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Agora, Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente da República.

Pelo 5 de outubro, aqui nos encontramos pra dizer o mais simples, mas verdadeiro: o 5 de outubro está vivo, porque a República está viva, a democracia está viva em Portugal. A República está viva. Resistiu à tentação de ser apenas uma minoria urbana cercada pelo Portugal monárquico. Resistiu à fragilidade do parlamentarismo, dos governos, dos desafios das antigas e novas realidades econômicas, sociais e políticas. Resistiu à Grande Guerra, à gripe espanhola, aos movimentos pimentista e sidonista, à noite sangrenta de outubro de 21, aos mandatos presidenciais só uma vez completados, às crises financeiras crônicas. Resistiu ao 28 de maio de 26, à ditadura militar, à ditadura política, às frustradas expectativas do fim da Segunda Guerra, da campanha de Norton de Matos, do desespero do regime perante a evidência da campanha e do voto massivo em Humberto Delgado. A três frentes em África, a bem mais de um milhão de imigrantes. Resistiu, em suma, aos mais difíceis confrontos: no nascimento, nas guerras, na debilidade da Primeira República, tal como na repressão da ditadura militar e política por natureza antirrepublicana, sobre os resistentes, nos golpes ensaiados, nas prisões, na clandestinidade, nas lutas laborais e estudantis, na afirmação da imprensa livre. A República renasceu pela coragem dos jovens militares a 25 de abril de 74. Percorreu dois anos de revolução, a redescoberta da liberdade e dos direitos fundamentais, dois pactos MFA-partidos, a eleição da Assembleia Constituinte, a conturbada descolonização no meio de uma revolução, a aprovação da Constituição de 76. A República mais democrática nos direitos e sua universalidade, no poder político, nas dimensões econômica, social e cultural, afirmou a sua plena legitimidade eleitoral em 1982. A República e a democracia viveram, em 86, a adesão às comunidades europeias, em 96, a criação da Comunidade de Países de Língua Portuguesa, em 2002, a efetiva adoção da moeda única. Em menos de trinta anos, fim de império de cinco séculos e de ditadura de meio século e integração europeia e monetária, que demorara o dobro do tempo pra as grandes economias da hoje União Europeia. A República e a democracia experimentaram substanciais mudanças no sistema de governo, nos regimes econômico e social, avanços em educação, saúde, habitação, solidariedade, com o tempo e o modo tantas vezes esmorecidos. A República e a democracia viram o mundo mudar de bipolar pra unipolar e multipolar, com antigas e novas grandes potências a crescer ou a minguar, e Portugal sempre fiel aos seus princípios, sempre presente pelas suas Forças Armadas, pela sua diplomacia, pelos seus protagonistas em centros de decisão, de mediação, de projeção universal. A República e a democracia resistiram a crises financeiras e econômicas, cá dentro e lá fora, nos anos 70, 80, no fim da primeira e começo da segunda década do século, à pandemia e a guerras como a da Ucrânia ou do Médio Oriente. A República e a democracia assistiram a partidos e forças sociais subirem e descerem, ao surgimento de outras década após década e, às vezes, à adaptação das originárias. A República e a democracia testemunharam os dramas e a capacidade vital de ex-combatentes e de regressados da descolonização, de novas emigrações de nacionais, sobretudo neste século, e sempre de imigrações de falantes e não falantes da língua portuguesa. Tudo, hoje, perfazendo onze milhões vivendo cá dentro e mais do que esses onze milhões, nacionais e lusodescendentes, vivendo lá fora. E nos que vivem cá dentro, um milhão de não nacionais, neles claramente dominando os lusófonos. República e democracia viram como ao lado do catolicismo avultaram outras importantes confissões cristãs, em rápida subida, e também outros numerosos credos e igrejas e não crentes. Mosaico riquíssimo, bem diferente de alguns dos nossos vizinhos europeus. Portugueses, numa palavra, com 114 anos a República e cinquenta anos a democracia, com anos amiúde atribulados para uma e pra outra, o certo é que estão vivas. O mundo mudou. O mundo que fala português mudou. A Europa mudou. Portugal mudou, mas a República está viva. Não é perfeita nem acabada, longe disso. É obra todos os dias de sucessivas gerações de portugueses. A democracia está viva. Não é perfeita nem acabada, longe disso É obra de todos os dias, de sucessivas gerações de portugueses. República e democracia estão vivas, mas sabem que têm de mudar, e muito, nos dois milhões de pobres e mais uns em risco de pobreza, nas desigualdades entre pessoas e territórios, no combate à corrupção, no envelhecimento coletivo e também de tantos sistemas sociais, na insuficiência do saber, da inovação, do crescimento. Constantes, essas, graves, que não conseguimos alterar em 50 anos de Abril. Sabendo, no entanto, quais as razões essenciais de estarem vivas: República e democracia. Viver com liberdade é muito melhor do que viver com repressão. Pluralismo é muito melhor do que verdade única. Tolerância e universalismo é muito melhor do que aversão ao diferente e fechamento. A mais imperfeita democracia é muito melhor do que a mais tentadora ditadura. Por isso, vale a pena aqui virmos todos os anos, até para dizermos que queremos que a nossa república democrática seja mais livre, mais igual, mais justa, mais solidária, para o bem de Portugal, que é o que nos une, agora e sempre. Viva a República, viva a democracia, viva Portugal.

Marcelo Rebelo de Sousa, o Presidente da República, com um discurso particularmente curto, não chegou a dez minutos, esta intervenção do chefe de Estado nas cerimónias do 5 de Outubro, a falar de como a República e a democracia portuguesa, essa mais recente, souberam também acolher todas as diferenças e têm sabido ser tolerantes, ao contrário de outros países na Europa, foi o exemplo dado por Marcelo Rebelo de Sousa, que apela também a uma mudança da República e da democracia para se adaptar aos desafios dos dias de hoje