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E já cá estamos para mais um encontro com a beleza. Acontece todas as semanas na Rádio Observador com o Martim Sousa Tavares. Estamos aqui quase a fechar o mês.

É verdade. Venho-vos fazer uma pergunta: quais são as duas ocasiões principais em que toda a gente canta e não é awkward? De repente, estamos todos a cantar em uníssono.

Os parabéns.

Exato.

Aniversários. Se presencias a uma claque de futebol.

E o hino nacional. É um momento em que políticos, de repente, cantam.

É verdade.

Tu não podes pedir ao Marcelo para cantar, mas o hino ele tem que cantar.

Sim, claro.

Portanto, são dois momentos em que socialmente não é awkward. Não é awkward, mas é dolorosíssimo, os parabéns a você.

Muitas vezes faço playback.

A questão é: tu até podes não cantar, não vai piorar, mas também não vai melhorar. Quando eu tenho ocasião, eu tento introduzir um dó, ré, fá, mi, só para situar as pessoas, mas aquilo tem aquele salto que é a desgraça. E às vezes estou fascinado a ver uma festa a cantar os parabéns e a cacofonia que para ali vai, acho fascinante do ponto de vista sociológico.

E toda a gente estar na boa com isso.

Sim, outras é só doloroso, sobretudo quando começa a parte das palmas. Pronto, doloroso. E no outro dia estava a dar por mim a pensar: "quem é que inventou os parabéns a você? Tem que haver um compositor, alguém que compôs esta melodia".

É porque tu queres culpá-lo.

Exato, que é uma péssima ideia aquele salto de oitava. É como aquele vídeo do "Senhor, Senhor, estendes para o alto". É a mesma coisa.

Tanto alto.

Exato. Não é bom as melodias terem esses saltos. O nosso hino nacional também tem um salto desses fatal. Fui descobrir, e não é uma história interessante. Tem aqui uma coisa curiosa, mas não era interessante e não vamos aqui ouvir os parabéns a você. Mas só para vos tirar a curiosidade, foi inventada provavelmente por duas educadoras de infância norte-americanas, final do século XIX, que são as irmãs Hill, mas é uma atribuição muito disputada e a canção hoje está considerada domínio público. Portanto, se quiserem fazer uma versão dela em xilofone e pôr no Spotify, estão à vontade.

Não têm que pagar.

Mas há uma editora, que é a Warner Chappell Music, que, vejam bem a esperteza, reclamava direitos. Diziam: "não, isto tem copyright e o copyright é nosso". E reclamaram direitos disto até 2015, ano em que foram condenados em tribunal a pagar mais de 14 milhões de dólares, que tinham entretanto recebido e cobrado indevidamente. E eles queriam ter os parabéns a você protegidos até 2030. Portanto, imaginem, cada vez que estão a cantar ou a ouvir os parabéns a você, tem que se ir à SPA ou alguma coisa assim. Não é a SPA, mas é aquela dos direitos conexos.

Audiogest.

Audiogest, exatamente, e pagar para cantar. Não é uma história gira. E pensei: "outra melodia que toda a gente conhece, quem é que inventou?" E lembrei-me de uma, que é para embalar crianças, para embalar bebês, que vocês já vão ouvir e que toda a gente conhece. E esta tem uma história mais fácil, mais bonita também, porque é de um grande compositor. Isto é que é engraçado. Não é de duas irmãs, que nunca ninguém ouviu falar, é de Johannes Brahms, que é um dos maiores autores da música romântica, que em 1868 compôs esta canção, que é uma página de música, para uma amiga, que já tinha sido em tempos mais do que uma amiga, mas entretanto seguiu a sua vida, casou, maridou-se e teve filhos. Ele decidiu dar-lhe esta canção como presente para a sua filha bebê. Creio que era uma filha bebê. É só uma página, tem uma letra em alemão, no original, que também não é dele, vem de uma compilação anterior de poesia de 1806, mas o que é certo é que esta música bateu. Ou seja, esta amiga do Brahms mostrou isto a outras amigas e de repente estava tudo a cantar isto para os bebês e a coisa bateu. Tanto é que há versões com letras em todas as línguas do mundo, vocês já vão ver qual é a música. Agora, é difícil ouvir isto como música do Brahms, porque está tão ouvida, tão gasta, que é difícil. Portanto, nós vamos ouvir uma versão, vamos tentar tirar essas camadas todas, imaginar que somos as primeiras pessoas a ouvir isto. E portanto, ninguém vai cantar. Vamos ouvir uma versão que tem, em vez da voz, o violoncelo de Yo-Yo Ma, e tentemos só ouvir isto como uma peça de música clássica. Conseguiram ouvir isto?

Claro, ouve-se bem. O problema é que aqueles brinquedos de corda estragaram-nos esta música para sempre.

E não vos acontece, estamos a ouvir isto e já sabemos como é a melodia. Portanto, já estamos nós a cantá-la também. Acontece a vocês?

Sim, aliás, eu estava à procura da minha fraldinha de pano e a puxar de novo o bonequinho com corda para ele continuar a tocar mais uma vez a "Lullaby".

É verdade. É uma melodia eterna, mas é um exercício engraçado, às vezes, quando uma coisa é muito sabida, muito conhecida, ou quando é usada de forma indevida para finalidades que não estavam previstas, voltar ao original.

Sim, mas será que há este fenómeno também de uma música se gastar na nossa cabeça?

Eu acho que sim.

Esta melodia gastou-se.

Completamente.

"Esta música é boa, o problema é a rádio que está sempre a tocá-la". É um bocadinho o mesmo fenómeno.

Completamente, gasta-se. Há uma frase de uma grande poeta que diz que uma palavra que anda na boca de toda a gente transforma-se em baba. E eu acho que a música que anda nos ouvidos de toda a gente transforma-se em seres.

Que bela imagem.

Que bela imagem, não é?

Que bela imagem que tu nos deixaste. Eu estou a lembrar-me de tantas canções que encaixam nisso.

Mas é verdade. E depois, se calhar, voltamos a elas passados 20 anos.

O Brahms não escondeu isso da sua obra.

Não, e ganhou royalties depois de publicar, isto era dele.

Que engraçado, porque é alguém que tem um percurso que eu também não associava a uma melodia destas.

Completamente.

Ou ter feito o percurso que depois acabou por fazer.

Não, muito sério, uma grande barba.

Que engraçado. Aqui uma "Lullaby" no programa desta semana, o encontro com a beleza do Martim Sousa Tavares.

E já sabem, podem cantar os parabéns a você sem medo de serem processados.

Ou então não. "Quando o hit é música para bebés" é o título do episódio desta semana. Já sabe que encontra todos os episódios nas plataformas de podcast e também no nosso site em observador.pt. Também pode passar pelo YouTube, que de quando em vez estamos por lá a dar música e a fazer encontro com a beleza.

E por esta semana há mais.

Um abraço.

Tchau.

Até julho.