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Vamos ouvir Pedro Soares em direto na Rádio Observador.

Não porque não tivesse ideias e propostas, mas porque foi confrontado com a imposição de limitações que diminuíram a participação e a riqueza do debate plural. Uma saudação e um incentivo à organização da Madeira, ao Roberto Almada e à Dina Letra, que encabeçam a nossa candidatura às próximas eleições regionais da Madeira. Queremos o regresso do Bloco ao Parlamento Regional. A moção é: apresenta-se à convenção para contribuir para um debate plural, a maior riqueza deste Bloco de Esquerda desde a sua génese. Recusamos uma convenção que seja um muro de lamentações, mas queremos que seja exigente na avaliação crítica e no confronto democrático das propostas. Não podemos evitar isso. O ambiente que vivemos internacionalmente e também no nosso país, como é óbvio, é o de uma grande instabilidade, é um ambiente de crise. Guerra, inflação, emergência climática, crescimento das desigualdades. A sucessão de crises é uma política em si. Em cada crise, o velho contrato social, que foi sendo conquistado a pulso ao longo de várias décadas do pós-guerra, está a ser esvaziado. Menos salário, menos segurança no contrato laboral, menos Estado Social, menos direitos, são o resultado de cada uma destas sucessivas crises, mas também a incapacidade do capitalismo produtivista, que só vê lucro para enfrentar a crise climática. Para eles não há limites, não há linhas vermelhas para esta verdadeira guerra social que se instalou. A luta por linhas inultrapassáveis está no coração da identidade histórica da esquerda. A fixação dessas linhas divisórias e a mobilização das forças necessárias para isso são o objeto maior da luta política do nosso tempo, tal como disse, e muito bem, o José Manuel Pureza. É dessa luta que trata a moção n. O que estamos a viver no nosso país, internacionalmente, está muito para além daquilo que passa nos telejornais, muito para além de uma episódica e conjuntural crise institucional. Um qualquer desaguisado entre Primeiro-Ministro e Presidente da República. A direita e a extrema-direita procuram criar essa imagem, impelidas por sondagens que as fazem salivar pelo poder. A esquerda não pode ajudar a esse festim, que tem o condão de não apresentar soluções, de efetivamente não melhorar a vida das pessoas, mas favorecem o populismo. O Presidente da República já veio pôr alguma água na fervura, até já marcou um Conselho de Estado a dois meses de antecedência. Avisou a navegação. Percebeu que boa parte das pessoas está farta disto, está preocupada, mas está preocupada é com os efeitos da crise inflacionista nos seus salários, com a precariedade, com a especulação na habitação, com a subida dos juros no crédito, com a degradação do Serviço Nacional de Saúde, com a falta de paz nas escolas. As pessoas até já apoiam as greves, apesar de sentirem as suas consequências diretas na pele. De facto, a crise que vivemos não é institucional, não é ainda institucional. O que vivemos é uma crise social, que se agrava e para a qual a direita e a extrema-direita não têm respostas, porque a política da crise é a sua própria política e por isso são capazes de fazer o pino para que o barulho do espetáculo se sobreponha à realidade social, das vidas difíceis, de quem trabalha e tem salários baixos, que quer dar melhores condições de vida aos seus filhos e não consegue lá chegar. Dos grupos económicos que lucram milhões, mês a mês, trimestre a trimestre, ano a ano, com a inflação, mas milhões de pessoas continuam a empobrecer. É nesse campo que está o nosso combate principal. Sem desvalorizar o correr por dentro das instituições, precisamos muito de correr por fora. É nesse campo que o Bloco tem de estar de forma autónoma e diferenciada. Os tempos não estão para discursos vagos, do tipo "uma vida boa para todas as pessoas". A luta de classes não se esvaiu por milagre. Os tempos são fraturantes, exigem a clareza do compromisso político com o trabalho, com o ambiente, com os direitos mais elementares à saúde ou à habitação, e não ficar por declarações de princípio de largo espectro que não polarizam e só podem ter como desfecho a diluição da nossa identidade e do nosso papel na sociedade. Esta foi a consequência de anos de troca do nosso programa pela procura de acordos com o Partido Socialista, sem qualquer base real de possibilidade, a não ser com o abandono das nossas bandeiras. A geringonça acabou, mas perdura na cabeça de alguns e continua a marcar a nossa linha política. É a recusa de avaliação deste último ciclo, em que perdemos influência política e social, que permite existir desta linha, matizada agora pela necessidade sem alternativa de ser oposição a uma maioria absoluta. É um engano Efetivamente, é um engano. Os militantes e a opinião pública em geral valorizam quem reconhece os seus erros e procura corrigi-los. Isto é que é sério, isto é que é levar o país a sério. Resolve-se a questão, resolve-se o problema, não mudando a política, mas mudando os rostos. Pois desejamos as maiores felicidades, que o Bloco tenha os maiores êxitos com mudança de rostos. Mas camaradas, o mal-estar está instalado e transborda. Pela primeira vez, depois do ciclo de perdas eleitorais, o Bloco foi internamente a votos, há uma semana. O nível de abstenção foi de 80%. A maioria da direção divulgou, de forma entusiástica, a vitória da sua moção, como lhe competia, mas escondeu o que foi uma derrota de todos e de todas nós. E este começa a ser um padrão de comportamento. Não avaliar os mais evidentes sinais de crise, esconder a verdade e, com isso, degradar a democracia interna e evitar mudar de rumo. Temos que sair urgentemente deste atalho. Precisamos de restabelecer o diálogo entre todos nós, sem sectarismos de grupo, com capacidade de cooperação total, com respeito pela pluralidade, valorização da intervenção local, debate aberto sem tutelas e uma profunda avaliação da orientação política que nos trouxe até aqui. Não é de arrependimentos que falamos. Nós falamos é de prosseguimentos, lições tiradas e responsabilidades assumidas. É isso que nos valoriza. Na política precisamos de transmitir confiança em torno de compromissos políticos claros, polarizadores. Precisamos de regressar às novas causas fraturantes. E quais são? Podemos dar exemplos. É uma linha inultrapassável, se quiserem manter a legislação laboral imposta pela Troika, que agrava o desequilíbrio entre trabalho e capital e em grande medida é responsável pelo perfil de baixos salários. Tem de ser uma linha vermelha que se mantenham dezenas de milhares de famílias em grave carência habitacional, a par de uma especulação brutal, apesar de existirem milhares de casas disponíveis, prontas a habitar, detidas dessa forma pelos fundos de investimento imobiliário, que tratam como ativos financeiros essas casas e não pela sua função social. É preciso colocar no primeiro plano das nossas prioridades a mobilização política, a mobilização pública desses fogos. Isso é inadiável. É uma linha vermelha que constitui o limite essencial deixar que as medidas de combate às alterações climáticas e do avanço da transição energética continuem ao ritmo dos interesses do mercado. E por aí fora. Os movimentos sociais desempenham papel essencial e estratégico. É por aí que temos que ir. Precisamos, efetivamente, de valorizar os movimentos sociais. Eles são faróis nos caminhos das mudanças sociais, na conquista de um novo horizonte ecossocialista, de um novo contrato civilizacional entre trabalho, ambiente, conhecimento e novas gerações. A deriva para a institucionalização é mortífera. Transformaria o Bloco naquilo que não quis ser. E vivemos tempos dramáticos, de regresso da guerra ao nosso cotidiano, uma corrida armamentista desmesurada e que parece não ter fim. A guerra na Ucrânia exige a condenação inequívoca da Federação Russa pela invasão de um país soberano e a nossa solidariedade total com o povo ucraniano, que tem o direito de se defender, como é óbvio. Mas o que devemos fazer enquanto comunidade internacional? Estimular a escalada militar ou concentrar todos os esforços num cessar-fogo imediato com a retirada das tropas, o estabelecimento de um plano de paz? Devemos alinhar no discurso do secretário-geral da NATO, que exige mais armas, ou devemos apoiar as declarações do presidente Lula da Silva, que pede concentração num esforço fundamental de paz à comunidade internacional?

