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Seja muito bem-vindo ao Encontro com a Beleza. Acontece todas as semanas aqui na Rádio Observador e é trazido pelo maestro Martim Sousa Tavares. Olá, Martim, como estás?
Oi, galera. Hoje vamos no Brasil.
Vamos no Brasil?
Hoje vamos no Brasil.
Ok. Lembro-me que em abril fomos algumas vezes à Espanha, não foi?
Pois fomos. E eu pensei: o que andamos aqui a fazer quando há tanto mundo, por que não expandir horizontes?
E o tempo ainda estará melhor lá daquele lado.
Acredito que sim. Pois então. Um tango brasileiro? Mas que crime de lesa-pátria é esse? Sabendo nós que o tango-
Polêmica.
Pois, polêmica. O tango é uma coisa argentina, os argentinos e os brasileiros são como o azeite e a água. Mas é verdade, na altura em que esta música foi feita, falava-se, os próprios brasileiros apresentavam-na como o tango brasileiro. Que altura foi então esta? A chamada Belle Époque tropical, que é final do século XIX, princípio do século XX, coincide com o ciclo da borracha, portanto, aquelas grandes fortunas, mesmo muitos portugueses que iam para o Brasil e voltavam de lá cheios de dinheiro, os famosos brasileiros. Camilo Castelo Branco fartou-se de incluí-los nos seus livros. E coincide com o fim do império. E vamos ao Rio de Janeiro, capital desse maravilhoso país do futuro, nas primeiras décadas do século XX, onde as pessoas dançavam um estilo de música que alguns diziam que é o tal tango brasileiro.
Mas que tem outro nome.
Exatamente, tem outros nomes. Um deles é o maxixe. Maxixe é uma terra em Moçambique, na zona de Inhambane, e era uma dança altamente sincopada. Como é óbvio, chama-se maxixe porque vem de influência de tráfico de escravos, portanto, migrações forçadas causadas por nós.
O Brasil é isso.
Exatamente, o Brasil é isso. E é também essa a sua glória, este melting pot de culturas. E era uma dança para abanar o rabo, uma dança muito sincopada, muito popular, que não se escrevia em partitura, uma dança iletrada, se quisermos, das classes baixas. E depois há o choro, que é uma dança um pouco mais complexa, um pouco mais letrada, que já se escreve em partitura, composta por compositores chamados chorões. E o choro e o maxixe, na verdade, são bastante parecidos. A única diferença é que o maxixe é, de facto, mais simples. São quem? São os antepassados do samba, que é a próxima grande dança brasileira que vai tomar o Brasil de assalto, e também da lambada. Lembras-te da lambada?
Claro. Caloma.
Exatamente, mas há todo um gênero de dança que é a lambada. Portanto, não é só aquela canção. Hoje vamos ouvir o avô destes gêneros. E a característica destas danças é muito engraçada, porque o maxixe e o choro vêm marcar uma diferença em relação às danças anteriores trazidas pelos escravos e mesmo dos povos nativos, que é a seguinte: quem está a dançar o choro não está a bater palmas, não está a cantar nada, está só a dançar. E portanto, tu divides o grupo. Antigamente, está toda a gente numa roda a bater palmas e a cantar e danças ao mesmo tempo. Agora não, tens os músicos a tocar e quem dança só dança. Portanto, é o carnaval do Rio de Janeiro. Tu tens as escolas de samba, quem está a dançar, só está a dançar. Na altura, isto era radical. E surgiu nos bairros populares, evidentemente, onde tinhas maiores fatias de comunidade e era inicialmente escandaloso, porque as pessoas, os corpos roçavam-se, homens com mulheres a dançar. E, portanto, quanto mais falam na cidade do escândalo desta dança, mais as pessoas ficam curiosas, mais começam a gostar. E aqui surge o Ernesto Nazaré, compositor natural do Rio de Janeiro, onde nasce em 1863 e morre lá em 1934, que foi um pianista, compositor, um chorão. Ganhou a vida como pianista demonstrador, que é engraçado. Trabalhava para casas que editavam partituras de choros, tangos e tudo mais, mas como não havia discos, tu para saberes se querias aquela partitura ou não, estava lá um pianista que a tocava. Portanto, tu dizias: "Gosto desta, vou levar". Depois tinhas que ir tu aprendê-la em casa. Mas ele fez isso e tocava em cinemas. Imagina, para veres o quão carioca este homem era, ele tinha 63 anos quando saiu pela primeira vez do Rio de Janeiro para fazer uma turnê. Em 1910.
