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Estamos a chegar ao fim do mês de julho. Podes escutar os outros episódios nas redes sociais do Observador, nas plataformas de podcast e também no nosso site. O "Encontro com a Beleza" sai todas as semanas. Olá, Martim.
Como é que estamos?
Estamos bem. Estou curioso com o episódio de hoje.
Estás?
Se na semana passada falamos de uma palavra muito bonita para cantar, que era "foolish".
"Foolish", é verdade. Quem diria?
Hoje vamos falar de um título, o título mais bonito.
É verdade, este é mesmo dos títulos mais bonitos.
Mas don't judge the book by the cover.
Exatamente.
Atenção.
Não, mas aqui faz jus. A música que vamos ouvir chama-se "Touch Her Soft Lips and Part", portanto, toca os seus lábios suaves e parte. E vem continuar, de certa forma, o episódio da semana passada, porque é música inglesa, estamos exatamente nos mesmos anos, talvez até no mesmo ano exato, e é uma vez mais aquela beleza da simplicidade desarmante, que não tem uma sofisticação por aí além, é só bonita e simples.
É a beleza do country side.
Exatamente. E, na verdade, é de um compositor que sendo uma geração mais antiga do que o Britten, da semana passada, este chama-se William Walton, nasce em 1902. Eles conheceram-se e o Walton, sendo um pouquinho mais velho, protegeu muito o Britten e ajudava-o. E os dois são os rostos da música inglesa após a morte do Elgar e, portanto, do pós-guerra para frente. Ele tem uma história engraçada, este compositor, porque eu começo a contá-la, parece que ela vai num sentido e depois vai noutro. Ora ouve. Na história da Universidade de Oxford, que é uma história bem longa, dizia-se que desde o rei Henrique VIII, ele tinha sido o aluno mais novo a entrar em Oxford. Ele entrou, acho que para o Trinity College, com 16 anos, o que não deixa de ser bastante jovem. Tu dizes: "Bom, então vem daí um prodígio". Não, na verdade, ele acabou por ser expulso de Oxford, não acabou curso nenhum.
Estou a gostar. Já estou a simpatizar com ele.
Aqui é que a coisa começa a ter piada. E ele não tem casa para viver, os pais dele não eram dali, tinham-no mandado para lá com dificuldade. Então há uma família, que são os Sitwell, uma família de artistas, que diz: "Bom, está bem, fica aqui em nossa casa umas semanas". E ele próprio dirá depois: "Fui para a casa Sitwell para ficar 15 dias, acabei por ficar 15 anos". Portanto, ele vai viver literalmente 15 anos, tipo Harry Potter.
Fechou lá.
Por baixo do sótão, ou uma coisa assim, onde, entretanto, vai desenvolvendo a sua carreira, vai tendo relações amorosas com este e com aquele. Os próprios Sitwell fartam-se dele, às tantas, mas nunca têm coragem. São tão ingleses, que até um hóspede indesejado, eles não conseguem pô-lo fora de casa. Portanto, o homem já tem 30 e muitos anos quando decide finalmente sair e já é famosíssimo, já tem dinheiro. Para veres, ele sai da casa dos Sitwell e compra uma casa sua.
Os Sitwell, sempre a dar-lhe uma dica, a dizer: "Mas tu quanto é que ganhaste nesse concerto? Tu não tens dinheiro para sair daqui".
Não, para veres, assim que ele sai da casa dos Sitwell, ele compra uma casa a pronto em Belgravia.
Exato. Ele não queria era fazer créditos.
