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Todas as semanas, na Rádio Observador, recebemos o Martim Sousa Tavares para um encontro com a beleza, que também pode acompanhar em podcast e até no YouTube do Observador, porque temos lá sempre uma filmagem a cada episódio deste encontro com a beleza. Martim Sousa Tavares, vamos dar os parabéns a Ravel?

Vamos. Cá estamos para mais um date com a beleza. Vamos cantar todos. Mas são os parabéns, é mais uma efeméride, não é propriamente um aniversário. São os 150 anos do nascimento de Maurice Ravel, e achei que fazia sentido trazer aqui um compositor que já tem sido referido, mas não creio que tenha sido o foco da nossa atenção, como merece, pelo menos. Até porque ele é uma daquelas junções muito interessantes, quando se juntam dois pais com mundos muito diferentes, e nós até ficamos curiosos com o que vai sair com este cocktail. Ele é um compositor francês, mas é filho de um engenheiro suíço, e não há nada mais boring do que dizer um engenheiro suíço. E uma mãe do País Basco, uma livre-pensadora. Mas o pai dele, para plot twist, na verdade, de boring não tem nada. É sim um engenheiro suíço, não tem culpa de ser suíço, mas era um verdadeiro engenhocas, que ali em anos 60 do século XIX, a certa altura, consegue ir longe na carreira porque inventou um motor a dois tempos para uma espécie de protótipo de automóvel, só que era um motor a vapor, não andava muito rápido aquilo. Então, a certa altura, inventa aquilo que vai ser o mecanismo do jacuzzi.

What? Ok.

Mas, na verdade, esse nem é o seu claim to fame, aquilo que o fez, de facto, famoso, isto é muito cómico. Era um vórtice da morte. Sabem o que é o vórtice da morte? Estão a ver nos circos aquela espécie de espiral em que fica uma mota?

Sim, isso é o poço da morte.

Pronto, na altura chamava-se o poço da morte. Ele inventou um protótipo daquilo, que andava em digressão com o circo do Barnum & Bailey, os Ringling Brothers, aquele dos grandes circos que tinha os freak shows, uma mulher com barba, a criança com 1,98 metro, esse género de coisas, essas atrações.

Surreais. Coney Island.

Sim, completamente. E ele inventou esta coisa, esta geringonça, que teve que ser descontinuada por razões óbvias, porque um dia que desse um acidente, aquilo salta fora do vórtice e vão as pessoas, vai o piloto, enfim, vai tudo. Mas pronto, este era o pai dele, deste compositor. A mãe, lá está, uma senhora do País Basco que tinha pouca escolaridade, mas muito pensamento, e ambos adoravam música. Portanto, o que é que o filho tem? Tem um pai que está sempre a inventar engenhocas em casa, que devia estar sempre ali a mexer, a abrir o comando da televisão. Claro que à vela elétrica, mas estão a ver esse género de pessoas. Recebe uma coisa e desmonta. E isto vai fazer dele um músico que funciona precisamente assim. Ele era um engenhocas da música. Era de uma organização, passava ali dias e dias a escolher que nota é que vai para onde. Ao mesmo tempo em que ele tinha este rigor extremo, era um dandy. Saía aquele lado da mãe, um gosto no vestir-se, ter roupas de grande qualidade, o tipo de pessoa que se calhar não tem nem um franco de poupança, mas tem umas roupas maravilhosas e está sempre perfumado, com uma rosinha fresca na lapela. Dá gosto ver um artista assim, não é um boémio. E é interessante porque há aqui um lado muito expansivo, muito apaixonado, mas por outro, de um rigor extremo. Alguém que se calhar passava duas horas a fazer a toalete antes de sair de casa. E a verdade é que isto é uma combinação, é o totoloto, porque para um génio como ele, ele tinha tudo o que precisava. Tinha um verdadeiro coração quente e uma cabeça fria, que é tudo o que se pode desejar. E o catálogo dele são pérolas atrás de pérolas. Ele tem obras para orquestra que são um luxo para os ouvidos. Estou a pensar no bailado "Daphnis et Chloé", por exemplo. Muita música de inspiração espanhola, em ligação à mãe, da qual a mais famosa é o bolero, evidentemente, que eu acho que já aqui passou, tenho ideia.

