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Boa tarde, Nuno. Estamos em direto a acompanhar este 31º Congresso do CDS em Viseu, como descrevias. Nesta altura está ainda a discursar Manuel Monteiro, um discurso que já vai longo, já leva alguns minutos, em que já destacou que a AD só ganhou as eleições porque o CDS estava ao lado do PSD. Foi um dos momentos mais aplaudidos deste discurso de Manuel Monteiro. Já vamos detalhar mais à frente o que sai deste discurso, porque neste momento temos a oportunidade de conversar com João Almeida, deputado do CDS. Muito boa tarde. Obrigado por estar connosco. Comigo nesta entrevista vai estar também Miguel Santos Carapotoso, editor adjunto de política do Observador. Durante este congresso, tivemos já durante esta tarde, um vídeo de Paulo Portas a olhar para o partido e a exigir competência para este CDS, para este futuro do CDS. O que tira destas palavras, desta exigência quase de competência? Li aqui a necessidade de não desbaratar este regresso ou o pedido de fazer um contraste face a outras direitas, como por exemplo o Chega.
Boa tarde, muitos demais. Miguel e ao auditório da Rádio Observador, dizer-vos que acho que esta exigência é uma exigência que tem a ver com a responsabilidade do momento. Olhando para o percurso do CDS, quer aquilo que foi o CDS antes de ter ficado fora do Parlamento e com ciclos de governação em que o facto de ter exercido bem essas funções fez com que fosse normalmente considerado um partido de quadros e que aquilo que melhor podia dar ao país muitas vezes era exatamente ter pessoas preparadas para exercerem a responsabilidade quando tivessem essa oportunidade. O facto de agora o CDS voltar ao governo depois de ter estado fora do Parlamento é exatamente, ou como interpreto as palavras de Paulo Portas, é recuperar esse capital de responsabilidade. Eu acrescentaria à responsabilidade, à competência, responsabilidade e de competência, para que aquilo que foi reconhecido ao CDS no passado possa ser agora renovado num contexto indiscutivelmente que é diferente, em que a concorrência é maior, em que há mais partidos a partilhar o mesmo espaço político do CDS e que claramente essa marca distintiva do CDS é ainda mais relevante nesse contexto de vários partidos que disputam o eleitorado à direita.
Mas fala também da necessidade de procurar cérebros, de procurar pessoas que se queiram juntar ao CDS. O CDS como está agora não tem competência suficiente ainda para essa exigência imposta por Paulo Portas?
Não, eu acho que tem mesmo. Eu interpretei as palavras de Paulo Portas no sentido de uma renovação contínua, que ele próprio quando foi líder, e sabemos, hoje em dia grande parte daqueles que são identificados como os principais quadros do CDS apareceram ou tiveram protagonismo durante as lideranças de Paulo Portas. Portanto, eu acho que ele está a partilhar um pouco daquilo que foi a experiência dele. Sabe muito bem que nestes ciclos, são ciclos importantes para aparecerem novas pessoas e para o CDS demonstrar que renovou essa capacidade e que, portanto, não só mantém aquilo que no passado já tinha dado ao país, mas que consegue renovar isso mesmo num contexto de concorrência com outras forças partidárias a disputar o mesmo espaço.
Ouvimos muitas vozes a defenderem, inclusivamente Nuno Melo, a defenderem que o CDS não podia perder autonomia, não podia perder a identidade. A pergunta é se não corre efetivamente esse risco. Ou seja, o CDS está numa posição mais fragilizada, naturalmente. Agora entrou numa coligação de governo. Não correrá o risco de perder a marca identitária do partido?
