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As regras em vigor em Lisboa limitam a 91, este é o número aceito para voos entre a meia-noite e as 6h em Lisboa, por semana. A Associação Zero, a associação ambientalista, tem feito contas e afirma que esta deliberação da ANAC, Autoridade Nacional de Aviação Civil, o regulador destas matérias, diz a zero que esta deliberação de um limite de 91 voos por semana entre a meia-noite e as 6h em Lisboa, foi cumprido em duas de 35 semanas este ano. Por exemplo, na semana de 17 a 23 de agosto, a Zero registou 187 movimentos noturnos. Lembro que o limite é 91. A partir de maio deste ano, um cidadão, morador em Lisboa, instalou um mecanismo, criou um site, o Lisbon Finals, para contar aviões, medir níveis de ruído e até fotografar os aparelhos para que tudo fique bem documentado. É precisamente sobre barulho de aviões que vamos falar agora. Eu sou o Ricardo Conceição e comigo está a Judite França, quem é o nosso convidado, Judite?

António Boaventura, o criador do site Lisbon Finals. Bem-vindo à Rádio Observador. Por que decidiu criar este site?

Ao princípio, foi uma brincadeira. Estava a almoçar com amigos no terraço, honestamente, e ficaram todos impressionados por ver. Eu estou mesmo por baixo do corredor de aviões, eles passam por cima de mim. E por curiosidade, a um certo momento, a brincadeira transformou-se numa ideia e comecei a ter aquela curiosidade de saber quantos aviões passavam por cima da minha casa, qual era o barulho, a vibração. Eu sinto a vibração cada vez que um avião passa. Então decidi montar o website e um tijolo depois de um tijolo, fui completando a informação toda. E agora está acessível aos lisboetas.

E que tipo de informação, António, é que conseguimos encontrar neste site?

Honestamente, encontramos tudo, porque quando um avião chega, ele emite pela rádio a velocidade, a altitude, a direção, claro. Isso são dados que já posso recolher com o meu sistema. Também há um momento onde ele passa, vou captar o máximo do ruído que ele vai fazer. No website, já medimos até 109 decibéis, que é muito.

Isso é mesmo muito elevado, não é?

É muito elevado.

Uma conversa normal, como estamos a ter aqui, está na casa dos 50, 60.

50, 55, 60, uma conversa normal. O tráfego é mais ou menos 70. Já é cansativo ter uma conversa a mais de 70 decibéis.

Ao pé de uma avenida como a Avenida Brasil, em Lisboa, por exemplo, que é uma avenida com muito trânsito.

Exatamente. E agora os aviões estão a passar em promedio, do que eu calculo, que é o pique máximo dos aviões a passar, são 330 aviões por dia, mais ou menos, é 90 decibéis, em promedio.

Trezentos aviões por dia.

Trezentos e trinta aviões por dia, em promedio.

E isso é aterragens?

Exatamente.

Estamos a falar de aterragens.

Aterragens.

Mas que tipo de informações é que disponibiliza? Conta aviões, conta decibéis.

Conta aviões, os decibéis, a vibração, a medida da vibração, é aquele ruído rouco que se ouve quando o avião está a passar. Isso também vou medir. Faço um apanhado também da poluição. Não associo o avião à poluição que é medida, porque o avião passa a 120 metros, é muito difícil associar. Mas tenho uma ideia, mais ou menos, da poluição no terraço e do impacto do vento, mais o calor que afeta as partículas. Eu tenho um sistema que deteta partículas, PM2. E mido também o vento, a direção do vento, para ver como é que afeta. Quando tiver muitos dados, se calhar dentro de alguns meses, posso ver como é que o vento vai afetar o som na aproximação. Porque houve aqui uns dias, no mês de setembro, que foram interessantes, onde os aviões chegaram, não é mais devagar, nem mais alto, mas o som era muito mais baixo. Então é interessante ver qual é o impacto do clima, direção do vento, como é que isso impacta o barulho dos aviões.

Desculpa, dizer, é porque tinham menos velocidade ao aterrar, seria por isso?

Pode ser a direção do vento, um vento de frente. Não pode ser um vento muito forte, que senão os aviões têm a tendência de pôr os reatores.

Tem que virar.

Só vou poder dar os dados daqui a alguns meses, quando puder medir. Mas vi, analisei que há uma influência no vento sobre o ruído dos aviões a chegar em Lisboa.

A contagem começou em maio?

Exatamente, em maio, 3 de maio.

E no site, no que toca ao período noturno, registou cerca de 1850 voos.

Exatamente.

Cento e trinta e seis de nível crítico, no que toca a decibéis.

