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Mariana Mortágua que vai começar a falar agora, vamos ouvi-la em direto na Rádio Portugal.
Elegeram uma megafonista pra coordenadora e, portanto, é isto que podem esperar em todas as convenções. Camaradas, saúdo todas e todos os delegados, as delegadas de todas as moções e plataformas à 13ª convenção, que agora chega ao fim. Camaradas, delegados, delegadas, não delegados, não delegadas, sem o vosso trabalho, sem a vossa militância, sem o vosso empenho, esta convenção talvez tivesse existido, mas certamente não seria a mesma coisa. Não seria este lugar onde nos encontramos, onde partilhamos experiências e onde fazemos todo o debate. IS Quem se levantou de madrugada ontem e aqui ficou até às 21h para hoje aqui chegar às 9h. Quem assegurou todos os turnos para que esta convenção pudesse funcionar, quem fez a montagem deste palco, dessas cadeiras, dessas mesas, quem hoje vai fazer essa desmontagem. Todos e todas as militantes do Bloco de Esquerda, muito obrigada. Muito obrigada por esta convenção. Começo por dizer que nos sobram razões de orgulho neste partido, em que as opiniões se expressam com exigência e com crítica. Mais do que isso, temos razões para sentir toda a esperança do mundo quando estamos numa sala abarrotada de força e sabemos perfeitamente aquilo que nos une nesta sala e na vida. É a consciência de que tanto do que temos e que amamos, foi conquistado por quem veio antes de nós. E a certeza inabalável que o nosso lugar é lutar para conquistar outro tanto, para responder pelos problemas da vida e dos portugueses. Ouvimo-nos e também fomos ouvidos lá fora. Neste pavilhão não soaram vozes de resignação ou de confusão, e muito menos de medo. Aqui falamos da vida que queremos ter. Como protegemos os rendimentos do choque dos juros? Como destruímos as teias da corrupção? Como conseguimos o acesso à saúde e à educação de qualidade? Como se mobiliza a greve feminista internacional? Como damos força à luta por melhores salários, por sindicatos abertos e democráticos? Como se organiza uma mobilização antirracista, uma campanha pelo clima? Como garantimos que os direitos LGBT continuam a marchar cada vez com mais força? Levantem as bandeiras, levantem as bandeiras. Como cooperamos com povos e organizações ameaçados pela repressão na Ucrânia, como na Rússia? Como é que fazemos as pontes com as esquerdas de Angola? Um abraço aos camaradas do Bloco Democrático de Angola, que aqui se fazem representar. Como fazemos as pontes com a China, nos Estados Unidos ou em Itália? É nessas respostas que pomos a nossa energia e que procuramos caminhos. Camaradas, assistimos à degradação da vida pública. E é precisamente quando a vida pública se degrada, que é mais preciso mostrar que no Bloco de Esquerda a política é, e sempre será, o lugar das causas e das convicções. Não deixamos a política entregue ao calculismo, nem esse pântano em que a verdade e a mentira se confundem. A nossa política é uma paixão maior do que qualquer circunstância. É uma forma de impaciência, é uma vontade que ninguém pode domar. E por isso, camaradas, vos garanto: os nossos 24 anos, estas 13 convenções, esta sala cheia, são só o começo do Bloco de Esquerda. Aos nossos adversários, pra quem a esquerda, aliás, é sempre um projeto condenado, sempre um projeto a prazo, deixo um recado muito franco. Já nos conhecem, é verdade, mas não viram nada da força que vamos saber criar, reinventar, construir, unir. É essa grande força que vemos aqui hoje. Essa é a força que eu vejo nos mais jovens do Bloco, em quem aqui chegou na luta contra a Troika, em quem confiou nesta esquerda pra garantir uma geringonça que o PS sempre quis dispensar. É a força de quem se juntou já depois das últimas eleições, porque não aceita andar pra trás. É a força das mulheres que exigem no Bloco toda a igualdade que também querem pra sociedade. Essa é a força de quem veio das lutas antigas pra ligar o fio da memória aos combates de hoje. Somos nós, toda esta gente. Esta é a força de um Bloco capaz de criar uma alternativa pro nosso povo, porque afinal, como canta