Miguel, o risco corre-se sempre. Qualquer partido menor numa coligação, em Portugal ou em qualquer outro país, corre esse risco. Sabemos isso analisando aquilo que se passa, que se passou em Portugal noutros momentos e que se passa noutros países. Obviamente que um partido mais pequeno numa coligação a exercer funções de governo corre esse risco. Cabe-nos a nós, a quem está no governo, a quem está no Parlamento e a quem está no partido, manter essa autonomia e essa identidade e afirmá-la para que obviamente não se dilua o papel do CDS e que não seja efêmera esta participação no governo, que se dilua numa AD e que a AD seja, como disseram várias pessoas também no Congresso, a soma de dois partidos que têm dimensões diferentes hoje em dia, se calar, mais significativa essa diferença do que algum dia foi no passado, mas que continua a ser essencial, como também foi dito, para que a AD ganhe eleições e tenha também esta capacidade de governação, o papel do CDS quantitativo e qualitativo.
Manuel Monteiro dizia ali há instantes que o PSD não se deve esquecer que isto é uma coligação, é um governo de coligação com dois partidos e não um governo de um só partido. Há esse risco de o PSD olhar para o CDS dessa forma?
Não, mas o Manuel Monteiro também disse que o CDS também não se esquecia da sua circunstância e do facto do PSD ter aceito fazer uma coligação com o CDS numa altura em que o CDS estava num momento difícil. E, portanto, o que há que haver aqui é uma relação leal entre dois partidos, cada um com a sua autonomia, que têm hoje em dia uma dimensão bastante diferente um do outro, mas que têm um histórico de governação do país, das regiões autónomas, das principais autarquias do país, que não pode ser desbaratado. E mesmo esta relação de forças já foi muito diferente em circunstâncias diferentes. Eu lembro, por exemplo, não há muito tempo, o que aconteceu para a Câmara de Lisboa, em que o CDS ficou à frente do PSD numas eleições para a Câmara de Lisboa e, a seguir, recuou em termos eleitorais. Os ciclos políticos são assim, esta dinâmica é normal. Um partido com 50 anos tem que ter a frieza de perceber que isto é mesmo assim. E, portanto, o que não pode-
O CDS tem agora de aproveitar muito bem este ciclo político para capitalizar ao máximo e para tentar crescer.
Com certeza, e não só no âmbito nacional. Olhando para o calendário eleitoral, o CDS tem, por exemplo, o próximo desafio eleitoral é na Madeira, onde vai sozinho. Também às vezes diz-se assim: "Ah, mas o CDS agora não vai sozinho a eleições". Olhe, vai já nas próximas, na Madeira. E, portanto, isso é importante. Vai ser muito importante também o papel do CDS nas eleições autárquicas, onde eu tenho muita curiosidade para saber, nesta reorganização partidária à direita do PS, o que é que isso vai querer dizer em termos autárquicos. Porque o CDS tem a vantagem de governar seis câmaras sozinho e mais de 20 em coligação com o PSD. Ou seja, aquilo que foi uma certa evolução ao nível nacional e do Parlamento nas duas últimas eleições e que foi desfavorável ao CDS, pode claramente no ciclo autárquico ser favorável ao CDS em comparação com outros partidos que hoje existem à direita. E, portanto, o que temos é de estar preparados para isso e termos essa capacidade. Acho que uma coisa que se viu também neste Congresso e que é importante é que o CDS não perdeu a sua expressão nacional. E vê-se muito bem neste Congresso, mais uma vez qualitativa e quantitativamente, e isso tem muito a ver com a razão de ser de nós termos resistido durante este período, apesar de não estarmos no Parlamento É que mesmo não estando no Parlamento e perdendo exposição mediática, que perdemos muito nos últimos dois anos, no terreno continua a existir CDS. E, portanto, quando foi preciso, essa força estava lá, como se vê neste congresso, e isso será especialmente visível em eleições autárquicas. Portanto, tenho essa expectativa.
Manuel Monteiro dizia também que o CDS devia ser o partido da ordem e da segurança, deveria afirmar-se como tal. Pergunto-lhe se concorda, se esse é o caminho que deve seguir.
Má léria que o partido que aceitou responsabilidades no governo, na área da defesa nacional e da administração interna, não se assumisse como um partido de ordem e de segurança, que sempre foi.
