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O "Encontros com a Beleza", com o Martim Sousa Tavares, acontece todas as semanas aqui na Rádio Observador, passa na rádio ao domingo, tem reposição às segundas-feiras à tarde e pode ouvi-lo sempre que quiser no nosso site e também nas plataformas de podcast. Olá, Martim.

Olá, buenos días.

Como está a correr abril para ti?

Muy bien.

Realmente?

E para vosotros? É que hoje estamos em Espanha, semana passada estivemos em Espanha.

Também. Vens de França, mas viemos da fronteira de França.

Sim, exatamente.

Passamos os Pirineus.

Passamos os Pirineus.

Exato. E vamos falar de Georges Bizet e de Carmen. E hoje vamos falar de Joaquín.

Joaquín Rodrigo. E um smash hit monumental, porque os músicos às vezes escrevem um grande tema e ficam milionários. Acontece. Até só com uma música. Tipo Mariah Carey.

E desaparecem muitas vezes. Injustiça.

Mas menos são aqueles que podem dizer que escrevi um grande hit e tornei-me marquês por causa disso.

Ok.

Vou vos contar a história de Joaquín.

É o teu objectivo na música, no fundo, não é, Martim?

Adorava.

Depois de anos de trabalho como maestro.

Sim, por favor, um título nobiliare.

Isto é possível? Um título só por talento.

Por um hit. Vou vos contar então a história de Joaquín Rodrigo e vamos ouvir o seu smash hit, evidentemente, que é imediatamente reconhecível, mas que não seja por isso. Podem também conhecê-lo de uma versão do Miles Davis, se conhecem o "Sketches in Spain". Aliás, "Sketches of Spain" é inspirado nesta música que vamos ouvir, mas há outras versões de Chet Baker, Paul Desmond, enfim, muitos outros. É praticamente um standard. Há esta forma de peça, que é o concerto para solista e orquestra. Já temos tido aqui concerto para piano e orquestra, pode ser para violino e orquestra, violoncelo e orquestra, mas o mais popular de todo o século XX não é nenhum destes. É um concerto para guitarra e orquestra, que é uma coisa invulgar, porque a guitarra, sendo um instrumento que tem uma vida muito mais na música popular e na música de rua, não é propriamente aquele que estamos à espera de ver no lugar número um do pódio. Mas através de números de visualizações, de vendas de discos, etc., este é o número um. E é do Joaquín Rodrigo. Portanto, quem é este homem, que já agora aproveito para dizer, é Marquês dos Jardins de Aranjuez. Ele nasce em 1901 e morre em 1999, portanto a vida dele é todo o século XX, basicamente. São as balizas do século XX. Ele aos três anos fica cego por causa de difteria, o que vai ser um desafio muito grande, porque estamos a falar de alguém que vai para a escola no início do século XX, portanto, não há materiais em Braille, nada disso. Custa-lhe imenso estudar e aprender, mas ele consegue. Ele vai aprender piano. Depois, claro que como pianista é uma carreira muito arriscada, pianista clássico, sendo cego. Não que isso não tenha acontecido depois e até antes, mas não era o caso. Ele tinha um ouvido muito bom e portanto decidiu ser músico. Imaginam o que é o trabalho que lhe dava transcrever as coisas todas para Braille, os exercícios de composição, e depois de Braille outra vez para notação normal, para que os professores pudessem ler. Portanto, há aqui muito mérito deste homem. Tudo lhe demorava mais tempo e isso, se calhar, também acabou por ser a sua sorte. Em 1939, ele escreve esta peça que vamos ouvir, inspirada no Palácio de Aranjuez, que fica ali nas afoiras de Madrid, que era um palácio dos Filipes. E muita gente acha, porque a peça é um pouco triste, que era tal como o Picasso fez a Guernica em resposta ao bombardeamento, que isto era também uma resposta ao bombardeamento da Guernica, que ele veio dizer que não, isto tem a ver com razões pessoais da sua família, da sua vida, tem a ver com a morte de uma filha. Nada disso. Mas a peça é logo um sucesso enorme. Ele tem que fazer uma versão para harpa.

Pensei que ias dizer que ele teve que fazer um radio edit.

