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Carlos Moedas já foi chamado para usar da palavra. Vai ser o primeiro a abrir os discursos nestes 114 anos do 5 de Outubro.

Senhor Presidente da Assembleia da República, senhor Primeiro-Ministro, senhora Presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, senhor Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, senhores Presidentes dos Tribunais Superiores, senhoras e senhores membros do Governo, presidentes das Juntas de Freguesia, senhores presidentes dos grupos parlamentares, senhora Provedora de Justiça, senhores chefes militares, senhoras e senhores deputados nacionais e municipais, senhoras e senhores embaixadoras e embaixadores representantes do corpo diplomático, senhoras e senhores vereadores da Câmara Municipal de Lisboa, demais entidades, minhas senhoras e meus senhores. Portugueses, cumprem-se 114 anos. 114 anos desde que somos uma república. Uma república que se foi transformando e adaptando aos ventos da história, que viveu vitórias e fracassos, ordem e desordem, democracia e ditadura. Ela significou mais uma mudança das tantas que se sucederam em quase 900 anos de história. Desde aquele outro 5 de Outubro, que nos faz ser hoje portugueses, o de 1143, e que nunca podemos esquecer. Quis a sorte, ou a providência, que estes 114 anos da República se encontrassem com uma feliz coincidência, que coincidissem com os 50 anos de Abril, com o momento em que o dia inteiro e limpo cobriu esta cidade e se espalhou por todo o país. Mas estes 114 anos coincidem ainda com outro momento, com os 500 anos do nascimento de Luís de Camões, do nascimento do poeta-nação, sua consciência mais íntima, a sua expressão mais autêntica. Parece, por vezes, que este marco passou despercebido. Escapou à memória de parte da classe política, que teria o dever de o lembrar. O senhor Presidente da República bem o disse uma vez, que nunca faremos justiça a Camões. Podemos não conseguir fazer-lhe justiça, mas temos sempre algo a aprender com Camões, porque foi ele, em grande medida, que nos fez compreender quem somos. Excelências, portugueses, dizem que os grandes poetas eternizam o instante. Na nossa vida vemos correr o rio do tempo, vemos fugir os instantes, vemos mudarem-se os hábitos e as vontades. No entanto, há quem os eleve à memória que permanece. São assim os grandes poetas e assim foi Camões. Foi ele quem fez da nossa história uma grande viagem. E que mais não é a vida de todas as nações, senão uma viagem feita pelos mares da história. Nós, portugueses, temos também a nossa. É uma viagem onde há tempestade e bonança, aventura e rotina, heroísmo e cobardia, bondade e malícia. Camões colocou-nos nessa caravela que navega a história. E nessa grande viagem que é a nossa história, o pior que pode acontecer é ficarmos parados, é não termos destino, é perdermos o caminho, muitas vezes, por culpa da desorientação de quem nos deveria guiar. E sobre este perigo alertava o poeta quando cantava sobre aqueles que se desviam do lustre e do valor dos seus passados, em gostos e vaidades atolados. A sua primeira mensagem é esta: um aviso. Quantas vezes na história nos desviamos dos caminhos, porque foram preferidas vaidades pessoais e interesses partidários em vez do bem comum? Tudo isto nos desvia do caminho que devemos seguir e em que se dá a oportunidade e prioridade ao que é, muitas vezes, imediato e não se pensa no futuro. O próprio 5 de outubro de 1910 foi uma resposta contra isto, contra a vaidade de políticos que se achavam donos do país. Foi uma resposta contra o domínio dos pequenos interesses. E hoje, quando tanto se fala de bloqueios e de travar medidas essenciais para o futuro do país, devemos ser claros: o país não pode parar. O país não pode ficar refém de ansiedades pessoais ou partidárias, e é o estado do país, e não os estados de alma, que devem guiar os nossos líderes políticos. Excelências, portugueses, Camões não nos deixou só um aviso, juntou-lhe uma esperança. A esperança que nos acalenta e nos leva a alcançar novos mundos e novos limites, que nos demonstra os maiores exemplos de coragem, de heroísmo, de sacrifício. Exemplos como os nossos bombeiros, que diante de terríveis incêndios, não se deixaram vencer pelo medo, que se sagraram verdadeiros heróis e a quem tanto devemos. Um obrigado aos nossos bombeiros será sempre pouco, porque são eles exemplo do que Camões canta sobre aqueles que por obras valorosas se vão da lei da morte libertando. A esperança na possibilidade destas obras valorosas é a nossa motivação pra continuar aquela grande viagem, para não ceder à inércia que tão frequentemente nos atinge. Ceder à inércia foi o que nos aconteceu em áreas tão fundamentais como a habitação. Uma inércia política que exige agora um esforço redobrado para responder às pessoas e o que elas esperam de nós Ceder à inércia foi também o que se passou na imigração e hoje assistimos a manifestações de drama humanitário que nos envergonham a todos como país. Nós precisamos de imigração. Sim, precisamos de imigrantes, mas não podemos aceitar uma política de portas escancaradas que conduz à desordem, que dá espaço a redes criminosas, que multiplica casos de escravatura moderna. E se hoje temos esse claro problema de pessoas em situação de sem-abrigo no país, deve-se também a essa