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É muito bem-vindo ao Carpool do Observador.
É um prazer.
É um repetente, não é?
Sim, 2017, já passaram uns aninhos.
É verdade, já esteve nestas andanças. Não foi tão bem-sucedido como querá ser desta vez.
Sim, mas há sempre espaço para melhorar.
Há sempre espaço para melhorar. Então vamos arrancar nesta viagem em mais um Carpool do Observador. Já agora, estamos aqui mesmo ao lado da...
Ao lado do Hospital da Ordem da Trindade.
Também.
No coração do Porto.
Onde trabalhou, não é?
Onde eu exerci medicina durante décadas e onde cheguei a ser diretor clínico.
Muito perto do sítio onde quer voltar a trabalhar.
Aqui na Câmara Municipal do Porto.
Eu dizia que era um repetente no Carpool e por isso é repetente também nestas andanças. Já é a terceira vez que se candidata à Câmara Municipal do Porto. É caso para dizer que à terceira é de vez? Desta vez não tem um adversário como Rui Moreira, acha que pode ter o trabalho facilitado?
Sim, eu tenho a expectativa de poder vencer as eleições, e estou mesmo muito convencido que é isso que vai acontecer, embora tenha consciência que é preciso pedir, com humildade e com tenacidade, o voto a cada um dos portuenses. Mas devo dizer-lhe também que em política, quem não for capaz de resistir a uma adversidade eleitoral, até podemos dizer que não merece os lugares. Eu não me vou comparar com nenhuma das pessoas que vou citar, mas o presidente Mitterrand, em França, só conseguiu ganhar na terceira eleição. O senhor Churchill, com todo o seu prestígio, depois da Segunda Guerra Mundial, perdeu duas eleições e voltou a ganhar uma terceira. Portanto, para quem quer fazer política em democracia, ganhar e perder eleições tem que ser encarado como algo de normal.
E desta vez, soube-se que era candidato por volta de dezembro, não foi?
Sim.
Acha que se José Luís Carneiro, que chegou a ser também apontado para este cargo, já fosse o líder do PS nesta altura, permitiria ou deixaria que fosse candidato? Ele quereria que fosse o candidato dele ao Porto?
Tenho mesmo a convicção de que era isso que acontecia, porque o doutor José Luís Carneiro está empenhado na mesma coisa que eu estou empenhado, em que o PS tivesse o melhor candidato possível para o Porto, e a certa altura tornou-se claro e consensual que era isso que acontecia. Nós conseguimos uma coisa que é muito importante do nosso ponto de vista partidário, que foi uma união total, uma convergência total de posições dentro do Partido Socialista, mas acho que até conseguimos muito mais do que isso. Conseguimos alargar a nossa candidatura e a nossa lista muito para fora do espaço político do PS.
Já vamos aí, teremos tempo de falar durante esta conversa.
Esta viagem.
Exatamente. Até porque também já disse que tem grande parte do mourarismo consigo, já vamos falar sobre isso. Mas gostava de lhe perguntar: em 2013, quando perdeu a Câmara e Rui Moreira venceu e foi presidente da Câmara Municipal, aceitou o pelouro da Habitação e da Ação Social. Na altura, trabalhou vários anos ao lado de Rui Moreira. Esse entendimento não acabou muito bem, acabou por sair. A história é pública, também já falou sobre ela. Mas arrepende-se de ter feito esse acordo com Rui Moreira ou aquilo que conseguiu na Câmara Municipal, nesse pelouro, fala mais alto?
Não, não me arrependo absolutamente nada. Acho que foram anos luminosos para a vida autárquica do Porto. Aliás, acho que encontro ainda hoje muitas pessoas do Porto que têm saudades desse primeiro mandato do Rui Moreira, em que eu estive coligado com ele na Câmara do Porto. Além de tudo mais, tive uma oportunidade extraordinária de trabalhar a favor da minha cidade. Isso é o que mais me move e tenho a consciência de que contribuí para melhorar a vida de milhares de famílias e de milhares de pessoas com medidas que foram tomadas, quer no pelouro que eu dirigia, o Habitação e Ação Social, quer no pelouro do arquiteto Manuel Rei Fernandes, que foi o pelouro do Urbanismo. Acho que nós fizemos muita obra pelo Porto e ajudámos a ação política do resto da Câmara do Porto. Colaborei muito intensamente com o então vereador da Cultura, com o Paulo Cunha Silva, de quem fiquei amigo até à surpreendente e muito precoce morte dele.
Não vamos esquecer esta questão, até porque quero voltar a estes acordos pós-coligação. Mas estamos a passar aqui pelo novo mercado do Bolhão. Gosta do que vê, ou algumas destas obras, isto foi apresentado com bastante orgulho pela parte do presidente da Câmara. Gosta do que vê ou não é um fã? Acha que a cidade está a perder um pouco a alma? Tem havido várias críticas dos comerciantes. O que é que acha?
As obras do Mercado do Bolhão são extraordinárias e a reabilitação do mercado é uma grande conquista, e é uma conquista que orgulha os portuenses. Acho que temos um trabalho a fazer para conseguir viabilizar o Mercado do Bolhão como um grande mercado de frescos ao serviço da população da cidade. Não há nenhuma dúvida que no centro da cidade moram hoje menos pessoas do que moravam antes e que ainda falta uma dinâmica no mercado de frescos, que faz com que uma grande parte do negócio que viabiliza o mercado são negócios à margem do mercado de frescos.
Entendo as queixas dos comerciantes por não terem clientes.
Compreendo isso. Acho que há um trabalho a fazer com eles. Eu tenho na minha lista, como candidata a vereadora, a Francisca Carneiro Fernandes, que desde há uns escassos meses, é responsável pelo Mercado Bolhão e tenho acompanhado com muita satisfação o trabalho de diálogo com os comerciantes que ela tem vindo a fazer. E acho que é com esse diálogo que nós encontraremos as medidas certas para agora aproveitar a reabilitação do Mercado Bolhão e conseguir, de novo, projetá-lo como o grande mercado de frescos do centro do Porto.
