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O Euromilhões desta segunda-feira é com o João Filipe Cruz, mas tem também comentários do Bruno Vieira Amaral. Olá, João, bem-vindos.

Olá, Nelson, saudades.

É verdade, obrigado por isso. A Judite também está aqui e também sentiste saudades nossas, não é? Estávamos ausentes. Do Bruno é que ninguém tem saudades, porque ele está sempre aqui a trabalhar. Faz ele muito bem. Olha, vamos falar do presente. Tema do dia, ainda o Porto Arouca. Os Dragões vieram nas últimas horas desmentir a Federação Portuguesa de Futebol, a propósito dessa falha de energia que impossibilitou as comunicações entre VAR e árbitro durante pelo menos 14 minutos.

É isso. É tema do dia, tema dos dias, destes dois dias, pelo menos. Nesses 14 minutos, só dar aqui algum contexto pros mais distraídos, que acredito que nesta altura sejam muito poucos. Durante esse quase um quarto de hora, o árbitro Mário Nogueira reverteu uma decisão. Na altura marcou um pênalti em favor do Futebol Clube do Porto, através de uma chamada telefônica com a Cidade do Futebol, já que o sistema esteve, como disseste, Nelson, embaixo. Já hoje, o Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol tinha emitido um comunicado, a referir que o sistema de videoarbitragem no Estádio do Dragão esteve quase 15 minutos sem energia, porque a única tomada elétrica disponível na área de revisão, onde está o tal ecrã onde são depositadas as imagens que chegam da Cidade do Futebol, não tinha corrente elétrica. Agora, o Porto desmente, diz que a mesma área de revisão tinha uma fonte de energia de alimentação interrupta, um sistema que, de acordo com a FPF, também tinha a energia de reserva esgotada. Também esse sistema complementar já tinha esgotado. O Porto, neste comunicado, partilha até uma fotografia do quadro elétrico, em que reitera que essa tomada, que a Federação Portuguesa de Futebol dizia que era a única, afinal não é a única, junto ao ecrã. E na imagem vemos, de facto, um outro quadro elétrico com outra tomada disponível. E os Dragões concluem que o cabo da Altice, a empresa contratada pro efeito, no primeiro equipamento do VAR, nunca esteve ligado, por erro técnico, à fonte de energia que estava disponibilizada pelo Futebol Clube do Porto, levando a que o sistema tenha estado a funcionar com recurso a baterias desde o início do jogo. E já sabemos que as baterias se esgotam. Bruno Vieira Amaral, eu não sei se nós somos os rapazes mais indicados pra explicar isso.

Por isso mesmo, eu queria chamar aqui ao programa um eletricista.

Eu queria dizer que este tema, como tu explicaste, tem sido ótimo pra internet. Porque a internet tem reagido com várias fotografias e memes deste tipo.

E já estão lá fora.

A tomada, desligou-se a tomada, a tomada não existia, a UPS. Enfim.

Pois é um bocadinho caricato.

Há um meme muito bom. Desculpa.

Qual deles?

É o Pinto da Costa a desligar.

Não.

Esse eu também já vi.

É a imagem do Leonardo DiCaprio, por acaso num filme.

Sim, no "Django".

Sim, no "Django", em que ele diz: "De repente pensei que ia festejar a passagem de ano no jogo do Dragão."

Não, houve vários. E quando se fala tanto da internacionalização do futebol português, da liga, capacidade de exportar os direitos. Há emoção, há comédia. O comunicado do Porto, logo após o jogo, falava em acontecimentos bizarros. E de fato, o campeonato português está recheado de acontecimentos bizarros, o que, por um lado, até se pode ver como uma mais-valia em relação a outros campeonatos, em que não há tantos acontecimentos bizarros. Também há polêmicas, mas de facto o nosso campeonato insiste em proporcionar-nos estes momentos e depois comunicados e contra-comunicados. E a culpa não vai morrer solteira, vai morrer casada com o eletricista.

Exato.

Pra próxima não nos esquecemos de o trazer também.

É verdade, podíamos ter aqui um comentário mais experiente sobre esta questão. Olha, vamos ao futuro. As comunicações do VAR com o árbitro vão ser partilhadas já a partir desta semana, mas segundo percebi, João, isto é um novo programa de televisão.

