sei ao certo, nunca falei com o doutor Diogo Feio sobre isso, mas já o ouvi dizer algo que pode indiciar essa sua ideia. Eu não concordo com isso. Eu acho que isso seria profundamente negativo e que deixaria conservadores como eu no meio da estrada sozinhos, deixaria de ter uma identidade, porque eu não sou social-democrata. Respeito a social-democracia, considero que a social-democracia europeia tem um papel muito importante em muitos aspetos, mas eu não sou um social-democrata e portanto, se isso acontecesse, eu penso que isso não ajudaria ao equilíbrio fundamental do sistema político português. Agora, há uma coisa para mim que é muito clara. Repare, o Expresso noticiou e divulgou uma sondagem. Eu sou, como sabem, de direita e não tenho medo nenhum de dizer que sou de direita, nem vergonha nenhuma que sou de direita, mas eu cresci com a liberdade. Eu adoro a liberdade. Eu às vezes digo a pessoas mais novas que dizem: "Ah, e tal, a liberdade..." Vocês desculpem, a possibilidade de falarmos livremente e de não termos ninguém que nos vai prender só porque estamos a ter uma opinião contrária ao primeiro-ministro ou ao presidente do governo, é uma coisa insubstituível. Agora, não deixa de ser preocupante para mim que haja um conjunto significativo de portugueses que nesta sondagem que o Expresso publicou, afirmarem que preferiam um líder forte a ter eleições. Isto é muito preocupante, nós temos que pensar nisto. Temos que pensar nisto, o que é que nós fizemos para aqui chegar, como diz a canção. E temos que pensar nisto, não podemos meter a cabeça na areia e temos que pensar nisto, nomeadamente em relação aos mais novos, em relação aos jovens.
Mas acha que é um problema da democracia não estar a dar às pessoas aquilo que deveria dar ou também está a ser mal explicada, por exemplo?
Não, eu acho que a democracia é uma árvore que você permanentemente tem que regar e tem que podar e tem que saber adaptar os modelos concretos a coisas atuais. Repare, quando as pessoas olham para o não funcionamento do sistema de justiça, as pessoas desacreditam.
Voltam à obra feita e não tanto ao tempero, como falava.
Diga?
Voltamos aí à obra feita de Cavaco Silva e não tanto ao tempero.
Não, mas repare, mas é um tempero que é essencial sob o meu ponto de vista, que é discutir, obviamente, que a política tem políticas. E portanto, aquilo que eu entendo que é essencial é voltarmos a discutir política. A Rádio Observador, desculpem, eu não preciso dos senhores, os senhores não precisam de mim e portanto um político quando está no ativo precisa de sossegar os jornalistas para ver se o convidam. Eu hoje não estou nesse campeonato. O Observador quando surge, surge para lançar o debate político. Pelo menos foi assim que eu entendi. E portanto procurar captar pessoas que escrevam para debater política. É da política que eu passo para as políticas, ou seja, por que eu defendo esta política na saúde, por que eu defendo esta política pública na educação? Porque tenho uma ideia de cidade. Eu sou muito aristotélico e portanto eu primeiro tenho uma ideia de cidade e a partir da ideia de cidade vou descobrir qual é a melhor forma de governo para essa ideia de cidade. Eu não vou logo direto à forma de governo, à política pública. Bom, agora, dito isto, eu aliás disse ali e continuo a considerar, será que o modelo de admissão de magistrados faz sentido? Para mim não faz. Eu pergunto-me por que razão é que não poderia só ir para magistrado quem tivesse tarimba como advogado ao longo de vários anos no Estado Novo. O Estado Novo também teve coisas positivas. Repare, só ia para magistrado judicial quem tinha tarimba no Ministério Público. Nós não podemos pensar que a justiça de um momento para o outro vai funcionar melhor só porque tem mais um computador e uma resma de papel. Há um elemento de formação, de preparação e está-lhe a falar alguém que foi líder de um partido aos 29 anos de idade. Mas eu tenho consciência que a experiência da vida nos permite fazer, os senhores, e isto não tem nada contra os jovens, os senhores têm hoje, com certeza, uma experiência e uma capacidade de análise dos problemas que não tinham há 10 ou há oito ou há nove anos atrás. E portanto eu entendo que há aqui, desculpem-me a expressão os ouvintes, vacas sagradas que ninguém pode mexer, porque parece que estando a mexer naqueles pilares, cai o edifício todo. Não, eu tenho que dizer assim: este sistema de admissão de magistrados ainda é o correto? Provavelmente não é. Faz sentido termos jovens magistrados sem experiência nenhuma, que provavelmente não têm capacidade para julgar? Provavelmente não é, ou seguramente não é O mesmo no modelo educativo. Repare, nós temos um sistema em que há muitos jovens que chegam às faculdades com altas médias, mas que depois não sabem escrever. Apesar de terem 17 ou 18. Os senhores provavelmente sabem isso, porque estão na comunicação social. Pessoas que, para eles dizer "quaisqueres" é a mesma coisa que dizer "quaisquer". E portanto, nós temos que ter a coragem de enfrentar estes problemas concretos, percebendo que é indo a estas coisas muito concretas, que nós podemos robustecer a democracia. Ninguém consegue falar disto porque há aqui um pânico, porque fulano que criou este modelo educativo ainda está vivo e vamos mexer nele. Não podemos mexer neste sistema de saúde porque quem o fez ainda está vivo. Isso não pode ser.
