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Presidente da Câmara Municipal de Braga, João Rodrigues. É um dos jovens presidentes de câmara do país, tem 29 anos.
30.
Já fez 30?
Fiz 38 no dia em que fui eleito. Sou jovem, mas não sou assim tão jovem.
30 e?
Oito. Fiz 38 no dia das eleições.
Muito bem. Senhor Presidente, antes de mais agradeço receber-nos aqui na cidade de Braga, neste dia fantástico de sol. O que faz desta cidade uma cidade única no país?
Em primeiro lugar, muito obrigado. Eu é que agradeço, e agradeço imenso o facto de o Observador ter escolhido Braga para realizar esta cimeira. Mas de facto acho que Braga, e aqui com humildade digo, mas estas coisas têm que ser ditas da forma como elas são, é uma cidade que se vai distinguindo no país por uma série de fatores. Acho que o primeiro deles, e para mim o mais importante, tem a ver com o facto de ser uma cidade que cresceu. E cresceu de facto com números. Esta não é uma opinião subjetiva, é muito matemática e comprovável. Nós na última década fomos a cidade que mais cresceu no país. Nós voltamos a ser a cidade mais jovem do país. Nós éramos a cidade que há 10 anos éramos a 20.ª mais exportadora do país, hoje andamos entre o quarto e o terceiro lugar. Nós criámos mais de 30 mil postos de trabalho em 10 anos. E isto, de facto, traduz-se numa série de características que uma cidade vai conseguindo ter, porque essas características trabalham-se e estas qualidades, na minha opinião, essas vantagens, trabalham-se. E trabalham-se de várias formas, obviamente, com um artigo muito grande do poder local, com a sociedade civil, com as empresas, com as instituições. A Universidade do Minho tem aqui um papel importantíssimo, os centros de competência, de conhecimento. Há aqui uma espécie de um ecossistema que tem favorecido muito o crescimento de Braga, de forma relativamente distinta dos outros municípios do país.
Acha que isso se deve a quê? Há algo especial a correr no sangue dos bracarenses?
Eu não acho que os bracarenses sejam especiais por sangue. Há um sem-número de condições e de questões que acabam por condicionar, às vezes favoravelmente, outras vezes desfavoravelmente, uma determinada comunidade. Eu acho que há aqui dois ou três aspetos para mim muito importantes. Em primeiro lugar, o papel da Universidade do Minho e a forma como a cidade e a própria Universidade do Minho, e quando falo da cidade não falo só do poder público, falo do poder público, das empresas, da comunidade em geral, no fundo, como que coabitam de forma real. Não há aqui uma universidade que se implantou no território e que vai numa espécie de bolha desenvolvendo a sua atividade. Não, há, de facto, uma confluência constante, permanente. Vou dar um exemplo muito prático.
Claro.
Eu, enquanto presidente de câmara, tenho a sorte, porque também tenho do outro lado interlocutores que dão resposta a essa necessidade, tenho contactos, não digo diários, mas quase, com o reitor da Universidade do Minho, que eu não sei se é uma coisa que as pessoas têm bem noção. E isto não é um contacto de simpatia, não é para perguntarmos o que é que ficou o Braga da semana anterior. Há trabalho constante. O papel das empresas, como dizia. Nós temos uma associação empresarial, a Associação Empresarial de Braga, que tem 60 anos. Agora a Associação Empresarial do Minho, que tem cinco anos, hoje comemoramos aqui os cinco anos da Associação Empresarial do Minho. Portanto, há uma confluência, uma convergência, uma constante troca entre o poder público e a sociedade civil, que acho que tem favorecido esse crescimento.
Acha que isso se deve ao facto de estarem, por um lado, longe de Lisboa e, em segundo lugar, relativamente longe do Porto, e isso obriga a cidade a ser uma alternativa credível ao poder central e à eterna capital do Norte, que é a cidade do Porto.
Sim. Nós, com o devido respeito, eu por acaso isso não é minha tomada de posse, mas eu vou tentar me lembrar agora, tive um flashback. Nós estamos muito pouco preocupados com os títulos e com essa história da capital do Norte. A mim o que interessa são os números. E quando eu digo que Braga foi a cidade que mais cresceu na última década e que se prepara para ser a cidade que mais vai crescer na década que vem aí à frente, é que me preocupa. Preocupa-me saber que hoje o emprego é muito mais qualificado em Braga do que era há uns anos atrás. Como disse, eu tenho 38 anos e, portanto, eu não sou um jovenzinho, mas também não sou assim muito velho. Ainda me lembro dos debates que tinha há pouco mais de uma década, quando eu aí sim era jovem. Lembro-me da eterna questão que era: como é que nós fixamos os estudantes da Universidade do Minho em Braga? Porque era uma demanda, as pessoas estudavam aqui, iam para Lisboa, iam para o Porto, iam para fora do país. Agora é o contrário, ficam os da Universidade do Minho, vêm os de Lisboa, vêm os do Porto, vêm os do estrangeiro. Por quê? Porque há uma oferta qualificada de emprego que não havia antes. Na indústria, nos serviços, nós falávamos há pouco, temos aqui a Pedro Ventura, temos uma série de consultoras internacionais, que eu acho que era quase impensável há uma década nós acharmos que elas fixavam a empresa. Hoje, algumas delas têm os seus maiores escritórios cá em Braga. A própria indústria mudou muito. Hoje tivemos o administrador da Bosch, o grande homem da Bosch em Portugal, cá a dizer uma coisa que é verdade e que para mim é muito elucidativa. A Bosch, há 15 anos, há 10 atrás, era uma empresa que literalmente produzia, fazia coisas. Hoje não se fazem apenas coisas em Braga, desenvolvem-se produtos, pensam-se produtos, são em patentes. Apareceu a Universidade do Minho há uma década, mas são patentes que a Bosch registou a partir de Braga. Ora isto, além daquilo que dá ao país, daquilo que dá ao mundo, do ponto de vista mais local, das oportunidades que cria, muda completamente o paradigma, porque hoje um jovem altamente qualificado, o melhor aluno do curso de engenharia, vamos por aí, tem emprego em Braga. E tem emprego que o atrai em Braga. Isso faz muita diferença.