É. Vão ser partilhadas já na quinta-feira. É pelo menos o que podemos ler num comunicado conjunto do Conselho Disciplinar da Federação Portuguesa, lá está, fez outro comunicado hoje, e da Sport TV, que nos leva a crer que vai ser a Sport TV a transmitir esse programa. Claro, é o canal detentor dos direitos da nossa liga em Portugal, e vai receber esse tal programa mensal que vai ser responsável por disponibilizar os áudios. De acordo com este comunicado, todos os lances que foram avaliados no ecrã disponível no relvado vão ter os áudios das conversas entre os árbitros de campo e o videoárbitro divulgados, de forma mensal na Sport TV. O primeiro programa é já esta quinta-feira às 19h30. E essa emissão de quinta-feira vai incluir os áudios já da Supertaça, que o Benfica venceu o Futebol Clube do Porto por 2 x 0, e em que Sérgio Conceição e Pepe foram expulsos, bem como dos encontros das primeiras três jornadas. É pena que esta aqui de ontem, que acabou ontem, só venha pro mês que vem.

Pro mês que vem.

Vai ser por temporada, esse é o primeiro capítulo.

Exato. Mas é isso mesmo. Quer dizer, já que não conseguimos vender os direitos de transmissão dos jogos, podemos vender isto à Netflix, porque de certeza que vai ter muito interesse em ouvir certas comunicações. Eu não sei se eles vão fazer uma seleção criteriosa, se haverá ali um guionista a escolher os melhores momentos.

Mas agora vai haver um especialista em arbitragem a contextualizar.

Pois. Eu acho que um dos efeitos neste clima que se vive, que não é de agora, no futebol português e sobretudo à medida que o campeonato vai avançando, se não for bem escolhido, pode fragilizar ainda mais a posição dos árbitros, que já estão numa posição bastante delicada.

Mas quando dizes bem escolhido, terá que haver uma seleção dos áudios, é isso?

Vai haver, certamente. Isso não vai ser disponibilizado, não acredito.

Em bruto.

Não. Eu quase aposto que isso vai ser criteriosamente escolhido.

Editado.

Sim, claro. Pelo menos é essa a minha ideia. Aliás, eu acho que quando se falou em primeiro lugar disso, disse-se logo que haveria uma gestão das comunicações a serem reveladas, a serem disponibilizadas publicamente. Eu acho que deve ser feito isso, acho que deve ter uma intenção pedagógica de explicar também mais ou menos qual foi o processo de decisão, mas estou em crer que vai ser mais uma arma nestas guerras semanais que nós temos. Quando houver lances polêmicos a prejudicar um clube, esse clube vai usar isso como arma de arremesso. Se houver hesitações, se houver qualquer coisa que não se percebe muito bem, ou se não forem disponibilizados os áudios que aquele clube acha que deveriam ser disponibilizados, isso vai ser mais uma arma de arremesso. Não tenho a mínima dúvida. Agora, que enquanto espetáculo vai ter muito interesse, isso vai ter de certeza.

Apostas numa boa audiência para esse.

Pelo menos nos primeiros episódios, sim. Vamos ver depois como é que as coisas correm.

Não sei se foi uma coincidência terem divulgado este comunicado para este novo programa depois do que aconteceu ontem.

Eu acho que esse programa devia ter começado logo no início da época para termos isto cronologicamente. Porque os acontecimentos, por exemplo, deste fim de semana, se calhar só numa segunda temporada do programa. Bem, vamos ao passado. E hoje falas de uma viagem ao passado de mais de 18 anos. Vamos até Sevilha e vamos com Sérgio Ramos.

Está de volta, 18 anos e quatro dias depois. Foi no último dia do mercado de verão de 2005 que Sérgio Ramos trocou o Sevilha pelo Real Madrid, na altura por 27 milhões de euros, que era um valor astronômico há mais de 18 anos. Na altura, esta transferência foi interpretada como uma traição, porque houve duas narrativas: uma do presidente do clube na altura, o senhor Del Nido, que garantiu que Ramos quis sair e forçou a saída para o Real Madrid. Mas antes, havia toda uma outra narrativa que favorecia o jogador criado pelo Sevilha, formado no Sevilha, que até havia documentos propostos pela entourage de Sérgio Ramos com uma proposta de contrato de muito longa duração e com a promessa de que seria sempre o mais bem pago do plantel, que receberia a braçadeira de capitão. Inclusive alguns adeptos, ou muitos adeptos, até defendiam que isto pudesse acontecer e queriam que Daniel Alves, que na altura era o lateral direito do Sevilha, fosse vendido para que criasse mais espaço para que o Sérgio Ramos, na altura lateral direito, fosse um titular indiscutível no Sevilha. Portanto, viam com bons olhos este elevar a príncipe de Sérgio Ramos. Só que o presidente, na altura, Del Nido, não concordou, achava que a braçadeira de capitão não podia caber a um jovem saído da cantera, e depois os adeptos acabaram por acreditar na narrativa de Del Nido, que garantiu que Ramos quis sair para o Real Madrid e ainda hoje, ou pelo menos até ontem, era visto, Sérgio Ramos no Sevilha, como um traidor. Agora no regresso, isto já se falava há uns dias até. Sérgio Ramos chegou a Sevilha este fim de semana e na altura, claro, que foi apanhado pelos jornalistas espanhóis e falou numa dívida que tinha com o pai, com o avô, e até reconheceu que essa saída em 2005 deixou feridas. Enfim, na minha modesta opinião, é sempre bom vermos um jogador de regresso ao clube que o formou, ainda mais depois de ler algumas notícias da imprensa desportiva espanhola, que garantem a pés juntos que ele recusou ofertas do Galatasaray de 12 milhões por ano, do Al-Ittihad de 20 milhões por ano e vai a cerca de 1 milhão de euros no Sevilha.