Deixe-me fazer-lhe um desafio. Está a fazer o seu diagnóstico, como é que olha para um governo que assumiu funções recentemente e que transformou ou contribuiu também para que o debate sobre políticas e sobre política seja o ano da volta, por exemplo, da valorização da carreira dos professores, da valorização dos oficiais de justiça, da valorização salarial dos elementos das forças de segurança. Ou seja, de repente estamos a discutir salários e não a discutir o caminho.
Eu concordo consigo. Eu percebo que houve ali uma pulsão, só para captar o voto, de apagar o incêndio. Apagar o incêndio que estava ali à porta, mas isso não pode ser. Repare, eu também disse aqui, coisa que notei, quem está a falar também nota o Congresso. E notei que as pessoas ou não perceberam o que eu disse, e a culpa é minha, que disse: nós não podemos aceitar movimentos inorgânicos na Polícia de Segurança Pública. Atenção, não pode ser. Eu já tenho dúvidas quanto à existência de sindicatos, como tenho dúvidas na existência do sindicato no Ministério Público, porque têm que existir associações profissionais de defesa da profissão. Agora, sindicatos em determinadas áreas, eu tenho a maior das dúvidas. Está a ver a minha direita? Que não é a direita espalhafatosa do quanto pior, melhor. Mas notei, quando falei dos movimentos inorgânicos, as pessoas ou não entenderam o que eu quis dizer, portanto falha minha, mas aí ninguém bateu palmas. Agora, isso para mim é impensável. Impensável que haja comunicados na comunicação social de polícias a dizer que vão recorrer a baixas falsas. Desculpe, isto é inadmissível. Porque quando um agente da autoridade admite cometer uma fraude para alcançar um objetivo, então é quase a mesma coisa que eu estar a admitir que um aluno copie e diga: "Eu não tive boa nota, mas eu vou ameaçar que vou copiar, etc." Não, isto é inadmissível.
E vê em Luís Montenegro e em Nuno Melo essa capacidade?
Vejo, eu votei neles e não só como militante do CDS-PP, mas votei na AD e tenho uma convicção, ou melhor, tenho uma expectativa positiva de que vão saber levar a água ao seu moinho. Mau era se assim não fosse.
Está a falar de apagar incêndios, do que este governo está a fazer neste momento?
Não. Ele foi obrigado a ter o discurso inicial.
É um governo minoritário, dos mais minoritários que já tivemos. Não sabemos como vai correr essa legislatura a nível de negociações, de entendimentos e, muito provavelmente, quando chegar a altura do orçamento de Estado, será muito complicado também para este governo. Como é que um governo destes consegue aplicar a tal política, as tais intenções políticas, mais do que apagar incêndios, que é o que está a fazer neste momento?
Os grandes políticos veem-se nos momentos apertados, não é nas águas moles. Quando você fala hoje de Churchill, Churchill é evocado porque foi o líder da tormenta. E portanto, essa é a diferença entre o líder e o chefe. É uma das, não é a única. Ser chefe, qualquer um pode ser. Ser líder, isso não está ao alcance de todos. E portanto, isto é um desafio que se coloca ao doutor Nuno Montenegro, ao Luís Montenegro e que se coloca ao doutor Nuno Melo. Eu acredito que eles vão ter essa liderança. Agora, eles também têm que ter consciência que já houve outros governos minoritários, ainda que as circunstâncias sejam diferentes. Mas eu recordo-me, por exemplo, do engenheiro António Guterres, em 1995, liderava um governo minoritário, o primeiro orçamento de Estado, que é aprovado com a abstenção do meu partido, o PSD e o CDS votaram. O PSD gosta muito de lembrar, que é uma coisa que me enerva às vezes, peço desculpa, que fomos nós que garantimos a estabilidade daquela legislatura. Não, logo no primeiro orçamento de Estado, se tivéssemos ido atrás do PSD, provavelmente tínhamos eleições antecipadas, porque o engenheiro António Guterres tinha dito que se o orçamento não fosse aprovado, se demitia. Portanto, as circunstâncias levaram a que o país estivesse em primeiro lugar do que o próprio interesse partidário. Hoje temos uma realidade política diferente. É verdade que sim, mas tem que haver uma capacidade. Por exemplo, ontem o doutor Nuno Melo dizia, numa entrevista que deu ao Expresso, que o governo tem que ter a capacidade para falar com todos. Quando ele diz, e bem, sob o meu ponto de vista, falar com todos, não está a excluir o Chega. Senão, não diria todos. E eu acho que isso é saudável e que é necessário.
Deixe-me só fazer-lhe uma última questão.
Muito bem.
Em relação à própria dinâmica que vai existir dentro do governo, que exigências deve levar o CDS para dentro do Executivo, precisamente para evitar o risco de acabar diluído nesta grande coligação?
Eu não creio que isso vá acontecer, ou melhor, não creio que se vá diluir. Tenho uma esperança e uma convicção grande que quer Paulo Núncio, quer o doutor Paulo Núncio, quer o doutor João Almeida, terão a capacidade de afirmar esses valores. Eu penso que, tão ou mais importante do que a ação do ministro e dos secretários de Estado, que vai ser muito importante, é o papel que os deputados do CDS vão ter no próprio Parlamento. Portanto, eu acho que, para uma pessoa como eu, eu estou muito atento àquela que vai ser a capacidade de impulso e de trazer propostas ao debate político a partir do grupo parlamentar do CDS.
Nuno Montar, muito obrigado.
Muito obrigado, bom trabalho.
Antigo líder do CDS. Estivemos à conversa nos últimos minutos, numa altura em que no palco continuam os discursos dos congressistas