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Eleições autárquicas ao virar da esquina, dia 12 de outubro. As listas foram entregues até o início desta semana, a data limite foi segunda-feira. O PS parte para estas eleições depois de um terceiro lugar nas legislativas e com um novo líder. Depois de duas vitórias em eleições anteriores, o PSD quer tornar-se na primeira força autárquica do país. Mas há um joker neste baralho: é o Chega, que ganhou em muitos dos círculos eleitorais que vão em outubro a votos. É o nosso convidado, David Pimenta, politólogo do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Uma entrevista moderada pela Raquel Abecasis e pelo João Gama.
Boa tarde, David Pimenta, e obrigada por estar conosco. Se olharmos para os resultados das últimas eleições legislativas, vemos que o Chega pode disputar algumas das maiores autarquias do país, mas olhando para o histórico, podemos fazer esta leitura ou acha que a escolha autárquica continua a ser uma escolha que os eleitores fazem com outra base?
Muito boa tarde, obrigado pelo convite. De fato, estas autárquicas trazem a novidade do Chega, que não é uma novidade em termos de legislativas, nem de europeias, mas agora temos um terceiro partido bastante forte e fortalecido pelas últimas eleições legislativas. Agora, como sabemos, as eleições autárquicas têm uma dinâmica diferente. O plano local é sempre muito incerto, as dinâmicas são muito diferentes, o voto também é menos ideológico, é mais centrado nos candidatos, que muitas vezes, como sabemos, são independentes ou pertenceram a vários partidos ao longo da sua carreira política. E o Chega é um partido ainda muito unipessoal. É um partido que apesar de mostrar agora a ambição de concorrer a todos os municípios, ainda é um partido unipessoal, ainda é um partido que tem dificuldade em atrair quadros, em atrair até candidatos que sejam conhecidos das populações locais. E, portanto, o que é esperado é que o Chega tenha um impacto grande nos resultados dessas autárquicas, mas também é esperado que não seja um impacto tão grande como nas legislativas, porque não tem essa dimensão de quadros, essa notoriedade de outros candidatos que o PSD e o PS terão.
Deixe-me perguntar-lhe também, David Pimenta, da perspectiva do partido de André Ventura, até que ponto estas eleições são um desafio para o Chega? Pode governar pela primeira vez câmaras municipais. Nós vimos, por exemplo, em Espanha, que isso nem sempre correu bem ao Vox de Santiago Abascal. Que desafios é que podem esperar este partido com estas dores de crescimento, liderando ou não câmaras municipais?
O que nós sabemos de momento é que o Chega se apresenta nestas autárquicas sem coligações. Mas também sabemos que nas últimas autárquicas, vários candidatos do Chega, que até se tornaram independentes e que até perderam a confiança política de André Ventura, acabaram por entrar em soluções de governo local com candidatos, com membros de outros partidos. Portanto, na verdade, estamos aqui num cenário de alguma incerteza. O que nós sabemos é com alguma garantia que o partido vai crescer e crescendo vai naturalmente conversar com outros partidos e depois teremos que perceber se esses candidatos vão ou não corresponder às expectativas e ao voto de confiança que o partido lhes deu. André Ventura também já falou nas questões de idoneidade, que apesar de ter sido feito agora um controle maior na escolha dos candidatos.
Aliás, muitos dos candidatos do Chega nas últimas eleições acabaram por se desfiliar do partido depois de serem eleitos.
Exatamente. André Ventura nos últimos tempos tem falado que o partido tem adotado uma nova postura no recrutamento e na forma como está a garantir que esses candidatos são uma aposta válida, pedindo registro criminal, declarações de não dívida, etc.
Mesmo assim houve uma candidata que teve que desistir mesmo à beira da inscrição no tribunal de Setúbal.
É um exemplo paradigmático. Temos também o caso de um militante do Chega que tentou impugnar listas do partido, mas também não tem conseguido ganhar esse recurso nos tribunais. Isso são exemplos paradigmáticos que nós podemos continuar a esperar do partido, que tem as tais dores de crescimento, que cresceu muito rápido e que certamente não tem ainda os quadros necessários para uma eleição desta dimensão.
