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É aqui na Rádio Observador que tem um encontro com a beleza marcado semanalmente com o Martim Sousa Tavares. Olá, Martim.
Olá. Eu diria mesmo um date.
Um date?
Sim. E se nós chamássemos Date com a Beleza?
Date com a Beleza?
Date com a Beleza.
Não. Isso era giro. Voltamos a Espanha ou é impressão minha?
Não, Catalunha.
Ok. Atenção, cuidado.
Cuidado. Tenho amigos catalães e, portanto, levam a mal.
Levam a mal. Vamos falar de Federico Mompou e também de Miró.
Exatamente, e de Joan Miró.
Eram amigos?
Se eram amigos, vou vos dizer uma coisa sobre os dois.
Conta-me uma coisa.
Joan Miró, acho que está a gente está a ver, pintor catalão, nasce em Barcelona no dia 20 de abril de 1893. Mompou nasce em Barcelona no dia 16 de abril de 1893. Portanto, eles são capazes de ter nascido em quartos um ao lado do outro, na MAC, lá de Barcelona. Conheceram-se, sim, foram amigos, foram colegas. Mompou até escreveu uma peça de música para o Miró e ambos viveram longas vidas criativas. O Miró viveu até 1980, morreu aos 90 anos. O Mompou conseguiu viver ainda mais uns anitos e viveu até 1987. Portanto, muitos parabéns a ambos por longas e criativas vidas.
Porque ele não dispensava o copinho.
Exatamente. Vai-se ver.
Faz toda a diferença.
Depois de lavar os dentes antes de ir pra cama, ele bebia ali uma jeropiga. Nem mais, é sempre assim. O irmão de Mompou, chamava-se Josep, era pintor também e, na verdade, há uma coisa muito bonita que é toda a música que o Mompou escreveu e foi publicada na sua vida, tem na capa um desenhozinho feito pelo irmão. Portanto, uma forma também de dar ao irmão a oportunidade de ganhar uns trocos. Mas o que eu quero aqui dizer é que havia uma ligação interessante entre a música e a pintura, a sensibilidade que este compositor tinha para a pintura, o fato dele escrever uma peça para o Miró, o fato dele ter um irmão pintor e pôr aquilo na capa. E eu acho isso muito interessante. E por isso o episódio de hoje é um desafio, porque eu acho que as pessoas conhecem a estética do Miró, estão a ver mais ou menos uma abstração feliz, o jogo das cores e das formas. E eu acho que a música do Mompou é isso, mas em sons. E, portanto, este é um episódio, uma forma de laboratório, para tentarmos isso mesmo. Para explicar um bocadinho a estética do-
Isso é mais ou menos aquela coisa do pairing, não é?
Sim, olha, exatamente, uma harmonia. Em vez de ser uma harmonia de vinhos, é esta estética de pintura com esta estética de música. Só que eu acho que a pintura do Miró não é uma pintura muito expansiva, acho que é uma pintura que convida a algum recolhimento, até. Não é um Andy Warhol, não é um Roy Lichtenstein, é uma coisa um pouquinho mais íntima. E o Mompou, intimidade era o nome do meio dele. Ele tem uma frase muito engraçada que diz que o Debussy, um compositor que escrevia música silenciosa e reservada, escrevia-
Já aqui começou.
Exatamente, escrevia para dois ouvintes de cada vez. Portanto, uma coisa assim para se ouvir em petit comité. Eu escrevo para um. Portanto, eu é uma coisa ainda mais íntima, ainda mais tête-à-tête. E ele tem um conceito que é chamado a música calada. Tem várias peças com este título muito bonito, que foi muito glosado, o próprio Bernard Sasset escreveu algumas peças de música calada, e que é o reflexo deste compositor, um tipo extremamente reservado, muito tímido, muito discreto. O instrumento dele era piano, ele nunca poderia ter sido pianista, nem sequer tentou. Só aceitava tocar em privado, nunca em público, só tocava a sua música, não tocava a dos outros e dedicou-se a compor. Só que uma pessoa compor música silenciosa, rebenta a guerra, tudo isso, ele é o primeiro a desaparecer do radar. E de fato não foi fácil pra ele. Ele teve ali um período antes da guerra em que até era assim um cadinho a coqueluche de Paris, naquele momento em que Espanha estava na moda e tudo isso. Mas depois vem a guerra e não é fácil. De tal maneira que ele se vai mesmo dedicar a outras áreas de atividade econômica, inclusivamente, vejam bem, ele vai tentar fazer renascer um negócio, uma tradição de família, uma tradição antiga de várias gerações, de fundição de sinos. Isto é muito engraçado. Também está ligado à música, de alguma forma. Ia ali trabalhar com o bronze, mas bom, felizmente acabou por ter sorte por mão de outrem. Por quê? Já depois da guerra, em 55, o Kenneth Macmillan, importante encenador e coreógrafo, faz um bailado na Inglaterra, onde a banda sonora são peças do Mompou orquestradas. E as pessoas ficam: "Que música é esta? Isto é incrível. Isto é um tipo de Barcelona, um tipo muito tímido".
