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"Ideias Feitas" "Ideias Feitas" com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.
Olá, Ricardo, e obrigado.
Hoje é caso para citar os R.E.M.: "It's the end of the world as we know it".
"It's the end of the world as we know it". Talvez não. Deixa-me só começar por dizer que eu uso a inteligência artificial enquanto motor de pesquisa, que é um motor mais poderoso do que aqueles que conhecíamos, os Groks, os ChatGPTs, os Geminis, essas coisas. Em geral, acho que são fiáveis, às vezes nota-se que não são fiáveis. Fora isso, fora o uso como motor de pesquisa, não leio nem vejo nada que eu note que tenha a mão da inteligência artificial e, pelo menos por enquanto, ainda vai sendo bastante fácil de identificar quando um produto tem mão da inteligência artificial. Se consigo escapar ou se estou tentando escapar, acho eu que estou a escapar desses produtos que são feitos por inteligência artificial, não consigo escapar às discussões em volta da inteligência artificial. E são sempre ou quase sempre discussões sobre se a inteligência artificial se vai autonomizar a ponto de subjugar a humanidade e até exterminá-la, no limite. Ou seja, discute-se se os avanços na inteligência artificial vão trazer consigo o fim do mundo, como na canção dos R.E.M. e noutras canções e noutras coisas. Eu, sinceramente, não sei, não faço ideia se a inteligência artificial vai acabar com a humanidade e vai trazer o fim do mundo e o apocalipse, essas coisas todas. E também não parece que alguém saiba ou consiga fazer uma previsão acertada, pelo menos até que a previsão se confirme. E aí já não estaremos para verificar, portanto, o assunto também acaba por não ter grande interesse. Agora, a propósito desta impressão quase constante em que vivemos ou da iminência do fim do mundo, houve um utilizador do Twitter, que é português, não sei o nome do senhor, não sei se ele recorreu à inteligência artificial, mas ele inventariou as capas da revista Time que, nas últimas largas décadas, fizeram menção ao fim do mundo sob perspectivas completamente diferentes, a pretexto de assuntos completamente diferentes e de causas completamente diferentes. E então, só aqui muito rapidamente, nesse inventário das capas da revista Time dedicadas aos fins do mundo que vinham aí. Em 1954, houve uma capa sobre a guerra nuclear. Fazia algum sentido, com certeza que sim, e realmente mudou o paradigma existencial da humanidade, a existência da bomba atômica, em 1954, ainda era muito próximo de 45. Depois, em 1960, houve uma capa sobre a superpopulação, ou seja, o mundo ia acabar por causa do excesso populacional. Em 1970, era o colapso ecológico, não pelos pretextos ou pelas causas de que falamos agora, hoje em dia. Em 1982, voltou a Guerra Fria e a hipótese do cataclismo nuclear. Em 1989, uma capa da Time dedicada à Terra em perigo, e aqui começou-se a falar do efeito estufa, aquecimento global, camada do ozono, etc. Em 92, voltou-se à camada do ozono. Em 99, era o bug do milênio, ou seja, também havia uma hipótese de acabar o mundo quando se entrava no ano 2000 e os computadores iam desregular tudo.
Ia ser na passagem de ano.
E na passagem de ano, e o mundo ia acabar. Aparentemente, não aconteceu. E depois, em 2001, 2006, 2007, mais capas sobre o clima, aquecimento global, cada vez com grau de alarme superior. No meio destas datas, em 2005, havia a gripe das aves, que também prometia acabar com não sei o quê. Em 2009, era uma capa dedicada mais genericamente à extinção. Não sei exatamente qual era o fator que ia levar à extinção. Em 2013, era o fim das abelhas. Eu ainda hoje vi algumas. Portanto, não acabaram. Em 2019, era outra vez o clima. Em 2020, obviamente, a Covid, que poderia causar cataclismos inimagináveis. Em 2023, começou-se a falar na inteligência artificial, ou pelo menos chegou à capa da Time. E agora, recentemente, outra capa em que a inteligência artificial já terá passado o ponto sem retorno. E esta sensação de que vivemos à beira do abismo é exatamente uma versão secularizada do milenarismo, daquelas ideias religiosas que já estavam na Bíblia inscritas, no Apocalipse. Quer dizer, mudam as histórias, mudam os argumentos, mudam as causas. Antigamente havia os quatro cavaleiros do Apocalipse, depois passou-se para o bug do milênio e o colapso climático. Mas há sempre uma estrutura psicológica que permanece mais ou menos idêntica, ou idêntica de todo. E segundo a literatura que se dedica a isto, existe um subgênero literário e de investigação dedicado a estes temas do medo, etc. Eu tenho meia dúzia, uma microbiblioteca sobre esses temas, portanto, não foi a inteligência artificial que me deu estas indicações. Vou resumir muito brevemente, Ricardo, não te assustes. Há quatro fatores que fazem com que isto aconteça, que fazem com que vivamos constantemente na iminência de que o mundo vai acabar. Um deles é o que alguns chamam o narcisismo histórico, ou seja, nós não aceitamos que somos apenas mais uma geração, somos uma geração especial, e é na nossa geração especial que vai acontecer o fim do mundo, vai coincidir conosco, porque nós somos peculiares, somos especiais, somos particulares. Dá uma espécie de dimensão épica às nossas vidinhas, que é o que elas são. Depois temos a biologia, ou seja, o nosso cérebro procura ameaças, o cérebro valoriza mais o perigo do que efeitos neutros ou efeitos banais. A catástrofe, a ideia de catástrofe iminente, o pânico, captam a nossa atenção de forma mais imediata. Está estudado por neurologistas, de forma mais imediata, instintiva. Depois há todo um negócio à volta disto, o negócio do medo. Quer dizer, antigamente, na Idade Média, a Igreja fazia boa parte do seu negócio alertando para o medo do inferno, agitando o medo do inferno. Hoje, os algoritmos e a própria política mobilizam as pessoas ou convocam as pessoas para esse medo que exige sempre ação imediata E perdoa-se muita coisa através desse medo. Ou seja, as pessoas ficam muito mais suscetíveis a aceitar ordens, a aceitar leis que noutras circunstâncias talvez não aceitassem. E por fim, acho que já referi há bocado, é uma espécie de adaptação moderna do pensamento religioso que nos faz viver assim, que nos faz viver sempre na perspetiva de que o mundo vai acabar. Só mesmo para terminar, num certo sentido, não faz mal a gente viver na expectativa de que o mundo vai acabar, porque enquanto tivermos essa expectativa que estamos cá para a ter, é porque o mundo ainda não acabou. Portanto, há sempre um dado otimista nisso tudo, é um dado positivo nestas coisas todas. Um dia que o mundo acabe, não vamos reparar ou não vamos ter hipótese de nos virarmos uns para os outros e dizer: "Vês? Como eu dizia que o mundo ia acabar." Talvez não seja um processo tão gradual que a gente note. Talvez também seja um processo gradual.
E como o mundo não vai acabar, pelo menos este fim de semana, segunda-feira estás de regresso.
Imagino que sim, esperemos que sim. E tu também, Ricardo. Um grande abraço e bom fim de semana.
Um abraço e bom fim de semana.
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Eu apostei nos espanhóis, mas eu também não ligo assim tanto.
"Adiós mio tío, ¿qué haces? Pase el balón antes que te lo quiten."
Desculpa, estavas a falar de?
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