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Cá estamos para mais um Encontro com a Beleza. Eu sou o Nelson Ferreira, comigo está o João Costa e Silva e, claro, o Martim Sousa Tavares, porque ele é que marca estes Encontros com a Beleza.
Olá, Martim. Presente.
O dinamizador.
Eu chamo e vocês aparecem.
Exato.
Cá estamos.
Vamos falar de divas.
Fogo! Não, de diva. A diva.
A diva.
Com A, em bold, sublinhado. Isso pode ser polémico. Vamos ver.
Será que pode? Escrevam-nos.
Se eu disser diva escrevam-nos. ouvintes@observador.pt.
Exatamente. Se eu disser diva, estamos a falar, é óbvio, de Maria Callogeropoulos ou Maria Callas. Nem sei como é que ainda não trouxe aqui a Maria Callas, porque é um fenómeno, é um nome que toda a gente conhece. Deixei passar o centenário dela, que foi em 2023, e portanto cá estou agora penitenciando-me a finalmente contar a história de uma voz incrível e de uma vida ainda mais incrível. Todos sabemos um bocadinho sobre a Maria Callas, até acaba de sair o filme com a Angelina Jolie a fazer o biopic, mas vamos aprofundar.
Vale a pena?
Não.
Ok, era isso. Eu precisava da tua opinião.
Hollywood chega a estas coisas e agarra numa só parte e transforma no todo. E portanto, tu tomas a parte pelo todo. Fizeram o mesmo com o Bernstein. Quem é então a Maria Callas? Ela é grega, como sabemos, filha de pais gregos, mas na verdade nasce em Manhattan, filha de pais imigrantes e ali aos oito, nove, 10 anos, volta para a Grécia, vai para a Grécia só com a mãe e tem uma infância duríssima. Ela nasce em 23, estamos a falar de alguém que pré-Segunda Guerra Mundial vai para a Grécia, mas vai levar com a guerra ali, como é óbvio. Ela é uma criança prodígio, mas uma criança prodígio num conservatório de segunda, que é um caso engraçado, porque ela não consegue entrar no conservatório do Estado grego, onde se esperava, e portanto vai para uma segunda linha de escola, que era um outro conservatório que existia há menos tempo, onde a professora a apanha e percebe: "Eu tenho aqui um diamante em bruto". Mas ela vai com este estigma de não estar na classe consagrada do conservatório principal. Portanto, mesmo esta professora, que tem noção que tem ali um diamante em bruto, não consegue ombrear com a classe oficial do conservatório de Atenas. Então ela, apesar de ser exímia, e era o tipo de miúda que era a primeira a chegar, tipo o Ronaldo, a primeira a chegar ao treino. Ela era igual, exatamente igual, e ia ouvir as aulas dos outros para aprender com os colegas, uma pessoa mesmo incrível. Só que a mãe, que não tinha dinheiro e aquilo era um lar completamente rebentado. A mãe, o que é que fazia? Não vou dizer que a imiscuía numa espécie de prostituição suave, que era dizer à filha para ela engatar soldados e sair com eles para ver se lhe davam algum dinheiro. Nunca chegaram a vir este facto, porque ela era muito nova e conseguia navegar esses ares, mas estão a ver o horror que é a própria mãe dizer: "Larga a música e vai para os bares, vai para a esplanada engatar soldados italianos e alemães". Portanto, fica com uma relação muito complexa com a mãe, que ela nunca vai perdoar e vão se afastar. Há livros escritos sobre a relação dela com a mãe, mas ao mesmo tempo ela vai começando a conquistar os palcos. Agora, ela era vítima de bullying pelas colegas. Imaginamos o mundo da ópera, o mundo destas cantoras, todas elas querem ser as prime donne do teatro. E a Callas não tinha aquela figura que nós conhecemos. A Callas tinha problemas com excesso de peso, era extremamente míope, portanto, de óculos fundo de garrafa, e gozavam com ela. Quando ela estava em palco a cantar, estavam as outras nas laterais do palco a mandar bocas, a piropos, a fazer rir.
E um proeminente nariz também, não é?
Exatamente. E ela tem ali uma vida duríssima.
Mas ela é bonita.