Mas para quê? Naquela altura.
Mesmo.
Para quê sair?
Exatamente. Em 1910, ele tocava no foyer do Cinema Odeon, que era o grande cinema luxuoso do Rio de Janeiro, e tocava enquanto o filme não começava, enquanto o público estava ali no intervalo. E ele era tão bom, que começou a haver um público que ia lá só para assistir ao Ernesto Nazaré. Depois nem sequer via os filmes. E esta música que vamos ouvir é uma das muitas, das centenas de composições que ele deixou para piano, um choro. Chama-se precisamente "Odeon" e é a mais famosa de todas da autoria deste grande autor.
Espetáculo.
É o avô do samba ou não é?
Sem dúvida. A minha questão é: isto nasce mesmo nesta altura? Ele é um precursor deste tipo de som? Já havia samba nesta altura?
Não, o samba é uma coisa posterior.
Que engraçado.
Na verdade, este compositor e este estilo até vai cair um bocadinho em desuso, porque depois vem o samba musicalmente ainda mais rico, com outro tipo de instrumentos. Isto era piano, para todos os efeitos.
Sim, mas a partir ali do meio está ali tudo, não é?
Completamente. E o Vinicius escreve uma letra para esta música nos anos 60, que continua a chamar-se "Odeon", e que, de certa forma, vai fazer renascer este movimento de recuperação do Ernesto Nazaré. São muitos os autores desta altura. Há uma fascinante, que ainda hei de cá trazer um dia, chamada Chiquinha Gonzaga, que escreve a primeira marcha para o Carnaval do Rio de Janeiro.
Que engraçado.
É muito interessante.
Estava aqui também a ver esta história de ele ter saído pouco do Rio de Janeiro, ter aquela vida de pianista de salão de cinema.
Exatamente. Sempre com o cigarro ao canto da boca.
Faz lembrar um bocadinho também Fernando Maurício. Também é um fadista que poucas vezes sai de Lisboa, prefere a Mouraria, se calhar, o outro palco.
Sim, o seu mundo é aquilo, o seu público é aquele, para que é que vai a outros lados? Mas sabes o que é engraçado? Adoro tocar esta peça ao piano. E há uns anos mudei de casa e a empresa que me fez a mudança, todos os carregadores eram brasileiros e a única coisa que eles não iam transportar era o meu piano, que tinha que ser uma transportadora. Portanto, no fim a casa ficou vazia, estava lá só o piano e eu fiz o teste: toquei-lhes esta peça. Tinha ali seis ou sete brasileiros, para ver se algum deles conhecia isto. Nenhum.
Claro.
Porque a música já é outra.
Porque entretanto evoluiu.
Porque eles também não eram necessariamente cariocas. O Brasil é tão grande e tem tanta música, de facto. Fiquei com pena.
Mas eu acho isso perfeitamente normal.
Então estava à espera que algum deles dissesse: "Isto parece um choro ou parece um samba".
Nem sequer identificaram o género?
Não.
Que engraçado. Ernesto Nazareth.
Sim, escrita antiga. Exatamente, Nazareth.
Nascido e morrido no Rio de Janeiro.
Mais carioca não há.
Uma figura da cidade e um precursor do samba, podemos dizer, não é?
Sim, o avô do samba.
O avô, muito bem. Hoje, a propósito deste título, um tango argentino. Ai se os argentinos sabem. Título para o episódio desta semana de "Encontros com a Oblesa". Para a semana, o Martim Sousa Tavares regressa com outras descobertas e é por isso que vale a pena sempre ouvir, nem que seja em podcast.
É isso mesmo.
Até para a semana.
Pronto, vemos para a semana.