E aqui sentava eu. Manuel Monteiro também disse que o CDS não deve ter vergonha de defender os seus valores. E voltamos ao início da nossa entrevista. Como é que um partido que está na situação em que está, naturalmente de uma coligação de onde partiu ou o ponto de partida era mais frágil, como é que o CDS afirma determinadas bandeiras neste contexto, mais uma vez, para não perder a sua identidade?
Da mesma maneira que fez-
E posso-lhe perguntar pelo exemplo mais concreto da questão do aborto, por exemplo.
A questão do aborto não está na agenda política neste momento. O que diz o Manuel Monteiro é não abdicar em termos de princípios, não diz para se pôr na agenda política e, portanto, são coisas diferentes. O que nós temos de fazer, e faloemos sempre, tal como fizemos no ciclo político de 2002 e no ciclo político de 2011, é não abdicar daquilo que o CDS pode dar a uma governação do PSD e do CDS em conjunto, por exemplo, em termos de ambição nalgumas áreas, em matéria fiscal, eu acho que com o curso da legislatura isso vai ser possível e mais visível. Também não fazia sentido, acho que isto é evidente, não fazia sentido que um mês depois de ter sido eleita uma nova composição parlamentar do CDS voltar ao governo, o CDS se pôr aqui em bicos de pés a dizer que acha que deve ser mais assim ou mais assado. Agora, eu lembro-me, eu próprio tive essa experiência.
O grupo parlamentar do CDS pode avançar com medidas que não sejam programa. A questão do aborto é um ponto ideal que vai avançar.
Ainda hoje aqui anunciámos uma que é muito característica daquele que foi o papel do CDS no passado, que é a capacidade fiscalizadora do Parlamento. Nós fomos também sempre reconhecidos como um partido que tinha deputados que eram implacáveis no escrutínio das responsabilidades das entidades públicas. Ainda hoje aqui anunciámos que vamos chamar o ex-ministro Fernando Medina, porque numa bandeira do CDS, que são os idosos, os pensionistas, e que obviamente sofreu do ponto de vista de bandeira do CDS durante a governação da Troika, pela necessidade de executar o memorando e ter de cortar, mas que o CDS não perdeu essa convicção de que a estabilidade da Segurança Social é fundamental, a reforma da Segurança Social é fundamental para que os idosos tenham estabilidade também nas suas vidas e não vejam postas em causa as suas pensões. E obviamente que esta operação, que foi uma operação cosmética, é profundamente irresponsável a esse nível, porque põe todo o risco do mesmo lado. Quer dizer, nós estamos a pôr no mesmo sítio o risco da dívida pública e o risco da estabilidade da Segurança Social. É uma operação que do ponto de vista financeiro não faz qualquer sentido. E se há coisa que o CDS no passado fez muitas vezes no Parlamento, por exemplo, nas comissões de inquérito do sistema financeiro, mas também nestas áreas da gestão dos recursos públicos e da gestão daquele que é o dinheiro das poupanças dos portugueses, de conseguir fazer esse escrutínio. E aí vou ser muito sincero convosco. Eu não vi durante estes dois anos ninguém substituir o CDS nesse papel. E isso tem muito a ver com a experiência que o CDS tem de 50 anos de regime parlamentar, de conhecer muito bem a dinâmica parlamentar, de conhecer muito bem os mecanismos que podem ser usados para fazer essa fiscalização. Ainda agora regressámos e já estamos a fazer.
Mas falava da questão da ambição fiscal que o CDS tem, da ambição de reduzir a carga fiscal. Pergunto-lhe muito concretamente sobre alterações aos escalões de IRS. É de esperar que ao longo da legislatura possam surgir mais medidas nesse sentido?
