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Bom dia.

Muito bom dia.

Bem-vindo ao Carpool do Observador, por assim dizer.

Sem dúvida.

Bem-vindo aqui ao Carpool, candidato à Câmara do Porto. Estamos mesmo ao lado da Câmara Municipal do Porto. Depois de muita tinta correr sobre o candidato que o PSD ia apresentar à Câmara Municipal do Porto, estamos aqui consigo, é o escolhido. Além disso, conseguiu selar uma coligação com a Iniciativa Liberal e com o CDS. Vamos começar já por aí. Depois de um ciclo tão grande de Rui Moreira, e de haver muitos candidatos no Porto, qual é a importância dessa coligação e de poder contar com esses parceiros?

Esta é uma candidatura, eu assumi-o desde o início, que tinha que ter algumas características. Era ser genuinamente aberta à cidade e, eu chamei-lhe na altura, desde o início, uma plataforma de cidadania. E para isso era importante que fosse para além da lógica estritamente partidária. Partidária do meu partido, o PSD, mas também daquilo que é a lógica até de todos os partidos. E por isso é que é uma coligação que tem o PSD, o CDS e a Iniciativa Liberal, portanto, muito alargada, uma coligação que é original, digamos assim, ainda não aconteceu em nenhuma circunstância, é a primeira vez, mas também que junta muitos independentes. Nós temos até um movimento que se gerou espontaneamente, chamado Independentes do Porto, que estão também a apoiar ativamente. São cerca de mil pessoas que subscreveram o documento de apoio e que se têm organizado também no sentido de dar o seu apoio. Portanto, cumpriu-se aquilo que eu queria, que é ser uma candidatura muito abrangente, uma candidatura da cidade, mais do que uma candidatura partidária.

Apesar dessa coligação e, como dizia há pouco, há muitas candidaturas. Acho que é um recorde de candidaturas desde há muito.

Parece que sim.

Esta dispersão de votos, principalmente com a existência de vários candidatos no espaço centro-direita, acha que pode sair prejudicado de alguma forma se essa dispersão de votos acontecer?

Teoricamente, sim. Isto é uma questão quase matemática, portanto, eu acho que em teoria, sim. Agora, na prática, eu estou a sentir e tenho essa expectativa, no tempo que ainda falta até às eleições, de que se gere uma dinâmica dentro desta candidatura que seja suficientemente agregadora para ultrapassar um pouco essa lógica mais teórica dos espaços políticos e das ideologias. Acho que uma candidatura a uma câmara municipal é diferente de uma candidatura, por exemplo, à Assembleia da República ou à governação do país. E as pessoas mobilizam-se muito pelas pessoas, pelos projetos. E, portanto, independentemente daquilo que teoricamente pode ser uma dificuldade, que é haver uma fragmentação de candidaturas, nomeadamente no espaço político em que eu me integro, eu acho que se pode gerar, e estou convencido que se vai gerar, uma dinâmica que vai ultrapassar isso.

E antes de começarmos aqui a rota pelo Porto, por assim dizer, já estamos aqui na Avenida dos Aliados, mas gostava de lhe perguntar, ainda neste sentido de coligação, houve muitas notícias à volta de Filipe Araújo, que é o atual vice-presidente da Câmara do Porto e que fazia parte do movimento Rui Moreira. Entende a decisão de ter ido a votos sozinho? Deu-lhe uma nega, pode confirmar isso? Tentou ou não?

Eu próprio, e principalmente muitas pessoas da minha candidatura, têm tentado sempre mostrar que esta é uma candidatura aberta a toda a gente. E houve sempre espírito, e há, aliás, continua a haver um espírito muito aberto de querermos agregar, somar pessoas e ideias à nossa candidatura. Houve contactos, é verdade, com o atual candidato Filipe Araújo, com outros candidatos também. Aqui não houve qualquer vontade de negar seja o que for a ninguém. Agora, eu acho que é legítimo, cada um faz o que quer, responde pelos seus atos, digamos assim.

Mas sempre fez tudo o que podia para contar com Filipe Araújo, o socialista.

Tudo que era razoável, tudo que era racional e, principalmente, tudo que era o interesse da cidade. Portanto, aí foi feito. Agora, às vezes as pessoas, também é legítimo, mas colocam muito aquilo que são as suas motivações pessoais, os seus interesses e ambições individuais acima de outras ideias e eu respeito isso.

Mas fica alguma mágoa para o dia seguinte ou se por acaso ganhar a Câmara Municipal e precisar de um vereador da chamada oposição, poderá contar com Filipe Araújo?

Não, mágoas não, porque eu não me movo por isso. A minha forma de ser, desse ponto de vista, é muito tolerante, desde logo. E depois, porque mesmo que assim não fosse, eu acho que quando nós estamos a assumir responsabilidades institucionais, as questões pessoais têm que ficar para trás. Eu mesmo que ficasse muito incomodado e muito magoado do ponto de vista pessoal, isso tinha que ficar para trás. Mas nem é o caso, não fico, felizmente. Tenho outras vertentes da minha vida pessoal que me mobilizam para esse tipo de sentimentos. Não é na vida política. Agora, também é muito importante que fique claro. No dia seguinte, eu não vou atrás de acordos políticos só por ir. Eu acho que é sempre o interesse da cidade que vai estar em primeiro lugar Em última circunstância, se for preciso governar em minoria, nós vamos governar na mesma e vamos conseguir transformar a cidade como queremos. Portanto, não vejo aí problemas especiais. O que eu quero dizer com isto? Eu não vou às compras, não vou andar a negociar lugares em troca de votos. Isso está completamente fora de hipótese.

