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E já cá estamos para mais um Encontro com a Beleza. Acontece todas as semanas na Rádio Observador. Podem acompanhar este podcast também nas plataformas habituais e no nosso site em observador.pt. É aqui trazido à rádio pelo Martim Sousa Tavares e é sempre um gosto. Olá, Martim. Olá.

Olá.

Como estão? Depois de uma valsa japonesa na semana passada. É verdade. Vamos agora ter aqui um nome português. Boa. É um nome daqueles que eu acho que toda a gente conhece: Maria João Pires. Na verdade, são três nomes. O que é que sabem sobre a Maria João Pires? Já alguma vez a ouviram ao vivo? Já tiveram essa sorte?

Ao vivo, não, mas já ouvi falar muito sobre ela.

Mas gostavam?

Sim, gostava.

Maria João Pires faz 81 anos para o ano que vem, portanto, já não são muitas as oportunidades. Ela ainda está com uma carreira muitíssimo activa, mas 81 anos são 81 anos. Portanto, eu acho que oportunidades para a ouvir ao vivo são oportunidades de ouro. E de facto, no próximo dia 15 de junho, no Festival de Sintra. Eu não estou aqui a fazer publicidade, porque este concerto esgotou há que tempos.

Eu recebi essa comunicação, sim.

Pronto, esgotou há que tempos. Na verdade, a própria sala, o Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, abriram-se todos os lugares possíveis, incluindo aqueles balcões laterais lá em cima. Mais cadeiras houvesse, mais se vendiam.

Quer isso dizer que eu desperdicei mais uma oportunidade.

É possível que sim. Ela, na verdade, vai agora fazer três recitais a solo. E isto é que é de facto muito raro, porque ela até toca com orquestra, toca com outros músicos, mas a solo, à pianista mesmo, é muito raro, até porque é muito exigente do ponto de vista físico e, como disse, 80 anos são 80 anos. E ela vai agora tocar em Braga, em Sintra e em Faro, uma espécie de digressão nacional, de reencontro com o seu público e já estão todas as datas esgotadas. Mas é sinal de um carinho muito grande que a Maria João Pires merece dos portugueses. E justamente, estamos a falar de uma pessoa que foi Prémio Pessoa em 89, é membro honorário da Royal Academy of Music, recebeu o Prémio Imperial do Japão, que é um prémio que é entregue pelo Imperador do Japão, em 2024, foi várias vezes condecorada por vários países. Enfim, é uma pessoa que de facto é um tesouro. Mas o nome Maria João Pires ficou para sempre associado aos noturnos de Chopin. Eu não sei se têm esta ideia. É essa associação. É a gravação, o non plus ultra. Ela gravou toda a vida para a Deutsche Gramophone, portanto, estamos a falar da maior label da música clássica, e gravou coisas incríveis.

Não relacionado, ela tem um prémio Gramophone, que é uma espécie de Óscar da música.

Não, é o da revista Gramophone.

Exato, era isso. Não relacionado.

É o Óscar.

É o Óscar da música.

Ou um Grammy. E é de 2015. Sim. Ela ganhou tudo. Aliás, a gravação dela dos noturnos de Chopin, nós vamos ouvir um deles, é considerada a melhor gravação dos noturnos de Chopin, ponto final. Portanto, pianistas podem parar. Não vale a pena.

Não tentem mais.

"Ah, queria aqui gravar um disco". Não, não graves. Grava os noturnos de outra pessoa. Do Chopin, não. Agora, vamos ouvir um desses noturnos aqui em vénia à Maria João Pires e a piscar de olho àqueles que, astutos, atacaram a Ticketline e compraram. E estas coisas não é mandar uma mensagem para o grupo de família e perguntar: "Quem quer?" Não, é tu vais e compras logo. Tu orientas-te. Se fores simpático, compras um a mais. E depois arranjas quem queira ir. Felizmente, também não deve haver uma fila de espera tipo Bad Bunny. Comprar para a Maria João Pires deve ser um bocadinho mais fácil, ainda assim. Só que são muito menos bilhetes. Também é verdade. Encher um estádio ou encher um auditório. Eu acho que são fenómenos parecidos. Talvez o rácio de vendas.

Vamos fazer aqui uma comparação entre Maria João Pires e Bad Bunny. Boa!

Será que as pessoas que ouvem Maria João Pires sabem quem é Bad Bunny?

Ou vice-versa.