Eu percebo perfeitamente a pergunta, agora não vou dar aqui um lead de estar a dizer que o CDS quer mais redução ou menos redução. Não é dessa forma que a autonomia do CDS deve ser afirmada, numa lógica de confronto e de desafio ao PSD. Nós sabemos perfeitamente o compromisso que temos, seremos leais, e isso também é uma questão muito importante para o CDS. O CDS é um partido confiável e leal, e quem votou na AD, o Manuel Monteiro dizia isso há pouco também, há muita gente que votou na AD por ser uma AD, por não ser só o PSD mais o CDS, tem muito a ver com isso, com essa capacidade das pessoas saberem que dali sairá uma governação estável.
Também acho que houve pessoas que não votariam no PSD, mas que votaram por estar coligado com o CDS.
Não, acho que há dos dois e se calhar pessoas que se o CDS estivesse sozinho, não votavam no CDS e que na AD votaram. Acho que a AD tem uma dinâmica própria. Senti isso, eu estava afastado da política há dois anos, não tinha atividade política, participei na campanha da AD, senti isso na campanha da AD. Há uma dinâmica da AD que soma. Isso já tinha acontecido, por exemplo, numa altura muito mais difícil em 2015, com a campanha da PAF. O governo que governou durante a altura da Troika chega ao fim da governação exausto, a verdade era essa, e a campanha da PAF teve uma dinâmica que parece que inverteu completamente essa lógica. E a meio da campanha parecia o Partido Socialista é que estava cansado e a AD estava com uma dinâmica de vitória que acabou por ganhar.
A AD é mais confortável, ou seja, esta parceria Montenegro, Nuno Melo, é mais confortável do que a parceria Pedro Passos Coelho, Paulo Portas?
É diferente. A campanha PAF, Pedro Passos Coelho, Paulo Portas, foi uma campanha que também correu muito bem e que os dois, em campanha eleitoral, funcionaram muito bem. Eu não consigo dizer se funcionaram melhor ou pior. Acho que foram duas campanhas que mostram muito bem essa dinâmica. E chamo a atenção para outro exemplo recente em que isso aconteceu e era completamente inesperado que acontecesse, que foi a Câmara de Lisboa Quando Carlos Moedas apresenta a candidatura e apresenta em AD, foram colocadas todas essas questões: por que AD? Por que o CDS? Ainda por cima, o CDS sem Iniciativa Liberal e sem Chega. Medina vai se recandidatar, é um candidato forte, isto é uma candidatura pra perder, não foi, ganhou.
Manuel Monteiro defendeu há pouco, a portas do ataque de Pedro Passos Coelho, na entrevista ao Observador, disse: "Lealdade é característica de todos que representaram o CDS no governo". Estas foram as palavras de Manuel Monteiro.
Não exatamente nesse contexto, mas eu percebo a associação.
Queria saber a sua opinião sobre essa entrevista e sobre aquilo que foram as palavras de Pedro Passos Coelho.
A minha opinião sobre a entrevista é que quem está neste momento com responsabilidades, seja na Assembleia, seja no governo, deve olhar pra frente. É o meu caso, estou no Parlamento. Sinceramente, acho muito mais interessante discutir aquilo que vamos fazer nos próximos quatro anos, do que aquilo que fizemos naqueles. Dito isto, tive muito orgulho em fazer parte daquele governo. O PSD e o CDS chegaram ao fim daquela governação cumprindo aquela que era a principal função daquele governo, que era retirar Portugal da circunstância de estar dependente de ajuda externa. Esse governo teve momentos de tensão, como era impossível que não tivesse. O que eu ouvi a Pedro Passos Coelho foi dizer que a troika, em determinada altura, desconfiou de Paulo Portas. Vou lhe dizer com toda a abertura de espírito, e é uma opinião pessoal, se desconfiou, ainda bem. Ainda bem que Paulo Portas, naquela altura, foi exigente e em nome de Portugal e dos portugueses, não se limitou a assinar tudo o que a troika nos trazia. E não estou a dizer com isto que mais alguém se limitou a assinar. Estou a dizer aquilo que sei, porque eu próprio no Parlamento o fiz também. Lembro-me de um orçamento em que apresentei uma declaração de voto explicando que só fazia sentido votar aquele orçamento, porque era a única maneira de nós cumprirmos com as instituições, mas que achava que aquelas não eram as melhores opções. Essa foi uma maneira de afirmar, na altura, a autonomia do CDS. De facto, houve alturas durante aquela governação em que o Paulo Portas, o CDS, achavam que as coisas podiam ter sido de outra maneira, mas isso nunca nos desviou do essencial, que era exatamente chegar ao fim.