São decisões pessoais. Neste mercado de transferências, falámos várias vezes das opções que os jogadores tomam, de tentar perceber se justifica um jogador no auge da carreira.

Já não é o caso de Sérgio Ramos.

Não é o caso de Sérgio Ramos, mas outros jogadores que optaram por ir para a Arábia Saudita por causa do dinheiro, se faz sentido ou não Primazia à vertente financeira em vez da desportiva e essa questão pôs-se em relação a vários jogadores. Aqui está uma resposta. É verdade que Sérgio Ramos está numa outra fase da carreira, como tu dizes, mas também revela outra coisa. Esta decisão de Sérgio Ramos de aceitar baixar o ordenado, ele vai ganhar €2 milhões brutos, pelo que estive a ler na imprensa espanhola. Acho que é à metade, portanto, é €1 milhão líquido. Acho que em Espanha é assim. Sim, seria acessível até para um clube português. Mas também, por exemplo, João Félix e João Cancelo, nós já soubemos, também aceitaram uma redução nos vencimentos para ir jogar para o Barcelona. Isto diz duas coisas. De facto, continua a ser o mais importante para a maioria dos jogadores a questão desportiva, a vertente desportiva, estar num clube onde queiram jogar, onde possam competir, disputar títulos. E outra coisa é que se calhar houve aqui, nos últimos anos, uma inflação dos salários dos futebolistas que os clubes agora veem-se na contingência de não conseguir acompanhar esses valores, ainda por mais em comparação com a Arábia Saudita. E talvez não seja necessário apenas os jogadores aceitarem a diminuição dos vencimentos, mas haverá aqui uma mudança gradual para vencimentos que sejam mais realistas e que não sejam aqueles vencimentos astronômicos, que depois não correspondem, de facto, à realidade dos clubes. É tudo uma ficção, é algo artificial. Como temos visto na Arábia Saudita, aquilo não corresponde às receitas geradas.

As receitas convencionais dos clubes não crescem ou não têm crescido ao ritmo do que os jogadores têm vindo a ganhar.

Exatamente. Os jogadores são as estrelas e eles devem ser bem remunerados. Mas quando passamos para uma situação quase de vencimentos completamente irreais para as receitas geradas pelos clubes, isso deveria levar os clubes a pensar. O caso do Barcelona é paradigmático. Vemos o caso do João Cancelo e do João Félix aceitaram, mas outros jogadores aceitaram, outros dentro do Barcelona não aceitaram essa diminuição de vencimento. No caso de Sérgio Ramos, há aqui uma ligação afetiva com o clube. Como tu dizias, ele saiu um pouco de forma polêmica do Sevilha, mas ele também agora, ao regressar, fez ali um ato de contrição, arrependendo-se também publicamente de algumas coisas que disse nessa altura e da forma como acabou por sair do clube. E tudo isto tem que ver com essa história que ele tem com o clube. Eu acho que o grande sinal para o resto do futebol e do futebol europeu, de alguns clubes em particular, é que é preciso, de facto, ajustar os gastos às receitas. E as receitas são o que são. Eu sei que há aquela vontade de oferecer aos adeptos determinados jogadores, mas não se pode inventar dinheiro, não se pode fazer dinheiro nos clubes e se calhar este mercado de transferências também veio fazer-nos olhar de maneira diferente para isso.

E já que o Bruno falou, já agora, Nelson, da eventual chegada de uma série sobre a arbitragem portuguesa, por que não uma série com este título, "Regresso de um Traidor"? Era uma série que eu veria.

Eu via, se for com o Sérgio Ramos.

Tipo "The Witcher".

Fechamos com Sérgio Ramos. O Euromilhões desta segunda-feira teve edição do João Filipe Cruz. João, um abraço. Obrigado.

Rádio Observador.