Se calhar também fez. Ele viveu até 99, portanto repara que poderá ter acontecido. O que é engraçado é que ele não tocava guitarra. Ele teve que perceber a guitarra sem poder ver como é que uma pessoa toca uma guitarra. Alguém lhe põe aquele instrumento nas mãos e explica mais ou menos: "Olha, isto faz-se assim, assado". Como é que esse homem, com conhecimento só empírico do instrumento, consegue fazer a peça de todos os guitarristas? Ele escreve este smash hit, que é imediato. Toda a gente adora esta música e todos os guitarristas do mundo conhecem esta peça. Primeiro amam-na, depois odeiam-na e depois fazem as pazes com ela, como tudo aquilo que é importante para nós. Eu próprio, em adolescente, ouvi isto até à exaustão, porque isto às vezes pode ser um pouquinho cheesy, pode ser um pouquinho cringe, tem um bocadinho assim de açúcar. Isto é gravadíssimo em disco. Logo em 47, a primeira gravação que se faz deste concerto vai logo para o Hall of Fame dos Latin Grammys. E todos os guitarristas históricos que algum dia foram alguém, fizeram gravações muito importantes. De Espanha temos o Narciso Yepes, que é talvez o maior guitarrista clássico. A nível internacional, o Julian Bream gravou cinco vezes. Mas, como é óbvio, Paco de Lucía, em 1991, não quis ficar de fora. O que é engraçado, porque o Paco de Lucía é um músico que vem de outra tradição, um músico que vem do flamenco. Não é ler partituras. Ele aprendeu este concerto inteiro de ouvido, nota por nota, aprendendo os sítios em que é para esperar, em que só a orquestra que toca, e gravou-o. E gravou-o cheio de medo. E o Rodrigo ainda estava vivo quando isto aconteceu, foi em 91. E segundo o Joaquín Rodrigo, esta não só é uma versão boa, como é a melhor de todas, porque tem mais capricho, tem mais liberdade, tem aquela abordagem mais do flamenco.

Com o selo do próprio Joaquín Rodrigo.

Exatamente, a dizer aos outros todos: "Lamento imenso, mas esta é a melhor". Portanto, é essa que vamos ouvir. Queria só dizer, como é que o homem se torna então marquês? É verdade, ele ganha muitos prêmios, prêmios de música, isto e aquilo, fica rico, evidentemente, escreve muita música, mas nada vai ser tão bom, tão famoso, tão batido como o concerto de Aranjuez. E, portanto, o rei Juan Carlos I atribui-lhe, cria o título de Marquês dos Jardins de Aranjuez, porque o concerto é sobre esses jardins desse palácio. E eu convido-vos agora, procurem "Marquês Jardins de Aranjuez" e vejam o brasão de armas, que é lindíssimo, porque se ele é marquês, ele tem que ter um brasão de armas. Portanto, é um castelo, vai ser um escudo, vão ser umas armas, vai ser a cabeça de um touro. É uma guitarra lá no meio. Não é? É lindo.

Vermelho e amarelo.

Exatamente. É um título hereditário, portanto, atualmente ele está na sua filha Cecília, que é a segunda marquesa dos Jardins de Aranjuez. Portanto, da próxima vez que forem a Aranjuez, em Espanha, metam esta música nos vossos auscultadores e façam uma viagem pelo tempo e pela geografia. O que acham?

Acho espetacular. É uma outra Espanha, não tem nada a ver com aquela que trouxemos aqui na semana passada.

E é um outro Paco de Lucía também, não é?

Também. Fiquei impressionado com isto.

A peça é muito bonita.

Isto estava a recordar, de alguma forma, aquela de que falavas dos "Sketches from Spain" do Miles Davis.

Sim, é aquele temazinho do início. É açucarado e se uma pessoa ouvir muito disto pode tornar-se diabética dos ouvidos.

Mas eu acho que é denso.

Leva-nos a marqueses, como é o caso do próprio. Mas o rei foi amoroso, porque arranjou-lhe um título que tem a ver com a peça. Este é o concerto de Aranjuez e ele é marquês dos Jardins de Aranjuez. Por acaso está um amor. Não é muito melhor do que dizer: "Olhe, o senhor agora é conde de Benidorm".

Não fazia tanto sentido.

Não.

Muito bem, o "Encontro com a Beleza" vai regressar de hoje a uma semana com Martim Sousa Tavares. Ouçam todos os episódios nas plataformas de podcast e também no nosso site em observador.pt. Martim, um abraço e até para a semana.

Adiós!