Houve a questão da demissão.
E o retorno atrás, vamos então à entrevista, como disse o doutor Passos Coelho, o principal prejudicado com esse momento foi o próprio Paulo Portas, e que se disponibilizou a voltar atrás em nome de cumprir essa missão, que era retirar Portugal daquela situação. Agora, eu acho que isso, hoje em dia, diz pouco aos portugueses. Houve oito anos, depois disso, de governação socialista. Portugal está na cauda da Europa em termos de rendimento per capita. A evolução demográfica agravou-se substancialmente. Fiscalmente, somos dos países menos competitivos. Temos um em cada quatro jovens a emigrar. E vamos estar a discutir isso? Já lhes dei a minha opinião, mas não acho que seja o essencial.
É inevitável falarmos sobre o Chega, tem 50 deputados. Manuel Monteiro usou aquela imagem muito conhecida de à direita do CDS havia uma parede, a parede caiu ou o muro caiu.
Não há.
Como é que o CDS se relaciona com o Chega? Relaciona no sentido competitivo do termo e se não há algumas vozes no CDS que vão defendendo que o partido caminhe para um perfil mais conservador do que é a linha oficial, se quiser.
Eu sobre isso, e digo já sobre o Chega e sobre a Iniciativa Liberal, porque funciona para os dois. Eu tinha muita curiosidade quando soube que voltaria ao Parlamento, de perceber uma coisa que pra mim, durante estes dois anos, era uma percepção que tinha, mas obviamente é diferente estar lá. Se o facto de existir um grupo parlamentar com dimensão, eu tinha lá estado numa altura em que o Chega e a Iniciativa Liberal só tinham um deputado cada um, é completamente diferente ter um grupo parlamentar, se existindo um grupo parlamentar do Chega e da Iniciativa Liberal, se sobrepunha a um papel que o CDS teve no Parlamento no passado e, portanto, se neste momento havia ali uma sobreposição. Sinceramente, acho que não. Acho que o Chega tem obviamente uma agenda que é, do ponto de vista do pensamento da direita, conservadora.
E essa discussão não está a existir no CDS. Temos ouvido algumas pessoas que sobem ao palco a defenderem, por exemplo, que o CDS não pode ter vergonha de ser contra o aborto, por exemplo.
Eu não sei se o Chega é contra o aborto, porque essa é uma coisa que é interessante também, é perguntar, porque eu vejo o Chega muitas vezes fugir a essas questões. Tem pessoas que são muito afirmativas nessa matéria, mas do ponto de vista do discurso e não estando neste momento o tema em cima da mesa, também-
Vou dar-lhe exemplos, pra não contaminarmos a entrevista. O CDS deve ter um discurso mais securitário, por exemplo. Não existe essa tensão dentro do CDS?
