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Este é o Encontro com a Beleza na Rádio Observador, sempre com o Martim Sousa Tavares. Olá, Martim.

Olá. Sempre comigo. No dia em que não for comigo, cuidado.

Não há Encontro com a Beleza, terá outro nome. Hoje viemos falar de uma mulher num mundo de homens.

É verdade, porque como canta o grande Stevie Wonder, "It's a Man's World".

É verdade.

Por acaso gosto muito dessa música.

Também.

Gosto muito dessa canção, gosto muito do arranjo.

James Brown também.

É o James Brown que escreveu.

Acho que é o James Brown. Mas há muitas versões dessa música. Acho que o Seal tem uma versão dessa música.

Mas o James Brown é o homem que está na minha cabeça. E, de facto, eu hesitei antes de dizer o nome. No outro dia, vi um vídeo do Donald Trump no seu Caddynzinho de golfe, a pôr esta música a tocar antes de arrancar e pensei: "Raio, não queria nada que ele gostasse desta música", mas claro que gosta. Porque a verdade é que sim, it's a man's world, é um mundo de homens e na música clássica mais do que tudo. E eu pensei, cá pra mim: "Há muito tempo que não faço um episódio". Semana passada tivemos a Callas.

Só a Callas.

Mas digamos, sobre uma compositora. Eu lembro sempre que a música de intro do Encontro com a Beleza, que vocês também conhecem, é de uma compositora. Portanto, essa está cá sempre, mas temos ouvido pouca música escrita por mulheres. E hoje vamos ter uma das grandes compositoras do século XX. E se procurarem maiores compositoras da história, esta está lá sempre no top. Chama-se Germaine Tailleferre, é francesa e vive uma longa vida, que vai de 1892 a 1983. Portanto, sendo ela francesa, nascendo ela no final do século XIX, quer dizer que ela vai estar bem posicionada para estar em Paris nos anos 20. Que inveja. Muito FOMO, sempre que falo, leio ou ouço coisas dos anos 20. E sim, na altura ela também era uma mulher num mundo de homens, até porque ela nem sequer é parisiense, portanto ela tinha aqui o duplo efeito outsider. O que acontece? Ela nasce no tempo do, não vou dizer tocar piano e falar francês. Falar francês é claro que falava, porque era a sua língua materna, mas começa a aprender piano para efeitos de decoro familiar. Estamos a falar de uma educação ainda burguesa, de fim de século e, portanto, a menina vai aprendendo a tocar, só que ela gostava muito de tocar e tocava bem e vai insistindo que quer ter mais aulas, até que o pai às tantas está-lhe a dizer: "Ó menina, ó filha, já chega. A menina só tem que saber tocar um bocadinho para entreter os convidados quando vêm cá a casa. A partir daqui já começa a ser um bocadinho indecoroso". E ela disse: "Ó pai, vá à fava". E o pai diz: "Ah, é? Então estás deserdada". E ela diz: "Ah, é? Então vou mudar o meu apelido". E assim faz. Ela chamava-se Tailleferse e o pai vai mesmo deserdá-la aos 14 anos. Vejam bem que gesto de crueldade. E ela como resposta: "Ah, é? Então toma, também não sou tua filha". E de Tailleferse muda para Tailleferre. Portanto, já vemos aqui que é uma mulher aguerrida e que está disposta a perder tudo para ganhar a sua própria voz na música. Mas isto significava o quê? Que ela então tinha que se sustentar. E assim fez ao longo de toda a vida. Ela, nos anos 20, vai integrar um grupo chamado Les Six, os seis.

Era a malta de um bairro, não é?

Era, exatamente. Era do Six AM. Por acaso não, porque eles eram todos ali da zona de Montmartre, não sei qual é o arrondissement.

Mas eram também conhecidos como o grupo de Montparnasse.

Exatamente.

Os seis de Montparnasse.

Sim, mas imaginem o que é. Nesta altura-

Estarem ali os seis naquele bairro.

Mas ali ao lado está o Dali, e depois está o Hemingway a passar por ti, depois está o Cole Porter. Ou seja, são todos. É realmente uma sorte viver nessa altura. Quem coordena ou quem dá a inauguração para este grupo dos Les Six é o Cocteau. E estavam lá outros compositores destacados, um dos quais já é nosso conhecido, que é o Poulenc, que já aqui tivemos pelo menos duas vezes. Ela até vai ser muito apadrinhada por figuras de destaque. O Erik Satie vai dizer que ela é a sua filha musical. Já que o pai rejeitou-a, então ela é minha filha musical.

O Ravel também.

