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Nos próximos minutos com António Brochado Correia, presidente da PwC Portugal, empresa que presta serviços de auditoria, consultoria, fiscalidade e também legal. António Brochado Correia, bem-vindo. Foi keynote speaker esta manhã aqui na Cimeira da Indústria, com o tema "Os desafios dos gestores no mundo atual". Que desafios são esses que têm os gestores hoje pela frente?

São muitos desafios.

Desafios que são sinônimo de dor de cabeça?

Isso serão sempre, mas também não é nada que seja novo para os gestores. Eu acho que o mundo pode ser diferente, pode haver mais ou menos desafios, ou pelo menos mais complexos, mais incertos, mais instáveis, mas os gestores e os líderes empresariais sempre tiveram desafios ao longo da vida. Quem sou eu para-

Decorrente da atividade, que é sempre incerta, a atividade económica.

Sim, a atividade empresarial é incerta, a atividade de um país é incerta. Provavelmente nos últimos cinco a 10 anos, trouxe uma nova complexidade que o mundo não assistia há muitos anos, que foi a guerra e estas tensões geopolíticas. Esse é mais um desafio que os gestores têm que ter em conta naquilo que é a gestão das suas empresas. E os desafios que se colocam hoje aos gestores começam por esse, que é o geopolítico. É um desafio que os gestores têm muita dificuldade em controlar, não conseguem de todo controlá-lo, têm que fazer o possível para estar bem preparados ou o necessário para estar bem preparados.

Para aguentar os choques e para contornar os problemas.

Sem dúvida. Esse é um desafio, como eu dizia há bocadinho na apresentação que fiz, o geopolítico, é o que a gente controla menos, mas devemos estar atentos a ele e ter uma preparação naquilo que é tornar as empresas mais resilientes e mais bem preparadas para esses desafios futuros. Mas depois há aqueles que a gente tem um maior controle sobre. Desde logo, aquilo que é o talento que nós podemos ter nas nossas organizações. E há dados que apontam para que os gestores consideram hoje ter uma escassez de talento. Pode parecer antagônico, sabendo nós que estamos em pleno emprego, mas não, a questão não é número de pessoas, mas é na qualidade e naquilo que são as competências que nós precisamos. É óbvio que Portugal foi assistindo à entrada de muita gente nos últimos anos, e bem, porque havia setores que precisavam e precisam dessa mão de obra, a construção, o turismo, e por diante.

E conseguimos incorporar.

Conseguimos incorporar essas pessoas. E bem, são pessoas que também acrescentam ao país naquilo que é produção que o país precisa.

A questão é que não é mão de obra especializada, nem qualificada.

Não é mão de obra nas competências que os gestores hoje em dia precisam para ler melhor o mundo que temos, que está hoje subordinado muito a temas ligados à tecnologia, está ligado às alterações climáticas, mas também está ligado àquilo que é uma capacidade necessária de maior comunicação, de maior diálogo, de maior empatia, de maior relacionamento. Hoje o diálogo nas organizações, nas instituições, é visto como determinante àquilo que é o sucesso das empresas. E estas competências são menos treináveis. O senhor Primeiro-Ministro falava de manhã, e eu referi isso, que era preciso formar as pessoas e o governo estaria a apostar muito, ou está a apostar, naquilo que é a formação desde o início de vida de um bebê que nasce e que vai para o infantário. Pois eu acho isso determinante. Eu disse, e de facto é verdade, há vários estudos que comprovam que o investimento feito nas idades muito tenras, quando as crianças estão a começar a dar os primeiros passos, são determinantes para moldar aquilo que é a personalidade dessa pessoa. A seguir, eles podem ser bons técnicos, mas provavelmente poderão nunca ser boas pessoas, poderão não ser próximos, poderão não atender à diversidade intelectual, humana, cultural, que nós vamos tendo. E esse também será um determinante.

Serão seguramente mais livres também, não é?

Sem dúvida, porque o pior que pode acontecer a qualquer um de nós é não ter esperança. E a esperança vem muito, nós só somos livres quando temos esperança. É olhar para o mundo e continuar a ver muitas outras pessoas e muitos caminhos.

Passa por aí o choque de gestão e cultura empresarial em Portugal, que sugeriu que deveria haver em Portugal. Quem é que pode ser protagonista desse choque, António Brochado Correia?

Eu acho que eu poderei ser na firma que sirvo. Poderei ser uma das pessoas que posso fazer isso.

Enquanto presidente da PwC.

Claro, naquilo que é o meu pequeno mundo, que eu posso ajudar a gerir, tem que ter essa capacidade de fazer. Aos outros níveis-

E está a conseguir ou não?

Sim, eu acho que melhor do que eu, os colaboradores poderão avaliar, mas eu ainda há dias dei uma entrevista a um outro jornal, em que dizia que a firma, nos últimos seis anos, mais do duplicou, quer a sua força de trabalho, quer as suas receitas. Mas isto foi tudo à base daquilo que é o talento que a gente conseguiu atrair, recrutar para as nossas empresas.

