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E se na semana passada, no Encontro com a Beleza, ficamos a conhecer um banger do século XVIII, o Martim prometeu para esta semana, neste Encontro com a Beleza, o avô do heavy metal. Foi mais ou menos isto, não?

Foi exatamente isto.

Ok. Eu estou muito curioso.

Com o selo de aprovação de Fernando Ribeiro.

Falaram sobre isto?

Falamos sobre isto.

E ele concorda?

Ele concorda.

Epa!

Então a história é a seguinte: há uns meses participei numa mesa redonda com o Fernando Ribeiro, dos Moonspell. Moonspell, para quem não conhece, é a banda de heavy metal portuguesa, com décadas de história. Porque ele escreveu um livro, eu também escrevi um livro, ambos somos músicos e portanto pensaram juntar dois géneros tão diferentes como a música clássica e o heavy metal e ver no que dá. Eu fui o primeiro a ter a palavra e disse que, na verdade, não achava assim tão chocante, porque para mim o heavy metal começa no século XIX, numa música específica. E o Fernando Ribeiro, assim que falou, disse, e confirmou a minha opinião, que no heavy metal há um culto de um autor russo específico, que para eles é o avô desta coisa toda. Portanto, nós convergimos na ideia de que Mussorgues, o compositor em questão, é o avô do heavy metal. E aqui não é apenas o heavy metal enquanto expressão musical, mas também todo aquele imaginário do heavy metal. Portanto, as histórias das florestas e dos reis. Estás a ver essa estética?

Uma coisa mais macabra também, mais escura.

Sim, mais escura, mais gótica, se quisermos. Tudo isso converge nesta música incrível que vamos ouvir e cuja história se conta da seguinte forma: estamos na Rússia. Em 1873 morre um tipo chamado Victor Hartmann, que era pintor e arquiteto, que era muito amigo do compositor e organiza-se uma exposição com toda a sua obra na Academia Imperial de Arte de São Petersburgo. E o próprio Mussorgues, aliás, empresta dois quadros dele, da sua coleção pessoal, para essa retrospetiva, e andava por ali a ver aquilo e disse: "Não, o que era giro era eu fazer música para alguns dos quadros específicos". E, portanto, ele vai construir uma peça.

Já estava a ver que alguns anos depois iam existir headphones para ter nas galerias de arte.

Exatamente. Ele tinha essa visão.

E um QR code para tu ires parar a uma playlist. Tudo isso.

Então ele compõe em três semanas, numa febre enorme, uma peça chamada "Quadros de uma Exposição".

"Pictures of an Exhibition".

Exatamente, em que tem vários andamentos pelo meio, que se chamam promenade, que é no fundo tu andares ali a passear. E os promenades são todos pequeninos e com um tema simpático, e depois tens as músicas muito contrastantes. Uma é sobre umas portas gigantes de um castelo, outra é sobre catacumbas. No fundo, o que ele estava a ver nos quadros.

Temas de heavy metal, portanto.

Bastante. Mas há uma em específico que é incrível, que é a que nós vamos ouvir, que é a Baba Yaga. A Baba Yaga faz parte do folclore russo, também acho que escandinavo, mas sobretudo russo, que é uma bruxa que vive numa cabana que tem umas patas de galinha.

Ok.

A própria cabana tem umas patas de galinha gigantes e tudo isto é muito bizarro e muito grotesco. E a Baba Yaga anda aos saltos e é pesada.

O povo do Norte da Europa tem esse tipo de imaginação.

Exatamente. E esta Baba Yaga gera o heavy metal. Ele escreve a peça original para piano, mas em 1922, o Maurice Ravel faz uma versão para orquestra que tem ainda mais power. Portanto, nós vamos ouvir esta Baba Yaga. Basta dizer que a indicação do Mussorgues é allegro feroce, portanto allegro feroz. É para tocar isto com violência.

Essas indicações do tom, acho engraçado.

Exatamente. E logo as primeiras notas são os saltos desta cabana gigante e grotesca com as patas de galinha.

Com patas de galinha.

E vais ouvir ali um riff na linha de baixo, que podia estar em qualquer malha de heavy metal. Portanto, os power chords, a explosão de energia, o peso, mas também toda a imaginação do heavy metal, está tudo aqui. Fernando Ribeiro, se estás a ouvir, está aqui um piscar de olho.

Confirmo.

Pesado.

Aqui é heavy metal, claramente.

É pesado.

Sim.

E onde não há, na zona lá no meio, não deixa de ser grotesco.

Eu já tinha ouvido falar dessa coisa da galinha, como é que se chama?

Da Baba Yaga.

Baba Yaga. Eu já tinha ouvido falar disso.

É possível. Até acredito que no heavy metal exista uma banda chamada Baba Yaga.

Sim.

Porque ela é muito grotesca, extremamente grotesca. E é interessante também dizer que este compositor, no seu tempo, também foi um metaleiro da pesada.

Ele tem ar disso.

Era um tipo que-

Tem ar disso. Tem um cabelo que poderia ser de metaleiro.

Sim, um cabelo e um estilo de vida, coitado. Ele bebeu-se até...

Aquele nariz não engana. Aquele nariz está ali.

Aliás, já sei que estás a ver o quadro dele todo despenteado, não é?

Sim.

Esse quadro tem uma história muito triste, que é: o pintor, o Ilya Repin, que o pintou, soube que o Mussorgsky já estava internado e às portas da morte, por alcoolismo e devia ter uma cirrose, uma coisa assim. E sabendo que ele ia morrer, ele foi a correr pro hospital pra tentar ainda fazer um retrato dele. Aliás, podes ver que o retrato está inacabado.

E foi feito poucos dias antes da sua morte.

Exatamente. Portanto, isto é um testemunho incrível deste gênio, do estado a que ele chegou. Portanto, se isto não é a vida do rock...

Mesmo. Estava aqui a tentar... Ele era de onde? Que esta malta normalmente é de São Petersburgo, que é onde está a elite cultural da Rússia, normalmente.

Era a capital na altura.

Exato. E chegou a viver com um colega chamado Kutuzov, que depois jogou no Sporting, só durante uma época, por empréstimo do Milan.

Sim, exatamente.

Muito bem.

É exatamente o próprio. E é o mesmo também que foi o general que combateu contra o Napoleão. Tudo a mesma pessoa.

"Pictures at an Exhibition", Baba Yaga, Modest Mussorgsky. Aqui o pai, o avô do heavy metal, trazido ao "Encontro Com a Beleza" pelo Martim Sousa Tavares, com o selo de aprovação de Fernando Ribeiro dos Moonspell. Foi aqui que tudo começou para estes géneros. Obrigado por nos explicares isso, Martim. Para a semana estamos de volta com outro "Encontro Com a Beleza". Um abraço, Martim.

É sempre assim.