Mas há mais de 10 anos, quando tinha também uma proposta para o Bolhão, era isto que esperava? Em termos de obras, está satisfeito com o resultado, como portuense?
A minha obra teria sido um pouco menos ambiciosa do ponto de vista de algumas infraestruturas de apoio, mas estou muito contente com a obra que está feita.
Estamos aqui no centro histórico, no coração da cidade do Porto. As lojas históricas devem ser protegidas, mesmo que a autarquia tenha de financiar esse tipo de negócios?
Devem mesmo ser protegidas. O meu projeto nessa matéria visa selecionar. Eu acho que nós não conseguiremos intervir em toda a cidade num primeiro momento. Selecionar um conjunto de artérias da cidade, de ruas da cidade, que são muito relevantes do ponto de vista do seu comércio e daquilo que é o sentimento que os portugueses têm, e já agora, daquilo que nós também temos para oferecer a quem nos visita. Sei lá, exemplos: a Rua de Santa Catarina e as ruas adjacentes à Rua de Santa Catarina, como estas que estamos aqui agora a circular, Formosa, Firmeza, Fernando Tomás, a Rua Costa Cabral, a Rua da Boa Vista. Nessas ruas nós temos que estabelecer planos de revitalização urbana e comercial. E temos que envolver os moradores e os comerciantes nesses planos e podemos até ter que promover alguma alteração legislativa. Estou a pensar, nomeadamente, que em ruas que tenham esses planos de reabilitação a que eu me refiro, nós sejamos isentados do licenciamento zero. Eu sou um adepto da desburocratização e desse ponto de vista, não sou contra os mecanismos de simplificação do licenciamento, mas tenho também que reconhecer que a total ausência de mecanismos de verificação tem conduzido, em algumas destas ruas, a um abastardamento da sua função, fazendo com que a certa altura, mesmo os portugueses já não se sintam identificados com algumas dessas artérias.
Mas a Câmara, no limite, deve financiar, além dessas mudanças em algumas taxas, em alguns impostos, deve financiar, se for preciso, para que estes planos funcionem bem?
Este plano de revitalização urbana e comercial de algumas ruas pode envolver financiamento, que aliás, pode ser encontrado de forma completamente legítima. Por exemplo, utilizando uma parte da receita da taxa turística. É mesmo para isso que ela deve servir, é para compensar também algum efeito negativo da pegada turística. O turismo é bom e é essencial para o futuro do Porto, mas também é preciso prevenir alguns aspectos negativos dessa pegada turística.
E já agora que fala da taxa turística, pretende aumentar o valor da taxa turística aqui no Porto nos próximos anos?
Vamos ver.
Isso é um objetivo para o mandato?
Temos que ir vendo passo a passo. A taxa turística foi durante vários anos de €2, aumentou 50% precisamente no ano de 2025. Eu acho que depois de ela ter aumentado 50% em 2025, vai permitir à Câmara arrecadar cerca de 30 milhões de euros no final do ano. É preciso ponderar se se justifica no curto prazo um novo aumento ou não. Depende de toda a forma como o fenômeno do turismo vier a evoluir nos próximos anos e também, naturalmente, das necessidades que a Câmara venha a ter para fazer os tais investimentos de compensação das modificações que o turismo traz à cidade.
Deixe-me só perguntar, estamos a chegar ao bairro das Fontainhas. É para cima?
Para cima.
Ok. Já voltamos também a essa questão da mobilidade, mas já que aqui estamos. Esta é uma das obras feitas, a questão da construção e da reabilitação para habitações municipais que a Câmara do Porto fez. Prometeu 5 mil casas de renda acessível.
Renda moderada.
Moderada.
Porque eu acho que a renda acessível é demasiado cara no conceito legal.
É uma ideia que está ultrapassada, a renda acessível.
Vamos ver. A definição legal até foi criada por um governo do meu partido. Neste caso, em causa nenhuma questão de natureza partidária. A definição legal de renda acessível.
Aqui à esquerda.
Ali à esquerda. É uma renda que seja pelo menos 20% abaixo da renda de mercado. Mas em vez do Porto, um T2, a renda de mercado é 1.250 euros. Quer dizer que a renda acessível seriam 1.000 euros. Mas quem são as pessoas jovens ou as famílias da classe média que podem pagar 1.000 euros de renda por um T2? Temos que fazer um novo conceito. O meu conceito de renda moderada à moda do Porto diz quais são os preços. Um T2 custará 550 euros, por comparação, que é um preço que eu acho que é bastante mais suportável, um T1 custará 400 euros e estas 5 mil casas permitirão não apenas dar uma boa solução a 5 mil famílias, como vão permitir ajudar a regular o conjunto do mercado.
Mas como é que pretende fazê-lo e até quando? Isto é para o mandato, as 5 mil casas.
É para fazer no primeiro mandato, em quatro anos. Nós já identificamos quais são os terrenos, se são terrenos municipais ou terrenos do Estado, em que essas casas vão ser edificadas. Serão, no essencial, edificadas na base de um concurso de parceria público-privada, isto é, serão construídas, financiadas e mantidas por parceiros privados e a Câmara tratará de as arrendar às pessoas e de com o dinheiro dessas rendas, durante os primeiros 30 anos, pagar a estes parceiros privados que as vão construir. Nalguns casos, os parceiros não serão privados, serão cooperativas ou associações de moradores que estejam também disponíveis para participar neste esforço.
Mas nesse caso, está a falar apenas de construção nova, certo?
Sim, estamos a falar de construção. E não estamos a falar de habitação social. Nós continuaremos a gerir as 13 mil casas de habitação social que a Câmara tem e a melhorar as condições de vida das pessoas que lá moram, como fiz aliás nesse mandato em que estive na Câmara do Porto e como tantas pessoas me têm agradecido agora durante a campanha eleitoral nas ruas da cidade. Aqui estamos a falar de habitação para os jovens e para a classe média e estaremos a falar de um período temporal de um mandato de quatro anos.