Já vamos voltar a esse tema, mas vamos aproveitar que estamos aqui a chegar ao Mercado do Bolhão.

Verdade.

E gostava de recordar o momento em que confirmou que era candidato à Câmara do Porto. Houve até alguma polêmica e várias críticas à volta da escolha desse momento. A esta distância, teria feito diferente? Teria escolhido um espaço que não o intervalo, digamos assim, de um Conselho de Ministros para confirmar essa candidatura à Câmara?

Genuinamente, não. Teria feito igual. Agora eu vou contar uma história que daqui a uns anos toda gente se calhar vai acreditar, porque eu vou contar, porque é de facto um episódio daqueles que ficam para a história. Hoje eu admito que seja difícil as pessoas interpretarem desta maneira, mas foi mesmo uma coincidência. Eu tinha previsto escrever um artigo no jornal da cidade, no Jornal de Notícias, em que iria manifestar a minha decisão de me candidatar. Isso fiz, assim escrevi, assim combinei com o jornal a publicação desse mesmo artigo e já estava tudo a ocorrer quando me foi dito pelo primeiro-ministro que tinha a intenção de fazer um Conselho de Ministros, que tinha se lembrado e pode-se fazer no Mercado do Bolhão. E coincidiu exatamente no mesmo dia. Eu sei que isto é muito difícil de se perceber, aliás, eu nem fiz questão de dizer isto porque podia parecer tudo uma encenação. Mas a verdade é que foi mesmo uma coincidência. Mas eu acho que foi uma coincidência feliz, ainda por cima. Por quê? Porque nós temos que ser transparentes na vida política e a partir do momento que eu assumi uma decisão de me candidatar à Câmara do Porto, eu também o fiz para que todo o país e para que o próprio governo percebesse que eu estava a tomar aquela opção. Atenção, não foi bem no meio de um Conselho de Ministros. Aquilo que ocorreu é que, de facto, foi nessa manhã, através de um artigo de jornal em que a decisão foi comunicada, e depois eu acho que por naturalidade, quando vim para o Bolhão, a comunicação social, os seus colegas naturalmente interrogaram porque era de facto o tema do dia.

Tem-lhe valido algumas acusações. O seu principal adversário, Manuel Pizarro, disse que é o delegado do Governo a estas eleições autárquicas. Como é que vê essas acusações? Não o chateia ter esse tipo de afirmações sobre si?

Não. Eu já tenho demasiados anos de vida política para perceber que estas coisas fazem parte e, portanto, para ser completamente honesto, quando a crítica que me fazem é essa, eu sorrio porque digo: "É bom sinal". Porque não há nada de mais complicado para me atacarem, nem há críticas a apontar, porque essa, de facto, é uma crítica um bocadinho absurda. Eu fiz parte do governo do país e acho que nós não temos de ser provincianos no Porto ao ponto de achar que uma pessoa do Porto não pode assumir uma função de ministro. Era o que faltava. Ou só porque o faz, de repente passa a ser um emissário de Lisboa. Deus me livre. Até que o próprio Manuel Pizarro também já o fez. E acho que isso é um motivo de orgulho da cidade. Eu não o acuso disso, ao contrário. E portanto, nesse aspecto, eu cumpri uma missão. Acho que quem conhece o meu percurso de vida sabe. Foi uma missão que eu desempenhei no governo e agora resolvi empenhar-me numa outra missão, que eu faço com mais gosto, acho que é claro. E eu tenho essa particularidade que eu decidi deixar de ser ministro para ser candidato à Câmara do Porto. Eu decidi, por minha vontade, voluntariamente, dedicar-me à minha terra, dedicar-me à minha cidade, e é isso que estou a fazer.

Acha que as lojas históricas aqui do centro do Porto devem ser protegidas e, se necessário, a Câmara, a autarquia deve pagar por isso, por esses custos de manutenção desses espaços?

Acho que é fundamental haver uma estratégia e uma política pública para manutenção das lojas tradicionais, porque fazem parte da identidade da cidade. E, portanto, eu diria que há uma política pública que tem que existir, que defenda a identidade da cidade. E as lojas tradicionais passam por isso. Acho que deve haver uma política pública equilibrada, sensata, evidentemente, e portanto não é de repente vamos nacionalizar essas lojas, ou municipalizar essas lojas. Mas pode haver um conjunto de incentivos e de apoios, isso sem dúvida nenhuma.

Não saindo aqui do tema do turismo, e antes de passarmos para outros, vamos dirigir-nos a outros locais.

Certo.

Faz sentido aumentar o valor da taxa turística do Porto?