Sim. Talvez o diagrama de Venn se cruze e haja pessoas que vão às duas. Bom, vamos ouvir então um dos noturnos de Chopin, na verdade, o último do disco, até porque é um noturno póstumo, foi publicado só depois da morte do Chopin. E queria só falar um bocadinho sobre estas peças chamadas noturnos, porque dizer os noturnos de Chopin é quase...

O que é que isso significa?

O que é que são os noturnos de Chopin?

Força.

Também há os diurnos de Chopin.

Estou interessado nisso.

Há os matutinos de Chopin.

Finalmente faz as perguntas que são necessárias fazer e responde-as. Diz mais, Martim.

Então, em primeiro lugar, o Chopin não inventou os noturnos. Há os noturnos de outros compositores também.

É um género de composição?

É um género. O tipo que inventou isto chamava-se John Field, era um irlandês, é da geração anterior a ele.

E era noturno ele mesmo?

Sim, são peças que dão um caráter noturnal. Portanto, tu ouves esta música e é impossível pensares no sol. É como aquela coisa: não penses em elefantes cor-de-rosa. Tu ouves esta música e não consegues pensar em nada que seja diurno. De facto, transporta-nos para uma atmosfera noturna. Isto vem no primeiro romantismo, portanto, peças livres, fantasiosas, mas no fundo, estamos a falar de melodias ao piano que podiam ser canções, só que não têm letra, não têm voz, mas o piano está sempre ali a cantar uma melodia. E o Chopin era mestre nisso. De dizer que o Chopin admirava imenso o John Field, que é o tipo que inventa os noturnos, mas o Field esnobava imenso o Chopin. Ouvia o Chopin e dizia: "Isso não vale nada". Do género, eu é que inventei isto, mas eu acho que na arte, eu gosto muito de dizer isto, não interessa quem faz primeiro, interessa quem faz melhor. E os noturnos de John Field, bola. Ninguém ouviu falar deles. Já os noturnos de Chopin, muito bons. Portanto, o John Field teve a oportunidade de ficar do lado certo da história, não o quis fazer, esnobou o Chopin. Vamos ouvir o último destes noturnos, que na verdade, nem sabemos se é um noturno, porque o Chopin deixou isto em manuscrito e não escreveu lá a palavra noturno, mas sabendo nós o estilo dele, isto provavelmente seria um noturno. Tocado pela Maria João Pires com o seu toque de Midas, que, com sorte, poderá tocar um destes noturnos como encore já na semana que vem.

Por que ela é tão conotada com Chopin? O que ela traz a Chopin que é diferente de outros intérpretes?

Eu acho que é a sensibilidade dela. O Chopin tem esta nostalgia profunda. Há um quê de nostálgico, não vou dizer que é por ela ser portuguesa e a saudade, esse discurso enjoa-me um bocadinho, mas a verdade é que ela tem gosto para isto, tem a mão certa para isto, tem o peso certo para isto, tem uma identificação muito grande com o Chopin.

Engraçado.

E provavelmente gosta de tocar durante a noite, não sei.

Sim.

Não concordam que é impossível pensar na luz do dia?

É.

Ouvir esta música.

É engraçado. E eu gostei da tua explicação, porque estava curioso também com essa origem da palavra noturno, por que é noturno. Ok, fiquei esclarecido.

É só o caráter da coisa.

Sim, faz sentido. E a Maria João Pires, de facto, tem essa coisa. Depois parece que tem uma certa leveza.

É o chamado touché.

Mas é engraçado, porque tu como artista, se calhar tu não escolhes o tipo que se identifica mais contigo.

Não, eu acho que é uma coisa mesmo biológica. E aliás, há muita música que ela nunca sequer tocou. Não é uma pessoa da música contemporânea, não é uma pessoa para tocar Rachmaninoff. Até porque ela tem mãos pequeninas, ela própria diz isso: "Há muito repertório que está automaticamente de fora, porque a minha mão não dá para isso".

E o Rachmaninoff tinha aquela coisa do dedo muito comprido.

Sim, ele tinha acromegalia.

Como quem diz, gigantismo. A Maria João Pires tinha que pôr um lápis.

Umas próteses, sim.

Exato. Mas falámos disso no outro episódio do "Encontros com a Beleza". "Encontros com a Beleza", com o maestro Martim Sousa Tavares, sempre aqui na Rádio Observador. Pode acompanhar-nos também em vídeo, ficamos pelo YouTube.

Por favor, acompanhe-nos em vídeo.

Sim, ao longo da semana vão saindo os episódios semanais aqui do "Encontro com a Beleza", que também passam pela Rádio Observador. Um abraço, Martim. Até para a semana.

Até para a semana.