Exatamente. Então, o William Walton, no meio disto tudo, consegue, quando rebenta a guerra, não ser recrutado, porque eu adoro as desculpas que as pessoas tinham, ou é miopia, ou é o pé chato, ou tem seis dedos num pé. Porque ia, segundo ele, escrever música para filmes patrióticos. Eles disseram: "Está bem, isso também é importante. Portanto, se tu levas um tiro, já não podes fazer isso". E assim faz durante a guerra. Eu acho que nós se calhar não temos noção, mas tanto a indústria alemã como a indústria inglesa, os filmes continuaram, os filmes eram importantíssimos para a moral, era um ato de patriotismo, claro que eram sempre com temáticas ligadas ao momento presente, e ele vai escrever filmes para alguns deles. Um deles é uma adaptação da peça de Shakespeare, Henrique V, que conta a história do rei inglês, o Henrique V, que combate na Batalha de Agincourt, em França, e que passa a ser o rei de França também. Portanto, é ali 1400, à volta desse ano. E o filme é de 44 e é engraçado, o filme está todo disponível no YouTube, não posso dizer que o recomendo, mas é giro porque isto começa no teatro onde Shakespeare apresentava as peças, que era o Globe Theatre, portanto, tens um traveling de Londres em 1600 e picos, entras no teatro, a peça começa a acontecer e eles dizem: "Agora, senhores, imaginem que não estamos no teatro, mas sim no campo de batalha". Então, de repente, estás no campo de batalha em 1400 e depois no fim do filme voltas outra vez para o teatro. Portanto, isso é engraçado. E o Walton dizia assim: "Quando a música de um filme é boa, ela não deve funcionar sem as imagens do filme", o que é polémico. Isto é o mesmo que dizer: "A música que eu escrevi para este filme só pode ser ouvida no filme". Imagina toda a boa música para filmes que se ouve também porque é boa música. E disseram-lhe isso: "Olha, mas você fez aqui uma peça tão incrível, não quer mesmo que se ouça?" E ele lá autorizou que esta peçazinha e outra do filme fossem ouvidas, que é um momento em que o rei Henrique V pede um capote, isto é na noite antes da batalha, ele quer saber o que é que os soldados pensam dele. Então vai incógnito, vai mascarado, vai disfarçado pelo acampamento, vai perguntando aos soldados o que é que eles acham do rei.
Que ele é um malvado, que ele é um patife.
Exatamente, é isso. E vai conhecendo várias pessoas e às tantas há um soldado que tem saudades do seu amor e ele diz: "Então vai tocar os seus lábios suaves e parte". E neste momento, isto é um filme cheio de música de guerra, música bélica, temos aqui esta música absolutamente linda, sublime, é um minuto e pouco e, de facto, faz jus a esta ideia de um beijo, a suavidade de um beijo. Ora ouçam.
Mas acho isto altamente cinematográfico.
E é, mas também pode ser ouvido.
Agora fiquei quase a concordar com a afirmação dele.
Estavas a ver a cena.
Estava a ver a cena.
O soldado a sair do acampamento.
Imagina-o como compositor a ter feito alguma coisa que foi para aquilo, para aquelas imagens.
Percebo. Mas a verdade é que ele autorizou. E nisto estava a pensar, não tinha previsto dizer isto, mas há uma história muito engraçada. A propósito dos hóspedes indesejados e quando eles não se vão embora de nossa casa e esta forma inglesa de não os expulsar, há uma história muito engraçada de quando o Dickens recebeu o Hans Christian Andersen na sua casa de família e que tudo correu mal. O homem não tinha modos, era muito awkward em sentido social, só causava embaraços e vergonhas e nunca mais se ia embora. Acho que a gota d'água foi que o Dickens levou um jantar de gala e o Hans Christian Andersen, em vez de dar o braço a uma senhora para entrar na mesa, deu o braço a um homem. Então foi tipo: "Este gajo, isto para os ingleses, não se pode convidar esta pessoa." E quando ele finalmente foi embora, o Dickens pôs um cartão no quarto onde ele tinha estado a dizer: "Neste quarto, tivemos um hóspede que nunca mais se ia embora." Tipo um memorial, uma lápide.
Muito fixe. O Walton, que morreu em Itália. De resto, ele vendeu a sua casa em Londres.
Em Ischia, não foi? Uma coisa assim. Não sei bem de Itália.
E depois a mulher dele criou um jardim, que entretanto é público desde 1991, que é o La Mortella.
La Mortella.
La Mortella, e que ganhou um prêmio, o melhor parque privado do mundo.
Os ingleses sempre foram bons a fazer jardins.
Exato. E ela tem um jardim, por isso se forem a esta ilha de Ischia, que fica ali a 30 km à frente de Nápoles.
É onde a água é quentinha e tem aquela azul turquesa.
Como não? Quer dizer, eu acho que ele teve um cancro de pulmão em 1966 e sobreviveu a uma cirurgia na altura. Olha, fazer uma cirurgia ao pulmão em 66.
Corajoso.
E ainda durou uns bons anos.
Verdade.
Porque fumava muito cachimbo.
Exatamente.
E depois teve que parar. Muito bem, falamos de Walton. No "Encontro com a Beleza" desta semana, a música com o título mais bonito. Recorda-me, como é que era?
"Touch Her Soft Lips and Part". Isto é mesmo de Shakespeare.
Também podia ser "Touch Her Soft Lips and Other Parts".
Mas aí já não era Shakespeare, já era irmãos Catita.
Exatamente. Até para a semana, Martin.
Até para a semana.