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É aqui na Rádio Observador que todas as semanas temos um encontro com a beleza. Eu sou o Nelson Ferreira e esse encontro é sempre com o Martim Sousa Tavares. Olá, Martim, tudo bem?

Olá, Nelson. Lorde Nelson.

Olha, heavy metal, bangers, tango argentino, este maio está incrível no encontro com a beleza.

Está a ser colorido.

E ainda assim, tu trazes música que não é pra gente séria.

É verdade, não é pra gente séria e nem é de gente séria. Antes de contar a história desta música, vamos dar uma volta. Como é que eu me lembrei disto? Sou um tipo que gosta muito de arte e das feiras de arte, e tudo mais. E há uma grande feira em Maastricht, que é a TEFAF, a grande feira de antiquários, onde, por exemplo, se ia vender o Domingues de Sequeira há um ano, uma história que deu muita polêmica, era lá. Portanto, há grandes quadros que aparecem, reaparecem no mercado, são apresentados lá. E foi o caso da TEFAF deste ano, onde reapareceu um quadro extraordinário do Klimt, que se julgava perdido desde os anos 30, um quadro de 1897, que retrata um príncipe do povo Ga, que fica hoje na zona que é o Gana, e que estava à venda por 15 milhões. É um quadro que-

Era uma pechincha, não é?

Era uma pechincha, sim, porque o quadro é pequenino. Não é um daqueles Klimts enormes. Mas é lindo o quadro, é de uma fase do Klimt ainda antes dele começar a trabalhar com a folha de ouro, e tudo mais, mas é extraordinário, até porque não é todos os dias que vemos nestes mestres a representação de uma pessoa não branca. E, portanto, o quadro que se inscreve naquilo que era a chamada Art Nègre do século XIX, que tem outros quadros incríveis. Há um parecido que é o Negro com Turbante do Delacroix. Enfim, é uma estética que interessava muito no século XIX e início do século XX, tudo o que não fosse branco e ocidental. E o Picasso também se fascina por isto nos anos 10. E vamos falar de Francis Poulenc, um compositor que já aqui passou, há coisa de um mês ou dois, porque nos anos 10, pra seres moderno, tinhas que sair do óbvio. E o óbvio era a música do homem branco, no fundo. Portanto, o Poulenc, que tem 18 anos, estamos em 1917, está a compor as primeiras peças e já tem uma queda-

Já tem aquela irreverência das pessoas, não é?

Para veres a irreverência dele, vai pela zona do absurdo, que é aquilo que lhe interessa.

Nonsense? Engraçado.

Sim, basta falar de Duchamp. Marcel Duchamp, nos anos 10, apresentar o urinol.

Exibe o urinol.

Exatamente. Portanto, estamos nessa estética. Isso interessa muito ao Poulenc, ele quer agitar as coisas, quer fazer diferente. E, portanto, a primeira peça que ele escreve, é pena que esta peça se perdeu, chamava-se "Procissão para a cremação de um mandarim".

Olá!

Um miúdo de 14 anos ou 15. Mandarim, evidentemente, como sendo um chinês, era como se dizia na altura. Essa peça perdeu-se, ele depois escreveu outra que se perdeu. A primeira oficial, o seu opus um, que na música nós normalmente dizemos opus um, opus dois, pra classificar o catálogo dos artistas. Opus quer dizer obra, em latim. O seu opus um é a chamada Rhapsodie nègre. Portanto, a rapsodia negra. O que é esta rapsodia? É muito estranha, muito provocadora, não faz imenso sentido. Alguns dos andamentos são muito bonitos, música instrumental, mas há outros em que tem um cantor, que canta um texto que ele foi buscar a uma coletânea de poesia, supostamente poesia negra, atribuída a um suposto Makoko Canguru, em língua libéria, que não existe.

Claramente não existe.

Claramente o Makoko Canguru não existia, foram dois tipos parisenses.

É que nem a IA fazia uma coisa com esse nome.

Não. Mas vê bem, o poema que nós vamos ouvir diz o seguinte: "Honolulu Potalama. Honolulu, Honolulu, Katimoko, Mosibolo, Ratako, Sira, Polama. Vatakovsi, Motamaso, Echapango, Echapanga. Totanono, Nonoranga, Lololulu, Matamaso". E depois remata no final com: "Patatabo, banana, lu, mandes, golas, glebes e cru, banana, loito, cuscuz, pota, lama, Honolulu".

Parece uma coisa que o Poulenc imaginou que eles falassem assim.

Sim, a letra não é dele, ele foi buscar isto a um livro de poemas que existia na altura, que tem palavra Honolulu, fica no Havaí, cuscuz é de comer e vem do Norte da África.