Faz. E eu tenho a intenção de o fazer, até porque uma das minhas propostas é termos transportes públicos, seja o metrô, os autocarros, a STCP, seja os comboios da CP, o transporte fluvial, serem gratuitos para todos os portuenses, e a forma de o financiar vai ser através do aumento da taxa turística. Tem um objetivo adicional que nós, hoje em dia, estamos, em termos da cidade do Porto, nós não temos um problema de quantidade de turismo, já temos turistas em número muito interessante, eu diria, mas se me permitir esta expressão com muitas aspas, mas a qualidade do turista, do ponto de vista daquilo que é o retorno para a cidade, acho que o podemos melhorar. Isto é, nós precisamos que os turistas que vêm à cidade deixem mais dinheiro na cidade do que aquilo que têm vindo a deixar. E, portanto, precisamos de aumentar a receita do turismo, não precisamos de aumentar o número de turistas na cidade. E uma forma de o fazer é, de alguma maneira, através da taxa turística, que é uma espécie de uma regulação do mercado que queremos em termos turísticos. E apesar de tudo, vão me desculpar, mas acho que o Porto hoje em dia tem peculiaridades, do ponto de vista turístico, que justificam que nós possamos ter uma taxa que se aproxime daquela, para não dizer que ultrapassa aquilo que é a taxa, por exemplo, de Lisboa ou de Cascais. E portanto, acho que sim, vamos aumentar.

Mas tem um valor pensado para até o fim do mandato?

Sim, no curto prazo vamos aumentar €1 e portanto €3 para €4. Mas eu não ponho de lado a hipótese de chegarmos aos €5. Até porque, como eu digo, do ponto de vista da nossa gestão orçamental, vai ser este dinheiro alocado para os transportes públicos e vai depender um pouco daquilo que vai ser a resposta das pessoas na utilização dos transportes públicos. Portanto, nós se precisarmos de mais receita, nós aumentaremos €2 a taxa turística.

E em termos de hotéis e alojamento local, deve haver um travão no número de construção de hotéis, em termos de alojamento local, deve haver um limite, como é que isso deve ser gerido?

Eu acho que nós, felizmente, no Porto, acho que encontramos uma solução para já equilibrada, que vale a pena avaliar, mas ainda a atual Câmara conseguiu isso. Nós temos hoje em dia já um filtro, nomeadamente em determinadas zonas da cidade, são zonas que estão estabelecidas, onde de facto há uma limitação ao número de novos alojamentos locais e também daquilo que é quartos de hotelaria. Portanto, desse ponto de vista, eu acho que este é o momento para nós pararmos para avaliar. Acho que se estagnou, porque houve de facto um boom gigantesco. E pelo que eu vou percebendo, a informação que temos do ponto de vista dos hotéis, ainda há em pipeline um número muito significativo. E, portanto, nós temos, evidentemente, de agora começar a atenuar este crescimento, para podermos avaliar. Como digo, acho que foi muito importante. O turismo foi fundamental para a cidade do Porto, é hoje em dia, do ponto de vista económico, vital para a cidade, mas tudo tem que ter o seu peso certo, a sua conta certa.

Vamos aproveitar este trânsito, que estamos aqui a atravessar até chegar ao outro ponto.

Infelizmente, é habitual este trânsito.

Até chegarmos aqui a outro ponto, para voltar um bocadinho à conversa que estávamos a ter antes de chegarmos ao Mercado do Bolhão, sobre o dia seguinte às eleições. Como sabemos, nas Câmaras Municipais, basta um voto a mais para se ser presidente da Câmara, pode consegui-lo sem maioria absoluta, estava a dizer que poderá até governar em minoria, que isso não será um problema. Mas está disposto a falar com todos?

Sim, isso estou. Acho que tenho essa obrigação. Portanto, como eu há pouco dizia, independentemente daquilo que são as minhas motivações pessoais, os meus gostos pessoais, a minha maior ou menor empatia com determinado tipo de pessoas ou de partidos, a partir do momento que for eleito presidente da Câmara do Porto, eu tenho uma responsabilidade institucional. E, portanto, eu acho que devo falar com todos aqueles que tiverem sido escolhidos pelos portuenses, quer eu goste, quer não goste.

E podemos assistir a uma movimentação à la Rui Moreira para tentar ir buscar um vereador chamado Manuel Pizarro ou está fora de questão?

Acho que é muito prematuro. Eu acho que Manuel Pizarro é o candidato socialista, é do Partido Socialista e, portanto, objetivamente está longe daquilo que é o meu espaço político e ideológico. Desde sempre, eu conheço, mas tenho uma relação muito boa com ele, conheço-o há talvez 30 anos, provavelmente. E sempre estivemos em polos opostos do ponto de vista político, mas isso nunca impediu de termos uma boa relação pessoal. Agora eu acho que é muito prematuro estar-se a especular, digamos assim, sobre isso, até porque eu não faço ideia qual seria a sua disponibilidade, Manuel Pizarro, de continuar a dedicar-se à cidade do Porto como vereador.

Mas desse ponto de vista, preferia, por exemplo, contar com o Filipe Araújo, como falávamos há pouco.

Não, genuinamente não preferia.

Não preferia Filipe Araújo a Manuel Pizarro.

Não, não tenho nenhuma razão para preferir.

E quanto ao Chega, o candidato também já fez parte do PSD. No Porto vai ser traçada uma linha vermelha ou não será assim?

Eu acho que em termos autárquicos, não faz sentido linhas vermelhas quanto a forças partidárias. Faz sentido linhas vermelhas quanto a determinado tipo de princípios e políticas. E portanto, há algumas que eu não vou abdicar. As pessoas conhecem o meu pensamento, eu tenho pensamento humanista desde sempre, personalista, em que para mim a pessoa humana está acima de qualquer outra coisa. E nós todos sabemos que o Chega se esquece muito desse tipo de valores e de princípios e vai atrás de populismos que eu manifestamente não me revejo. Agora, isso não me dá o direito de de repente eu ter um capricho e ter uns amuos. E, portanto, tudo que seja para o bom interesse da cidade do Porto, eu estarei disponível para conversar com toda a gente, isso não há qualquer dúvida.