Faz muita diferença. Sei que adotou uma nova estratégia de desenvolvimento territorial de Braga. Assim, em traços largos, muito rapidamente, quais são os vossos objetivos, os vossos, do executivo camarário, para os próximos anos?
De forma muito rápida, até porque vou falar em números e acho que esta é a melhor forma de mostrar às pessoas o que se passa. Nós somos o único município do país que vai crescer nos próximos anos do ponto de vista urbanístico, de ter solo disponível para que a cidade se expanda. Isto mais uma vez é um facto, não é uma opinião minha. Eu fico muito contente com isso, obviamente, até trabalhei muito tempo nisso. Nós vamos passar a ter mais de 1500 hectares disponíveis em Braga para se construir. Para se construir habitação, para se receber atividades económicas e outro tipo de equipamentos.Para dar um exemplo, nós temos 122 áreas de expansão urbanística. Uma delas, nós estamos quase a fechar o procedimento urbanístico, pode receber até 20 mil pessoas, empresas, equipamentos. Eu arrisco dizer que mais de metade dos municípios do país não tem a construção só nesta, numa das 122 áreas, nós temos já contratualizado ou em vias de contratualizar com os privados. Portanto, Braga, mantendo aquilo que tem de bom, de mais, como muitas vezes se diz, das relações com a universidade, das exportações, do emprego qualificado, agora está preparada para crescer melhor e fazer com que esses números se traduzam sobretudo numa acentuada melhoria da qualidade de vida das pessoas, com esta pequena grande particularidade, parece uma conversa muito mesinha, de ter terreiros. Não é ter terreiros, é ter espaço apto a receber também indústria qualificada, a receber indústria de precisão, a receber centros de conhecimento e depois os outros add-ons que muitas vezes nos esquecemos, que são essenciais. Habitação, parques públicos, espaço público de qualidade, espaços verdes. E este aumento da cidade é o único no país. Isto não vai acontecer em mais lado nenhum.
Sim. Tem procurado inspiração em alguma cidade portuguesa ou europeia?
Sim, nós temos obviamente cá bons exemplos em Portugal e para os dois lados, do que fazer e do que não fazer. Agora, de facto, nós estamos procurando lá fora.
Arrisco dizer que há piores exemplos do que melhores exemplos.
Se olharmos para o país há 50 anos atrás, cá temos as coisas boas e o que mais há dizer, mas eu percebo o que está a dizer, inclusive em Braga cometeram-se muitos erros. Também se fizeram muitas coisas corretas. Aliás, é até engraçado, o mundo dá voltas. Às vezes os erros urbanísticos dos anos 80 são hoje vistos, obviamente do ponto de vista urbanístico, como erros, mas como se calhar foram as soluções para determinados problemas que hoje em dia deixamos de ter. E repare que eu até estou a falar de uma gestão que não era do meu partido. A história às vezes vai dando razão e tirando conforme o tempo. Mas há exemplos lá fora para os quais estamos a olhar, obviamente. Até porque uma cidade não se faz só de construção por construção. Nós estamos a ter muito cuidado com a estratégia de desenvolvimento cultural da cidade, a educação. Repare que nós somos a cidade, como disse há pouco, mais jovem do país outra vez. Nós vamos ser a única cidade que está a pensar em construir mais escolas neste momento. E quando pensamos em construir mais escolas, é onde é que as vamos construir, que tipo de escolas, com que tipo de modelo. Temos grandes desafios pela frente.
E por falar em desafios, qual é o maior desafio que como autarca tem nesta altura, João Rodrigues, aqui em Braga?
Podia entrar e divagar sobre a burocracia que o poder público tem pela frente, da constante suspeição que nos levam a preencher mil papéis para comprar uma caneta. Há mil coisas. Enquanto cidade, é crescer bem. Eu não tenho dúvidas que Braga vai crescer, porque as ferramentas já estão disponibilizadas às pessoas. É crescer bem, é fazer Braga uma cidade melhor, porque o nosso grande desígnio é fazer Braga a melhor cidade para se viver no país.
Nós estamos num concelho que tem uma cidade e também tem zonas rurais, mas como é que se faz esse equilíbrio, João Rodrigues?
Acho que essa é uma das nossas vantagens. Nós conseguimos estar nalgumas zonas de Braga e podíamos estar em Tras os Montes, ou no Alto Minho, e conseguimos estar no Instituto de Nanotecnologia, podíamos estar na Netta, no Incendeia, ou em Paris, ou em Londres. Mas acho que essa multiplicidade de vivências permite que, por exemplo, a pessoa que trabalha no INL e portanto profissionalmente consegue estar como se estivesse na Califórnia, consiga viver num sítio a cinco minutos do INL, ou a 10 minutos, como se vivesse no Alto Minho, no meio dos campos verdes antes. E portanto, eu acho que há aqui uma multiplicidade de características que esta cidade tem que de facto a distingue e que permite este tipo de coisas que nos favorecem, parece-me.
Muito bem. João Rodrigues, agradeço-lhe. Muito obrigado.
Muito obrigado. O prazer é todo meu.
Presidente da Câmara Municipal de Braga, o anfitrião desta cimeira da indústria que decorre aqui no Teatro Circo em Braga. Já aqui regressaremos, Nelson. Até já.