Lá da parte?
Não, ele nem o conhecia. Deve ter descoberto aquela música, mandou orquestrar e de repente os holofotes viram-se para o Mompou e ele volta a ser catapultado pra fama, porque esta música fazia muito sentido, era assim uma espécie de uma continuação do Erik Satie. Ele foi tão discreto que quando morreu e foram lá mexer nos papéis do senhor, ele não tinha nem uma, nem duas composições desconhecidas, tinha um maná delas. Tinha pelo menos 80 peças escritas, que ele foi o seu próprio ouvinte durante décadas e, portanto, nasce aqui um grande renascimento de Mompou. A música dele tem sido muito tocada, muito defendida. Ele viveu ainda pra ter esse sucesso em vida. Agora, a ligação com o Miró. Eu falei desta estética do Miró, estas formas livres no ar, estes estados de espírito que convidam ao recolhimento, a uma inspiração poética e títulos muito bonitos, tanto nas obras do Miró como nas do Mompou. Convido-vos a passarem os olhos pelo Spotify do Federico Mompou. Mas mais do que isso, vou vos contar uma experiência que tive há dois anos em Barcelona. Fui à Casa Museu Miró e resolvi fazer um teste que é: vou pôr nos auscultadores música do Mompou e vou ver se isto faz sentido pra mim, in loco. E não só fez sentido, como bateu certo ali na playlist, isto são peças curtinhas, três, quatro minutos, quando eu cheguei a um tríptico que está na casa do Miró, que é incrível, que se chama A Esperança de um Homem Condenado, que tem assim um pontinho com uma linha de cor à volta e parece que a esperança dele é passar à volta daquela linha. É muito bonito. Convido-vos a procurarem no Google A Esperança de um Homem Condenado, que são assim três telas azuis muito grandes e que aquilo bateu tão certo, aquela música. Portanto, eu vou vos pôr a tocar a música exata, que pra mim bateu nesse momento, chama-se Prelúdio número 5, e se quiserem, ouçam esta música Com uma tela de Miró à vossa frente. Se estiverem em Barcelona, vão à Casa Museu, senão a internet pode ajudar.
Pode ajudar, compram, mandam vir da Amazon, põem em casa e depois-
Ou o vosso Miró que têm na sala, na vossa tela. Vão à sala e ouçam esta música. Comigo fez todo o sentido. "Prelúdio nº 5". [toca "Prelúdio nº 5"]
Eu estava a ver no Google a imagem que tu sugeriste.
Eu também. A esperança do quando há amor. Para já é muito bonito esse título. A mensagem, através de uma coisa abstracta, mas com esse título bonito, leva-nos logo para sítios.
Estava a ver aqui o sítio, isto é na Casa Joan Miró, em Barcelona. Tem mesmo uma cadeira, um banquinho para te sentares entre os três.
Pois tem, porque são telas muito importantes ali naquela coleção.
Que giro.
Vale muito a pena, essa casa é muito bonita, fica numa colina com uma vista incrível sobre Barcelona, e Barcelona é uma cidade que também vale sempre a pena.
O metro quadrado sabe-se como é que está. Está quase ao preço de Lisboa. Ou pior.
Está lá por ela. Eu acho que esta música é muito cinematográfica. Nós agora vimo-la a olhar para pinturas, mas acho que é uma questão de tempo até alguma série, algum filme pegar nisto. É muito moody.
Eu acho que quando temos uma ideia destas é avançarmos nós, fazemos nós a série.
Pois é, estamos aqui a dizer isto para quê?
Exatamente. Tirar a peleja assim desta maneira, completamente.
Vamos fazer essa série para essa música que hoje nos trouxe de Federico Mompou, e falamos de Joan Miró também, no "Encontro com a Beleza". Sempre com o Martim Sousa Tavares e fechamos aqui da melhor maneira o mês de abril. Para a semana estamos de regresso com mais "Encontro com a Beleza". Um abraço, Martim.
Um abraço. Até lá.