E já agora, se por acaso não for eleito presidente da Câmara, conta assumir o lugar de vereador?

É muito prematuro. Eu genuinamente sou candidato a presidente da Câmara, acho que isso toda a gente percebe. Aquilo que me motiva é isso, não sou candidato, como outros são, com toda a legitimidade, candidatos a serem eleitos vereadores. Acho que no meu caso, pelo menos no meu caso, e eventualmente do candidato do Partido Socialista, é muito claro que somos os dois candidatos a presidente de Câmara. E é nisso que eu estou focado nesta fase. Não ponho outro cenário em cima da mesa e não perco muito tempo nisso. Acho que as pessoas também, se se puserem no meu lugar, perceberão. Não faz-me sentido eu nesta altura estar a colocar outros cenários.

Mas isso, pela sua resposta, significa que não pode jurar a pés juntos que ficará como vereador.

Nem seria muito sério da minha parte dizer isso. Nem acredito, aliás, que o candidato do Partido Socialista diga algo diferente, porque nós, de facto, somos os dois candidatos a presidente de Câmara.

E acha que é legítimo depois não ocupar esse lugar?

Depende das circunstâncias, mas acho que sim. Já vi muitos casos em que isso aconteceu e acho que não é censurável, desse ponto de vista.

Vamos aproveitar então que estamos mesmo a chegar, para falar um pouco sobre a habitação Aqui no bairro da Pasteleira, como noutros, ao longo dos mandatos de Rui Moreira, houve tanto construção como reabilitação. Este bairro foi um deles, houve obras nos últimos anos. Qual é o seu objetivo em termos de construção, de número de casas para a cidade?

Nós temos um problema de habitação no país. Aliás, até na Europa, mas em particular no país, temos um problema de habitação grave que se deve essencialmente ao preço das casas. Quer seja para compra, quer seja para arrendamento. E, portanto, também a Câmara Municipal tem uma responsabilidade aí. E nós vamos focar, desse ponto de vista, a nossa política para tentarmos ter casas com rendas acessíveis, em particular para os mais jovens. E eu não queria muito entrar nesta lógica de números, por quê? Porque nós vamos ter que ir avaliando aquilo que é a realidade do mercado e a Câmara tem que responder. Algo que eu posso afirmar já, e já o tenho dito, nós vamos pelo menos quadruplicar aquilo que é atualmente a oferta da Câmara Municipal, em termos de arrendamento acessível. Portanto, estará pelo menos umas 1600 casas disponíveis. Mas isso eu diria que é o limiar que posso assumir já. Se nós virmos que há mais necessidades, evidentemente que teremos de encontrar novas respostas.

Considera que é mais fácil construir novas casas do que reabilitar até edifícios devolutos?

Não, a facilidade depende de muitas naturezas, dos próprios edifícios, mas eu prefiro que se recuperem edifícios devolutos. Por várias razões, desde logo pelo espaço público, urbano e paisagístico da cidade. E, portanto, a prioridade vai ser essa. Aliás, a primeira medida até do nosso programa do ponto de vista de habitação, é precisamente fazermos um mapeamento daquilo que são edifícios devolutos na cidade, começando desde logo por aqueles que são os municipais ou do Estado central, e começando precisamente por aproveitar esses edifícios para os reabilitar e para os colocar no mercado.

Disse: "O Porto tem muita população a viver em bairros sociais". Disse, salvo erro, que alguns casos se tornaram em verdadeiros guetos no meio da cidade, creio que foram estas as suas palavras. O que quer dizer com isto e como é que se resolve esse problema?

Certo. Começando por factos. A cidade do Porto tem, e isso é motivo de honra, não é uma crítica, tem uma população a viver em habitação social, portanto, em bairros sociais como aqui no Porto lhes dizemos, muitíssimo superior àquilo que é a média nacional. Nós temos cerca de 13% da população da cidade, quando a média nacional está volta dos 2%, ou que nem chega a 2%. Por exemplo, a segunda maior cidade é Lisboa, não chega aos 8%. O Porto tem 13%. Portanto, é um caso, é um outlier, digamos assim, no país.

Mas como é que se chegou aí?

Provavelmente por várias circunstâncias, por necessidade, naturalmente, e porque eventualmente outras Câmaras e outros concelhos limítrofes, no fundo, aproveitaram-se um pouco de o Porto estar a ter esta disponibilidade, e o Porto foi importando, digamos assim, um conjunto de pessoas que encontraram respostas sociais na cidade e não noutro tipo de concelhos. E por isso é que eu acho que nós precisamos daqui também de equilibrar isto um pouco. Tem de haver um esforço geral, pelo menos metropolitano, a este respeito, mas não só. Um esforço metropolitano para, de repente, a cidade do Porto não resolver os problemas todos do país. É isso que eu também quero dizer, mesmo quando vejo outros candidatos a prometer milhares e milhares de casas. Nós não podemos crer que seja a cidade do Porto a resolver o problema da habitação no país. Nós temos de resolver o problema da habitação dos portuenses. Construirmos casas e casas. A achar que, como eu já ouvi, nomeadamente do candidato socialista, dizer que isto é um problema económico, que resolve-se aumentando a oferta, vai se resolver o problema do preço, é uma ilusão de principiante, eu diria. Porque a oferta de habitação na cidade do Porto gera mais procura, só por si. Porque as pessoas, naturalmente, preferirão sempre viver numa cidade do Porto do que viver, se calhar, no interior ou viver num concelho limítrofe.