Entre esta habitação à questão da habitação social, teve um dos seus adversários, Pedro Duarte, a dizer que os bairros sociais, alguns deles, eram verdadeiros guetos afogados no centro da cidade, salvo erro que foi assim. Concorda? Teme que este problema aumente? O que viu nas palavras de Pedro Duarte?
Sabe que eu conheço muito bem os bairros do Porto e conheço-os há muitos anos.
Vamos dirigir-nos agora a um que foi a escolha sua, o Bairro Rainha Leonor.
Muito bem, esse é belíssimo. Eu conheço muito bem os bairros do Porto, conheço-os há muitos anos. Já fui responsável pelo pelouro da habitação no primeiro mandato do presidente Rui Moreira. E devo dizer que, primeiro, nós não devemos generalizar. Na esmagadora maioria dos bairros do Porto, vive-se bem, vive-se com tranquilidade, vive-se com segurança, vive-se de forma confortável. Alguns bairros têm hoje problemas muito sérios, causados quase uniformemente pelas questões do tráfico e do consumo de drogas. Isso exige uma ação muito decidida do município, uma ação que, aliás, tem que ter duas componentes distintas. Nós temos que ter uma componente, que é uma componente da autoridade, de repressão ao tráfico de drogas, isso tem que existir, mas se isso não for acompanhado ao mesmo tempo de um grande programa social e de saúde para procurar recuperar os dependentes, para procurar diminuir a gravidade da sua situação e mesmo, nalguns casos, tirá-los desse mundo do consumo de drogas, se nós não fizermos isso, nós não vamos ser bem-sucedidos. E por isso, uma das minhas apostas é mesmo um grande programa municipal de apoio aos dependentes, que reduza a procura de drogas, e é esse o caminho que temos que seguir.
Estamos a chegar, penso eu. Falta um pouquinho.
Ainda falta um bocadinho.
Mas já agora podemos ir falando de também esse, que foi o seu pelouro na questão da habitação e por que nos traz a este bairro especificamente.
Este bairro é um exemplo em pequena escala que mostra que o meu programa para habitação é exequível.
Estamos bem aqui.
Estamos bem aqui. É preciso ver o contexto político e econômico do país nesse primeiro mandato, entre 2013 e 2017. Estávamos com a intervenção da troika. Havia problemas financeiros muito sérios e constrangimentos muito sérios à ação do município. Nós tínhamos um bairro profundamente degradado na encosta do Rio Douro, o bairro Rainha Dona Leonor, onde viviam 40 e tal famílias em muito más condições de habitabilidade. E o que nós fizemos foi lançar um concurso, fazendo com que fosse um privado a construir o novo bairro. Já agora, onde viviam 48 famílias, nós temos hoje um bairro para 72 famílias, sendo que a outra metade do terreno foi aquilo com que o privado foi ressarcido e pôde construir um empreendimento para casas de custo muito elevado, para compensar o investimento que fez para a Câmara na parte superior.
É esse equilíbrio que procura.
Nós precisamos de cooperação. Talvez os do país, mas neste caso os problemas da nação. Para a esquerda. Os problemas da nação portuense não se resolvem.
Está com muitas obras.
Resolvem-se, em muitos casos, com cooperação entre as diferentes instituições da cidade. Se o que está programado a seguir é o bairro Rainha Dona Leonor, é porque tenho razão. O GPS do seu carro está errado. Se é o que está a seguir.
É. Chegamos então aqui à Rotunda da Boa Vista, uma das principais queixas das pessoas aqui no Porto, também a questão da mobilidade. Falou-se muito do-
Um inferno
...do Metrobus. Houve, nos últimos tempos, um passa-culpas quase constante entre a Metro do Porto, a Câmara Municipal, até a STCP. Como é que olhou para isto tudo e o que é que pode ser feito para resolver o problema das pessoas a curto prazo? Porque as pessoas, de facto, têm um problema na mobilidade no Porto.
É mais um daqueles casos em que nós precisamos de mais cooperação e de menos conflitualidade. Eu tenho algumas dúvidas sobre a forma como foi conduzida a obra e o próprio projeto da obra do Metrobus. Mas depois de tudo que nós sofremos e de tudo o que se gastou para fazer o Metrobus, do que eu não tenho dúvida nenhuma, que agora é preciso é pô-lo em funcionamento. Até porque só pondo-o em funcionamento é que se poderá resolver a dúvida sobre a sua real eficácia na mobilidade desta área da cidade. Só faltava agora que depois de tudo isto, nós fizéssemos obras outra vez, para alterar outra vez o Metrobus. Quer dizer, o Metrobus ainda não chegou a funcionar e já há pelo menos um candidato, que aliás foi ministro até há algumas semanas, que já quer fazer obras outra vez para mudar o Metrobus. Eu levanto as mãos à cabeça. Outra vez?
Pedro Duarte sugeriu.
Eu já tinha vindo por aqui para ver a sede da minha candidatura.
Mesmo na Rotunda da Boa Vista.
É isso, mesmo no sítio certo.
E em frente à Casa da Música.
E em frente à Casa da Música. Aqui está o sítio onde devia circular o Metrobus.
O Metrobus, exatamente. Ainda nesta questão dos transportes públicos, propõe-se, e vê-se muito descartados aí pelas ruas, ao passe Andante. O passe já existe, a ser gratuito para os maiores de 65 anos. Essa é a primeira aposta, digamos assim. A longo prazo, faz sentido pensar em transportes públicos gratuitos para toda a gente na cidade do Porto?
Só se for a muito longo prazo, porque vamos ver. Neste momento, as pessoas com mais de 65 anos já têm 50% de desconto no Andante. Se nós o colocarmos totalmente gratuito, isso significa um encargo anual de cerca de 3,5 milhões de euros É para a esquerda aqui. Não, é para a esquerda aqui mesmo. Pode ter a certeza.
Ah, tá, é vermelho. Ok. Não estava vendo. Pensei que ele estava parado.