Não na versão de Fancy, de 1985, esse êxito do Italo Disco.

Nunca.

Que foi número um em Espanha também.

A sério? Bateu o Elvis.

Foi o único sítio onde foi número um.

Claro que sim. Na verdade, o Bolero Ravel chamava-se Fandango, inicialmente, mas acho que bolero, para além de ser outra dança, é uma palavra mais bonita. Tem um grande hit que é a Pavane para uma infanta defunta, não sei se já ouviram esta peça, está em todas as playlists de ler com música clássica. Tem jazz na música dele, porque há ali os anos 20, ele conhece o Gershwin, escreve um concerto para piano e orquestra inspirado nisso. Temos um esforço, ele foi recrutado na Primeira Guerra Mundial, conduzia uma ambulância, e depois conhece um pianista que tinha ficado sem um braço, então escreve o famoso concerto para a mão esquerda, em que o pianista toca só com a mão esquerda para piano e orquestra. Mas são tudo peças com 15 minutos, 20 minutos, 30 minutos, maravilhosas, que eu quero que ouçam todas, mas eu tinha que escolher aqui uma que coubesse neste nosso podcast. Portanto, o toque dele é maravilhoso e isto é que eu também queria aqui explorar, que é: em poucos segundos, ele consegue aquela assinatura sonora. É como ver um quadro do Mark Rothko ou do Picasso.

Conseguimos logo identificar.

Logo, tu percebes logo. E percebes que aquele quadro é melhor que os outros. Por alguma razão, quem o fez, aquilo tem outra qualidade. É como um prato confecionado com ingredientes muito bons e outro com ingredientes não tão bons. Podem ser os dois feitos com muita técnica, mas aquele sabe melhor. E vamos ouvir uma peça dele que é pouco famosa, que se chama "Minueto", sobre o nome de Haydn. Haydn era um compositor que tinha morrido em 1809, e em 1909 fez-se uma coletânea, peças para honrar o centenário da morte do senhor, e ele escreve esta peça, que tem um som redondo, transparente, frio no piano. Bastam três notas e estamos no mundo de Ravel. Estava a pensar: sabem onde é que vocês já ouviram música de Ravel? Viram o "Call Me by Your Name"?

Sim.

Têm presente uma música de piano muito bonita nesse filme?

Sim.

Muito bonita mesmo.

Mas é Ravel?

É Ravel. É uma peça dele.

Um caso Sufjan Stevens nessa banda sonora.

Sim. Também já ouvimos Ravel no episódio dedicado ao avô do heavy metal, que passou aqui creio que o mês passado.

O mês passado, sim.

Foi ele que fez a orquestração daquela peça.

Muito giro. Ele é muito ligado ao impressionismo, não é?

Exatamente, é um dos grandes nomes dessa estética.

E 150 anos.

Não, de cabeça está...

Está aqui para as curvas.

Por acaso não está nada, ele morreu precisamente de problemas de cabeça. Teve um acidente de carro, num táxi, nos anos 30, uma coisa assim. Acho que bateu com a cabeça e nunca mais foi o mesmo. Começou a ter perdas de memória, enxaquecas, e sujeitou-se a uma operação ao cérebro em 1937.

Uma lobotomia.

Praticamente. Qualquer operação ao cérebro em 1937 era uma lobotomia, de certa forma. E coitado, morreu disso.

Que engraçado. O vocalista dos INXS tem uma história parecida. Nunca mais foi o mesmo depois de uma pancada na cabeça.

A sério?

Sim. Perdeu o olfato na altura, mas depois outras coisas também. Perdeu outras coisas.

A cabeça, pressinto que não, é frágil.

É verdade. Pensem sobre isso. É essa a mensagem que deixamos no "Encontros com a Velha".

Exatamente. Não acabem como Ravel.

Desta semana, 150 anos de Ravel, como sempre trazidos aqui à Rádio Observador pelo Martim Sousa Tavares. E obrigado por isto. Bom resto.

Obrigado, Martim.

Até para a semana.