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Junta-se agora a nós ao telefone Manuel Maria Carrilho, ex-ministro da Cultura durante a Expo 98. Que memória e que recordações é que tem do trabalho próximo também com António Mega Ferreira?

É uma morte que lamento profundamente. Eu tinha uma grande estima pelo António. Conhecia-o bem antes, mas trabalhei com ele sobretudo nesse período da Expo, que é um acontecimento que vem de trás, do tempo de Cavaco Silva e de Graça Mora, mas que nós herdámos quando o governo de António Guterres tomou posse. E eu trabalhei intensamente com ele no projeto da exposição de 98, que foi, de facto, eu penso que o último grande acontecimento que aconteceu em Lisboa. Acho que desde então para cá não acontece realmente nada, praticamente, em Lisboa, não se fez praticamente nada, como se outros casos, mas enfim, praticamente. O António era uma figura rara. Eu sentia-me muito próximo dele, talvez por ele também ser um intelectual fazedor. Nós temos muitos intelectuais notáveis, temos muita gente, enfim, grandes fazedores, mas é raro juntarem-se estas duas características e o António juntava-as com muito brio. E nesse período eu vi isso muito de perto. Ele, de resto, nesse período em que foi o principal responsável, porque a questão do lugar até foi um bocadinho controversa, pela Expo 98. Ele foi também o comissário do Ministério da Cultura num grande evento que viria a ter muitas consequências, que foi a Feira de Frankfurt, em que Portugal foi país-tema em 97. Nós juntámos as nossas forças para fazer dessa Feira de Frankfurt, desse acontecimento, que, como sabe, é o acontecimento mais importante no domínio do livro mundial. Ele foi comissário, fez um trabalho notável. Eu penso que sem ele não se teria feito, não tinha tido esse sucesso, que foi imenso para a irradiação da cultura portuguesa. Eu muitas vezes digo que nós não teríamos tido o Nobel em 98 sem a Feira de Frankfurt de 97 e sem Mega Ferreira, certamente que não teríamos tido a Feira de Frankfurt, em que Portugal, como digo, foi país-tema, sem ele. Quando eu fiz um balanço do trabalho do primeiro mandato em 2000, e fiz um livro a dar satisfação, que eu acho que se deve aos portugueses o trabalho que tinha feito, que se chama "Hipóteses de Cultura", eu pedi justamente ao António. Foi o António, com aquela generosidade dele, que fez a apresentação do livro em 2000 e fez uma belíssima apresentação. De resto, é o ano em que publica também um belo livro, a "Borboleta de Novokov", porque enfim, o António é um autor muito polifacetado em termos de livros de viagens, de traduções. Foi também editor, como sabe, enfim, foi uma grande figura da cultura portuguesa, sem dúvida.

É esse o maior legado que deixa, essa capacidade de relacionar os vários setores, as várias pessoas e de pensar na cultura como um todo?

Como diz? Agora não percebi.

Se é esse o maior legado que deixa, ou seja, alguém que foi escritor, que foi gestor cultural, relacionou todos esses setores, todas essas pessoas.

Infelizmente há muitos que são pouco seguidos, mas é evitável. Justamente, eu acho que essa capacidade é um exemplo que fica de que é possível fazer, realizar muita coisa, ter projetos e concretizá-los, que não é só ter projetos. Como sabe, o projeto da Feira, da exposição de 98, foi um projeto que se discutiu com outras capitais, que foram outros responsáveis, mas depois a capacidade também de concretização desse projeto, aliando isso com uma permanente atividade cultural. Ele era um intelectual 100%, era um homem que sempre livro na mão, sempre interessado pelas novidades, sempre interessado em discutir ideias. Realmente é alguém que deixou uma marca importante na cultura portuguesa.