Três milhões e meio de euros por ano é um encargo que nós podemos suportar. Além de tudo mais, as pessoas com mais de 65 anos, o fato de terem o andante gratuito não vai fazer com que elas pressionem mais o sistema público de transportes, porque não é por isso que as pessoas se vão andar às 7h30 da manhã para ir à hora de ponta. Vão utilizar o transporte público nas horas onde nós temos capacidade excedentária no transporte público. Tornar gratuita toda a operação, repito, só se for mesmo no muito longo prazo, porque nós neste momento precisamos de muito investimento para melhorar a qualidade do transporte público do Porto. Nós não podemos prescindir de uma conta que anualmente andará entre 30 a 40 milhões de euros da bilhética, nos passes e nos bilhetes ocasionais. Nós não podemos prescindir disso. Se o fizermos, nós vamos condenar o transporte público do Porto à ruína. Hoje, o fator que determina ou não a utilização do transporte público não é o preço. Veja que as pessoas até aos 24 anos não pagam, é gratuito, e nos outros as pessoas utilizam o passe único. O passe único foi uma grande medida do governo socialista, que fez com que o passe para a cidade do Porto custe € 30 por mês para todos os meios de transporte público e para a área metropolitana, € 40 por mês.
Seria também estar a oferecer um passe a quem não precisa disso.
Não, e sobretudo será descapitalizar completamente o sistema de transporte público.
Só para fecharmos aqui o tema dos transportes. Pretende travar os TVDEs no Porto. De que forma tem um número limite na sua cabeça, o que é aceitável para a região e já agora, como é que isso se fiscaliza?
Ainda antes dos TVDEs, pretendo melhorar muito a relação com os táxis. Os motoristas de táxi fazem parte do sistema de mobilidade de transporte público da cidade e não têm sido tratados como se fizessem parte. Olhe, desde logo, são uma extraordinária fonte de informação sobre os problemas do Porto. Problemas de mobilidade, problemas de segurança, problemas de via pública. Nós temos que redialogar. Nós temos 700 táxis em circulação no Porto, são uma fonte de informação gigantesca. E eles não têm sido tratados como parceiros do transporte público. Veja que o corredor bus da Avenida Fernão Magalhães, criado recentemente, há dois anos, está vedado aos táxis, o que é uma coisa incompreensível. Esse é um lado da aposta. No que diz respeito aos TVDEs, eu lutarei junto do governo para que haja uma mudança da legislação, porque a atual legislação faz com que a Câmara não tenha qualquer informação sequer sobre quantos existem. E é evidente, tem que haver uma cota para TVDEs. Os TVDEs são muito importantes para o transporte. Hoje seria impensável a ideia de abolir os TVDEs, isso parecer-me-ia mesmo muito disparate, mas tem que haver também uma regulação, nomeadamente uma regulação do número de viaturas que circulam na cidade.
Mas funcionaria um pouco como nos táxis, com licenças?
Deve haver ao menos um registro que permita esse controle.
E isso não existe.
Não existe de todo, é impossível, até porque nos TVDEs não há limite da localização geográfica de circulação. O que quer dizer que o fato do motorista morar em Braga e do carro estar registrado em Famalicão não o impede de circular no Porto. Nós precisamos regular um pouco esse sistema. Eu compreendo que tenha havido pouca regulação no início do sistema, vamos virar aqui à esquerda, mas agora acho que ele atingiu uma dimensão tal que necessita de regulação.
Estamos aqui então a chegar ao...
Ao Bairrinho da Dona Leonor, aqui ao nosso lado direito, o Parque da Pasteleira.
Mesmo muito perto do bairro, não é?
Sim, olhe, já agora, um parque para o qual eu também tenho um projeto, um projeto com o qual já dialoguei com a Guarda Nacional Republicana, que é que o patrulhamento do Parque da Pasteleira. O bairro é este.
Ah, o patrulhamento seja feito-
Seja feito por GNR a cavalo. Acho que se justifica inteiramente. Eu ano passado passei férias em Nova York e vi patrulha a cavalo dentro do Central Park e já agora até vi em avenidas urbanas de Nova York. Quer dizer que patrulhamento a cavalo não é uma estranheza, uma coisa estranha.
Ainda na questão dos bairros sociais, têm estado no centro da atualidade noticiosa nacional dois pontos relevantes e gostava de ouvi-lo sobre isso. Primeiro, a questão das demolições. A Câmara Municipal deve demolir, no imediato, qualquer construção ilegal que exista no Porto?
Sabe que o problema é-
Antes de, podemos vir aqui, é isso?
Podemos virar aqui.
Estou a ver aqui o GPS.
Sim, onde é que nós atingimos a estação GPS da Pasteleira.
Pois, nós devíamos estar aqui em volta. Exatamente.
Foi assim junto à Pasteleira. Aqui fica o Clube da Pasteleira, não sei se não foi isso que ele registou.
Pois, talvez tenha sido.
Mas estava eu a dizer, o que é mesmo aqui muito relevante é que essas demolições sejam feitas de imediato. O que não se pode é permitir a instalação de comunidades que criam ali a sua alternativa de vida e depois fazer, a seguir, processos que sendo, porventura, necessários do ponto de vista da ordem pública, são muito perturbadores do ponto de vista social.
Custou-lhe aquilo que viu em Loures?
Acho que custou a todos. Imagino até, com franqueza, que também tenha custado ao próprio presidente da Câmara de Loures, que eu conheço e que é uma pessoa sensível. Eu não estou dentro do conjunto de motivações que levaram a uma medida tão drástica. Agora, há uma coisa da qual eu não tenho nenhuma dúvida. Nada daquilo teria acontecido Se não se tivesse permitido que aquilo tivesse chegado àquele ponto. Nós, felizmente, no Porto temos uma política que é consensual há duas ou três décadas, desde que o doutor Fernando Gomes, quando foi presidente da Câmara do Porto, conseguiu eliminar os bairros de barracas que havia na cidade, construindo habitação alternativa para as pessoas. Houve sempre um consenso de todas as forças políticas que governaram a câmara, de não permitir que espaços desses voltassem a ser criados, e eu continuarei com essa política.