Caetano: "Gente é pra brilhar". Obrigada pelo vosso brilho, obrigada pelo vosso empenho, obrigada pela vossa determinação. Camaradas, antes de vos falar das conclusões desta convenção, quero agradecer aos partidos, instituições, organizações sociais nacionais e internacionais, às personalidades que convidámos. Sejam bem-vindas, sejam bem-vindos. Aos deputados brasileiros Guilherme Boulos e Luciana Genro, o nosso obrigada pela vossa presença. Mas sobretudo, obrigada por terem mostrado a Bolsonaro a porta da saída, tornando o ar do mundo muito mais respirável. Desejamos-vos o maior sucesso nas lutas que vão definir o vosso e nosso futuro comum. Cá estaremos para festejar a vitória da esquerda na quarta maior cidade do mundo, São Paulo, e em todos os vossos combates pelo vosso povo. Agradeço especialmente aos representantes do povo sarauí e palestiniano, a quem prometemos todo o apoio à vossa autodeterminação. Uma autodeterminação que há muito foi traída pela hipocrisia dos interesses imperiais e dos negócios. Agradeço a presença da França Insubmissa, assinalando o extraordinário trabalho de quem responde pelo seu povo e não se conforma que a política seja uma escolha entre o liberalismo e a extrema-direita. Agradeço também as palavras que nos foram enviadas pelo Movimento Social da Ucrânia, um partido de esquerda que, na Ucrânia, resiste com o seu povo contra uma invasão que se anunciou pela reconstituição do Império Czarista. Saibam que apoiamos a vossa luta para defender o vosso país. Empenhamos a nossa solidariedade com todas e todos os ativistas russos contra a guerra e a repressão, bem como toda a esquerda que se bate em qualquer canto do mundo contra a corrupção, contra o militarismo, contra as guerras, pela justiça e pela democracia. Desejamos também o melhor resultado às forças de esquerda que hoje vão a votos no Estado Espanhol. Quando crianças ficam sepultadas sob o escombro dos bombardeamentos em Gaza ou em botes abandonados por autoridades europeias em pleno Mediterrâneo, reafirmamos a nossa bandeira: o internacionalismo dos povos a que somos fiéis em todas as circunstâncias. Aos nossos convidados internacionais, peço assim que digam às vossas organizações que continuam a contar com um aliado em Portugal. Este bloco estará convosco em todas as lutas pela paz, pela democracia, pelo socialismo. Podem contar connosco. Camaradas, agradecendo a confiança do voto na convenção, quero dizer-vos algumas palavras pessoais. São sobre o que aqui me traz. São sobre o compromisso militante que aprendi com a garra alentejana e são sobre a sorte que tive de partilhar um percurso político com a minha irmã. Foi a Joana que me convenceu.
Joana Mortágua, que é irmã de Mariana Mortágua, é também deputada do partido na Assembleia da República.
Foi a Joana que me convenceu que o bloco encontraria gente como eu, que acha que a vida vale a pena quando lutamos por aquilo em que acreditamos. Herdamos do nosso pai uma memória de resistência contra a ditadura.
Joana e Mariana Mortágua são filhas de Camilo Mortágua, conhecido antifascista. Muitas palmas agora para Camilo Mortágua. A convenção coloca-se de pé, incluindo várias pessoas que não estão, não estão de Mariana Mortágua. Há um aplauso longo, de pé, para o pai das irmãs Mortágua, Mariana e Joana.
Bem sei que vemos hoje alguns vampiros que querem resgatar o ódio salazarento e que para isso tentam enxovalhar essa geração que os derrubou no passado. E por isso eu quero dizer-vos hoje de novo, do orgulho que sinto naquelas pessoas como meu pai, que quando tudo era treva, souberam encontrar a beleza na luta pela liberdade, entregando-nos a democracia e a honra de nascer num país sem tirania e sem colonialismo. A todos e todas essas mulheres e homens, o nosso muito obrigada. Não esquecemos o 25 de abril porque somos a mesma gente. Somos feitos da mesma fibra desses homens e dessas mulheres e porque voltaremos a fazer o que for necessário para que o nosso povo seja livre e seja soberano. Sei disso porque foi essa fibra que encontrei ao entrar no Bloco de Esquerda. A Joana nem sempre tem razão, desta vez teve razão.