Não, eu acho que o CDS deve ter um discurso mais eficaz relativamente à segurança interna e está muito mais preparado pra isso do que outros partidos que não tiveram a experiência que o CDS já teve, por exemplo, de ter três ex-secretários de Estado da Administração Interna e um quarto agora em funções. E, portanto, há todo um percurso do CDS de conhecimento dos assuntos, de lidar, por exemplo, com a questão da imigração e de saber muito bem o que é que neste momento deve ser feito pra reverter uma reforma que foi muito mal executada pelo PS com a extinção do SEF e perceber como é que vamos conseguir algo que é essencial Há muita gente em Portugal, neste momento, que tem autorização de residência e que não consegue agendar a renovação dessa autorização de residência. É preciso perceber como é que isso funciona pra dar estabilidade a quem cá está legalmente, tem direito a permanecer legalmente e que deve ver renovada a sua permanência. Para distinguir, Miguel, daqueles que entram ou que estão de forma irregular e que o PS, irresponsavelmente, também tentou regularizar sem avaliar se essas pessoas tinham ou não condições pra cá estar. Isso não é ser mais ou menos securitário, é conhecer os problemas e ter soluções pra eles. E aí eu acho que o CDS está muito mais preparado e pode começar a mostrá-lo com alguma rapidez.
E não corre o risco, insisto, de se transformar num Chega-B?
Não, isso seria sempre, até por razão histórica, o B vem sempre depois do A. E, portanto, se o CDS já existia, seria o Chega que seria um CDS-B e nunca o CDS que seria um Chega-B.
Temos também de perguntar pelo orçamento do Estado. Tivemos aqui há pouco o Paulo Núncio. Já entrevistamos recentemente o Rui Soares, líder parlamentar do PSD, e continuam ambos a defender ou a sugerir que o Partido Socialista, apesar de todas as declarações de Pedro Nuno Santos em sentido contrário, que o Partido Socialista, no orçamento do Estado, se vai eventualmente abster, permitindo que o orçamento passe. Pergunto-lhe se acredita nisso, se não é um ato de fé, e se falhando o Partido Socialista, e admitindo que o Chega também não votará a favor, se é possível governar em duodécimos.
Não, isso possível, claro que é, até porque hoje em dia não se governa em duodécimos, a lei mudou e hoje em dia governa-se com orçamento transposto, o que, em tempo de crescimento econômico, dá uma margem muito grande pra conseguir executar uma governação. Não estou com isto a defender que se deva ter essa estratégia, mas temos de ser claros relativamente a isso. Hoje em dia, não seria um constrangimento grande governar com orçamento transposto de um ano pra o outro e com a flexibilidade que hoje em dia isso permite. Tínhamos que avaliar a compatibilização disso com as novas regras europeias, que estão neste momento até a ser revistas, e portanto, essa avaliação nem se pode fazer ainda neste momento. O que eu acho relativamente ao orçamento e a toda a política é que estabilizada a configuração do governo e os partidos que participam no governo, o Parlamento é um espaço diferente. O Parlamento é o espaço em que estão todos os partidos que elegeram deputados, e aí a flexibilidade tem que ser total. E, portanto, discutir com todos a viabilização. Eu já o disse várias vezes. Há maioria no Parlamento pra aprovar aquelas que são as principais bandeiras orçamentais e não do programa da Aliança Democrática e aquelas que são as principais respostas aos problemas dos portugueses. Baixar impostos, valorizar carreiras, são áreas em que há maiorias no Parlamento pra poder ser. Maiorias diferentes? São. E, portanto, a nossa exigência é conseguirmos, com maiorias diferentes, eventualmente, mas liderar o processo parlamentar no sentido de conseguir concretizar no Parlamento estas opções.
Pedro, o PS tenha dito repetidamente que não aprova ou viabiliza.
Mas eu não tô a falar só do Partido Socialista. Eu não acho, nem acho que deva dar esse privilégio ao Partido Socialista. O Partido Socialista dirá, será ouvido.
É a linha argumentativa oficial do governo.