E os inquilinos de casas municipais que não paguem as rendas ou que estejam em falta?
Isso no Porto não existe.
Não existe.
Sabe que quando eu herdei o pelouro da habitação, o doutor Rui Rio, justiça lhe seja feita nessa matéria, tinha promovido um conjunto de medidas e o nível de incumprimento das rendas era muito baixo, 5,2%. É inferior ao nível de incumprimento do crédito da habitação, portanto, é mesmo baixo. E a minha preocupação foi: bem, agora eu fico com o pelouro da habitação. Eu tenho um feitio dialogante, eu gosto de falar com as pessoas, tenho proximidade em relação às pessoas. Isto das Santas vai ser um problema com isso do pagamento das rendas e, portanto, tomei um vasto conjunto de medidas para garantir que isso não acontecia. Quando eu deixei o pelouro, o nível de incumprimento das rendas estava mais próximo de 4%.
Portanto, voltando à pergunta inicial, quem não paga deve ser despejado.
Não é preciso chegar a esse ponto, deve-se evitar que a pessoa não pague. Que é o que nós temos conseguido fazer no Porto com grande sucesso.
E já percebi que a taxa é muito baixa, mas essa taxa existe, pelo que percebi.
Eu nunca fui confrontado, felizmente, com a necessidade de ter que fazer um despejo por não pagamento da renda. A verdade é que sempre que a câmara interviu de forma mais ou menos coerciva, foi possível que as pessoas pagassem, ainda que em alguns casos, naturalmente, com o estabelecimento de planos de pagamento, quando eram dívidas mais complexas. Depois há situações limite, mas são situações limite, que exigem a intervenção de outros serviços que não apenas o serviço de habitação, pessoas com graves problemas de adições, com gravíssimos problemas de saúde mental, que precisam de um enquadramento. Às vezes o tema nem é econômico, é mesmo da perturbação, da quebra de laços que algumas pessoas têm e tem que ser tratado nesse plano.
Deixe-me aproveitar que agora vamos dirigir-nos ao Matadouro e é um pouco mais longe.
Agora vamos virar à cidade.
Mas já agora, quando estivermos na VCI também teremos tempo de falar um bocadinho sobre a sua proposta para aquela zona. Mas queria aproveitar este tempo para lhe perguntar e para voltar aqui à questão do tal day after que falávamos no arranque deste Carpool. Claro que me vai dizer sempre, como já disse várias vezes ao longo desta entrevista, que o seu objetivo é ganhar e que está focado apenas nisso, mas já passou por outras experiências em que não aconteceu. E gostava de tentar perceber qual é a sua disponibilidade para falar com todos ou com quem, no dia a seguir às eleições. Principalmente para perceber se estaria, mesmo ganhando, sem uma maioria absoluta, disponível para contar na sua equipa com Pedro Duarte ou com o próprio Filipe Araújo, com quem também trabalhou.
Há uma coisa sobre a qual não há dúvidas. Eu tenho toda uma vida política, nomeadamente no Porto, que demonstra que eu sou uma pessoa capaz de estabelecer pontes para o diálogo e de encontrar soluções. Se, como espero, vencer as eleições para a Câmara do Porto, se isso acontecesse em ter maioria absoluta de vereadores, ou mesmo que eu tenha maioria absoluta de vereadores, eu não deixarei de dialogar com os vereadores dos outros partidos, porque isso não faz nenhum sentido.
Mas se não tiver maioria absoluta, será mais necessário, imperativo ter essa conversa.
Estabelecer pontes, eu não tenho dúvidas nenhumas que serei capaz de o fazer com forças políticas ou com vereadores que estejam disponíveis para participar num projeto de governação da cidade, que não pode deixar de ser, nas suas linhas gerais, o projeto vencedor, o projeto que eu apresento à cidade.
Mas está a pensar em alguém que cruze mais com as suas linhas orientadoras?
Não, no jogo democrático, esta é a fase em que somos adversários uns dos outros. Se chegar o momento, da fase em que alguns de nós teremos que cooperar uns com os outros.
Então deixe-me fazer-lhe a pergunta de outra forma.
Não, é para dar a volta à esquerda.
Aqui à esquerda?
Lá ao fundo. Vamos entrar nesta aqui. Vamos dar a volta aqui. Ora, Polícia Municipal presente nas ruas. Está a ver isto?
É o seu cartaz. Estamos agora a passar aqui por um cartaz.
Mas não foi por acaso, era mesmo esse o percurso que tínhamos que fazer.
Está por toda a cidade, portanto, podia ser em qualquer outro sítio.
Ora, cá está o outro.
O dos maiores de 105 anos. Está aqui uma publicidade grande nesta rotunda.
Isso foi estudado pelas pessoas que organizam a campanha, pelos seus sítios de maior impacto.
Mas perguntava-lhe, costuma dizer, disse-me agora e também já disse até em eleições anteriores, que no dia a seguir, quando for presidente, há espaço para conversar com todos. É mesmo assim ou tem algumas linhas vermelhas em termos autárquicos?
Vamos ver. Eu não sei se a sua pergunta quer dizer o que eu interpreto. Eu interpreto que está me a perguntar se há uma linha vermelha em relação ao Chega.
Sim, se precisar do Chega, e se fizer sentido, é colocado de parte.
Já não é a primeira vez que me perguntam isso e eu vou lhe responder com a mesma ironia, que é: bem, só se o Chega deixar de ser Chega, porque eu não estou a imaginar que o Chega consiga concordar Com a minha visão de uma cidade onde nós temos políticas que ajudam a reduzir as desigualdades, que ajudam a diminuir as tensões sociais. Não estou a imaginar nada disso. Parece-me que desse ponto de vista, não haverá espaço de entendimento. Ora, vamos ver. Eu também não ignoro que na sequência das anteriores eleições autárquicas, uma grande parte dos eleitos pelo Chega deixaram de ser do Chega pouco tempo depois das eleições.