Alguns sorrisos na convenção. Agora mais uma referência à irmã Joana Mortágua.
Aprendi ao vosso lado, camaradas, o que é persistência, como se constrói a luta social, como se superam derrotas, como se põe o respeito pela palavra dada acima de qualquer circunstância eleitoral, como se conjuga a luta para o dia de hoje, por um programa concreto, com o futuro que temos de proteger. Percebi como o Bloco comprova que se consegue o mais difícil. Dizia-se que era impossível juntar tanta esquerda numa nova força com tanto impacto popular e superar a maldição do sectarismo e da divisão. Que era impossível ganhar o referendo do aborto, que era impossível obrigar o PS a desistir do congelamento das pensões e a fazer um acordo em 2015 pra afastar Passos Coelho. Diziam que era impossível, mas vencemos todas essas provas e em cada uma, Portugal ficou um país melhor. Em cada prova que superamos, de cada vez que fizemos o impossível acontecer, este país ficou um país melhor.
Referências a algumas das batalhas do Bloco de Esquerda e à própria fundação do partido.
Nestes anos, vi de muito perto a força imparável da Catarina Martins. Desde o primeiro dia dos seus mandatos, a Catarina provou ser a melhor de todas nós e de todos nós.
Um elogio agora também para a coordenadora que começa funções nesta convenção, ao fim de 11 anos aos comandos do partido.
Celebramos contigo, Catarina, sofremos contigo, vibramos sempre contigo. Fizemos o que muitos achavam inviável. Revertemos cortes de salários e das pensões impostos pela direita. Baixamos o valor das propinas e dos passes sociais. Tributamos os patrimônios milionários para proteger a Segurança Social e não cedemos na luta pelo SNS. E ainda nestes dias, com a força simbólica de concluir uma luta de 14 anos, uma luta que tem a marca de João Semedo, conseguimos o direito à escolha pela morte assistida. Que percurso! Tanto que andamos pra aqui chegar. Estes foram anos incríveis de coragem e de convicção e podes ter a certeza, Catarina, que contamos contigo para todos os anos que estão por vir.
Referência também agora à morte medicamente assistida, a lei da eutanásia, que foi aprovada recentemente. E Mariana Mortágua a dizer que continua a contar com Catarina Martins. De resto, a coordenadora que termina funções nesta convenção, vai continuar na direção do partido.
Contamos com toda a gente. E se escolheram contar comigo, mesmo sabendo que teremos de lidar com as perseguições da extrema-direita ou de um magnata da comunicação social, então vamos a isso. Vamos a isso. Que essa gente sem escrúpulos saiba que este partido não se cala perante o abuso e não se encolhe perante a intimidação. Vamos a isso. Ninguém nos pode calar, ninguém nos intimida.
Há agora uma pateada, várias pessoas a bater com as mãos na mesa quando Mariana Mortágua faz referência ao conflito que tem com Marco Galinha.