Exatamente.

Duzentos e cinquenta e cinco alertas laranja e 144 de nível amarelo.

Exato.

Olhando para a questão dos decibéis, isto quer dizer que quem vive no corredor de aproximação dorme mal

Se não tiver uma boa insolação de casa, sim, dorme mal. A janela de escuta da ANAC é de meia-noite até às 6h da manhã. Tenho no meu website as duas janelas para as pessoas poderem comparar. Eu escolhi uma janela que é das 11h.

Das 11h da noite?

Das 11h da noite às 7h da manhã, oito horas de sono, para as pessoas verem que muito tráfego está concentrado das 11h até à meia-noite, antes das restrições de voos da ANAC. Temos um sistema de pressa que se pode ver no sítio onde os aviões vão chegar rápido, de forma mais potente.

Uns atrás dos outros às 11h da noite?

Sim, eu sinto os aviões mais fortes. Eu mido e ao mesmo tempo vivo ali por baixo. Então eu posso verificar do meu sofá se o avião está a chegar rápido ou não está a chegar rápido.

Mete com os seus aparelhos e com o corpo.

Exatamente. E sinto com o corpo.

Mas o que é que dizem as regras da ANAC? Nós falámos há pouco de 91 movimentos por semana.

91 movimentos por semana.

Durante aquele período, não é? É o máximo.

É o máximo, mas há também aviões que têm o direito de aterrar. A TAP tem direito a certo número de aviões, porque o hub principal da TAP é aqui em Lisboa.

A TAP é recordista.

Claro, quase 50% do tráfego é da TAP, um pouquinho menos. Não tenho em mente exatamente a porcentagem, mas não é a companhia que faz mais barulho, apesar de ter uma coleção de aviões mais grandes.

Qual é a mais barulhenta?

Acho que o mês passado foi a TAAG, Angola. São aqueles aviões enormes que a gente vê passar aqui. Claro que são as companhias que têm voos transatlânticos. Esses são os aviões que estão-

São os aviões maiores.

O governo criou um programa, há pouco falava do isolamento, para vários conselhos na área do Aeroporto Humberto Delgado, cerca de € 10 milhões para isolamento acústico das habitações. Em Lisboa, as candidaturas ainda decorrem. Candidatou-se?

Eu já fiz.

Já fez.

Já fiz quando restaurei o apartamento, restaurei há pouco tempo, mudei as janelas e beneficiei da ajuda.

Era o fundo ambiental.

Exatamente.

Mas aqui trata-se de um fundo específico criado para lidar com o ruído no Conselho de Lisboa, Loures, Vila Franca de Xira. Está-me aqui a faltar um, mas penso que será também Almada. Queria lhe fazer esta pergunta, António, porque o valor previsto para os casos mais críticos neste programa, penso que o seu se poderá enquadrar, prevê € 1.000 de ajuda. Posso lhe perguntar quanto é que te estarão as suas janelas?

Claro, pode me perguntar. A mim custou-me mais ou menos 3.000 e tal euros.

As janelas?

As duas janelas.

Só duas janelas.

Duas janelas. Sim, são portas-janelas. Foi o preço e são umas janelas bem fônicas.

Com coisonização. E funcionam? Atenuam, pelo menos, não é?

Atenua. Ainda sinto, mas atenua. Sim, a diferença é enorme.

Sem isso, então, seria impossível.

Impossível. Honestamente, impossível. A pessoa que vivia antes no meu apartamento não tinha janelas duplas, não sei como é que ele fazia.

E enquanto cidadão, eu até adivinho a sua resposta, mas como é que olha para a forma como as regras estão montadas, para o lado prático depois, de como as coisas na prática funcionam, para a atuação da ANA Aeroportos, das companhias, da ANAC, que é, no fundo, o regulador, devia ser quem devia meter tudo isto na ordem. Como é que olha para isto tudo?

Eu olho como um cidadão que sabe que o aeroporto não vai mudar antes de, no mínimo, ainda 10 ou 15 anos. Eu estou a seguir de perto o desenvolvimento, agora principalmente porque pus o dedo neste projeto e que como há interesse, também interessa-me sobre os projetos do aeroporto, pôr o aeroporto do outro lado. Vamos esperar para ver.

Imagino que acenda uma velinha todos os dias e reze uma novena para ver se o outro aeroporto se desfaz.

Vou ser muito honesto, nem sei se eles vão conseguir construir o aeroporto ali. Aquilo é uma zona protegida. Não sou um perito, mas do que eu falei com pessoas que já me contactaram através desses projetos, vai ser complicado. Então nós temos que nos habituar a ter os aviões que vão ainda chegar em Lisboa nos 10, 15 próximos anos, sabendo que o tráfego vai aumentar. Isso é uma realidade, o tráfego já está a aumentar.