Mas quando fala em guetos afogados no meio da cidade, está a referir-se especificamente a quê?

Nós temos alguns fenômenos. Felizmente, estamos a falar de dois ou três bairros. Nós temos 50 bairros na cidade do Porto e a esmagadora maioria não tem esses problemas. Estou a pensar em casos muito concretos, um deles passamos ali há bocadinho, que é o da Pasteleira Nova. Que são casos que hoje em dia são, de facto, centros de tráfico de droga. E que se guetizaram precisamente porque são, em certo sentido, dominados por pessoas que manifestamente não deveriam ter acesso à habitação social e usam esses espaços para uma espécie de supermercado de droga. Isto é inaceitável, na minha opinião. Seria sempre inaceitável numa cidade nós convivermos com isto. É particularmente revoltante, eu diria, ser o dinheiro público que no fundo, está a subsidiar as casas dessas pessoas. E, portanto, aí nós vamos ter que ter uma atitude um bocadinho diferente para resolver este problema. Vamos ter que ter mão firme, basicamente, para ultrapassarmos esse problema.

Os inquilinos que vivam em casas municipais e não paguem rendas devem ser despejados?

Eu acho que há procedimentos para esse efeito. E que devem ser assumidos sem hesitação. O que eu quero dizer com isto? Se houver uma justificação, uma atenuante, uma circunstância em que pontualmente alguém não paga uma renda quando o deveria fazer e, portanto, quando tem condições para o fazer. Eu admito que haja uma Haja uma atitude de alguma condescendência que seja razoável. Agora, quando há uma prática reiterada de não pagamento de renda, quando pessoas têm condições para o fazer, porque senão, essa avaliação é feita. Objetivamente, tem que haver uma consequência. E portanto, até por uma questão de justiça social. Não faz sentido que algumas pessoas que trabalham, que fazem e que utilizam o resultado desse seu esforço para pagar rendas e depois o vizinho ao lado, simplesmente resolve não pagar. Isso não é aceitável.

E quando há casas que são construídas de forma ilegal, devem ser demolidas?

Sim.

De imediato pela Câmara Municipal.

Sim. Eu percebo onde quer chegar com a pergunta. Nós temos um caso muito concreto, foi mais imediato que agora em Loures, mas eu acho que é evidente que sim. Com humanismo e, portanto, nós devemos tratar as pessoas com toda a disponibilidade para as apoiar, como é evidente, mas nós não podemos ser minimamente condescendentes com ilegalidades, seja de que natureza for. E construções ilegais, em particular, eu diria que ainda mais, até porque muitas vezes ao lado da construção ilegal, nós estamos a pôr em causa a própria segurança das pessoas, das pessoas não só as que vivem lá, mas às vezes toda a sociedade, toda a envolvência. E, portanto, isso para mim, temos que ser implacáveis a esse respeito.

Estamos aqui a chegar, já estamos a vê-la, a rotunda da Boa Vista. Já disse que não coloca de parte a hipótese de reestruturar a primeira fase do Metrobus. Este foi um projeto muito ambicioso para o Porto, tem demorado vários anos. O que se falhou, começando pelo início, o que se falhou para se estar neste limbo?

Não consigo explicar. Acho que é absolutamente inexplicável. Acho que parece ter sido uma alucinação, que alguém teve.

Primeiro ali a rotunda.

A rotunda Boa Vista, muito bem. Basta olhar um pouco para a Avenida Boa Vista para perceber isto. Isto não faz nenhum sentido, do ponto de vista paisagístico e urbanístico. Isto é um conjunto de alcatrão, parece uma espécie de uma pista de aviação, aqui colocada. Mas mais do que isso, o que mais me incomoda é como é que não se pensou devidamente este projeto. Portanto, isto parece ter sido um impulso.

Estamos a ver aqui, a passar ao lado do sítio onde supostamente vai passar o Metrobus. Já está feito, não é?

Mas ninguém sabe como é que vai dar a volta para inverter a marcha, que é uma coisa notável. Como é que é possível? Acho que isto é de uma irresponsabilidade, porque estamos a falar de dinheiros públicos, estamos a falar da vida das pessoas, que foi muito perturbada com as obras que aqui tivemos, durante meses e meses consecutivos. E de repente não se tratou do básico. E, portanto, isto foi algo que, segundo se vai percebendo, foi uma grande motivação do governo socialista, do ministro e do primeiro-ministro António Costa. Quiseram muito empenhar-se numa solução inovadora a hidrogénio aqui na cidade do Porto, mas esses experimentalismos são muito irresponsáveis.

Mas na fase em que se está e com o dinheiro todo e o tempo das pessoas também, que já se gastou. Como é que voltar tudo atrás, como é que regressar à primeira fase e repensá-la, reestruturar, pode acontecer neste momento?