Camaradas, sentimos que vivemos um tempo tremendo. É um novo ciclo de incertezas, em que se instalou um poder absoluto, que só parece preocupado em sobreviver ao dramalhão do quarto andar do ministério, em que para alguns governantes, as suas carreiras pessoais são mais importantes que os seus devers, em que o país é humilhado com decisões arbitrárias, com questiúnculas grotescas, em que a política é gerida ao sabor de aprendizes de feiticeiro e spin doctors, acho que é esse o termo, em que os anúncios de hoje de nada valem amanhã. As patologias do poder transformaram a política num triste entretenimento. A esquerda tem que saber olhar pra o essencial. Será que o governo acha que o povo não percebe que as urgências hospitalares estão a fechar e que a resposta do ministro é nomear comissões pra lhes fazer autópsia? Achará o governo que o povo não percebe que há crianças sem aulas, enquanto se despreza os professores que ainda estão hoje na escola, a lutar pela escola, pra que ela possa existir? Acham, porventura, que o povo não percebe que as promessas de casas nunca construídas são palavras ao vento? E camaradas, o vento não baixa os preços da habitação. O labirinto deste entretenimento triste não consegue esconder as evidências esmagadoras. Há mais de 1.700.000 pessoas que vivem com menos de €554 por mês. As mulheres ganham, em média, menos dois meses de salário que os homens. O administrador do Pingo Doce recebe num ano o equivalente a mais de 250 anos de trabalho do funcionário da sua empresa. Tudo é fácil pra quem torna impossível a vida da maioria. Sabemos que o mal não é de hoje, porque sempre denunciamos o sistema de poder econômico absoluto, que agora assume esta forma de especulação imobiliária pro turismo e pra finança. O milagroso crescimento econômico português é um logro, porque Portugal nunca se libertou da prisão do rentismo. Há milhões de pessoas presas na dívida da casa, presas no salário baixo, presas no contrato precário, presas nos turnos e no trabalho sem fim. Há milhões de pessoas presas ao cuidado informal, presas na ansiedade, presas na solidão. E tudo Tudo o que o poder absoluto tem para lhes dizer é que tenham mais medo, que ao medo do fim do mês, juntem o medo que este governo, que é mau, dê lugar a outro que é péssimo. Esta política, camaradas, é um jogo perigoso, porque mais tarde ou mais cedo, onde reina o medo, o pior acontece mesmo. As sementes do ódio estão aí. Há na direita uma ânsia de vingança contra os trabalhadores, de desprezo pelos pobres, de regressão dos direitos que conquistámos a pulso. A direita que bebe do ressentimento e da angústia dos problemas reais, é a primeira a querer impor medidas contra o povo, a apoiar a especulação imobiliária, a apoiar os interesses da banca, a apoiar a venda ao desbarato dos recursos estratégicos do país que são nossos e que constroem a nossa democracia. Nós combateremos essa direita. Impediremos que essa direita tenha maioria para impor o seu programa ao país, a Portugal. A essa direita, nós dizemos bem alto e queremos que nos oiçam. Portugal não será o país onde se espancam imigrantes nas fronteiras e se multiplicam Odemiras.
Mariana Mortágua, agora também com uma referência ao caso de Ihor Homeniuk, um cidadão ucraniano que morreu no aeroporto de Lisboa.
Portugal não será o país sem serviços públicos de saúde e de educação, como escreveu o Chega no seu programa. Portugal não será um país sem salário mínimo nacional, sem escolaridade obrigatória até o 12º ano ou em que cada universitário se endivida para poder estudar, como propõe a iniciativa liberal. Portugal não será o país onde os professores são escolhidos por conveniência e onde os grupos econômicos são favorecidos quando pagam aos seus partidos afilhados. Portugal não será o país onde se chama empresário a um imigrante explorado, que pedala com uma mochila às costas ou onde o gênero, a identidade, a cor da pele ou a crença são motivos de perseguição. Portugal não vai ser esse país. Rejeitar esta política do ódio que tudo destrói impõe uma escolha: impedir que continue este caminho de degradação. Quem abafar, menorizar ou desvalorizar o pântano criado pela maioria absoluta não está a defender a democracia. Está, sim, a