Não faz nada, nada faz sentido.

Banana é a fruta, portanto, eles escolhiam palavras que lhes pareciam pseudoafricanas.

É mais ou menos o que falam os Minions.

Sim, completamente. Ou os Sims, o Simole, aquelas línguas inventadas, parece inteligência artificial má. Ele põe este poema em dois dos andamentos, tem que ser cantados. Estamos em 1917, plena Primeira Guerra Mundial.

Foi fácil arranjar alguém que cantasse isso.

Não, para veres, o cantor ao último minuto, já nos bastidores, diz-lhe assim: "Não leva a mal, mas eu não vou fazer figura de parvo". Então é o próprio Poulenc, que estava já a combater na Primeira Guerra Mundial, ele tinha 18 anos, e estava fardado, que teve que entrar em palco a morrer de vergonha. Vai agora um soldado fardado, ou seja, o que já era absurdo, passa a ser ainda mais absurdo. Vai ele cantar isto. Ele estava com tanta vergonha, que pôs a estante de música com a partitura a tapar a sua própria cara, pras pessoas não verem que era ele. Mas foi um sucesso.

Eu ia te perguntar isso. A crítica deve ter destruído isto.

Não, as pessoas adoraram, porque isso estava muito na moda. Estava no público o Stravinsky e o Ravel. Amaram. O Stravinsky até o ajudou logo a conseguir um contrato pra publicar música. A peça era dedicada ao Satie, que também adorou. No fundo, isto era o dadaísmo, era tudo aquilo que quebrasse o aborrecimento do cosmopolita.

Quanto mais fora, melhor.

Era o nonsense, exatamente. E portanto, o Marcel Duchamp abriu aqui uma caixa de Pandora pro dadaísmo, pra esta estética dos anos 10. Portanto, vamos ouvir esta música um pouco louca. A indicação do compositor é lento e monótono.

Eu gosto dessas indicações.

Lá monótono é o estilo deste canto. Ora ouçam. Siera polama. Watagusi motimasu etche bango etche banga kaka nunu nunu ranga lolo luluma tamasu. Patatabo bananalu mandes golas gleles yiklus bananalu itokusku potirana honololu.

Imagina a cara do homem, de facto. Coitado, ter que ser sujeito a isto.

Sobretudo, um soldado. Estamos em tempo de guerra, portanto, as pessoas tinham todo o direito de se sentirem ofendidas. "Estamos a este soldado a escrever estas palhaçadas?"

Sim. E a lutar.

Sim, mas a coisa da letra, hoje em dia é problemática, esta peça, porque fala-se de uma apropriação cultural, que nem sequer é apropriação, é mais uma ridicularização cultural.

Era isso que eu ia dizer.

Porque isto não é uma língua. Isto é uma pseudolíngua. Portanto, o compositor, eu acredito que ele soubesse que o Macoco Canguru não existe, é uma fabricação de alguém, mas hoje em dia é problemático tocar esta peça em público.

Que engraçado.

Artistas se recusam a cantar isto.

Eu percebo porquê. Quer dizer, primeiro podem não gostar propriamente, e depois por todos os significados que ela pode ter.

Mas eu acho que é divertida, é absurda. É preciso pôr isto no contexto de um tempo em que o absurdo era aquilo que interessava.

Eu imagino é quão chato deveria ser a esta altura, aparecendo uma coisa que é ligeiramente de fora, é logo espetacular.

Estás a ver o que é tu comprares um livro de poesia, em que estás a ler o poema que diz: "Honolulu potalama, Honolulu katimoko mosibo". E tu estás a ler isto em casa, tu não fazes ideia o que isto é, porque isto não é nada.

Estes franceses.

Já viste. Malucos mesmo.

Francis Poulenc regressa aqui ao encontro com a beleza, de forma completamente diferente da anterior.

Imagina o que seria a procissão para a cremação de um mandarim. Também deve ser qualquer coisa.

Temos de lhe dedicar um programa daqui a algum tempo.

Adorava.

Já que ficamos com a Rapsódia Negra.

Sim, se alguém tiver lá em casa um papel com ar antigo, com um título que tem que ver com isso, entre em contacto comigo, que essa peça está perdida até hoje.

Muito bem, Martim Sousa Tavares. Para a semana estamos de regresso com outro encontro com a beleza, a música clássica e não só. Tem encontro marcado aqui na Rádio Observador uma vez por semana com o melhor dos intérpretes. Martim Sousa Tavares.

Não, só um minuto.

É verdade. Um abraço, Martim. Até para a semana.

Um abraço. Até para a semana.