Já agora deixa-me perguntar, na PwC Portugal, a taxa de rotatividade é elevada ou não?

Já foi mais. Agora é menos. Andará entre 15% e 16%. Já foi 22%, já foi 25%, mas isto tem muito a ver com a atividade que a firma foi tendo e quão satisfeitos estes colaboradores estão na firma. Para ter uma ideia, há seis anos a firma captava no mercado cerca de 4000 currículos. No ano passado, captou 33000 currículos, o que significa uma grande atração daquilo que é a firma. E esta atração vem de dentro para fora, ou seja, somos os que lá estãoQue propagam aquilo que é a nossa forma de estar, a nossa forma de trabalhar. E aí não há grandes segredos. Eu acho que todos nós, se formos para os painéis onde estivemos de manhã e onde vamos estar esta tarde, todos nós teremos as mesmas receitas. Que temos que preservar o equilíbrio pessoal, o trabalho, temos que ser generosos na remuneração e nos prémios que atribuímos aos nossos colaboradores. Para ter uma ideia, nós temos vindo a distribuir metade daquilo que é o resultado que a firma tem aos colaboradores, o que é extraordinariamente importante. Os colaboradores querem hoje uma vida em que eles tenham mais propósito, que tenham mais equilíbrio família e trabalho, mas também querem ser bem remunerados. Isso faz parte daquilo que qualquer colaborador quer.

As pessoas abrem as redes sociais e veem a vida dos outros, quase instantaneamente.

Conhecem.

"Eu também quero viver assim".

É fundamental percebermos que eles hoje falam todos uns com os outros e tudo se passa muito rápido.

A PwC Portugal, como eu dizia no início, é uma empresa que presta serviços de auditoria, consultoria e fiscalidade e também legal, portanto conhece bem o setor da indústria. Portugal pode ter mais indústria, tem capital, tem recursos humanos e tem meios para ter mais indústria?

Muito mais. Aliás, já tivemos. Ou seja, o peso da indústria em Portugal já foi superior do que é hoje. Aliás, como mostrava de manhã, nós víamos uma trajetória descendente daquilo que é a importância ou relevância da indústria no nosso Produto Interno Bruto, que era há 25 anos cerca de 20% e foi diminuindo. Ora, Portugal não é o único país onde isso aconteceu. A maior parte dos países europeus, e em particular nos Estados Unidos, o Reino Unido tem hoje um valor acrescentado bruto da indústria sobre o PIB inferior ao nosso, os Estados Unidos inferior ao nosso, cerca de 10%. O nosso ainda anda ali nos 11, 12, 13%. A Grécia como é 30%, a Irlanda é mais de 30%. A Alemanha são 20%. Os países mais resilientes, que mais riqueza conseguem gerar, têm na indústria uma enorme capacidade interna daquilo que é a afetação do talento, a afetação da inovação, o trabalho com a academia, o trabalho com os centros de pesquisa. E isto é o que nós precisamos de fazer. Nós temos talento capaz de o fazer. O que nós não temos conseguido é colaborar uns com os outros. Nos últimos 20 anos fomos muito individualistas.

E acha que isso acontece porquê?

Porque é normal o ser humano ser individualista.

Mas os outros países também têm seres humanos como nós. Também hão de ser individualistas como nós.

Provavelmente aprenderam nas tais idades mais tenras a ser melhores solos, a perceber que o mundo sem os outros não consegue viver. Nós sem os outros não aprendíamos a falar, nem a andar, nem a ver.

São as velhas quintinhas portuguesas. Passa por aí um pouco também a razão do nosso insucesso.

Pode acontecer. Mas isso também é bom. Repare, acho que é bom que as pessoas tenham essa dupla capacidade. Isso é o melhor da vida. Aliás, Harvard, que faz um estudo há muitos anos sobre a felicidade, aponta que a causa principal são as relações com os outros. É a relação que nós podemos ter no nosso trabalho, com os nossos amigos, com a nossa família. Isso é determinante. Agora, o que nós precisamos de perceber é que a proximidade, o diálogo e a relação com os outros, todos nós ganhamos. Nós não somos donos da verdade em nada. Precisamos de uma diversidade intelectual, precisamos de perceber o que pensam os outros e é através deste conhecimento múltiplo de várias valências que nós podemos construir melhor empresa, microempresa, grande empresa ou então o país e as instituições que temos. Eu tenho lutado muito ao longo dos últimos anos para poder dinamizar muito a cultura com as empresas, as artes com as empresas. É determinante. Compreenderemos melhor o mundo e aquilo que somos, se o fizermos com maior assiduidade.

António Brochado Correia, foi um gosto conversar consigo. Muito obrigado.

O gosto foi meu. Obrigada.

Muito obrigado António Brochado Correia, presidente da PwC Portugal. Daqui a uns minutos vamos olhar para o futuro e para as tendências que podem vir a marcar a indústria. Até já.