Sim, o Ravel recebia-a em casa, mas a vida dela não foi fácil, coitada. Ela teve dois casamentos fracassados, um dela deixou uma filha. A vida não era nada fácil. E o primeiro dos maridos, este é um caso engraçado. Ela casou com um americano, que era também artista, que estava em Paris naquela altura, como os americanos costumavam fazer. Eu falei no Cole Porter, falei no Hemingway, eles de facto iam pra lá, que era um tipo chamado Ralph Barton, que não é um nome conhecido hoje em dia. Ele era cartunista, mas era o cartunista do mundo. O Ralph Barton, quando imaginamos a linguagem gráfica dos anos 20, é dele. Todos os cartoons de atores de Hollywood, do cancan, do Vaudeville, etc., era tudo ele. Ele ganhava muito dinheiro, era muito famoso.

Os cartazes desta altura são espetaculares.

São lindos.

Os franceses desse tipo de espetáculos.

São espetaculares.

Ainda hoje se vendem essa falta.

Sim, exatamente. Aliás, vale a pena procurar Ralph Barton. Ela foi a quarta mulher dele e ele não a deixava compor. Ele tinha vergonha. Até ele, um artista, dizia: "Não, mas eu ganho dinheiro suficiente, tu não tens que me fazer passar vergonhas". Eles vão para os Estados Unidos depois dela casar. Ele já vinha todo rebentado, já vinha de uma depressão. Ele suicidou-se passados poucos anos. Mas pronto, isto para dizer que até o próprio marido artista lhe está a pôr entraves. Coitada, ela vai tendo azar, às tantas tem uma encomenda finalmente para escrever um bailado para os Ballets Russes, do Diaghilev, que era uma companhia incrível. Em 1929, o homem, o Diaghilev morre em 29, a companhia vai à falência. Ela já não consegue concretizar esse sonho. No pós-guerra, tem que se dedicar a fazer coisas com economia de meios, tipo ópera radiofónica Que é como se fazia teatro radiofónico, várias pessoas à volta do microfone a cantar e a tocar.

Tipo música de estúdio.

Exatamente, ópera radiofónica.

O pessoal que faz os jingles na hora. É espetacular.

Exatamente. É lindo, com a sonoplastia toda, fazer o vento, e depois há aqui um dado que me deixa triste, porque conta tudo que aos 84 anos, quando ela já devia estar tranquilamente reformada, ela aceita uma posição a acompanhar, sentada ao piano, a tocar aulas de música para crianças de uma escola particular. Nem sequer é uma escola de música, é uma escola de meninos ricos. Aos 84 anos, coitada da senhora, faz isto. Apesar de ela ter um catálogo super extenso, parece que o mundo nunca a deixou verdadeiramente ser quem tinha que ser e nunca deixou de a ver como uma nota de rodapé. Ela compôs toda a vida e este facto é engraçado: ela nasceu no século XIX, mas viveu mais do que os Sex Pistols. Ela conseguiu viver para ver, e ver morrer, Sid Vicious e os Sex Pistols. É de facto uma vida muito longa. Vamos ouvir uma peça muito bonita dela, que tem pelo menos 10 milhões de escutas no Spotify. Se ela fosse viva agora, estaria, bem o Spotify paga mal, mas monetizando as escutas todas, ela se calhar hoje teria o reconhecimento que merece. Vamos ouvir a "Valsa Lenta".

Bem, nada mal.

Coitadinha, não é? Aos 84 anos.

Eu estava a ver as imagens dela com essa idade a dar aulas. Está aqui uma fotografia dela a dar aulas.

Davas-lhe 60.

Não era isso. Acho que acontece com outros compositores, outros pianistas já bastante idosos, darem aulas. Há aquela coisa de: "Não, ele teve aulas com não sei quem".

Sim.

Não é?

Mas eu acho que aqui, ela dava aulas, sim, mas aqui ela estava a acompanhar aulas de música de crianças. Estava com o coro das crianças, a cantar. "Olhe, toca aí uma escala de dó maior, se faz favor". E é a coitada da senhora que está.

Sim, já não é aquela coisa da decana que está ali ao lado com o novo. Muito bem, ficamos a conhecer a vida de Germaine Thaïfert. Como é que era antes?

Thaïfess.

Thaïfess. E ela chateou-se com o pai e disse: "Nem pensar. Vou trocar o S pelo R e não temos mais relação absolutamente nenhuma". Esta é a história dela, trazida aqui ao "Encontro Com a Beleza" pelo Martim Sousa Tavares. E que venham mais mulheres, porque este mundo tem de deixar de ser só de homens, não é?

É verdade.

O mundo comportou-se como um homem com ela.

Completamente.

Vamos conhecer estas e outras histórias no próximo episódio do "Encontro com a Beleza". Um abraço, Martim.

Tchau!