A minha proposta é que seja, a partir do momento que tome posse como presidente da Câmara do Porto, constituir de imediato um grupo de trabalho, uma task force entre a Câmara Municipal do Porto e na altura há de ser a nova administração da Metro do Porto, para tecnicamente se encontrar uma solução. Ela vai ter que ter algumas características. A primeira é maximizar o investimento feito. Portanto, nós não vamos deitar fora o investimento que se fez, não vamos destruir, nem vamos voltar a ter obras infindáveis aqui na Avenida Boa Vista, era o que faltava. Isso seria duplicar o erro que foi já cometido. Mas em cima daquilo que foi feito até hoje em dia, que já está construído e que está feito, nós tentarmos encontrar uma solução que beneficie as pessoas no fim do dia. E, portanto, que seja sustentável.

Concorda com o Metrobus. Neste momento, reverter é impensável, certo?

Não é impensável. Acho que devem ser estudadas todas as hipóteses, até porque o concordar que fique claro, se tivesse dependido de mim, nunca se tinha ido para uma solução desta natureza, do Metrobus. Acho que há soluções muito mais simples, muito mais óbvias, que são sustentáveis do ponto de vista ambiental da mesma forma, são de muito mais fácil concretização, e que promoveriam uma Avenida Boa Vista que tivesse um enquadramento diferente deste, nomeadamente com mais árvores, com mais espaços verdes, com ciclovia, com capacidade para as pessoas andarem, caminharem, na própria Avenida Boa Vista, algo que infelizmente não se conseguiu com este projeto. Pelo contrário, foi basicamente destruir aquilo que de bom tinha a Avenida da Boa Vista.

E por falar em Metrobus, prometeu transportes gratuitos para todos os portuenses. A medida seria para ser aplicada a partir de quando e como é que seria financiada? Falou-me há pouco da questão da taxa turística, se era apenas assim ou se tem outras ideias para pagar esta medida.

Sim, nós vamos tentar aplicá-la de imediato depois de ganharmos a Câmara Municipal. Eu não posso garantir que a 1 de janeiro de 2026 esteja a funcionar, mas é por razões meramente técnicas, porque depois nós vamos precisar, já estamos a trabalhar nisso e a estudar isso, mas vamos precisar ter um meio de validação das viagens que seja muito eficaz.

Então não é progressivo, não começa, por exemplo, pelos mais idosos. Os mais novos já têm, certo?

Os mais novos já têm, exatamente. Até aos 23 anos, a nossa ideia é de facto implementar de imediato, porque é apenas a solução tecnológica, digamos assim, que nos faltará. E que enquanto não ganharmos a Câmara, não podemos começar a implementá-la, obviamente. Mas é uma questão de meses, e portanto, acho que vamos conseguir rapidamente pôr isso em andamento.

Em Lisboa, Carlos Moedas anunciou um plano conjunto com o governo para aumentar a segurança da cidade E disse até que o governo tem essa responsabilidade. Neste momento é um governo social-democrata que está a governar, com quem tem muito boas relações, porque fez parte do governo anterior. Tem algo do gênero em vista?

Sim, eu tenho em mente trabalhar com o governo, nomeadamente nesta matéria da segurança. É crítico e ainda bem que assim é, é o que faz sentido. É uma responsabilidade essencialmente do governo central, a parte da segurança. Isso não quer dizer que a Câmara Municipal não possa e não deva fazer muito a este respeito. Vou dar um exemplo muito concreto: nós vamos propor, quando chegarmos à Câmara Municipal, através de um protocolo com o Ministério da Administração Interna, a Câmara Municipal gerar um movimento de recrutamento de 100 novos polícias para a Polícia Municipal. E como é que vamos fazer? Vamos assumir o encargo de pagar essa mesma formação e de criar uma abertura de vaga específico para este efeito, para podermos de fato cativar e mobilizar jovens que queiram eventualmente vir trabalhar para a Polícia Municipal e ajudar-nos neste esforço. E isso tem que ser feito, evidentemente, em colaboração com o Ministério da Administração Interna, mas a própria Câmara Municipal assumir essa responsabilidade do ponto de vista até orçamental. E depois, eu acho que mesmo com o Comando Metropolitano da PSP, nós temos que ter uma relação muito mais próxima. Eu genuinamente acho que a PSP tem que conhecer a cidade, ao nível dos comandantes. Dos operacionais não temos nenhuma razão de queixa, bem pelo contrário. Mas é muito importante que conheçam a cidade e que deem resposta àquilo que são as necessidades da cidade. E nós hoje em dia temos um problema de segurança, quer quem quer não, peço muita desculpa, isso pode não ser simpático, mas nós temos um problema de segurança na cidade do Porto. E comigo como presidente da Câmara, esse problema vai ser invertido. Nós vamos passar a ter mais segurança do que temos hoje, quer do ponto de vista da perceção das pessoas, quer do real.

Também vai falar também de polícia de proximidade?

Com certeza que sim, acho que é fundamental. Eu quando digo que vamos ter mais 100 polícias na rua, é precisamente porque foi a avaliação que foi feita, nomeadamente com especialistas nesta área e que conhecem bem a realidade da cidade. A conclusão a que chegamos é que se nós conseguirmos ter mais 100 polícias na rua, há uma cobertura do território que permite dar uma outra segurança às pessoas, desde logo do ponto de vista da perceção da segurança, porque essa também é muito importante. É inaceitável que nós hoje em dia tenhamos idosos que não saem de casa e ficam quase aprisionados em casa porque têm medo de ir dar um passeio ou de ir ao jardim mais próximo porque podem ser assaltados.

Acha que as câmaras de videovigilância foram, por assim dizer, um flop aqui na cidade do Porto, porque pensou-se que iria resolver muita coisa. Acha que faz sentido?