O candidato do Chega era do PSD.
As pessoas também contam. É preciso ver o que as pessoas depois em concreto vão fazer.
Gostava, já agora, também de deixar-lhe aqui outra provocação, porque houve um adversário seu, o Sérgio Aires, do Bloco de Esquerda, que disse que não quis uma coligação à esquerda e que prefere negociar com a direita. Tendo em conta o cenário que existe no Porto, é assim? Vê que pode ter mais aliados ao que se diz direita, há muitos vários movimentos independentes.
Há uma coisa que eu acho que é muito importante. O que eu fiz e tenho orgulho de ter feito, é ter construído uma proposta política para o Porto que, para além de pessoas do PS, tem muitas pessoas de fora do PS. É verdade, algumas delas à direita do PS, no centro-direita, outras à esquerda do PS, mas tenho muitas pessoas, e tenho até dificuldade em compreender que outras forças políticas de esquerda não compreendam que isto é muito importante. Na candidatura que eu lidero, nós não andamos a perguntar às pessoas de onde é que elas vinham. Nós perguntávamos às pessoas para onde é que elas queriam ir. E eu tenho satisfação em ver pessoas que noutros momentos estiveram noutras forças, no movimento independente Rui Moreira, até em outras candidaturas à direita ou à esquerda, que desta vez se juntam à minha candidatura e à candidatura do PS à moda do Porto.
Por que acha que grande parte do moreirismo, palavras suas, está consigo?
Isso é factual.
Pedro Duarte também conta com algumas pessoas que vieram da equipa do Moreira.
A lista do Rui Moreira, o seu movimento, preside a cinco juntas de freguesia da cidade do Porto. Três desses presidentes de junta apoiam, mais de metade. Há vereadores da Câmara do Porto, o número dois da lista do PS é o vereador Fernando Paulo, que foi eleito na lista do Rui Moreira. Há pessoas da Assembleia Municipal, da lista do Rui Moreira, que aparecem nas minhas iniciativas a apoiar-me. Estamos a passar a freguesia de Ramalde, que é a freguesia onde eu moro. O antigo presidente da Junta de Ramalde, durante oito anos, eleito pela lista do Rui Moreira, é o mandatário da minha candidatura em Ramalde.
Então deixe-me só perceber, quando diz moreirismo, refere-se apenas a pessoas que estavam no movimento Rui Moreira e não às pessoas que votaram no Rui Moreira.
As duas coisas. Eu acho que há uma relação íntima entre as duas coisas, porque se as pessoas que tinham posições de liderança nesse movimento apoiam a minha candidatura, eu tenho boas razões para acreditar que uma grande parte dos eleitores também o vão fazer, até porque esta minha candidatura tem a característica de ser mesmo uma candidatura construída a partir do Porto. Eu não sou um portuense de ocasião. Sou um portuense convicto, com décadas de trabalho cívico e político a favor da cidade e acho que as pessoas vão reconhecer isso.
Portanto, sente-se perfeitamente confortável que o seu mandatário tenha decidido dar apoio a Carlos Moedas em Lisboa?
Isso não me perturba nada. Eu tenho um enorme orgulho em ter como mandatário uma pessoa como o Virgílio Bento. Veja lá, um dos mais extraordinários empreendedores portugueses, alguém que criou na área da saúde digital, que é hoje tão falada, da saúde prestada à distância, criou uma empresa fantástica, a Sword Health, que ajuda centenas de milhares de pessoas a viverem melhor. Que uma pessoa com estas características tenha aceite ser meu mandatário e que apoie a minha candidatura, para mim é um motivo de orgulho, é uma coisa sobre a qual não há dúvidas. O Virgílio Bento é portuense e mora no Porto, mora até na Foz do Douro e, portanto, o voto dele vai ser para a minha candidatura.
E porque criticou Pedro Duarte por ser, palavras suas, o delegado do governo aqui nas eleições do Porto?
Eu tenho procurado fazer esta campanha muito pela positiva, com poucas críticas, porque acho que é melhor a gente explicar o que quer fazer do que estar a criticar os outros. Devo dizer-lhe, como cidadão do Porto, não apenas como candidato.
Não resistiu a essa crítica.
Achei absolutamente indecoroso que uma candidatura à Câmara seja lançada no intervalo de uma reunião do Conselho de Ministros. O Conselho de Ministros reúne no Mercado do Bolhão e no intervalo um dos ministros sai para dizer que é candidato à Câmara do Porto. Com franqueza, acho isso absolutamente inadmissível e tenho a certeza que há muitos milhares de portuenses que acham como eu, que isso não é adequado. O presidente da Câmara do Porto representa os cidadãos do Porto na cidade e no país. Não é um representante do governo na cidade do Porto.
Podia ter lhe acontecido se esta maioria de António Costa não tivesse caído, e se esta sucessão de eleições, porque já houve duas depois disso. Ser ministro da Saúde e ter de tomar a decisão sobre vir aqui para o Porto. Acha que o seu coração ia pesar mais para aqui?
O Porto foi sempre a coisa mais importante da minha vida política E mesmo quando fui secretário de Estado e quando fui ministro, tenho obra para mostrar no Porto. Quando fui secretário de Estado, dei um contributo essencial para se lançar uma coisa que estava adiada há décadas, que era o Centro Materno-Infantil do Norte, que está hoje, felizmente, em grande funcionamento. Quando fui ministro, entre outras coisas, coloquei no Porto a sede da Direção Executiva do SNS. Portanto, estive sempre muito ligado ao Porto. Bem, agora é impossível prever o que é que teria acontecido se o mundo fosse diferente do que foi.
Estamos na VCI.
Na VCI. A esta hora da manhã, fora da hora da ponte, veja a fila daquele lado. Um inferno.
Está bastante trânsito já. Mais do outro lado do que neste que estamos a fazer agora. Tem falado na necessidade de transformar a VCI numa via urbana. Avenida Urbana, não é?
Avenida Urbana.