desresponsabilizar os causadores da fragilização da democracia. O desgaste da vida democrática não é só provocado pelos arruaceiros que gritam contra ela. É criado por quem descredibiliza a República com embaraço atrás de embaraço. Obrigada, Yara. É criado por quem acha que o sucesso de um governo está em empobrecer os cidadãos enquanto se abre o champagne pelos números do déficit e do crescimento econômico. Não há pior vício neste governo do que festejar triunfos que são tormento para as pessoas. Os salários e as pensões ficam mais pequenos, mas o governo pede-vos que agradeçam o excedente orçamental. Os serviços públicos definham, mas, por favor, deem palmas ao PRR. Morar em Lisboa é mais caro que morar em Madrid ou em Milão, mas aplaudam o crescimento econômico. A vida democrática é conspurcada quando um governante português sorri à cena ao lado do chanceler alemão, enquanto este faz piadas sobre o momento em que a Lufthansa podia ter ficado com a TAP. A vida democrática é enxovalhada quando o governo se submete a regras orçamentais que destroem a nossa capacidade de investir ou de planear o nosso futuro. A vida democrática é diminuída quando o governo se submete ao sadismo do banco central, que sabe, que estudou, que escreveu, que a inflação é causada pelos lucros, mas que, ainda assim, insiste em castigar o salário, insiste em castigar quem trabalha. Quem nos diz que temos que nos conformar com a subida dos juros porque a banca precisa dos seus 10 milhões de lucros por dia, quem nos diz que é preciso aguentar a conta do supermercado para pagar o recorde dos lucros das distribuidoras, quem nos diz para desistirmos da ideia de uma casa, porque a prioridade é dar rédea solta ao turismo e ao imobiliário, quem nos diz isso tudo, quem condena gerações a uma vida pior e lhes arranca a esperança, esses são os verdadeiros responsáveis pela corrosão da vida democrática. É quem nos arranca a esperança de uma vida melhor. Por isso, para resgatar o país deste jogo vicioso, é preciso uma esquerda frontal. E quero dizê-lo com muita clareza: a esquerda que desistir de ser exigente para aceitar a chantagem do medo, não serve ao país. Não somos biombos de sala, não somos cravos de lapela. A esquerda precisa de força suficiente para impor uma política de habitação que controle os preços e garanta casas, para multiplicar as capacidades dos serviços públicos com carreiras mobilizadoras, para acabar com os truques dos impostos, para garantir contratos de trabalho, salários e pensões decentes, para dedicar recursos à transição energética que temos que fazer urgentemente. Sabemos que a nossa força vem das escolhas que fazemos Em tempos tóxicos, para impedir uma rampa deslizante para a direita e para a extrema-direita, o Bloco de Esquerda escolhe levar o país a sério. É essa a nossa escolha. Escolhemos levar o país a sério.
Estamos na Rádio Observador a acompanhar o discurso de encerramento da 13ª convenção do Bloco de Esquerda, um discurso protagonizado por Mariana Mortágua.
Camaradas, será a força que voltará a dar a volta ao mundo nos próximos meses. Temos dois objetivos. O primeiro objetivo é erguer na Madeira a oposição que Miguel Albuquerque teme e que não se cala perante esses interesses que abraçam o PSD e o PS Madeira. Haverá uma oposição que leva a sério a vida dos madeirenses, a pobreza, a habitação, a saúde. Essa oposição será a força do Roberto Almada no Parlamento da Madeira a partir de outubro.
Definição de Mariana Mortágua de um objetivo eleitoral, a pensar nas próximas eleições da Madeira, com antever um bom resultado para Roberto Almada, diz Mariana, que será a força da oposição na Madeira.
Que será a força do Bloco de Esquerda na Madeira, que se irá empenhar em fazer deste novo ciclo político o fim da maioria alaranjada. Desculpem, podia ter dito tudo de uma vez, mas olhem, foi em duas vezes. Em segundo lugar, chegaremos às eleições europeias com entusiasmo e a determinação de sermos a terceira força para ultrapassar o Chega e a Iniciativa Liberal, enfrentando as alianças da extrema-direita e para mostrar que há aqui uma esquerda que disputa a política de sempre do PS e do PSD.
Novo objetivo eleitoral definido por Mariana Mortágua, ficar em terceiro nas europeias.