irresponsabilidade de lidar com a imigração. Esta irresponsabilidade aumenta a desconfiança na nossa sociedade e alimenta os extremismos de um lado e de outro. Por isso é que disse: precisamos de uma política de imigração que valorize, que traga dignidade a quem chega ao nosso país e que assegure que quem chega valoriza o país que acolhe. Nós queremos acolher, mas também esperamos que quem venha saiba e se queira integrar, que respeite a nossa cultura aberta, de cidade aberta, os nossos valores europeus tão profundos. E hoje posso aqui dizer que ontem resolvemos talvez uma das situações mais graves durante estes três anos de mandato. Ontem conseguimos arranjar um teto para todas as pessoas que estavam na Igreja dos Anjos, em Arroios, graças ao trabalho de tantos trabalhadores: ao senhor comandante da Polícia Municipal, à senhora presidente da Junta de Freguesia, aos serviços sociais, à higiene urbana, que ontem, até tarde, conseguiram tratar humanamente cada pessoa, dar-lhe esse espaço, dar-lhe essa dignidade de um teto, e hoje convido-vos, senhoras e senhores, a passarem em Arroios, ao lado da Igreja dos Anjos, a convite da senhora presidente da Junta. Hoje, meus amigos, temos esta oportunidade. Temos a oportunidade de atuar, de fazer, e é isso que fazemos. Hoje temos a oportunidade de fazer mais e melhor também pela segurança das pessoas. E foi também uma sensação de insegurança, de impunidade, que fez ruir a jovem república portuguesa. Temos, por isso, de levar a sério aqueles que sentem uma certa impunidade nas ruas ou uma fraca resposta do Estado. É preciso dizê-lo: não queremos um Estado omnipotente, que tudo pretende fazer, mas queremos um Estado com autoridade para fazer cumprir a lei. E hoje temos a oportunidade de devolver ao Estado essa capacidade de atuar, de lhe devolver a autoridade que nos parece, a tantos e aos olhos de tantos, muitas vezes desbaratada. Lisboa e Portugal têm um grande ativo, senão o maior: a sua segurança. E por isso é que pedi ao governo anterior mais 200 polícias municipais e também o peço a este governo. E por isso volto também a dizer, volto a dizê-lo: sim, precisamos de reforçar as competências dos nossos polícias municipais, porque mais competência da Polícia Municipal é mais segurança nas cidades. Os nossos polícias são agentes da lei, da autoridade. Devem ter a capacidade de atuar sem medos e sem condicionalismos políticos, sejam eles polícias de segurança pública ou polícias municipais em Lisboa, o que conta é que cumpram a sua função, que é apenas uma: a segurança das pessoas. Hoje temos a oportunidade de cumprir o que nos é exigido em todas estas áreas para fazer desta nova caravela embarcação segura para seguir viagem. Todas as viagens têm um destino. E Camões deu também à nossa o seu destino, e essa é a sua terceira mensagem. Sabemos que hoje a imagem da Ilha dos Amores já não se reflete nos velhos desígnios do império, de uma história de futuro ou de qualquer outro projeto quimérico. Nosso destino hoje é outro. No entanto, apesar de diferente, ele não é menos audaz. Também é hoje preciso audácia. Audácia para reter o jovem talento que nos foge, fazê-lo através da inovação, para reconstruir o Estado social sem dogmas ideológicos e com a ajuda dos municípios, para fazer uma transição energética ao lado das pessoas e não contra as pessoas, e para pôr o país a crescer depois de duas longas décadas de estagnação econômica. É isso que nós precisamos, é isso, senhor primeiro-ministro, que está a ser feito. E neste sentido, o que aponta o nosso destino de não ser uma fatalidade cairmos na cauda da Europa, mas sim, como queria Camões, sermos orgulhosamente a cabeça da Europa. Excelências, portugueses, na história da República e do país, muitos momentos houve em que caímos na rudeza de uma apagada e vil tristeza. Muitas vezes se cantou pra gente surda e endurecida. Várias vezes o barco ficou parado, sem que se soubesse para onde seguir viagem. Mas é uma constante da vida das nações. Na sua vida também se apresentam oportunidades. E agarrar estas oportunidades significa frequentemente devolver-lhe aquele ledo orgulho e geral gosto que os ânimos levanta de contínuo a ter para trabalhos ledo o rosto. Ledo o rosto é o que todos nós, portugueses, precisamos, depois de 114 anos de República e 881 anos de nação, de ânimo, de orgulho, porque não ficamos atrás de ninguém. Uma nação como a nossa não se pode nunca sentir pequena ou inferior em relação a outras. Tem que ser isso, sim, um exemplo para as outras. Foi precisamente este o propósito da República. Foi também este o objetivo de Camões, que seguíssemos caminho nesta nossa viagem com confiança, com orgulho, com audácia. Senhoras e senhores, senhor Presidente da República, portugueses, viva! Viva a República, viva sempre, sempre Portugal. Muito obrigado.

Discurso do presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, muito virado também para as questões dos dias de hoje, não só a situação política nacional e os líderes políticos que precisam evitar que o país esteja parado, mas também para um dos pontos que tem sido muito criticado Carlos Moedas nos últimos tempos: a questão da imigração e da segurança, com aquele pedido para que a Polícia Municipal de Lisboa possa ter competências mais alargadas, a deixá-lo também aqui neste discurso do 5 de Outubro