David Pimenta, deixe-me perguntar uma coisa. Independentemente dos resultados, parece que é certa a ideia de que o partido vai crescer em muitas das autarquias e nesse sentido poderá tornar-se determinante para viabilizar ou não executivos. Isto vai colocar outras forças políticas, para além do PSD, com a questão das linhas vermelhas.
Certo. O que nós vimos até agora, eu sinceramente não acredito que militantes do Chega, candidatos oficiais do Chega, com o aval de André Ventura Possam se coligarem com partidos de esquerda nalgumas localidades. Eu não acredito nesse cenário. Acho que isso seria estender demais a flexibilidade, neste caso, de André Ventura. Penso que isso pode acontecer perfeitamente em câmaras com elementos do PSD e do CDS. Agora, partidos à esquerda tenho alguma dificuldade em ver esse cenário. Mas não obstante, apesar de não haverem coligações oficiais ou acordos oficiais, é expectável que os partidos falem entre si cada vez mais, porque este é o novo normal.
Disse logo no início, o CHEGA não vai com coligações prévias a estas eleições. Como é que as coligações entre vários partidos, por exemplo, Lisboa é um caso paradigmático disso mesmo, temos duas mega coligações, uma de esquerda e uma de direita. Como é que as coligações podem fazer mexer estas eleições autárquicas com ou sem o CHEGA, neste caso sem o CHEGA, que é o que vemos, por exemplo, em Lisboa?
Eu acho que o que se vai passar é um pouquinho aquilo que se passa já a nível de Parlamento, a nível nacional, que é o PSD é expectável que seja o partido que saia vencedor destas eleições autárquicas. Portanto, o PSD vai ter a sua linha, vai fazer as suas propostas, vai colocá-las em cima da mesa nas assembleias municipais e não vai rejeitar o apoio, seja do PS ou seja do CHEGA. E neste enquadramento, acho que vai ser cada vez mais habitual vermos o CHEGA a votar ao lado do PSD, em situações em que, por exemplo, uma frente de esquerda de um PS coligado com o LIVRE, com o Bloco de Esquerda, com o PCP, etcetera, faça essa oposição. Portanto, eu acho que é natural vermos cada vez mais isso, como também hoje em dia já vimos no Parlamento Nacional.
Uma maior fragmentação da política autárquica, como já vimos na Assembleia da República, é isso?
Sim, mas em que o centro-direita, e neste caso a direita radical, tenderão, nalguns casos, a votar no mesmo sentido.
E no caso de Lisboa, por exemplo, Bruno Mascarenhas, candidato do CHEGA, pode desbloquear a governação de Carlos Moedas, uma vez que as sondagens mostram o atual presidente de câmara muito próximo, favorito até mesmo com Alexandra Leitão e praticamente todos os partidos de esquerda reunidos nessa coligação muito próximos. O CHEGA pode ser em Lisboa ou noutros municípios o fator diferenciador destas eleições, que não terminem com empate técnico, mas praticamente.
Sim, sem dúvida. Desde há uns tempos para cá, no caso de Lisboa, o presidente Carlos Moedas tem um discurso muito centrado também na questão da segurança, especialmente em freguesias até com uma grande incidência de imigrantes. Esse tipo de questões são questões familiares ao CHEGA e, portanto, penso que naturalmente o CHEGA vai apoiar o Carlos Moedas nalguns temas como este, até para responder ao seu eleitorado. E o próprio Carlos Moedas, neste caso, vai ter interesse também em importar neste tipo de temas para não perder eleitorado para o CHEGA. Portanto, acho que há aqui um cálculo político de ambas as partes que vai fazer uma confluência de votos nesse sentido e um direcionamento de políticas nesse sentido.
David Pimenta, deixe-me só ainda precisar em relação a esta questão de entendimentos. Acha completamente impossível em autarquias em que o PS concorre sozinho e que possa precisar de entendimentos, não digo coligações com o CHEGA, que isso possa acontecer? Pergunto-lhe isto porque todos estes entendimentos seguramente depois terão consequências nas direções partidárias e, portanto, há aqui um desafio para o próprio Partido Socialista de mostrar também qual é que é o seu posicionamento ao nível autárquico.