Estamos a acompanhar o discurso que integra a moção E, por Pedro Soares.

Devemos dizer com clareza, sem mursos lamentações. Cria enorme perplexidade quando vemos dirigentes do Bloco a declararem que em matéria de guerra na Ucrânia, a posição é a mesma do governo português. Mas a posição do governo português não é a mesma da NATO, não é a do chamado eixo Euro-Atlântico. Não menos perplexidade causa a integração do Bloco numa delegação parlamentar à Ucrânia, a convite um neonazi, organizador das piores perseguições à oposição de esquerda na Ucrânia. O Bloco foi à Ucrânia fazer o quê? Comprometer-se com a posição euro-atlântica do prolongamento da guerra e da escalada militar? Foi corroborar o convite a um neonazi pra discursar no nosso Parlamento do 25 de Abril? Se não foi nada disto, não ouvimos ainda uma única palavra de demarcação e de solidariedade com a oposição ucraniana, cujos dirigentes da oposição ucraniana ou estão mortos ou estão presos. Considerar que há imperialismos ou potências que disputam a hegemonia mundial não retira os Estados Unidos e a NATO dessa equação e das responsabilidades na escalada militar neste conflito. Somos claros, neste quadro de guerra no território europeu, queremos Putin fora da Ucrânia e queremos a NATO fora da Europa. Sem dúvidas.

Um discurso de Pedro Soares agora muito concentrado na guerra na Ucrânia.

Finalmente, estamos aqui, estimados e estimadas camaradas, porque queremos lutar pelo diálogo e pela pluralidade, por um bloco com uma política de esquerda polarizadora e com compromissos claros. Sim, com linhas vermelhas claras, que não deem cobertura a uma espécie de social-democracia fora de tempo, cada vez mais liberal. Estamos aqui pra isso, como dizia o Miguel Portas, para mudar as regras do jogo, e nada menos do que isso. Viva o Bloco!

Termina assim a apresentação da moção E, uma apresentação feita pelo porta-voz desta moção, Pedro Soares.