Nós não aceitamos que Bruxelas e Frankfurt nos imponham a austeridade, que destruam a possibilidade de uma política industrial ou que decidam que serviços públicos é que nós estamos autorizados a ter. Não alinhamos em devoções belicistas, não aceitamos as trincheiras da guerra, nem nos deixamos condicionar por tiranos que usam o seu poder pra o massacre. Queremos, sim, acolhimento fraterno de exilados, refugiados e imigrantes. Queremos a proteção ambiental acima de todos os interesses econômicos, financeiros, geoestratégicos. E se, por desistência, ou por conveniência, ou por jogada de um ou do outro dos protagonistas da maioria absoluta, uma nova crise política se conjugar, cá estaremos, camaradas. Cá estaremos para que a recuperação da força da esquerda permita impor um programa que devolva a este país o que a voragem da maioria absoluta lhe tirou: dignidade e esperança. É essa a força da esquerda.
Mariana Mortágua a reafirmar que o Bloco de Esquerda está preparado para eleições, embora não seja esse o caminho que vai pedir. Ainda assim, o partido está preparado.
Dito tudo isto, pensarão vocês, nem é tanto das eleições, nem do país de medo, nem do amesquinhamento que tanta gente sente, e sente mesmo, que vos quero falar. Quero falar-vos agora do mais importante de tudo. Se só servisse para constatar a evidência do país que empobrece, para analisar com esmero o que está errado ou para revelar as injustiças da desigualdade, a esquerda de pouco valeria. Com franqueza, ninguém em Portugal precisa que lhe digam o que está mal. O que conta é como resolvemos as dificuldades. A esquerda vale pelo seu programa concreto, que é um compromisso, que é um contrato com o povo. E esse compromisso é a luta pela vida boa.
Mais uma referência a este conceito de vida boa, que tem sido muito usado ao longo desta convenção do Bloco de Esquerda.
Sei que falar de vida boa quando o governo parece desagregar-se ou quando vivemos atormentados pela vida triste e pelo medo do futuro, pode soar a um acesso romântico. E se fosse? Mas desengane-se quem assim pensar. A vida boa é outra coisa. O que declaro é todo um programa. Não aceitamos que viver pior seja o nosso destino. Temos o direito, mais do que isso, temos o dever de lutar por uma vida boa, uma vida que não seja consumida num esforço inglório pelo mínimo dos mínimos, que é ter uma casa, é ter salário decente, é ter cuidados, cuidados na doença, cuidados quando tivermos filhos, cuidados quando a idade nos pesar, cuidados quando a idade pesar aos nossos pais. É exigir demais? É demais exigir uma economia que caiba nos limites do nosso planeta? É demais exigir para os imigrantes que vivem conosco, que ajudam a sustentar a Segurança Social, as mesmas regras que queremos pra nós mesmos? É demais exigir que às gerações de afrodescendentes não se ofereça apenas os trabalhos mais mal pagos e mais pesados, mas o respeito em todas as dimensões desta vida, deste país que é o deles, que é o nosso? Camaradas, é demais exigir ser encantado pela criação cultural? Querer viver a fabricá-la, querer fazer música, teatro, querer dançar, querer viver é exigir demais? É demais querermos livrar-nos desta ansiedade de sobrevivermos como se só restasse correr cada vez mais depressa pra chegarmos a lugar nenhum? Quando o mais elementar bom senso parece radical, então é porque é altura de ter bom senso. Quando a solidariedade nos parece um ato de coragem, é porque é hora de mostrar que ninguém é feliz sozinho, que não estamos enjaulados numa infinita competição pela sobrevivência. É essa solidariedade que faz a esquerda. É esse o programa pela vida boa, pela liberdade, pelo respeito. Vida boa é ter esperança, é ter esperança, ter uma vida digna e ter a dignidade de lutar por essa vida que queremos ter e que podemos ter. Queremos uma vida boa. Queremos uma vida boa. E por ela somos grandes contra o medo. Não nos submetemos a sombras, porque nada está predestinado e na vida contam apenas as escolhas que fazemos. E nós, aqui, escolhemos a alegria, a solidariedade e a liberdade. No meio do vazio ideológico corrosivo, neste nevoeiro