Eu acho que é a linha que o Chega tem querido fazer passar sobre a linha oficial do governo pra se desresponsabilizar. E eu acho que ninguém se pode desresponsabilizar. Acho que todos os partidos que elegem deputados têm responsabilidade numa legislatura em que não há uma maioria absoluta e em que toda a gente já percebeu que há uma esmagadora maioria de portugueses que nas eleições votou pela mudança e não perceberá que o Parlamento não concretiza essa mudança. E outra coisa, que está farta de votar e que não compreenderá bem que o país vá pra eleições outra vez. E, portanto, eu acho que todos no Parlamento têm que ter essa responsabilidade, e isso vai do Chega até o Bloco de Esquerda. Os portugueses quiseram mudança e têm razão pra não querer ir outra vez a eleições. E eu acho que será penalizado quem inviabilizar a concretização da mudança ou proporcionar umas eleições que não são desejadas. E acho que essa responsabilidade tem que ser passada pra quem a puder vir a ter.
João Almeida, falando nessa necessidade de mudança, durante a campanha da AD, muito foi feito o apelo ao voto útil, muito foi feito o apelo para aqueles eleitores que estão indignados, que estão irritados com a situação do país, que estão a pensar votar em partidos mais extremistas, foi utilizada essa expressão, a que votem na AD, porque a AD, sim, tem a solução. Com este quadro parlamentar, que soluções é que consegue a AD aplicar e pode a AD aplicar, de fato, sendo que nem na questão do orçamento se prevê um entendimento fácil para aquilo que será a governação da AD?
Eu posso dizer que esse apelo, se tivesse tido ainda mais adesão, tinha proporcionado essas condições que acabou por não proporcionar. O objetivo era exatamente esse, era conseguir que isso fosse viável. Não ficou tão longe de poder acontecer.
E os resultados não foram tão diferentes das eleições anteriores.
Numa configuração, nós temos que ter consciência, havia uma abertura que foi evidente na campanha de uma conciliação entre aquilo que era o programa da AD e o programa da Iniciativa Liberal, e não ficou muito longe de existir uma configuração parlamentar em que a junção do Bloco à AD e da Iniciativa Liberal permitisse essa viabilização, designadamente de questões orçamentais. Não tendo existido, obviamente, tem que ser adaptada a tática, não é a estratégia, neste caso é a tática, e ter uma abertura muito maior para aquele que é o cenário parlamentar atual, porque outra coisa que eu digo, que também é importante termos noção: de hoje pra amanhã não conseguimos. De hoje pra amanhã há eleições. E o que é que vai mudar na configuração parlamentar? Isto também tem que ser dito ao país.
Tem experiência parlamentar. Já esteve no Parlamento, noutras legislaturas e o Parlamento funciona com mais partidos neste momento, com realidades diferentes. Fala dessa tática. Olhando para o Parlamento como ele está agora, neste regresso, nestas semanas de regresso, vê um Parlamento propício a essa tática favorável ao que são as intenções da AD?
Vejo como possível. Acho que era muito mais difícil pensar no início da legislatura do governo de Passos Coelho à AD no tempo da Troika, que se conseguisse naquela legislatura um acordo pra baixar o IRS com os votos favoráveis do PS, e conseguimos. No contexto de Troika, foi possível negociar com o PS um acordo pra baixar o IRC. Eu disse o IRS há pouco, não foi enganação. Pra baixar o IRC. Se alguém dissesse no início daquela legislatura: "Esta vai ser a legislatura em que a AD se vai entender com o PS pra baixar o IRC". Era impensável. Portanto, nós não devemos também antecipar, nem entrar em pânico neste momento, ter muita serenidade. Agora, acho que há uma coisa que é decisiva pra isto ser possível: é a competência da governação. Porque quanto mais competente for o governo, mais difícil se torna a forças parlamentares que não estão a apoiar o governo, de irem pra cenários extremos ou de um chumbo de orçamento, ou mais grave até, de um chumbo de orçamento ou de qualquer de aprovação de moção de censura ou de qualquer outro instrumento que levasse à queda do governo e às eleições. E, portanto, eu acho que a chave é a competência do governo e é nisso que nos devemos concentrar.
João Almeida, muito obrigado por ter estado connosco aqui na Rádio Observador. Estivemos à conversa com o deputado do CDS. Estamos a acompanhar este congresso durante este fim de semana aqui na Rádio Observador