Qual é que é a ideia, como é que funcionaria essa via urbana?
Isso não é um projeto para se fazer num ano ou em dois.
Mas num mandato é?
É para se fazer progressivamente.
Não num mandato. Não é suficiente.
Um mandato não é suficiente para essas mudanças, porque a primeira coisa que é preciso fazer é reduzir o fluxo de trânsito à VCI. Ora, para isso, é preciso que finalmente se eliminem as portagens, nomeadamente as portagens dos pesados na CREP, que se tomem medidas para que o trânsito de pesados que não é dirigido à cidade do Porto, não venha à cidade do Porto. A VCI foi imposta pelo centralismo como se fosse uma autoestrada, uma ferida, uma autoestrada no meio do Porto. Nunca nenhum planeamento urbano municipal defendeu que a VCI tinha este perfil de autoestrada e, ao contrário, sempre defendeu que devia ter o perfil de uma alameda urbana, de uma avenida urbana. Fazer a correção deste erro é hoje muito mais complexo.
Mas quando olha a longo prazo, como é que vê a VCI?
Nós temos que reduzir o tráfego, por isso eu tenho expectativa. Eu escrevi ao senhor primeiro-ministro reclamando que no próximo orçamento de Estado seja clarificado em que dia é que entra em vigor essa medida de isenção das portagens dos pesados na CREP. E mais, que se acabe com as portagens para as circulações periféricas à volta do Porto, que conduzem a que uma pessoa para ir da Maia a Matosinhos ou vice-versa, seja mais barato vir à VCI no Porto do que fazer a circulação direta.
A ideia de portajar que tem Pedro Duarte é disparatada, na sua opinião?
É absolutamente disparatada. Eu tenho a certeza que não há nenhum problema da VCI que fica resolvido por se introduzirem portagens da VCI. É preciso criar é alternativas e até gostaria de saber como é que essas portagens vão ser depois implementadas. Só faltava agora que as pessoas do Porto ainda tenham que pagar. Nós temos que levar com o trânsito da VCI, com a poluição da VCI, ainda temos que pagar portagem para ir à VCI. Só faltaria isso.
Esta zona diz-lhe alguma coisa?
Campanhã tem um enorme significado para o Porto, porque é uma freguesia da zona oriental do Porto, é uma freguesia que precisa de um grande investimento para ter os mesmos índices de conforto e de vida pública que tem o resto da cidade.
Considera que não tem neste momento?
Considero eu e consideram as estatísticas que não tem. E portanto tem vindo a ser feito alguma coisa, mas precisamos de fazer mais. Uma das âncoras para que isso venha a acontecer é o sítio onde nós vamos, o projeto do Matadouro, de reabilitação do antigo Matadouro Industrial do Porto, que eu espero que possa rapidamente conferir a Campanhã um novo polo empresarial e cultural.
Mas é um projeto que vai longo. Fui ver algumas das suas propostas.
Acho que não é o caminho que eu vou.
Não, mas pode ser. Se sabe, vamos por aqui. Já na altura falava da reabilitação.
Sim, isto foi uma das minhas grandes propostas em campanha 2012. Depois consegui ganhar o doutor Rui Moreira para esta ideia. As vicissitudes várias dos processos concursais fizeram com que isto ainda não esteja resolvido, mas finalmente a obra está em andamento.
Era isso que eu lhe ia perguntar. Mas não culpa a Câmara pelo tempo, pelo adiar constante desta obra?
Talvez em alguns momentos a decisão municipal pudesse ter sido mais rápida, mas eu quero concentrar-me no essencial. E o essencial é que a obra agora está muito adiantada e eu julgo que no próximo ano estaremos em condições de inaugurar este equipamento âncora.
No próximo ano?
Sim, julgo que ele está muito próximo da sua conclusão. Aliás, vai poder ver que a obra está mesmo em...
Estamos aqui a passar no Estádio do Dragão, também é um grande, digamos assim, aqui do Porto. Que relação a Câmara Municipal do Porto deve ter com o clube que dá tanto à região?
Deve ter uma relação completamente descomplexada, que aliás é a que existe neste momento. Tudo isso está hoje normalizado.
Não foi assim em tempos.
Houve uma fase muito difícil dessas relações, isso é conhecido, mas está ultrapassado. O Futebol Clube do Porto é uma instituição essencial para a imagem da cidade e é uma instituição que a Câmara deve acarinhar, como aliás deve acarinhar o conjunto do sistema desportivo. Eu estou muito preocupado com a situação que se encontra o Boavista e comigo na Câmara Municipal haverá uma ajuda para que o Estádio do Bessa continue e todos os equipamentos desportivos continuem ao serviço da cidade. Não estamos a falar apenas de futebol ou de futebol profissional. Estamos a falar de um clube que tem milhares de praticantes em dezenas de atividades amadoras, como é preciso ajudar a resolver a situação de instalações do Salgueiros, que é outro dos clubes grandes da cidade do Porto.
Estamos a falar de ajudas financeiras, obras.
Estamos a falar em muitos casos de resolver os problemas dos equipamentos e colocar os equipamentos ao serviço das pessoas. Mais do que o dinheiro, aqui o que conta é que numa cidade que tem uma área geográfica relativamente limitada, como é o Porto, a escassez de equipamentos desportivos é um tema muito sério e é um tema que tem levado a um certo declínio da atividade dos clubes da cidade, de todas as dimensões. E a Câmara do Porto tem que ter uma estratégia para os equipamentos desportivos, que tem que ser implementada de forma rápida para que as pessoas possam praticar desporto. E o desporto é muito importante para a saúde individual e é muito importante para a saúde da comunidade
Estamos novamente na VCI. Agora, sim, estamos aqui na parte-
Agora na parte difícil.
Difícil do trânsito.
E atenção que isto é uma hora boa.
Assim como o português deve utilizar muito-
Claro
...muito a VCI. Em dias maus, quanto tempo é que passa aqui? Dá para refletir muito sobre o que tem de fazer à campanha ou não?