em que os governantes não sabem pra onde vão e não querem ir, de fato, pra lado nenhum, no tempo dos vendedores da banha da cobra, o compromisso das condições da vida boa é uma resposta clara. Lutamos por serviços públicos que nos deem descanso, em vez de transformar a idade e a doença num negócio. Camaradas, se há quase 50 anos foi possível criar o SNS, por que nos temos que conformar agora com meros remendos? Por que havemos de estar destinados a ver o SNS definhar, em vez de ousarmos reinventá-lo, garantir médico a todas as famílias, ter novas valências, cuidados primários, garantia de acesso a cuidados paliativos? Se há quase 50 anos soubemos ter esse rasgo que foi criar a escola pública, por que temos que aceitar que faltem professores? Por que temos que aceitar que destratem os professores que temos e que mantêm a escola pública? Lutamos porque queremos uma escola por inteiro, porque queremos respeito por inteiro a quem se dá à escola, a quem dá a sua vida pela educação. Por que havemos de pagar uma caríssima creche privada pros nossos filhos ou aceitar a sobrecarga das mulheres com os cuidados informais aos mais velhos? Ousemos criar um serviço nacional de cuidados que crie empregos, que dá segurança aos nossos. Lutamos pra acabar com o tormento que é ter 20, 30, 40 anos e nunca ter visto um contrato de trabalho ou um salário decente. Se gerações antes de nós conseguiram oito horas de trabalho, férias pagas, subsídio de doença, se conquistaram o direito a um mínimo de estabilidade na vida, por que havemos nós de estar condenados a recuos e nunca a avanços, e nunca a conseguir mais, a construir mais, a conquistar mais? Camaradas, na precariedade não há modernidade e não há mérito. Só há submissão e degradação. Ousamos exigir contratos de trabalho, salários decentes, leques salariais máximos, para que nenhum patrão ganhe num dia aquilo que um trabalhador ganha ou nem ganha numa vida inteira de trabalho e de esforço. Que nunca mais essa desigualdade tenha que existir no nosso país.
Mariana Mortágua a concentrar agora o discurso nas desigualdades laborais. Mais um momento que merece que vários delegados da convenção batam com as mãos na mesa.
Lutamos também pra acabar com a hipocrisia ambiental, que pinta de verde os programas políticos enquanto se constroem gasodutos, enquanto se protegem os lucros da Galp e se ignora a produção agrícola intensiva, que consome a água que não temos, pra depois tratar a seca como uma inevitabilidade ou como um acaso. Lutamos e lutaremos por nós, pelos nossos filhos, pelos nossos pais, pelos nossos avós, porque não queremos só deixar passar o presente agarrados ao que nos é imposto. Lutamos porque levamos este país a sério, as suas dificuldades, os seus desafios, mas também os seus desejos. Tenho 36 anos e luto porque desejo um país melhor, um país onde possamos ser livres e respeitados. É essa a nossa luta. É em nome dessa liberdade toda, dessa liberdade tão inteira, que estamos em todos os terrenos. Não vamos abandonar ninguém, não vamos ignorar nenhuma das injustiças pra ser explorada pela demagogia. Estaremos em todo lado onde é preciso que se sinta que a solidariedade é a única resposta à ganância e à desesperança. Levar o país a sério é assim. Há quem lhe dê mau nome. É verdade. Mas insistimos em chamar a este nosso projeto socialismo. Socialismo, porque é liberdade. Socialismo, porque é democracia. É este o nome do nosso projeto. Chamem-lhe ecologia, responsabilidade, cuidado, igualdade, amizade. Chamem-lhe paixão. Obrigada por tudo, camaradas. Obrigada por tudo. Este é o tempo das nossas vidas e vamos mostrar ao país que elas não vão ser desperdiçadas entre a escolha do mal e o péssimo. Vamos mostrar ao país esta força e este brilho que se reinventam todos os dias. Vamos mostrar ao país que uma política pode ser convicção, que uma política pode ser alegria. Vamos mostrar ao país que o nosso povo merece e pode ter uma vida boa. Vamos mostrar ao país toda a força do Bloco de Esquerda. Obrigada, camaradas.
Termina assim o discurso de encerramento da 13ª convenção do Bloco de Esquerda. É também