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Daniela Nunes, doutoranda do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica. Obrigada por estar connosco. Estuda a fundo a Rússia. Como ouvíamos o major-general Arnaut Moreira dizer, Vladimir Putin dormirá hoje mais descansado, Daniela Nunes.

Olá, boa tarde e muito obrigada pelo vosso convite para esta emissão especial, que me parece muito importante e muito enriquecedora. Eu começava por dizer, em primeiro lugar, que mais uma vez estamos a lidar, e como habitualmente no que respeita aos assuntos da Rússia, com uma situação algo incerta e que deixa no ar muitas dúvidas. Mas vamos assumir que Prigozhin morreu efetivamente neste acidente e até mesmo chamar-lhe acidente pode ser falacioso, mas dentro de alguns dias ou até semanas poderemos ter uma confirmação mais exata sobre o caráter acidental do que se passou. Eu destacaria aqui várias possibilidades e vários cenários. Em primeiro lugar, o que a morte de Prigozhin significará é, obviamente, um vazio de poder dentro do grupo Wagner. Ele não era apenas o líder do grupo, ele era a figura, o rosto, a alma e a resistência daquele grupo e, portanto, o que se perde é justamente esta alma e este rosto. Quem o substituirá nesta qualidade? Não sabemos, vamos ver. Até porque, pelos vistos, com ele dentro do avião, a confirmar-se, estaria possivelmente o número dois ou o suposto número dois desta liderança deste grupo. Por outro lado, quem leva a melhor na medição de forças, no contexto de uma certa hostilidade que nós já conhecíamos entre o grupo Wagner e o Ministério da Defesa russo, é claramente o senhor Shoigu. Com isto, eu não estou a dizer que o ministro da Defesa russo está propriamente a deitar foguetes ao saber da notícia da queda deste avião e da possível morte de Prigozhin, mas obviamente está-lhe um obstáculo da frente, porque sabemos perfeitamente que Prigozhin estava, como vimos em junho passado, disposto a fazer frente às forças oficiais russas e às metodologias com as quais ele não concordava no contexto muito específico deste esforço de guerra. Portanto, aqui as forças oficiais russas acabam, de alguma maneira, por ganhar uma espécie de carta branca ou então não. Ou então vamos ver o que vai ser a reação de Putin a tudo isto, que ainda é desconhecida, e em última análise, vamos ver se Prigozhin efetivamente morreu ou não, se anda por aí escondido e se tudo isto não passa de uma distração para virar a atenção do Ocidente para um foco pela Rússia premeditado. Portanto, todas as incógnitas do costume. Acrescentaria só ainda que, a propósito destas incógnitas, e que se efetivamente Prigozhin morreu na sequência da queda deste avião, então também podemos perfeitamente estar perante mais uma das vítimas do presidente Putin. Umas são envenenadas, outras são atiradas da varanda, e este se calhar explodiu num avião particular. Não sabemos. Seja como for, só para terminar, Putin talvez não vá atribuir a tudo isto uma importância extrema, na medida em que ele não quer fazer parecer que esta é mais uma razão para o Ocidente encontrar na Rússia alguma nova fragilidade. Certamente ele lamentará a morte de Prigozhin, se chegar mesmo a confirmá-la, mas não acredito que faça dela uma espécie de morte moral da própria Rússia ou, por outras palavras, não acredito que ele venha a abordar o assunto como se se tratasse de uma fissura aberta na concentração dos esforços russos nesta guerra. Isto é só a minha visão, é só a minha opinião. Ele irá certamente querer transmitir uma imagem de que "cá continuamos e a guerra não vai parar, e isto não é nenhuma abertura de nenhuma fissura nos nossos esforços". Como, aliás, ele está a fazer, enquanto está tranquilamente a distribuir condecorações em Moscovo. Isso também é bastante revelador no que diz respeito à sua atitude sobre tudo isto