Acho que fazem sentido. Acho que ainda não temos tempo suficiente para avaliar. E eu vou dizer agora, do ponto de vista só empírico, eu não conheço ainda nenhuma avaliação científica, mas falo muito com as pessoas aqui na cidade. E vou lhe dar um exemplo, ali na zona do Bom Fim, do Campo 24 de Agosto, as pessoas acham que reduziu a insegurança, para não dizer a criminalidade mesmo, reduziu-se a partir do momento que há câmaras de videovigilância. Nós vamos ter que avaliar isso, evidentemente, e estudar melhor, mas a minha perceção hoje em dia é que é uma boa solução e que deve ser o mais massificada possível na cidade.

Vamos aproveitar essa passagem na VCI para falar de uma das propostas que tem. Apelidou a VCI como um cancro no meio da cidade do Porto e admitiu colocar portagens. De que forma é que estas portagens seriam colocadas, onde e se é para toda a gente, se é só para determinado tipo de veículos?

Sim, é uma solução que está estudada e está preparada, eu não disse nada de excecional. É basicamente portajar pesados e só veículos pesados, e só aqueles que atravessem, que utilizem a VCI para atravessar a cidade de norte para sul ou de sul para norte. São veículos que não têm qualquer ligação com a cidade e nunca terão qualquer ligação com a cidade, utilizam apenas para atravessar. Como é que isso é feito? Através de pórticos que são colocados a norte e a sul da cidade, e a partir daí é se portajar. E por que isso acontece? Nós temos de desviar o trânsito de pesados do centro da cidade e de atravessar a VCI, basicamente. Porque isso está um consenso de toda a gente, a mim confesso que me surpreende um pouco algumas polêmicas. Eu ouço há anos, e bem, muitas pessoas contestarem o fato da VCI ser utilizada por veículos pesados quando não deveria acontecer. E da VCI ser a principal causa de problemas de trânsito na cidade do Porto. Ora, tivemos uma governação socialista durante oito anos que não fez rigorosamente nada, porque a VCI é gerida pelo Estado central. Isso também é importante que se perceba, não é pela Câmara Municipal. Houve um governo que não fez rigorosamente nada, onde, aliás, o meu principal oponente fez parte, esteve lá sentado e não fez nada. Ora, o governo que eu fiz parte encontrou uma solução e apresentou aos autarcas locais. E essa solução passa, de fato, por tirarmos as portagens da CREP, e portanto, da circular externa, para onde queremos no fundo desviar os veículos pesados. E, por outro lado, porque nós precisamos desse incentivo adicional, portajarmos os pesados que queiram atravessar a VCI E por que acontecem estas duas medidas? Porque a primeira sozinha não vai ser suficiente, porque se não há portagens numa estrada e na outra, vai continuar a ser mais rápido e mais curto atravessar a VCI.

Estamos mais ou menos a três minutos do Estádio do Dragão. Fez questão de passar por aqui. Tem uma carreira política que também acabou por se cruzar com o desporto quando ficou com o S Pelouro nos assuntos parlamentares.

É verdade.

Qual é a ligação que o clube deve manter com a autarquia numa cidade como o Porto?

Eu gosto muito de podermos vir a esta zona por duas razões. A primeira é porque é uma zona, nomeadamente, que vamos entrar agora mais à frente de Campanhã, que é uma zona da cidade que tem sido muitas vezes esquecida. E eu acho que é importante nós não nos esqueçamos nunca desta parte da cidade, que felizmente hoje em dia está a ganhar uma dinâmica muito interessante e que eu espero, e se depender de mim, só vai ser incrementada.

O Matadouro também pode ajudar isso.

Também. Entre muitas outras iniciativas que estão a ter lugar aqui, algumas até do ponto de vista cultural, como é o caso do Matadouro, mas de outra natureza. Acho que é importante também a própria economia, do ponto de vista empresarial, esta região ter outra dinâmica que não tem tido. E acho que isso é claramente um caminho que a cidade tem que perseguir. Mas a outra razão, de facto, é mais emocional, por um lado, tem a ver com o Estádio do Dragão.

É um conhecido e ferrenho portista.

Sim, sou. Apesar de eu ter esta capacidade que muita gente não tem, porque há alguma rivalidade entre os clubes, de eu também ter uma afinidade muito grande com o Boavista, porque também como disse há pouco, eu nasci ali. Exatamente. Nasci ali ao lado.

Estamos mesmo em frente ao Estádio do Dragão.

Uma vista bonita, sem dúvida.

Quando estava a viver em Lisboa, tinha saudades disto? Ou vinha cá ver muitos jogos?

Claro que sim.

Mas tem lugar cativo no Estádio do Dragão?

Não, isso já não tenho há muitos anos, por várias razões.

Se for presidente da Câmara, gostava de voltar a ter? Terá mais tempo aqui no Porto.

Sim, mas eu vou ter como presidente da Câmara de deixar um bocadinho o clubismo de lado, porque eu vou olhar para os clubes da cidade todos de forma idêntica. Que é evidente que têm proporções diferentes. Sabemos que o Futebol Clube do Porto tem um impacto muito diferente de muitos outros clubes, que tem uma dimensão mais reduzida. Mas para mim, se calhar, vou ter de acarinhar mais e vai ser mais importante o presidente da Câmara ir a um jogo ali do Cruz ou um jogo do Ramalhense, do que propriamente vir a um jogo do Futebol Clube do Porto. E portanto, eu vou ter essa preocupação, aí vão me desculpar, se calhar vai ser menos mediático, menos visível, mas vou estar mais próximo, longe dos holofotes, do que propriamente estar aqui no Dragão, onde há sempre, felizmente, milhares e milhares de pessoas a apoiar o clube.

