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Este é o Encontro com a Beleza, sempre com o maestro Martim Sousa Tavares. Uma vez por semana temos este encontro marcado aqui na Rádio Observador e com o Martim. Olá, Martim.

Olá, Nelson. Uma vez por semana. Às vezes dá vontade que fossem mais. Tenho saudades deste espaço.

Por que temos que pensar nisso?

E quem o diz também, recentemente passei pela Feira do Livro do Porto, onde fui fazer uma apresentação. Várias foram as pessoas que me disseram que como só sai um podcast por semana, às vezes elas deixam alguns por ouvir pra depois poderem fazer binge listening.

É verdade.

E eu achei isso incrível.

Já me disseram isso, a propósito deste mesmo podcast. É engraçado. A Feira do Livro que homenageia Sérgio Godinho este ano.

Sérgio Godinho, exactamente. Nem mais.

Uns concertos.

Nem mais. É verdade.

Estava aqui a olhar para a tua sugestão desta semana. Vamos até à Polónia?

Na verdade, vamos até Lisboa. Vou-te explicar. No próximo dia 18 de setembro, vai ter lugar a primeira edição do Festival Crivo, festival Mulheres Compositoras. Vai decorrer de 18 a 2 de outubro, na cidade de Lisboa, e propõe mais de 30 mulheres compositoras. Eu acho que isto é muito a propósito, porque eu tenho tentado aqui trazer algumas. Isto é uma iniciativa que tem a curadoria da musicóloga Inês Thomas Almeida e direção de Luísa Correia da Silva, e propõe alguns nomes que, francamente, o nosso público já conhece, como por exemplo, Florence Price. Quem é? Olhem, é a autora do genérico deste podcast, que já está nos vossos ouvidos. Ou a Germaine Tailleferre, de quem falámos semana passada. Portanto, vão ser dois nomes que lá estarão, mas propõe também nomes de compositoras que eu confesso, nem eu conhecia, tive que ir ao Google ver. E, portanto, ponho o dedo no ar, quem já ouviu falar de Cássia de Constantinopla, compositora do século IX?

Nunca.

Nunca. Ou Sulpícia Cesies, uma freira italiana do século XVI, que também fazia música?

Gosto dessa história, tens que a trazer cá.

Confesso a minha ignorância. Estamos sempre a aprender, portanto, não percam o festival. O que eu fiz foi ir ao menu em crivofestival.com, que tem concertos, conferências, cinema, etc. E no fundo escolhi um daqueles nomes que lá estão, um dos que eu mais gosto. E calhou esse nome ser o da polaca, como disseste, Grażyna Bacewicz. Os nomes polacos são tramados de dizer, porque a grafia das letras é tudo marado, mas é Grażyna Bacewicz, que nasce em 1909 e morre em 1959. Uma curta vida.

69.

69, exato. Obrigado.

59 tinha ela, não é?

Exatamente. Uma curta vida pra uma mulher que escreveu imensa música incrível e por razões que eu não consigo explicar, a não ser o facto de ser mulher, desapareceu. O que eu posso dizer sobre ela? Ela nasceu na Polónia em tempos conturbados. Isto é uma piada, porque qualquer pessoa que nasça na Polónia, nasce em tempos conturbados. A história da Polónia é aquele país que ora é invadido pelos russos, ora é invadido pelos alemães, ora é invadido pelo norte. Portanto, qualquer polaco nasceu em tempos conturbados, tanto o Chopin como ela. Ela foi uma criança precoce. Aos sete anos já tocava, o seu instrumento foi o violino e ela, na verdade, foi uma das pessoas a melhor escrever pro violino no século XX. Ponto final. Escreveu muito pro violino. O nome dela vai sendo ouvido graças às violinistas mulheres, que são superstars do violino, que nesta coisa de sororidade tocam muito a música dela. E é engraçado, porque isto levou-me a pensar que de todos os instrumentos, aquele que tem mais solistas femininas no topo é o violino. Não são as pianistas, não são as violoncelistas, são de facto as violinistas. Portanto, a Bacewicz é um grande nome para estas instrumentistas. Ela estabelece-se em Varsóvia, onde vai ser levada muito a sério, vai ser o concertino, que é o violino principal da Orquestra da Rádio Nacional. A música dela vai sendo tocada, só que leva com a guerra. Depois da guerra, leva com o reverso da medalha, que é a ocupação. Vão pro outro lado da cortina de ferro, portanto, passam para comunistas e isto é tramado. Ela vai ter que dar aulas pra se manter, vai lidando com a censura como pode, continua sempre a tocar, até ao dia em que tem um acidente de carro, estilo Frida Kahlo, só que a Frida Kahlo foi mais nova. Mas é um acidente que lhe vai mudar a vida, dá-lhe assim uma espécie de um flash, e ela era uma pessoa e depois desse acidente ela vai passar a ser outra pessoa, porque vai deixar de poder tocar. Ela ainda ganhava a vida a tocar violino e, portanto, vai ter que passar a dedicar-se à composição. E isto acaba por levá-la para inscrever o seu nome na posteridade, porque é a escrever música que ela deixa o seu nome na história. Dois anos depois, havia a primeira edição do histórico Festival de Outono de Varsóvia, onde tocaram logo três peças dela e foi sempre muito tocada e conseguiu uma coisa que foi ser premiada e aclamada de ambos os lados da cortina de ferro. Honestamente, eu não sei porque é que ela não é mais conhecida, portanto, fica aqui o repto para que vão ouvi-la no festival e também no geral. A música dela anda imensa à volta do violino, como eu disse, portanto, vamos ouvir uma peça com violino e piano, chamada uma "Kolisanka", ou uma canção de embalar, que é de 1952 e tem a sofisticação on point. Está perfeita, é melódica, é lírica, é moderna, é simples, é complexa, é refinada, enfim, ouçam. É Grażyna Bacewicz.

Gostei muito deste final em que ela vai e faz esta repetição.

Sim, não deixa de ser uma canção de embalar. Curiosamente dedicada a um tipo que na altura já tinha quase 70 anos. Não sei se era para o adormecer a ele.

Insónias.

Despedir. Sim.

E ela está a tentar ajudá-lo.

Se calhar é possível que sim. Eu desejo longa vida ao Festival Crivo. Adoro quando este tipo de iniciativas nascem e o importante é que corram bem, que sobrevivam à primeira edição para acontecer uma segunda e uma terceira. E mesmo iniciativas que hoje estão muito estabelecidas, penso no Ópera Fest, por exemplo, também começaram como iniciativas assim, com muita ambição, mas uma escala realista e comedida, e vão sempre crescendo. Portanto, é o que eu desejo ao Festival Crivo e a toda a gente que tiver ideias para festivais que deem a ouvir estas coisas raras e estranhas, como é a música de mulheres compositoras.

E ouço a música da Grazina Bacewicz.

Exatamente.

Gostei muito.

E também da Acácia de Constantinopla, por favor, ponham a Acácia de Constantinopla nas vossas playlists. O que é que vocês andam a fazer?

Gostei muito de conhecer esse festival.

Não pode ser só Mac Miller e não sei o quê. Tem que haver espaço para todos.

Martim Sousa Tavares na Rádio Observador, sempre com o seu Encontro com a Beleza. É uma vez por semana. Acompanhem-nos também nas plataformas de podcast. Um grande abraço, Martim.

Um abraço, até para a semana.