Uma hora de VCI é uma experiência normal para um português durante um dia. Não é uma coisa rara.
Para ir e voltar para casa.
Sim, não é uma coisa rara. Mas a VCI é um livíssimo problema de mobilidade, mas deixe-me dizer que é também um livíssimo problema ambiental. Não há nenhuma hipótese de a cidade do Porto se tornar sustentável, do ponto de vista das emissões de carbono, se nós não resolvermos a crise na VCI.
Vou aproveitar esta parte final da entrevista. Estamos a dirigir-nos ao Hospital de São João. É médico, foi ministro da Saúde. Como é que olha para aquilo que se está a passar no Serviço Nacional de Saúde?
Primeiro, eu não apenas sou médico, como sou mesmo médico dos quadros do Hospital São João. Tenho muito orgulho nisso e tenho muito orgulho de ser médico de um hospital que é um dos navios almirante da saúde em-
Em Portugal.
Em Portugal. Devo dizer que no Porto há outras duas grandes instituições a esse nível hospitalar, quer o Santo António, quer o IPO, são também instituições muitíssimo relevantes. Eu acho que o que está a acontecer na saúde é muito experimentalismo e pouca reflexão sobre as medidas. Quando se chega a um ministério tão complexo como o Ministério da Saúde, a ideia de querer começar tudo de novo, é uma ideia muito perigosa. As mudanças num sistema tão complexo como é o Serviço Nacional de Saúde, têm que ser mudanças incrementais. Eu não acredito nada em coisas mais ou menos revolucionárias que vão mudar tudo de um dia para o outro. Eu tenho visto muita agitação e poucas medidas tomadas.
E muitas críticas também àquele que deixou, principalmente na questão da gestão da direção do SNS.
Conforme o tempo vai passando, se vai percebendo que talvez essas críticas tinham pouco fundamento. A verdade é que enquanto eu fui ministro, apesar das dificuldades, que eu não nego e que eu nunca escondi, nunca aconteceu as três maternidades da Península de Setúbal estarem fechadas no mesmo dia. Nunca aconteceu as três maternidades do Oeste, Caldas da Rainha, Santarém e Leiria, estarem as três fechadas no mesmo dia. Era mesmo para isso que servia a direção executiva do SNS, era para fazer uma articulação que garantia que não havendo o que é desejável, recursos para que tudo funcione impecavelmente todos os dias, não houvesse pelo menos lacunas, que eu acho que são dramáticas, de serviço às populações.
A linha de saúde para as grávidas não faz nenhum sentido ou poderia ser útil?
Acho que faz parte do pacote de medidas que têm que se tomar. Agora, não pode ser a linha de saúde para as grávidas sem serviços que depois as possam acolher em tempo útil. Quer dizer, se a resposta da linha de saúde que conduz aqui uma grávida, depois demora duas horas a chegar a uma maternidade. Aí alguma coisa está-
Ou que nasçam bebés
...a funcionar mal, a culpa não será da linha, a culpa será do sistema que não está a funcionar à volta. Mas eu tenho sobre a situação da saúde uma visão muito moderada e de grande compreensão pelas dificuldades. Agora, o que não me permite dizer, quer dizer, quando eu fui ministro, nunca aconteceu haver 10 dias de greve no INEM. Isso não pode acontecer.
Mas num balanço do final de julho, já tinham nascido 42 bebés fora de maternidade, 38 em ambulâncias. Sabemos pelas notícias dos últimos dias que há mais. Tendo estado neste cargo, sabendo, como acabou de dizer, que não é fácil mudar tudo, acha que a ministra podia ter feito melhor para antecipar este verão, sendo que o anterior já foi difícil?
Para já, foi cometido um erro brutal quando se decidiu substituir o doutor Fernando Araújo como diretor executivo do Serviço Nacional de Saúde. A ideia de colocar na direção executiva do SNS alguém que cumpre as ordens diretas do ministro sem mais, é uma ideia que torna a direção executiva inútil, porque o objetivo da direção executiva é garantir continuidade das soluções técnicas, independentemente da visão estratégica do ministro. Eu vivia muito bem com isso, mas compreendo com dificuldade que outros vivam menos bem com isso. Se calhar, eu sou uma pessoa mais autoconfiante. Para mim, não me causava nenhum problema que o doutor Fernando Araújo, com toda a sua autoridade técnica reconhecida, nomeadamente inter pares, tivesse uma intervenção pública, que era uma intervenção pública que eu sempre entendi que era no contexto das suas funções técnicas e cá estaria eu como ministro para definir a orientação política.
E acha que o Porto está um bocadinho fora desta realidade problemática que temos visto nos últimos dias?
Está mesmo muito fora. Está mesmo muito fora e isso tem a ver com o facto de que no Porto, ao longo das últimas décadas, nós conseguimos soluções consensuais para defender o Serviço Nacional de Saúde. Veja que no Porto não há nenhuma maternidade que deixe de funcionar, não há anúncio de grávidas não atendidas, todas as pessoas têm médico de família. Isso tem a ver com coisas que foram feitas ao longo do tempo. Eu tenho orgulho de também ter participado nessas coisas, mas olhe, o professor Fernando Araújo foi absolutamente essencial nesse processo, nomeadamente quando foi presidente da Administração Regional de Saúde do Norte, há 10 ou 15 anos. Do nosso lado direito, o IPO Porto, o maior instituto de oncologia do país e um dos maiores da Península Ibérica.
Vamos terminar a nossa entrevista aqui em casa. Não foi em sua casa, mas foi numa segunda casa. Muito obrigada por ter estado connosco.
Não, foi um prazer, Inês.
No Carpool. Espero que tenha sido-
Foi uma conversa mais longa do que nós tencionávamos.
Mais longa do que tencionávamos, é verdade.
A minha paixão pelo Porto acabou por a desviar.
É verdade. Este tipo de conteúdo tem sempre isso e estas dificuldades no trajeto, mas vou escolher aqui um sítio para parar. Muito obrigada.
De nada.