Ainda assim, houve presidentes da Câmara que não tiveram relações tão boas com o clube. Considera relevante numa cidade como o Porto, em que o Futebol Clube do Porto tem uma relevância tão grande, manter uma boa relação?

Sim, desde que a relação seja saudável e transparente, sem dúvida. Aquilo que aconteceu há uns anos é que o Rui Rio teve uma atitude com o Futebol Clube do Porto que eu não subscrevi, mas que eu, em certo sentido, compreendo, porque foi uma reação a um excesso de promiscuidade que também em determinado momento existiu entre o clube e a Câmara Municipal. O facto de eu gostar muito do Futebol Clube do Porto, ter esta afinidade, o facto de eu respeitar muito e considerar muito aquilo que são os seus dirigentes, designadamente a atual direção, com quem só tenho, de facto, elogios a prestar, isso nunca vai significar que vai haver qualquer espécie de favorecimento ou de amiguismo do ponto de vista institucional. E aquilo que aconteceu na altura foi uma reação, eu diria, a uma promiscuidade que não vai voltar a acontecer, manifestamente. Agora, isso não quer dizer que eu ache bem que haja um corte de relações como existiu. Nunca achei bem e continuo a não achar bem. Acho que a Câmara tem a obrigação, até institucional, de promover o mais possível, de congratular, de enaltecer aquilo que é o papel de um clube como o Futebol Clube do Porto na nossa cidade.

Quis passar no polo universitário para onde nos estamos a dirigir agora. Estamos a dois minutos desse polo. Por que fez questão de passar aqui?

Porque eu acho que a cidade do Porto está envelhecida. E isso agrada-me genuinamente, porque acho que é bom sinal. Quer dizer, as pessoas estão a viver até mais tarde e as pessoas têm espaço para ficar na cidade, mesmo vivendo até mais tarde. Isso noutras cidades não aconteceu. No Porto também tivemos um pouco esse fenômeno chamado gentrificação, das pessoas serem um pouco quase expulsas da cidade em determinado momento, devido aos custos da habitação. Nós no Porto, embora tenhamos alguns desses fenômenos, ainda nos mantemos uma cidade onde as pessoas de cá ficam a viver até cá até ao fim da sua vida. Mas o facto de nós queremos cuidar dos mais idosos e darmos condições para terem qualidade de vida na cidade, não nos pode cegar, digamos assim, ao ponto de nós não percebermos a relevância de termos dinâmicas novas e jovens na cidade. E acho que a Universidade do Porto a esse respeito é crítica. E quando digo a universidade, digo a academia, porque nós temos mais do que uma universidade, temos o Instituto Politécnico e, portanto, toda esta malha académica.

Estudou cá?

Sim, eu estudei aqui na Universidade do Porto, depois quando tirei a seguir mestrado e doutoramento já foi fora, mas estudei quer na escolaridade obrigatória, quer depois na universidade, estudei aqui no Porto. E eu conheço muito bem isto, quer dizer, fiz parte até dos órgãos associativos da Federação Académica do Porto, entre outras dinâmicas estudantis, e fiz as queimas das fitas e fiz tudo isso. Portanto, conheço bem esta realidade e sinto bem esta realidade.

Que condições é que devem ser dadas aos estudantes que vêm de fora?

Eu acho que a Universidade do Porto, a própria universidade, hoje em dia já dá condições muito interessantes.

Há residências universitárias suficientes, a seu ver?

Não, não há, porque é um problema geral. Nós estamos a encontrar aqui na cidade respostas interessantes. A própria Federação Académica do Porto. Eu gostaria de dar este exemplo, porque apesar de em termos numéricos não ser uma quantidade gigantesca de residências, mas são os próprios estudantes da academia que estão a promover iniciativas, gerindo eles próprios residências universitárias, com o apoio da Câmara Municipal, nomeadamente da cedência de espaços, mas estão a conseguir fazê-lo. Evidente que não chega, porque estamos a falar de umas dezenas quando as necessidades chegam às milhares. Mas é um caminho. E portanto, eu acho que nós temos, evidentemente, de trabalhar nesse sentido. Acho genuinamente que a rede de transportes públicos é fundamental. A verdade é esta: como acontece, aliás, em todas as cidades europeias evoluídas, não é razoável nós acharmos que vamos ter no centro da cidade, ao lado das universidades, todos os estudantes a viver. E portanto, se calhar, os concelhos ao lado devem olhar também para uma oportunidade de poderem ter jovens estudantes a residir aí ao lado e depois com transportes públicos podermos ter facilidades e os trazer para a cidade.

Creio que é uma boa forma de terminar, olhar para o futuro e para os jovens.

E para o talento, que eu acho que é muito importante.

Muito obrigada, Pedro Duarte, por ter aceitado o nosso convite.

O gosto é meu. Espero que dê para sair para baixo pela condição.

Obrigada. Espero que não tenha sido uma aventura muito... Se calhar é melhor estacionar aqui para acabarmos aqui.

Foi muito interessante e agradável.

Muito obrigada e boa campanha.

Muito obrigado. E até à vitória continuaremos a trabalhar.