Tivemos ainda esta semana a inauguração de uma nova rota para o Brasil, em Lisboa, com voos a descolar às 11h30 da noite.

Mais um.

Com os atrasos.

Diria mais um. O que seria engraçado é ter também observação a mesma plataforma, e é por isso que também gosto de vir falar com vocês, é ter a mesma plataforma do outro lado, em Camarate.

Em Camarate, exato.

Eu já passei este fim de semana, por acaso fui olhar porque estive em contacto com um científico italiano que tem a mesma problemática e está a fazer o mesmo tipo de trabalho, mas de forma um pouco diferente. E ele está a fazer um mapping Com os meus dados, consegue fazer um mapping de um impacto sonoro dos aviões em função da geografia de Lisboa. E honestamente, eu não sei se ele conhece Lisboa, mas pelo mapping que ele já me fez com as medidas que já tivemos, é muito interessante ver que o centro está concentrado aqui neste vale que está entre Monsanto e Amoreiras, para os lisboetas que conhecem.

Campo de Ourique, Amoreiras.

Campo de Ourique.

Alto do Parque Eduardo VII.

Exatamente.

O Benquim, no fundo, vem para ali.

Faz este vale e o som fica aí concentrado. E este tipo de mapping permite ver visualmente o impacto. Ele já me pediu, se tivessem a mesma estação do outro lado, a gente fazia um apanhado completo do tráfego do aeroporto. 24 sobre 24, sete dias sobre sete.

Há outros aeroportos em cidades na Europa, nomeadamente, por exemplo, na Suíça. Acha que seria possível proibir, pura e simplesmente, os voos durante a madrugada em Lisboa?

Alguém que eu possa responder. Em França é proibido. Em França, a regulamentação não deixa os aviões. Claro, há sempre urgências. Um avião tem que aterrar, tem que aterrar.

Mas não pode haver 40 voos.

Quando os aviões partem, se vão chegar demasiado tarde, já não saem. Já acontece também aqui em Lisboa que uns aviões já não podem sair quando vêem que vão chegar muito tarde. Mas proibir o tráfego todo, seria fantástico, mas quase impossível.

Deixe-me só perguntar-lhe esta questão, porque a ANAC já aplicou coimas por violação destas restrições. A ANA foi multada e anunciou a intenção de recorrer. É fácil pagar a multa e continuar a agir da mesma forma?

Acho que, honestamente, aí não sou também um perito da ANAC. Era uma pessoa da ANAC, devíamos ter aqui também para falar com ele, porque seria interessante primeiro saber quais são as companhias que foram multadas. O avião, ter a informação. Se só houvesse já transparência um pouquinho sobre os aviões que são autorizados, a gente podia confrontar os dados que a gente recupera. Não produzimos, recuperamos os dados. Quer dizer, são dados, o avião passa, eu recupero esses dados. A gente podia confrontar os aviões que estão autorizados àqueles que estão na base de dados e ver se estão em conformidade.

Haver mais transparência aí.

Eu acho que sim. Eu acho que merecemos ter um pouquinho mais de transparência e de sossego.

O António Boaventura criou isto, estava a explicar no início da nossa conversa, na sequência quase de uma brincadeira, não é?

Uma brincadeira, mesmo uma brincadeira. Almoçar e ter de parar de falar todos os três minutos, num certo momento acaba por ser uma brincadeira.

Não tem nenhum objetivo ou não defende nada nem ninguém neste setor.

Nada. O objetivo é mesmo este. Eu dou os dados, agora as pessoas como o presidente Azero, que têm mais uma ação, podem servir dos dados. Claro, os dados são os dados de um cidadão, não são dados recuperados com material profissional. Quer dizer, eles põem também muitas restrições sobre o tipo de material que é preciso. Mas um sonómetro que está calibrado é um sonómetro que mede. Se tiver uma diferença de um decibel, não faz grande diferença na medição.

António, muito obrigado.

Obrigado eu.

Por vir aqui à Rádio Observador, António Boaventura, um cidadão que criou um site, Lisbon Finals, em que no fundo conta os movimentos de aproximação ao aeroporto de Lisboa e também de descolagens e os níveis de ruído, e ajuda a perceber como as regras de 91 voos no máximo por semana, no período entre a meia-noite e as 6:00 da manhã, como esse número tem sido ultrapassado várias vezes só este ano e basta olhar para este ano.