Sim. Eu acho que o PS, sinceramente, está numa situação muito difícil e que uma solução de entendimentos com o CHEGA não é a escapatória ideal para o PS. Penso que, neste caso, para o PS viver uma luta com o CHEGA e com o PSD nalgumas autarquias, vai ter que fazer o seu caminho, com as suas políticas, com as suas ideias, e penso que não será possível uma lógica de entendimentos pós-eleições, a não ser que tenhamos situações como também tivemos no passado, em que candidatos do CHEGA se tornaram independentes, que é uma situação perfeitamente possível. Agora, se estivermos a falar de candidatos do CHEGA apoiados pelo André Ventura, continuando a ser candidatos do CHEGA e não independentes, sinceramente não acredito nessa possibilidade, até porque atualmente o CHEGA tem como alvo também o PS. Nas últimas eleições legislativas, quando olhamos para a distribuição de votos, percebemos que houve uma transferência também de votos do PS pro CHEGA O PS é um alvo a abater para o Chega. Penso que não vamos assistir a situações dessas.
É muito provável que mesmo que não seja em todos os concelhos ou distritos onde o Chega conseguiu uma grande votação nas últimas eleições legislativas, o Chega venha a ter pela primeira vez a responsabilidade de governar algumas das autarquias. Isto coloca o Chega num outro patamar de responsabilidade e, portanto, também contribuirá para um outro tipo de avaliação por parte do eleitorado?
Sim, cada vez mais. Há casos como em Albufeira, onde o Chega esteve perto de 40%, em que o candidato, neste caso o Rui Cristina, pode perfeitamente ocupar o lugar de presidente da Câmara. Mesmo a Rita Matias, onde em Sintra o Chega teve cerca de 30% nas legislativas, também há essa possibilidade. Depois também temos o Bruno Nunes em Loures ou o Pedro Pinto em Faro. São possibilidades fortes e, no caso, como nós sabemos, quando um deputado é eleito presidente da Câmara, tem que deixar o Parlamento. Ao passo que no caso de um vereador ou de um presidente de junta, pode ao mesmo tempo ocupar o lugar de parlamentar na Assembleia da República e no executivo camerário. Quando se trata de presidentes da Câmara, não há essa possibilidade. O candidato teria que deixar mesmo o Parlamento e estar numa autarquia. O Chega também nestas autárquicas, todos os seus deputados estão a entrar como candidatos, seja para presidentes da Câmara ou para outros cargos nas autarquias e há uma aposta muito forte nestas autárquicas. São as principais pessoas do partido que vão a votos e claro que a responsabilidade aumenta bastante. O resultado, seja positivo ou negativo, vai ter um impacto mais uma vez no partido, e neste caso, como não é André Ventura o candidato, a expectativa é para vermos quais são os resultados.
Foi o que aconteceu nas últimas europeias também. E num minuto, perguntar também, David Pimenta, o André Ventura tem mantido um certo segredo mal guardado quanto ao desejo de se candidatar também às próximas presidenciais. Face à importância que estas autárquicas podem ter para um partido como o Chega e da proximidade que já têm de ser governo numas eventuais legislativas, acha que André Ventura vai deixar as presidenciais para um segundo plano e avançar com outro candidato em vez do próprio?
Esse parece ser o cenário que nós temos por agora, mas até lá muita água vai correr. Penso que nenhum de nós tem uma bola de cristal para saber o que se vai passar. Eu acho que primeiro temos que avaliar aqui os resultados das autárquicas. O Chega certamente vai ter um resultado que lhe pode permitir cantar vitória, porque com uma probabilidade relativamente elevada vai eleger presidentes da Câmara, e isso pode ser a base da constituição de uma narrativa de vitória para o Chega, porque até o momento não tem nenhuma presidência de Câmara. Depois temos que ver quais as dinâmicas nacionais na Assembleia da República para perceber se fará sentido ou não uma candidatura de André Ventura. Mas muita água ainda vai correr e, por enquanto, julgo que não vale a pena estarmos a pensar nessa questão.
Vamos ficar a esperar para ver o futuro autárquico e também presidencial do partido Chega. David Pimenta, muito obrigado por ter estado no Explicador da Rádio Observador.
Obrigado.