É, e eu já vou explicar como. E como é que isso é o princípio do fim, também. A verdade é que quando ela abria a boca e quando ela cantava, fosse excesso de peso ou não, não interessa. De facto, aquilo não havia igual. E portanto, ela vai conseguindo conquistar os palcos e quando a guerra acaba, coincide com o momento em que ela acaba os estudos no conservatório e vai para os Estados Unidos, onde começa a conseguir alguns contratos. O que vai acontecer, e que vai ser o grande volte face da carreira dela, é que em 1949 ela está no Teatro La Fenice, em Veneza, e está a fazer um papel de Wagner, portanto uma certa expressão vocal, tudo isso. E há ali um caso em que uma cantora que ia cantar um papel de uma ópera de Bellini, que não tem nada que ver, é tipo fazes 400 metros barreiras e o outro vai fazer uma maratona, não tem nada que ver. E essa cantora fica doente e o maestro diz: "Então chamem a Callas". E ela faz este papel. E toda a gente diz: "Não, mas isso é absurdo. Ela está agora a fazer o Wagner, como é que ela daqui a cinco dias faz o Bellini?" Mas a verdade é que arriscam e ela prova que é boa tanto numa coisa como noutra. E ninguém acreditava que isto era possível. Portanto, daqui para frente, a carreira dela começa a subir muito rapidamente e ela dá-se conta no início dos anos 50, que tem peso a mais. E não é uma questão estética, é uma questão mesmo física, porque custa-lhe muito estar em palco, transpira muito, são muitas horas em pé, toda a parte da atuação. Então ela vai fazer uma dieta super rigorosa e drástica e vai perder cerca de 40 quilos. E aqui passa a ser a Callas que nós conhecemos. E vem aqui um efeito chocante, que é: as pessoas conheciam a Callas como a mulher da grande voz, mas um bocadinho gordinha, e de repente, Callas com menos 40 quilos é linda de morrer. Então toda a gente aqui, de repente, abrem-se as portas E ela nunca mais voltou a ganhar o peso. Portanto, viveu de saladas e frango até o fim da vida. Vem um estrelato a nível global e, ao mesmo tempo, muitos escândalos e esta fama de que ela tinha um temperamento muito difícil, mas ela tinha sempre razão, coitada. Todos os casos de escândalos, eu vou dar um exemplo. Ela estava a cantar no Teatro La Scala e estava a ser um sucesso de meia-noite e os espetáculos iam acabar, porque ela tinha feito um contrato para quatro óperas. E o teatro disse: "Não, você tem que ficar para uma quinta". E ela disse: "Desculpe, eu não posso, já marquei umas férias, estou muito cansada vocalmente, portanto eu vou-me embora". E o teatro, à revelia dela, imprime cartazes e vende espetáculos para uma quinta noite, a ver se ela, vendo isso, ficava. E ela diz: "Não, desculpem, eu já vos disse que não posso, portanto eu vou à minha vida, vou de férias". E o teatro faz a notícia que é: "A Callas quebrou, fugiu, está de férias". Portanto, de repente, toda a gente acha que ela está de férias. São sempre casos assim, coitada. E depois, é claro, casou com o Onassis, um dos homens mais ricos do mundo, portanto também põe-na nas revistas. Mas a verdade é que esta história da perda drástica de peso ajudou-a no início, mas depois vem a ser uma dificuldade, porque ela não tinha musculatura para aguentar aquele exercício vocal. Muito se fala sobre as razões do declínio, porque ela teve uma carreira curta. A verdade é essa. Ela morreu aos 53 anos e as últimas duas décadas quase que foram para o lixo. Portanto, nós podemos ouvir muita coisa dela. Vamos ouvir uma ária da ópera "Gianni Schicchi", de Puccini, chamada "O Mio Babbino Caro", que provavelmente até têm nos ouvidos, mesmo que não saibam, e apreciem o que é a voz da Callas no auge da sua carreira nos anos 50. Acho que isto é de 55. Eu não quero alimentar as teorias da conspiração, porque esta questão da carreira dela ter acabado por causa do peso, mas ela também tinha uma doença nos tecidos musculares e, para além disso, uma falta de confiança, porque quando ela se torna a estrela do mundo e toda a gente exige que ela cante mais e mais, e tinha que cantar doente.
Além dos problemas físicos, há ali também alguma debilidade.
Completamente.
E essa coisa das divas terem essa vida difícil ou complicada ou malfeitia, como disseste também.
Um dos maiores escândalos dela foi um espetáculo, também no La Scala, aliás, em Roma, que estava o presidente da República Italiana, e ela estava com uma bronquite e disse aos promotores: "Eu não consigo fazer este espetáculo. Por favor, cancelem, eu estou doente, isto vai me fazer mal". E eles disseram: "Não, tens que fazer". Ela faz o primeiro ato e diz mesmo: "Eu vou daqui para o hospital. Não consigo fazer mais e se eu conseguir cantar daqui a um ano, é uma sorte". Então ela vai-se embora e o teatro vem abaixo com pessoas a patear: "Como ela é capaz". E o próprio presidente ligou-lhe para lhe desejar as melhoras e disse: "Eu sei que você está doente, mas o mundo inteiro..." A Callas decidiu mandar o presidente à fava.
Ora bem. "Diva só tem um nome: Callas", diz Martins Sousa Tavares, e a partir de agora eu tendo a concordar. Obrigado por este episódio.
"Porque no te callas?", como dizia o Carlos.
Regressamos de hoje a uma semana com outro encontro com a beleza. Um abraço.
É verdade.